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In document Visning av Volum 65 (sider 75-82)

Diversas teorias psicológicas têm sido usadas como base na pesquisa qualitativa, sendo a Psicanálise uma das mais fecundas (Batista Pinto, 2004). Dentre suas contribuições para a pesquisa, ela vem fundamentar estudos que visam desvendar a relação entre sujeito, sociedade e suas instituições, bem como as mudanças e os impasses da subjetivação na atualidade. Isso requer a problematização da Psicanálise em extensão ou extramuros – campo iniciado por Freud e por ele denominado de Psicanálise Aplicada. Essa diz respeito à abordagem de questões que envolvem uma prática psicanalítica referente ao sujeito enredado nos fenômenos sociais e políticos, e não estritamente ligado à situação de tratamento psicanalítico (Rosa, 2004). Discute uma escuta orientada mais pela ética da Psicanálise do que pela aplicação de categorias teórico-conceituais.

Assim, é Freud quem primeiro lança a questão da possibilidade de uma Psicanálise em extensão. Contudo, é por intermédio de Lacan que ela é trazida a público (Rosa, 2004). Esse tipo de pesquisa faz uma crítica ao modelo científico tradicional que

preconiza o raciocínio linear entre causa e efeito – sustentado em inferências reducionistas dedutivas e indutivas – acerca do modo de produção dos fenômenos subjetivos e intersubjetivos.

Sabe-se que Freud fez uso recorrente da análise de fenômenos coletivos para compreender processos individuais, com a afirmação de que a psicologia individual é, ao mesmo tempo, social. Ao recusar a divisão indivíduo-sociedade, ele demonstrou as modificações psíquicas que a influência das instituições impõem ao sujeito (Rosa, 2004). No texto “Psicologia de grupo e a análise do eu”, Freud (1921/1976) apontou como as operações psíquicas se processam no bojo dos enunciados sociais, construindo lugares que indicam a qualidade de pertencimento e reconhecimento do sujeito como membro da sociedade. Essas são operações que dependem das formas, condições e estratégias oferecidas por seu grupo de convivência. Freud sinalizou, assim, a importância da análise política do modo de atribuição dos lugares sociais (Rosa, 2004).

Já na década de 60 do século passado, Lacan retomou a discussão sobre a relação entre pesquisa e Psicanálise, ao distinguir a segunda como intensão e extensão. A Psicanálise em intensão refere-se à doutrina; em extensão, aborda a prática e o recenseamento do campo freudiano, o qual inclui a articulação da clínica com ciências afins (Rosa, 2004).

A Psicanálise em extensão contribui para a análise da articulação da subjetividade que se constrói segundo o entrelaçamento com determinados grupos sociais. Dessa forma, inúmeros são os modos como se pode desenvolver uma investigação dos fenômenos sociais, contribuindo para a elucidação de sua eficácia no processo de alienação do sujeito e apontando os laços que possibilitam a sua inclusão como sujeito do desejo. Por via da ética e das concepções da Psicanálise, tem-se como premissa a superação do discurso produzido pela consciência. Trata-se de um campo de saber sustentado pela verdade do sujeito, o que não gera certezas ou generalizações, onde se considera que, na investigação, o pesquisador sofre também os efeitos da descoberta (Rosa, 2004).

Em sua crítica ao modelo científico da Psicologia tradicional de causalidade linear, a Psicanálise se pauta, conforme Singer (2002), numa lógica do paradoxo que possibilita investigar as diferenças e contradições no interior de um sistema, cuidando de sua articulação específica. Nessa lógica, “os contrários não se excluem, tampouco são redutíveis um ao outro” (p. 100). Como o desejo humano é pautado pela falta e pela

ambivalência, o paradoxo nunca termina de poder ser dito e revelado, sendo, por sua vez, o saber que lhe corresponde sempre parcial.

Quanto às discussões e impasses dirigidos a esse tipo de pesquisa, aponta-se a dificuldade levantada pelo próprio método, uma vez que a Psicanálise freudiana não propõe um método ao qual todos os casos possam ser submetidos. O método psicanalítico vai do fenômeno ao conceito. Isso implica a construção de uma metapsicologia não isolada, “fruto da escuta psicanalítica, que não enfatiza ou prioriza a interpretação, a teoria por si só, mas que integra teoria, prática e pesquisa” (Rosa, 2004, p. 341). O uso de entrevistas e a observação dos fenômenos estão em interação com a teoria, produzindo o objeto da pesquisa, não dado a priori, mas construído na e pela transferência.

A transferência se apresenta como instrumento e método não restritos apenas à situação de análise. Rosa (2004) indicou que, se partirmos do princípio de que em outras situações, não estritamente analíticas, o método não se aplica, porque seus fenômenos não resultam da associação livre, estamos considerando que o inconsciente está restrito à prática clínica. Tal concepção despreza o fato de que o inconsciente está presente como determinante nas mais variadas manifestações humanas, culturais e sociais.

Do ponto de vista metodológico, o presente estudo se caracteriza como uma pesquisa-participante (Bairrão, 2005; Iribarry, 2003). Sobre essa metodologia de investigação, é fundamental pensar acerca da interseção entre pesquisa e intervenção em Psicologia Clínica. O compromisso ético com as demandas que possam se constituir no campo de investigação é fundamental para que o sujeito não se torne um mero informante do estudo. É preciso observar suas indicações quanto ao que, como e até onde se deve investigar, tendo em vista o exíguo tempo de contato com o campo, durante sua investigação, que o pesquisador dispõe.

Assim, ainda que como um estudo qualitativo do tipo participante, leva-se aqui em consideração que pesquisa e intervenção não estão em campos distintos na Psicanálise. No caso da pesquisa de fenômenos sociais e institucionais, como no presente estudo, há a reflexão constante sobre o modo de condução das entrevistas, da interação com os participantes do estudo e dos discursos envolvidos. A reflexão envolve a análise das condições de produção do conhecimento a partir da escuta psicanalítica. Essa escuta é, desde Freud, transgressora em relação aos fundamentos da organização social. Para se efetivar, implica um rompimento do laço que evita o confronto entre o

conhecimento da situação social e o saber do outro como um sujeito desejante. Dessa escuta, não se sai isento: um posicionamento ético e político se torna necessário (Rosa, 2004).

5.3 Participantes

5.3.1 Paciente

Como o estudo foi realizado numa instituição de saúde mental, os pacientes que nela realizam tratamento tendem a receber um diagnóstico, segundo o código de doenças vigente no Brasil. Desse modo, levou-se em consideração, para a seleção do paciente, no levantamento realizado nos prontuários, casos já diagnosticados em alguma das categorias da seção “Esquizofrenia, transtornos esquizotípico e delirantes” (F20 – F29) da CID-10 (OMS, 1993). Nos prontuários em que não se encontrou nenhuma hipótese diagnóstica, como o dos pacientes recém-chegados no local do estudo, foi definido ainda como critério de inclusão o registro de, pelo menos, um dos seguintes sintomas: delírio, alucinação, discurso desorganizado (p.ex., freqüente descarrilhamento), comportamento incomum (como riso imotivado) ou catatônico e presença de sintomas negativos (embotamento afetivo, alogia ou abulia).

Nesse levantamento, optou-se somente pelos pacientes que: tiveram, no máximo, três internações em hospital psiquiátrico; estavam em tratamento no regime intensivo; situavam-se na faixa etária entre 18 e 30 anos; residiam com sua família; e, que tivessem concluído pelo menos até a quarta série do Ensino Fundamental. Os critérios de exclusão foram: casos em que houvesse suspeita de comprometimento orgânico (epilepsia, demência, retardo mental, etc.) e/ou quadro psicótico devido ao uso de substância, assim como dificuldades de fala ou audição que não possibilitassem a realização da pesquisa.

No levantamento, foram localizados 103 prontuários, dos quais 46 eram do regime intensivo, 40 do semi-intensivo, 11 do não-intensivo, 03 com registro de abandono do tratamento e 03 de pessoas que compareceram somente na consulta de admissão. Dessas 103 pessoas, 32 apresentaram quadro condizente com a proposta do estudo. Contudo, apenas 04 apresentavam perfil conforme todos os critérios de inclusão estabelecidos. Dos 32 prontuários, 10 eram de pacientes moradores no serviço de residência terapêutica, sendo que 06 apresentaram histórico de abandono familiar9.

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Quanto aos outros quatro, embora profissionais da equipe tenham feito contato de sensibilização com sua família, optaram por permanecer na residência terapêutica.

Os quatro pacientes selecionados, três mulheres e um homem, ingressaram na instituição no início de outubro de 2006. No entanto, apenas dois permaneceram. O paciente do sexo masculino optou por retornar a sua cidade natal e ser atendido em CAPS lá existente; outra paciente foi afastada da instituição pela família, por essa considerar ser seu “problema” de ordem “espiritual” e por insatisfação com as condições de infra-estrutura do local. Foi feito, portanto, contato com as duas pacientes restantes, com as quais foram realizadas entrevistas individuais. Como houve dúvida quanto ao diagnóstico de uma delas, optou-se somente pela paciente Elisa, cuja história de vida, familiar e de inserção no CAPS se denominou como caso-condutor do estudo.

Elisa10 tem 29 anos, é solteira e natural de São Luís. Tem um filho de nove anos. Completou o Ensino Médio. Iniciou cursos de Magistério e de auxiliar de Enfermagem, mas não os concluiu. É da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Trabalhou durante dois breves momentos (aproximadamente um mês em cada um), como professora e como cuidadora de um idoso. Quando ingressou no local do estudo, estava desempregada.

5.3.2 Familiares

Como critério de inclusão para a composição desse grupo de participantes, foram entrevistados somente os familiares adultos que residem com Elisa. Assim, embora tenha cinco irmãos, participaram do estudo apenas os dois que moram junto com ela, bem como seus pais. O filho de Elisa não foi entrevistado. O pai, Joaquim, tem 52 anos e, a mãe, Benedita, 54. Os irmãos Jaime e Carla têm, respectivamente, 23 e 27 anos. Jaime voltou a residir com seus pais e irmãs após separação conjugal.

Benedita e os filhos concluíram o Ensino Médio. Joaquim, na época de realização da pesquisa de campo, estudava à noite para concluir a educação básica. Os quatros são da Igreja Adventista. No que tange ao nível socioeconômico, é uma família de baixa renda. Somente Carla não exerce atividade remunerada. Realiza curso técnico. 5.3.3 Profissionais

Dentre os profissionais que trabalham no local do estudo, foram selecionados para a entrevista somente os que acompanham Elisa diretamente, conforme verificado em seu prontuário, e que fazem, portanto, o registro nesse do andamento de seu caso. Foram entrevistados: um médico-psiquiatra; uma psicóloga; uma terapeuta ocupacional; uma assistente social; uma enfermeira; e uma técnica de

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Ressalta-se que todos os nomes utilizados neste trabalho para a identificação dos participantes são fictícios.

enfermagem. Elisa foi inicialmente acompanhada ainda por uma pedagoga e um fisioterapeuta. Como a primeira solicitou transferência poucos dias após o ingresso de Elisa na instituição, decidiu-se por sua não inserção no presente grupo. O fisioterapeuta esteve ausente da instituição durante a maior parte do tempo de realização da pesquisa empírica, por motivos pessoais.

O psiquiatra tem 62 anos. Exerce sua profissão há quase 30 anos. A técnica de Enfermagem tem 36 anos. Atua na área de Enfermagem há cerca de oito anos. Em relação às outras quatro profissionais, a mais jovem é a enfermeira, com 21 anos. A assistente social e a psicóloga têm 26 e, a terapeuta ocupacional, 25 anos. As quatro profissionais concluíram seus cursos de graduação há dois anos, em média.

O tempo de atuação no CAPS dos seis técnicos, no momento da entrevista, foi de quatro meses à aproximadamente dois anos. O psiquiatra atende à tarde três vezes por semana. Quanto às demais profissionais, algumas trabalham no turno matutino e, outras, no vespertino.

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