Ao se solicitar que comentasse sobre os possíveis eventos que contribuíram para o seu ingresso na instituição, Elisa contou que:
Minha mãe era médium e ela engravidou de mim. Com três dias de nascida, eu tive desmaios, me levaram pros médicos. Os médicos não sabiam o que era que eu tinha, até que meu pai me levou pr’um centro espírita com a minha mãe. Freqüentei casa de umbanda, fiz trabalho, trabalhos no meu corpo. Meu pai gastou assim mais de mil, mil cruzeiro na época. E esse ano ele gastou mais de mil reais pra mim ficar boa. Então, antes d’eu ser adventista, eu... Eu, eu recebia reencarnação de espíritos.
Posteriormente, foi possível analisar como Elisa condensou sua história na fala “minha mãe era médium”. Benedita, sua mãe, também teria participado da umbanda, mas se afastou. Como não mais “manifestava os espíritos”, esses passaram para a filha. Contudo, essa parecia ser uma herança negada, pois Elisa dizia que sua mãe não gostava dela por ter se envolvido com a umbanda.
Acrescentou que, após o desmaio no primeiro mês de nascida, seus pais a levaram a um hospital, mas nada foi diagnosticado. Elisa associa esse desmaio ao fato de aos doze anos apresentar medo de “ficar trancada sozinha” e vir alguém para a “matar”, assim como “alucinação”. Na época, como “manifestava os espíritos”, mas “tomava remédio de médico e não ficava curada”, seus pais a levaram para a casa de umbanda acima citada, na qual permaneceu aproximadamente até os vinte anos. Ficou sob os cuidados do pai-de-santo proprietário da casa. Ele teria lhe dito que:
não tinha jeito pra mim, que ele não podia fazer nada. Então, eu tive que ir pra casa desse senhor, (...) que ele já faleceu, que é o pai do meu filho. Então, ele me tratava muito bem, me tratava como esposa dele, me dava carinho, me dava as coisas. Não me dava muito, mas me dava.
Num local onde foi levada para a realização de tratamento espiritual, gradativamente passou a ser tratada como esposa. Ainda que o tipo de relacionamento entre ela e o pai-de-santo tenha se modificado, não comparece no discurso de Elisa um estranhamento a essa mudança, o que parece estar relacionado em sua compreensão ao fato dele tê-la tratado com um carinho e um cuidado que pareciam / parecem faltar em sua própria casa.
O “não ter jeito” citado por Elisa se refere ao fato de o pai-de-santo ter-lhe dito que era médium. Diante dessa condição diferenciada, só o tratamento espiritual não seria suficiente. Seria necessário que fizesse a “preparação” para ser “mãe-de-santo”, o que lhe permitiria poder receber as divindades em momentos específicos dentro do culto, de forma a ter sobre elas algum controle. Conforme informação fornecida por uma antropóloga da cidade de São Luís, essa preparação leva muitos anos, às vezes, vinte anos, o que não foi o caso de Elisa. É necessário primeiro se tornar filho-de-santo para depois alcançar aquele status.
Dentre os encantados15 que recebia, o da “Menina da Ponta D’Areia” foi o mais citado. Trata-se de uma entidade feminina infantil que, segundo Elisa, não tem uma idade certa, pois é menina e mulher, ao mesmo tempo. Durante a relação em que engravidou, aos 19 anos, disse que estava com esse encantado, assim como o parceiro estava com outro.
Embora tenha o “encantado” da Menina da Ponta D’Areia um sentido dentro do movimento que participou, cabe questionar a vivência de sua sexualidade na adolescência, momento em que dúvidas tendem a ser freqüentes no jovem acerca da perda do corpo infantil e do lugar que passa a ocupar no mundo e para o outro. Como apontou Saggese (2001, p. 101), a “adolescência é para a mulher um momento decisivo, durante o qual deve dar conta do que é o feminino”. Assim, ao mesmo tempo em que Elisa vivencia a experiência de receber um encantado que é menina e mulher, tem que lidar com seus próprios desafios face ao processo de transição da vida infantil para a adulta e, a partir disso, do que é ser mulher.
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Segundo o antropólogo Ferretti (1996), pesquisador de religiões afro-brasileiras em São Luís, esse termo é usado no Maranhão como sinônimo de divindade, caboclo ou invisível.
A própria relação com o pai-de-santo é também algo a ser pensado, tendo em vista que, embora a família-de-santo não se constitua a partir de laços de consangüinidade ou de matrimônio (Ferretti, 1996), era como filha que ela se dirigia a ele. Relata que seus pais ficaram “magoados” após terem conhecimento de que a confiança naquele investida não foi respeitada.
Ao descrever a preparação para “ser mãe-de-santo”, fala do momento em que exercia um controle sobre a experiência (os espíritos) que nela tinha se “materializado”. Essa experiência não é entendida como algo estranho. É retratada como algo da ordem do compreensível, por não ser sentida como uma invasão, sem nenhuma relação com o sujeito que a vivencia. É aceita e justificada pelo grupo em que está inserido. Ainda que haja a percepção de perda de espaço no próprio corpo, trata-se de uma experiência que é consentida.
Além da relação com o pai-de-santo, Elisa teve vários namoros. Ao comparar as relações que teve, comentou: “Eu só me metia em encrenca”. Disse isso em razão de envolvimento com homens casados ou que já tinham namorada. Enquanto falava sobre as relações afetivas que teve, relatou ter sofrido um “estupro” durante uma festa de formatura. Quando solicitada para que falasse sobre essa situação, colocou:
Foi difícil, foi chata, foi difícil. Foi chata. Eu tava com o vestido todo... Nesse tempo, eu dançava mina16. Eu tava com um vestido todo lindo, todo de seda, todo de organza, vestido de organza, parecido vestido de noiva que eu tava vestida. Mas eu tô feliz, Isa, não me interroga mais não. Eu tô feliz. Aparentemente, ao contar sobre o estupro, falava como se estivesse comentando sobre qualquer outro evento ocorrido em sua história de vida. Contudo, quando pede para que não seja mais interrogada, indica o limite que se permite falar sobre o assunto.
Com quinze anos, ingressou na “Igreja Adventista do Sétimo Dia”, mas continuou a freqüentar a casa de umbanda em momentos alternados. Elisa esteve, portanto, em dois espaços de cunho religioso marcados por uma significativa oposição: rejeição ou aceitação de sua relação com os “espíritos”. Relatou ter permanecido na
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Refere-se ao “Tambor de mina”, “nome dado no Maranhão aos cultos de origem africana realizados em casas ou terreiros de mina” (Ferretti, 1996, p. 306), os quais se assemelham aos candomblés da Bahia. Pelo que se pôde inferir, Elisa participou tanto de terreiros de umbanda, quanto de mina.
umbanda até o momento em que sua cabeça “fechou”17, ou seja, em que não poderia mais recebê-los.
Elisa fala sobre o momento em que a etiologia acerca do que vivenciava deixa de ser de ordem espiritual e passa a ser de ordem psiquiátrica. Com a cabeça fechada para os trabalhos da casa de umbanda, percebeu novamente a necessidade de recorrer aos médicos. Essa parece ter sido uma gradativa percepção sua e de suas famílias consangüínea e de santo. Chegou a utilizar, ao mesmo tempo, “remédio” de umbanda e “de médico”, até o momento em que parou de utilizar os medicamentos prescritos pelo segundo e ficou se tratando somente no primeiro local. Como não houve o resultado esperado, retornou para o tratamento médico. Próximo ao final de sua adolescência, foi atendida por um neurologista durante cerca de quatro anos, o qual lhe disse que tinha disritmia.
A disritmia, tem pessoas que têm facilidade de aprender. Tem pessoas que têm dificuldade de aprender. A minha disritmia é a facilidade de aprendizagem. (...) A minha disritmia é de aprendizagem, aprender, aprender, aprender. E tem pessoas que têm disritmia e elas não aprendem. Elas ficam o tempo todo tapada. Não têm movimento, nas pernas, nos braços. Não conseguem fazer nada. E a minha não. A minha é todo tempo ativa, movimento normal. Toda pessoa tem disritmia. Você tem disritmia, só que você não apresenta a doença, mas você tem.
Essa definição proporcionou a Elisa uma explicação para seu “problema”, que tanto a assemelhava a qualquer pessoa em relação à capacidade de ser ativa e estudar, quanto a diferenciava dos que dificilmente teriam tal capacidade, em seu entendimento. Quando a questão passa para o campo médico, o diagnóstico de “disritmia” surge com a diferenciação dos casos graves e não graves. Elisa se coloca no segundo grupo. Após uma crise, o neurologista “fez um elétron e descobriu que precisava de lítio, uma substância que faz com que eu seja uma pessoa ativa”.
Distintos especialistas, diferentes diagnósticos, muitos medicamentos. Nessa peregrinação entre os campos científico, representado pela figura do médico, e religioso, visa-se não apenas resolver o “problema”, mas o colocar em alguma categoria
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Isso acontece quando a pessoa não quer mais participar dos rituais. Para tanto, precisa realizar “trabalhos” orientados pelos pais ou mães-de-santo. Deve ainda ficar prestando “obrigações” aos encantados de outra forma, como ter um local em sua casa dedicado a seu culto, participar de algumas festas, ajudar financeiramente, a fim de que possa manter o vínculo. No caso de Elisa, pôde-se inferir que
que traga um sentido satisfatório. Diversas explicações que convergem ou são negadas, de acordo com o grau de resolução e de sustentação que oferecem para transformar o estranho em algo familiar.
Como o atendimento com o neurologista era particular e não tendo mais sua família condições financeiras, foi encaminhada para o ambulatório de saúde mental municipal de São Luís. No ambulatório, foi atendida por diversos psiquiatras e por um psicólogo durante os quatro anos em que lá realizou tratamento, bem como participou de atendimentos em grupo com terapeuta ocupacional.
Em 2006, ano em que ingressou no CAPS, em razão de um pastor de sua igreja, Jeremias, pelo qual era apaixonada, ter se mudado para São Paulo, teve uma “crise de depressão”. Ele teria ido para uma casa de recuperação nessa cidade, por ter “adulterado com uma moça”. Além da viagem do pastor, a “falta de cuidado” por parte de seus pais, “porque eu já vinha apresentando problemas e eles não davam atenção”, e um “trabalho” feito contra ela por uma vizinha também teriam contribuído para a crise. Descreveu que, cansada de esperar pelo retorno do pastor, tomou uma cartela de Diazepam e “meio litro de detergente” na frente de seus pais. No mês de setembro, seu pai a internou na emergência do hospital psiquiátrico Nina Rodrigues. Quando retornou ao ambulatório após a internação, foi indicado o atendimento no CAPS Municipal.
A partir dessa contextualização de sua história, pode-se perceber como Elisa teve, desde o nascimento, significativas e, por vezes, traumáticas experiências de vida. São histórias como essa que promovem o início e o curso de uma psicose? Sabe-se que não. Não se pode indicar o início de uma psicose como se houvesse uma causa específica e única em sua origem. No entanto, pode-se tecer uma reflexão acerca dos eventos que marcaram os primeiros anos de vida na infância e na adolescência que, de alguma forma, trouxeram implicações para a constituição da subjetividade e de uma possível estruturação psicótica, como as vivências de Elisa na umbanda e em sua dinâmica familiar na época.
Segundo Lacan (2002b), acontece que, quando em condições especiais, as quais não há como precisar, alguma coisa aparece no mundo exterior que não foi primitivamente simbolizada, o sujeito se vê absolutamente desarmado. Por não poder restabelecer de maneira alguma o pacto com o outro, por não poder fazer uma mediação simbólica entre o que é novo e ele próprio, o sujeito entra em outro modo de mediação.
essa manutenção não ocorreu. Os praticantes consideram que se essas tarefas não forem realizadas, a pessoa pode sofrer “castigos” de ordem econômica, social e psíquica, dentre outras.
Desenvolve, então, outro tipo de mediação possível para si com o mundo, mundo esse que tende a ser representado, sobretudo, pela família.
No tópico a seguir, não são aprofundados eventos ocorridos ao longo da história de vida de Elisa em família. Foi privilegiada a dinâmica familiar atual de forma a se analisar dificuldades nela existentes que possivelmente contribuíram para seu ingresso no CAPS, bem como as questões que surgiram após sua inserção na instituição.