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Hva slags menneskerettigheter vokste fram i Chiapas?

In document Visning av Volum 65 (sider 122-132)

Toda a construção delirante de Elisa, na época da entrevista, pauta-se no desejo do retorno de um pastor de sua igreja, Jeremias. Com o retorno, acredita que terá com ele a relação que nunca teve – tocar, namorar, casar. Nessa expectativa, fica em dúvida sobre seu estado civil.

Solteira, quer dizer, solteira agora, mas em todo caso eu to acreditando que somos casados, eu e ele. Ele, em São Paulo, e, eu, aqui. Nós somos casados por essa chamada de áurea que a gente faz assim, ó. A menina (da igreja) faz a abertura. Aí, ela faz um movimento. Eu levanto a cabeça e... olho pro Céu. Danço. Faço um movimento com a cabeça, movimento que ele quer. E ele responde através da áurea de outra menina. (...) Então, meu estado civil hoje, ou eu tô noiva, ou eu tô casada com ele.

Elisa se ressente de uma enfermeira do CAPS que tentou matá-la, ao não lhe dar a medicação “correta”, por ter ficado “a fim” do Jeremias. Ela deseja ser uma esposa de pastor. Sabe-se que, como um mentor espiritual, cabe ao pastor guiar e doutrinar os membros da igreja. Essa função se assemelha ao do pai-de-santo na umbanda. São figuras religiosas que trazem a reflexão de como foi e é para Elisa a possibilidade de ser a mulher de um pai cuja autoridade é divinamente sancionada.

Ao se pensar o delírio como uma tentativa de cura, do envolvimento com um pai-de-santo à expectativa de envolvimento com um pastor de sua igreja, Elisa parece escolher figuras que representam a lei que lhe falta, característica da psicose. Em ambas as relações, permanece sua tentativa de suplência do Nome-do-Pai e mesmo de ter um pai, o qual no discurso de Elisa aparece retratado como alguém que, como não teve condições de lhe prover o suporte necessário, a entregou para um outro pai. Ao ter um

filho de um pai-de-santo, um filho-de-santo, obtém um reconhecimento até o momento em que sua “cabeça” fecha e sai da casa de umbanda. Quando se afasta, no entanto, recusa o que é a esse local associado, como a possibilidade de que o filho siga o mesmo destino do pai, pelo fato de também ser médium.

Já na igreja Adventista e na expectativa de dar um destino para seu filho que não seja o que lhe foi dado por sua mãe, identifica outra figura cuja autoridade lhe é significativa, um pastor. Faz todo tempo “apelo” para que possa se comunicar com ele, demandando inclusive o auxílio da pesquisadora. Quer uma comunicação “concreta”, pois a que tem com ele pela “tubulação” de sua igreja não lhe satisfaz. Diz que em sua casa tudo é do Jeremias, ao que se questionou: “Se tudo é dele, o que é seu na sua casa?”. Chega a responder “minha cama”, mas depois se corrige: “a minha cama é minha e dele”. Como objeto de amor do Outro, tudo lhe pode ser por esse expropriado. Deposita as decisões sobre o seu futuro na expectativa de enlace com o pastor.

Porque se eu não encontrar ele, vou ter que casar com outra pessoa. Eu tenho duas opções. Eu sou sincera. Ou tomo o remédio, tomo a medicação na veia pra falecer de verdade ou, então, arrumo uma pessoa pra mim casar e ter minha família.

Essa é uma fala delicada, a qual sinaliza um desejo de morte que requer uma escuta atenta e sistemática, haja vista ser comum na vivência psicótica a tentativa de suicídio como forma do sujeito escapar do modo pelo qual se sente tratado pelo Outro. Por outro lado, Elisa também reconhece a possibilidade de continuar a viver a partir de um novo amor, o que requer a compreensão da morte a que se refere. Nas alternativas presentes em seu discurso, o delírio assinala que a ruptura com a realidade nunca é completa na psicose. A expectativa que estabelece em relação ao pastor não impede a busca de uma relação concreta, caso aquela não tenha o desfecho esperado.

Contou ter já recebido proposta de namoro de uns três pacientes. Namorou um deles. Assim, se quando chega no CAPS tem uma doença “pegativa”, indica que para “ficar boa”, precisa “beijar na boca” e “praticar sexo”, conforme teria lhe orientado o psiquiatra que a atende. Precisa realizar tais ações para “melhorar”, ainda que considere que isso só vai acontecer de fato com o retorno do pastor.

Elisa diz que de todas as crises que já teve antes, a atual é a mais difícil, pois ninguém compreende o que fala. Não pode falar em sua casa sobre Jeremias, porque sua mãe não gosta dele. Sente que não só não pode falar sobre o seu sofrimento, como, ainda que tente, não consegue se fazer compreender. Sentindo-se sozinha, em seu

delírio identificava um apoio: “Eu preciso (...) dele ficar perto de mim toda hora. Não me vigiar, mas ficar perto de mim conversando comigo”. Embora o delírio seja uma tentativa de restabelecimento do laço social, Elisa também fala de sua contrapartida: a exclusividade da relação delirante interfere na possibilidade de haver outras relações sustentadas na realidade.

No discurso de Elisa comparecia constantemente a espera do retorno de Jeremias, embora a expectativa parecesse diminuir em alguns momentos. No final de 2006, informou à pesquisadora ter ele retornado. Pouco tempo depois, teria partido dele a “decisão” de se casarem. Começou a planejar a cerimônia e a escolher quais funcionários e pacientes do CAPS convidaria. Ele lhe teria dito que queria ser seu “responsável” junto à instituição e já pretendia solicitar sua alta, pois já estava “ótima”. Elisa informou, inclusive, ter já ela pedido sua alta à equipe técnica, que não concordou por considerar precoce sua saída.

Sabe-se que, dentre outras definições, “responsável” é alguém que responde pelos atos de outro. Na reflexão sobre o tratamento que há, na instituição investigada, ao paciente psicótico, cabe considerar como ele se apropria de um termo que tem tal significado. Como no delírio o objeto “está carregado com aquilo de que o sujeito se descarrega” (Safouan, 1991, p. 218), a forma como Elisa fala de si e sobre o que deseja para a instituição parece ser através do propósito de tornar o pastor seu “responsável”. Essa parece ser a alternativa que desenvolve para ter um controle sobre o tempo e o rumo do tratamento.

Em outros momentos, Elisa falava sobre a proposta de namoro feita a ela por um outro paciente do CAPS. Através de diálogos com funcionários da instituição, soube-se que iniciou namoro com essa pessoa. No entanto, nos encontros com a pesquisadora, Elisa repetia que ia se casar em breve com Jeremias. Pôde-se concluir que, afinal, é como se tivesse feito uma escolha. Remanejou sua construção delirante para outra pessoa, a qual continuou a chamar de Jeremias. Parecia, com isso, ter conferido um sentido à experiência de desmoronamento que sentia, bem como identificado uma forma de vínculo possível com o outro (Coriat & Pisani, 2001).

Contudo, o delírio, “mesmo que pareça estabilizar-se numa construção precisa e complexa, continua a ser uma construção imaginária, de equilíbrio precário” (Coriat & Pisani, 2001, p. 62), pois tem sempre que sustentar uma certeza. Na expectativa de um enlace, Elisa não via mais motivos para permanecer na instituição. No mês de março de 2007, ela solicita novamente sua alta. Justifica que, como sua mãe

lhe disse que não tinha ninguém durante o dia para cuidar do seu filho, precisa ficar em casa. Como o pedido é novamente recusado pela equipe, relatou ter falado de forma agressiva com alguns funcionários. Disse-lhes, ainda, não querer mais o tratamento, o que acarretou sua “alta por abandono”.

O uso do termo abandono na citada situação chama a atenção. No caso de Elisa, não querer mais o tratamento não implica seu abandono. É preciso analisar as repercussões desse significante para ela, sua família e os profissionais, de modo a que não seja a instituição quem estará, de fato, abandonando. Dentre outras definições, abandono implica em desamparo. É necessário, assim, entender a que sua fala, “não quero mais”, está relacionada, ou seja, como tenta tornar sua família e os profissionais cientes de seu sofrimento com uma demanda para que algo seja feito.

Elisa ficou cerca de vinte dias ausente do CAPS. Nesse intervalo, relatou ter sido agredida por seu pai “sem motivo” e que o denunciou à Delegacia Especial da Mulher. Sua família teria entendido que a “delegada” disse que a casa em que residem deveria ficar com ela. Seus pais cogitaram a possibilidade de Elisa morar sozinha. Eles, os demais filhos e o neto iriam para outra residência.

Através do respaldo de um representante da lei, Elisa parece ter reconquistado uma voz em sua família. A oportunidade de morar só foi percebida como um ganho por ser algo almejado desde a adolescência. Como seu pai se desculpou, garantindo que não mais a agrediria, retirou a queixa. Disse que ele se tornou mais paciente depois desse evento. Elisa resolveu, então, que continuaria a morar com sua família. Aparentemente, diante da mudança de comportamento de seu pai, parece ter dado a si e a sua família uma oportunidade para que possam encontrar juntos antigas e novas formas de convivência.

Na tentativa de promover seu retorno ao Centro de Atenção, foi realizada uma visita domiciliar por uma assistente social e uma psicóloga18 da instituição, na qual a pesquisadora esteve presente. Destaca-se que, nesse período, tendo concluído a realização da pesquisa de campo e encontrando-se já em processo de transcrição do material gravado, a pesquisadora estava afastada da instituição. Ao ser informada, entrou em contato com os profissionais do turno matutino, responsáveis pelo caso, a fim de obter mais informações e contribuir no que fosse possível. No encontro ocorrido, ficou acertada a visita domiciliar – com a solicitação à pesquisadora para que dela participasse.

Apesar de a visita ter sido previamente agendada, Elisa não estava em casa. Ao tomar conhecimento, ficou contente, pois suas “orações” foram atendidas. Durante sua ausência, disse ter refletido muito e chegado à conclusão de que: “o meu melhor lugar é aqui (no CAPS), porque são pessoas (os profissionais) que se dedicam a trabalhar pra dar a saúde da gente. (...) que se botam de verdade pra fazer a obra de Deus”. Após seu retorno, disse ter preferido terminar o namoro com Jeremias. Justificou que como ele também tem “problema psicológico”, a relação entre os dois “não daria certo”. Considerou melhor tê-lo como “amigo”. Chegou à conclusão de que não são todos os tipos de relação que adoecem. Amizades não adoecem, assimila, mas a relação “homem-mulher” sim. Na mesma época, soube-se do término do namoro com o paciente da instituição.

Elisa parece ter considerado que os profissionais do CAPS não lhe proporcionaram a sustentação necessária à experiência de desmoronamento psicótico que sentia. Quando soube do engajamento deles, é como se tivesse voltado a identificar a instituição como um possível ponto de apoio para si. Com o reconhecimento de se encontrar em crise, quando sente que os recursos que tinha até então não são mais suficientes para dar um sentido à experiência de desmoronamento, o retorno ao CAPS é identificado como uma possibilidade de suplência ao retorno daquilo que, embora seja seu, rejeita. Desse modo, a partir da transferência que estabeleceu com a instituição é possível que tenha encontrado um ponto de sustentação para o descarrilhamento psicótico e de oxigenação dos laços familiares.

Ao não passar do pensamento ao ato, consegue estabelecer algum limite para não revidar contra quem acredita ter lhe prejudicado – como o noivo da irmã – e para questionar a ideação suicida apresentada ao ingressar na instituição. É por que voltou a tomar medicamento no CAPS que não fez isso? Ou por que nele encontrou um espaço no qual identificou uma função continente? Ambas as opções não são excludentes. Falam de duas formas que o sujeito reconhece como uma mediação a seu desejo. Falam, ainda, conforme ilustra o período que Elisa esteve ausente da instituição, sobre o trabalho que o sujeito realiza para alcançar uma estabilização da psicose.

In document Visning av Volum 65 (sider 122-132)