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In document Visning av Volum 65 (sider 142-146)

Conforme Benedita e Joaquim, após o ingresso de Elisa no CAPS, houve uma evidente melhora em sua interação com a família.

Ela falava essas coisas bobas, que ela ia embora, que ela ia arrumar as coisas dela, que ela ia se embora. Eu digo: “Pra onde que tu vai?”. Que ela vai vender, ela ia vender a cama dela, ela ia dar esse filho dela e que ela... não sabia o que quê ela ia fazer da vida dela. (...) Que a gente não gostava dela, que ninguém gostava dela, só a avó dela que gostava dela. É assim. Então, quer dizer, isso aí ela já deixou mais de falar essas coisas, né? (Benedita). Que antes... ela não se comunicava. Ficou um período aí (...) sem tá se comunicando. Se chegasse, de repente, uma pessoa estranha, não pessoas da casa, que morasse dentro da casa, se fosse conversar com ela, ela conversava normal. Dizia que tava tudo bem. Mas, com nós, de casa, era todo tempo calada. A gente perguntava alguma coisa, ela ficava alterada (Joaquim). Como discutido no capítulo anterior, para Elisa, seus familiares eram vistos como perseguidores. Ela pode ter elegido a família como um dos principais elementos de seu sistema delirante em razão não apenas do maior tempo de convivência com seus pais e irmãos, mas também, em decorrência, da quantidade e qualidade de conflitos

surgidos na história de vida em comum. É possível que falasse com pessoas estranhas pelo fato de não ter nenhuma relação com elas e delas não terem nenhuma concepção prévia ou expectativa a seu respeito.

Pro estado que ela estava, ela melhorou muito. Pro estado que ela tava de não querer comer, de não querer dormir, de não querer tomar banho e ficar todo tempo em pé melhorou demais, porque ela já dorme. Eu já não tenho mais tanto medo, como eu tinha antes, entendeu? (...) Já pensei até em chegar a ponto de dormir e não acordar (Carla).

Situações como inapetência, insônia, “problemas de ficar ouvindo voz, de ver, de agredir” foram controlados. No entanto, para Carla, Elisa não mudou o que a família precisa sempre lidar: a personalidade. Seu “temperamento” permanece igual.

Olha, pra te ser sincera, ela tá... Antes dela ter entrado nessa crise, ela já era... (...) Ela era desse jeito, entendeu? Então, quando ela entrou na crise, ela tinha mudado e agora ela voltou novamente ao estado que ela tava, que ela era antes de ter esse problema (irmã).

A personalidade, aquilo que desagrada, voltou a ser como era antes. O que modificou foram os sintomas de superfície. Para a irmã, o que Elisa está vivenciando não é simplesmente uma fase, é o seu modo de ser, o qual: “continua do mesmo jeito, o comportamento dela, agressiva, saliente. Eu achava que isso fosse do problema, mas não é não. O problema em si, digamos que tá controlado”. Carla esperava que o comportamento de Elisa fosse se modificar a partir da “convivência” que teria no CAPS. A interação com pessoas educadas poderia modificá-la, o que não ocorreu. Parece considerar que a convivência com outras pessoas não afeta sua irmã, como se ela fosse imune a qualquer influência. Logo, não é que Elisa não mude a partir do convívio com pessoas que não pertencem ao seu contexto familiar. A transformação que ocorre provavelmente não é percebida por Carla haja vista não se referir ao que ela deseja.

Benedita, em contrapartida, observa que Elisa está mais “esperta”, conseguindo realizar alguns cuidados em relação ao filho, bem como atividades referentes à higiene pessoal e diárias da rotina doméstica, desde que ingressou no CAPS, sem que, para isso, precise ser estimulada. Contudo, apesar da melhora percebida, diz que ela e Joaquim preferem lhe “poupar” da realização de muitas tarefas cotidianas, independente de seu estado. Esclarece que prefere as executar em seu lugar, como forma de economizar os materiais domésticos. Há, aí, aparentemente, um reforço a que Elisa se coloque no lugar de objeto. Contudo, nada numa interação entre psicose e

família é tão simples. Os pais tentam incentivá-la a participar da rotina doméstica, mas sem saber até onde podem ir e como deve ser esse estímulo. Benedita relata que Carla também se queixa do modo como Elisa realiza as atividades domésticas. Essa parece ser vista, assim, como alguém cujo comportamento é sempre visto com cautela.

Benedita fala que, por vezes, cogita em não realizar atividades que cabem a Elisa, diante da ingratidão que ela demonstra, mas não faz isso. Nesses momentos, os outros filhos lhe cobram que seja firme em suas decisões. “(...) eles acham que eu não era pra fazer as coisas pra ela assim, né, como eu faço. Mas se eu não fizer, quem que vai fazer?”. Essa situação contribui para que Benedita se sinta dividida, haja vista que prover algum cuidado a Elisa pode implicar o afastamento dos demais filhos.

Diante das dificuldades apresentadas por Elisa, torna-se, para sua mãe, pouco provável agir de forma diferente. Com isso, na dinâmica familiar, enquanto um filho não se sente reconhecido (Carla), o outro (Elisa) sente que não há o que reconhecer. No segundo caso, há uma ausência de compreensão de que, como o sujeito na psicose vê o outro como um doador, tende a esperar que esse sempre lhe forneça algo e de qualquer modo.

Como já mencionado, a relação de Elisa com suas mãe e irmã é bastante delicada. No entanto, para Benedita, a relação com a filha mais velha melhorou depois que ela ingressou no CAPS:

Antigamente, não era bem (...). Ela era desobediente comigo. Mas, hoje, não. Hoje, a relação de nós duas tá mais, mais calma, né? Ela já senta, já conversa. (...) Eu já digo as coisas pra ela, já entende, ela já num discorda, né? Antigamente, não. Ela num... não aceitava muito o que eu dizia pra ela. Pode-se perceber que, para Benedita, a melhora na relação se encontra pautada na mudança de comportamento de Elisa em relação a sua autoridade. Ser desobediente é um possível sinal de agravo. Obedecer é o contrário. Pode-se considerar que o sinal que Benedita considera como indício psicopatológico se refere à própria história da interação entre as duas, em que o processo de questionamento de Elisa no que tange à autoridade materna parece sempre ter sido visto como afronta. Numa família em que o significante obedecer tem um significado tão demarcado, ações como as de Elisa adquirem um peso maior. A tentativa de realização de um processo de individuação pela filha mais velha parece ser pouco levada em questão.

Recentemente, agora, ele (Joaquim) falou pra minha mãe... Porque já que ela tá fazendo tratamento aqui, ela disse que ela não vinha mais pra cá. (...) A

minha mãe disse que ela vinha. E ele não tá nem pensando, primeiramente, no tratamento dela. (...) Já tá pensando em trabalhar. Ela já fala em trabalhar. Aí, ele deu um dinheiro pra ir tirar xerox, de mandar fazer currículo. (...) E a minha mãe falou pra ele. E ele foi contra a minha mãe. Aí, minha mãe pegou e disse que não ia mais falar nadinha. Só que quando ela entrasse novamente em crise, ele ia ficar com ela, porque ela ia embora (irmã).

Carla parece perceber o apoio paterno como um boicote ao tratamento. Em sua fala, aponta como os pais têm formas aparentemente opostas em contribuir para o bem-estar de Elisa. Carla parece considerar que Joaquim nega a gravidade do caso. Ela destaca que a irmã precisa primeiro se tratar para poder depois trabalhar. Contudo, diante da caracterização que faz de Elisa, alguém que nunca teve a iniciativa de “correr atrás”, quais são seus critérios e dos outros familiares para a identificação desse momento? Assim, embora todos almejem sua melhora, todos também têm expectativas próprias em relação ao que ela será capaz de realizar posteriormente.

Para o pai, o distanciamento da família em relação a Elisa é recente. Começou após o episódio que motivou seu ingresso no CAPS. Para os demais, é uma história de longa data. Os familiares apontam que a iniciativa para a ocorrência de diálogo parte, em geral, de Elisa. Os pais e Jaime alegam falta de tempo para isso. Sua disponibilidade de horário teria ficado mais restrita ainda depois que ingressou no CAPS, por ela permanecer praticamente o dia inteiro na instituição. Carla é mais direta: não tem interesse.

A dinâmica familiar de Elisa evidencia que, para que os familiares se sintam mobilizados em estabelecer uma relação mais próxima com o membro com quadro psicótico, é preciso acreditar não apenas que há um sujeito para além da doença. É necessário considerar que há algum sentido em tentar resolver os conflitos específicos e comuns nas interações que cada um tem com ela. Logo, não é a instituição de saúde que vai possibilitar uma melhora na relação familiar por si só. Para tanto, é necessário que pais e filhos também considerem que os sintomas apresentados por Elisa têm tanto influência sobre, quanto sofrem influência dos sintomas específicos de cada membro e intersubjetivos da família. Essa consideração talvez os auxilie a reconhecer o CAPS como um lugar que possui outras atribuições tão ou mais importantes que a de ser um local no qual Elisa passa seu dia.

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