Dois pólos clássicos indicativos de paranóia aparecem na fala de Elisa: “idéias de prejuízo e perseguição e idéias de superestimação de si mesmo” (Coriat &
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Pisani, 2001, p. 46). Como já citado, é comum em seu discurso histórias de pessoas que realizam conspirações, como membros de sua família, para prejudicá-la e/ou a seu filho. Mesmo sua mãe que não realiza nenhuma ação nesse sentido, também está contra ela, já que não acredita em sua palavra. É comum ainda em seu discurso descrições em que aparece como a melhor ou a mais negligenciada dentre todos: a filha mais querida de seu pai; a mais mimada por ele e mais rejeitada por sua mãe; a mais inteligente dos filhos (os “irmãos são burros”); a garota mais bonita de seu bairro, quando adolescente. Descrições que indicam que o outro só pode invejá-la, portanto.
Elisa fala de seu incômodo por não estar se sentindo normal. Para ela, gozar de normalidade é poder realizar o que fazem as outras pessoas que não estão em tratamento no CAPS – “minha vida é de casa pra cá, daqui pra casa” – cujo campo social de circulação é muito mais amplo. Não se sente normal por estar doente. Seu objetivo é “viver em sociedade”, o que pode ser lido como um receio de deixar de estar em sociedade e de ter com as instituições e grupos nela existentes os mais diversos vínculos. Questiona, então, se sua doença é “reversível”, o que para ela representa ser igual às outras pessoas. Em seguida, revê essa fala. Quer saber se ficará como antes ou melhor.
Alternando a nomeação do mal-estar que sente como “doença” ou “problema”, indica que além de considerar que o recebeu de sua mãe – por ela ter sido praticante de umbanda – também acredita que é genético. Sobre a segunda possibilidade, mescla em sua explicação o que Pessotti (1999), a partir das idéias de Morel, denominou como teorias da hereditariedade similar ou por metamorfose. Elisa relaciona o que sente tanto ao fato de duas primas de seu pai possuírem o “mesmo problema”, quanto ao de haver casos de mal de Parkinson e de derrame em sua família.
Essa explicação ocorre no momento em que se questiona o porquê de sua “doença” ter ocorrido nela e não, por exemplo, em algum de seus irmãos. Inicialmente, responde que pode ser por causa do destino, depois reformula o que diz: “Eu disse que é do destino, mas não posso nem dizer que é do destino porque Deus não quer doença pra ninguém”. Parece considerar que se é “genético”, não há interferência divina. Fala, portanto, de condições médicas e de experiências que, de alguma forma, foram a ela transmitidas ao longo das gerações.
Contudo, dizer que há uma causa genética ou herdada19 envolvida não é suficiente para Elisa. Dentre as coisas que demanda, inclusive, à pesquisadora, solicita a essa que lhe diga qual diagnóstico considera ela ter. Deseja saber qual classificação médica possui para “saber a possibilidade que eu tenho de sair daqui e poder trabalhar... E fazer com que minha mãe acredite em mim, meu pai acredite em mim, acredite no que eu falo”. Considera que é o diagnóstico o que vai permitir que sua família aceite que há uma verdade em seu discurso. Através dele poderá justificar o que sente e não sabe explicar. Através dele poderá confirmar para si e as pessoas de seu convívio a gravidade do que vivencia. Elas poderão compreender e ser mais solidárias a seu sofrimento.
Elisa reconhece que os diferentes diagnósticos têm diferentes impactos familiares e sociais. Alguns já têm certa aceitação, como a depressão, haja vista a própria banalização do termo na sociedade (Roudinesco, 2000). Outros são rejeitados, como o de esquizofrenia, conforme discutido no tópico sobre a instituição CAPS. É possível que isso a leve a citar a “depressão” como um dos sintomas que sente.
Ao se devolver a questão sobre qual diagnóstico considera ter para que reflita, fala do que os médicos com os quais já se consultou lhe disseram. Parece reunir fragmentos de diversos diagnósticos, para, a partir do modo como pôde assimilar o que lhe foi dito, compor sua explicação sobre o que sente e sua história. No primeiro momento, quando ingressa no CAPS, informa que o psiquiatra que a atendeu lhe deu um diagnóstico de “hiperpilexia”. Observou que não era para confundir com epilepsia. O médico teria lhe dito que era uma “doença pegativa”. Com o tratamento, deixou de ser uma doença que pode transmitir às pessoas, o que restituiu sua possibilidade de contato com o outro. Posteriormente, entende que esse médico considera que tem “um problema de afeto”, diagnóstico com o qual se identifica e assume, tendo em vista o sofrimento que sentia em razão da ausência do pastor.
“A minha (doença) agora é paixão”. Seu diagnóstico muda de algo que exclui para algo que inclui o outro. O médico-psiquiatra teria dito que: “O nome da minha doença é afeto e alguma coisa lá”. Não guarda em que consiste “alguma coisa lá”. Ela se fixa no significante afeto. Pareceu contentar-se com essa explicação. Sua doença tem algo “ligado ao afeto”. Indagou-se o que estaria ligado.
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Sabe-se que nem toda patologia de ordem genética é hereditária. Contudo, como há uma confusão entre essas duas possíveis etiologias nas falas de Elisa, bem como nas de sua família e dos profissionais do CAPS, como se verá adiante, optou-se no texto pelo acatamento ao que foi dito pelos participantes, com a conseqüente discussão sobre os significados por eles associados.
Falta de carinho da minha mãe, né? Um principal afeto, falta de carinho dela. E (...) todo mundo aqui fica triste, quando eu fico triste. (...) Quando eu fico alegre, todo mundo fica alegre, os colegas... Isso aí já é a parte do afeto, porque se eu chego triste aqui, eu vou ficar... Eu vou ficar afetando eles também, não é?
Elisa fala de várias questões relacionadas ao afeto que a adoecem, como ser obrigada a fazer algo que não quer fazer, a exemplo de sua mãe que a obriga a ir ao CAPS, ou de alguém que diz que com ela vai namorar, mas não o faz, como Jeremias. É como se considerasse não possuir imunidade alguma diante do outro.
Não considera o “afeto”, de fato, uma doença, embora o chame assim. Ao dizer que sua doença é “afeto e alguma coisa mais” cria para si um diagnóstico que tenha algo de si, algo de humano, pois uma classificação alfanumérica lhe diz pouco ou nada sobre o que identifica como a origem de seu sofrimento. Logo, sente-se afetada pela falta de carinho de sua mãe, assim como sente que Jeremias foi uma das pessoas que mais atingiu seu afeto. Entre a falta de afeto materno e o pensamento de que alguém afeta seu afeto, Elisa parece estar falando de sua disposição afetiva para estar no mundo e por esse se deixar afetar, o que indica através do delírio. Recorre a uma fala do neurologista que a atendeu em sua adolescência: “Cada tempo, a doença vai se apresentando de uma outra maneira, de uma outra forma”.
Conclui que, desta vez, a doença “evoluiu pelo afeto” e que quem mais o atingiu foi Jeremias. Identifica que o afeto está ligado tanto à falta de investimento do outro em si, quanto à sua capacidade de afetar os demais. Como está rodeada do “sentimento” de afeto no CAPS, começa a perceber melhoras em si, como inclusive realizar uma autocrítica acerca de ideação suicida dita no início de sua participação na instituição e na entrevista. Sente que sua melhora agora está acelerada em comparação a outros momentos de sua vida, o que relaciona ao Centro de Atenção e ao retorno do uso do medicamento. O segundo não parece ser considerado como uma parte de um todo maior do tratamento que é oferecido pela instituição.
Acrescenta que se deixar de tomar os remédios indicados, a doença vai só evoluindo e se mostrando diferente em cada época de sua vida. Os nomes da doença mudam, mas algo continua. Algo que tem a ver com sua história e com o seu modo de estar com o outro que permanece. Por que permanece? Provavelmente, por falar de uma questão cujo significado, por ser muito caro a Elisa, ela precisa repetir, o que comparece em seu delírio.
O neurologista que a atendeu em sua adolescência teria dito ainda que, para uma doença como a dela, a solução é: nada de emoções fortes e a não interrupção do uso do medicamento. A primeira orientação implica evitar qualquer ação que possa prejudicar seu bem-estar, como namorar, amar. Elisa sabe que o tipo de tratamento que realiza não possui previsão de término. Trata-se, portanto, de uma orientação impossível. Não se pode estar no mundo sem duas questões inerentes à condição humana: prazer e sofrimento psíquicos. Como sua doença está ligada ao afeto, percebe que algo sempre retorna mesmo que não interrompa o uso da medicação. O remédio alivia os sintomas, mas não elimina o sofrimento que os produziu.
Como relata que Jeremias retornou, questiona o que deverá fazer, já que ele a pediu em casamento. Está realizando duas ações contrárias: namora e está em tratamento. Conclui que, como está “tomando remédio”, conseguiu seguir, pelo menos, uma das orientações. Ao ser interrogada sobre se poderia ter uma outra crise, respondeu que isso só aconteceria se ele a deixasse. Indica que “cada fase da minha vida é uma coisa diferente”. Reconhece que nenhum momento é igual ao outro, porque o sujeito que os vivencia não é o mesmo de outrora.
Como já discutido no tópico anterior, diante da experiência de desmoronamento psicótico é através do delírio que Elisa desenvolve uma tentativa de ligação com sua família, profissionais e pacientes do Centro de Atenção. Quando informa que ela e Jeremias se tornaram amigos parece ter encontrado na ressignificação de seu delírio, no apoio familiar e na instituição um ponto de sustentação na realidade. Nesse processo, identifica o CAPS como um outro lugar para si, ainda que por vezes oscile seu desejo de estar ali. Que bom que oscila.
Ao assimilar a rotina da instituição, por vezes, fornecia praticamente um relatório médico, no início dos encontros, para falar como se sente de acordo com seu interesse por atividades da vida diária: comer, dormir, tomar banho (e quando). A avaliação que faz acerca de seu bem-estar se torna pautada por esses parâmetros. Afinal, se é isso que lhe perguntam na instituição, é isso que aprende a responder sobre si. A auto-avaliação fala de uma sintomatização das atividades da vida diária – se as realiza ou não, como e quantas vezes realiza, etc.
Em sua identificação com os profissionais, pensa em realizar o curso de Terapia Ocupacional. Quer “ser terapeuta pra mexer com a cabeça das pessoas”. Pode- se pensar o verbo mexer tanto no sentido de movimentar, provocar um deslocamento, quanto de bulir, importunar. Diferentes ações presentes na possibilidade de mexer com
a cabeça dos pacientes. Em todas, há o reconhecimento de que, quer a equipe exerça um poder benéfico ou incômodo, algum efeito é produzido.
Ao longo dos encontros para a conclusão da entrevista com Elisa, comumente ela repetia não saber que tipo de tratamento é feito no CAPS. Conquanto percebesse um resultado em si, desconhecia o processo através do qual esse foi adquirido. Isso possivelmente se deve, dentre outras questões, a uma dificuldade de diferenciação – conforme inferido do discurso de Elisa e de outros pacientes – acerca das atribuições específicas relacionadas a cada profissional que compõe a equipe, bem como de suas atribuições em comum. A atividade de prescrição do medicamento pelo médico parecia ser a mais conhecida. Ela também associou esse profissional à atribuição de fornecimento da alta. Relacionou, igualmente, o assistente social à ação de conceder a alta. Sua concepção sobre esses dois técnicos foi modificada quando, ao solicitar a conclusão do tratamento, é-lhe dito que a equipe precisará conversar com sua família.
Em relação a profissionais como o psicólogo e o terapeuta ocupacional, como ambos no local investigado trabalham com grupos, realizando técnicas de interação – Elisa associa a eles essa atribuição, sobretudo ao segundo. Fala de técnicas grupais que lhe foram tão significativas que pensa inclusive em empregá-las com seu filho. Espera que as “virtudes” que nela se desenvolveram também passem para ele.
Sabe que o psicólogo realiza atendimento individual por já ter passado por essa modalidade de intervenção na instituição anterior, onde fazia tratamento. Esse é um dos pontos recorrentes em sua fala ao comparar as duas instituições. Como esse serviço não acontecia consigo no Centro de Atenção, chegou a demandar à entrevistadora que, concluída a pesquisa de campo, deixasse de ser a “psicóloga-entrevistadora” e passasse a ser apenas sua psicóloga.
É possível que Elisa tenha reconhecido os encontros destinados à realização da entrevista como um espaço em que pôde falar sobre Jeremias sem reservas, ao contrário de sua casa. Sua fala sinalizou uma demanda de ser escutada e assessorada em seu processo de construção de sentidos, que possibilite uma outra via para o escoamento de seu desejo. Esse é um trabalho que implica escutar o que o paciente diz, como diz e além do que diz a fim de que o delírio não se restrinja a um indicativo de melhora ou piora para a família e a equipe do CAPS.