Elisa é a mais velha de seis filhos. Em sua infância e adolescência, alternou períodos na casa de seus pais e na casa da avó paterna, a qual queria tê-la criado. Segundo Elisa, seu pai recusou, mas sua mãe não se importou com tal possibilidade. Aos quatorze anos, morou durante um ano com sua avó materna, residente no interior do Maranhão, por sua mãe não aceitar seu namoro com um rapaz seis anos mais velho que ela.
Elisa não soube precisar, mas considera ter nascido um ano depois que seus pais se casaram. Descreveu Joaquim como brigão e namorador, antes de ingressar na Igreja Adventista. Benedita teria “quase” apresentado uma depressão por causa disso. Seu pai teria batido em sua mãe quando Elisa era criança: “Ele quis matar ela”.
Diz se sentir melhor na casa de sua avó paterna, mesmo tendo essa já falecido, do que na sua própria, onde é “discriminada”, especialmente, por sua mãe. Ao descrever o porquê de não gostar de sua casa, diz que o chão dessa é sujo por ter “coisas de mina”. Acrescenta que seu pai, irmã, irmão e vizinhos são envolvidos com “mina” e, por isso, querem prejudicá-la e/ou a seu filho. Sua mãe é a única que não tem tal envolvimento, mas ela não acredita no que Elisa diz acerca das perseguições que sofre.
Questionou-se o que a leva a considerar que sua mãe não acredita no que relata. Repete que Benedita não queria dela ter engravidado. Se não há o desejo de ter um filho, conclui que isso justifica o fato de não haver um investimento materno no que fala e nas ações que realiza. Exemplifica que, quando chega em casa, depois de passar o dia no CAPS, é recebida com ignorância por sua mãe.
Caracteriza sua casa como grande, mas reduzida e apertada. Elisa a compara com o CAPS. Enquanto nesse há espaço para se soltar, não pode fazer o mesmo em sua residência. Parece indicar que não são as dimensões de sua casa que são reduzidas, mas sua liberdade nela. Não é a casa que aperta, mas a rigidez e a frieza por parte de alguns membros na relação que com ela estabelecem.
Dentre os fatores que relaciona ao seu ingresso no CAPS, Elisa fala que seu pai foi o “grande contribuidor pra isso”. Ele ficou “atordoado” pelo envolvimento com uma mulher que “mexia com mina”, o que o levou a interná-la no serviço de emergência psiquiátrica do Hospital Nina Rodrigues. Apesar de considerar ter Joaquim atentado contra ela e seu filho, Elisa diz tê-lo perdoado e o libertado dos espíritos através de oração. Ele se tornou, então, “um outro pai, um novo pai, (...) o pai que tinha antigamente”. O pai novo é o pai de antes, que, mesmo a tendo levado para outras casas (da avó, de umbanda), sempre a tratou como a filha preferida.
Quanto à relação com seu filho, descreve-se como uma “ótima mãe”. Contudo, relata que ele não a obedece mais depois que ela ficou doente. Está parecido com Benedita, ou seja, não confere crédito ao que diz. Há muitos momentos em que ele não a respeita como mãe. Pelo que relata, é possível que não confira a ela esse papel diante do que escuta na dinâmica familiar, o que contribui para que indague à equipe e durante a entrevista o que precisa fazer para cuidar do filho, mesmo “estando com esse problema”. Não deseja ter em sua relação com ele dificuldades como as que tem com outros membros de sua família. Se, atualmente, Elisa considera ter uma “ótima” relação com o filho, comenta que não havia o desejo de ser mãe quando soube que estava grávida. Teria rejeitado a criança em razão de um “encantado” que recebia na época, divindade que também lhe foi transmitida por sua mãe.
Ela (sua mãe) recebia uma Pomba Gira (...). Ela era só pra matar. Entendeu? Só que a minha mãe nunca aceitou ela. Aí, ela começou a judiar comigo, esse espírito. Na minha gravidez do meu filho, ela fez eu pegar os cartões de baby-chá e jogar tudinho fora, porque ela queria, esse espírito, queria que eu jogasse meu filho fora.
É preciso considerar seu estado durante a gestação e o modo como pôde construir um vínculo com seu filho a partir disso. Parece ter sido através da figura do encantado que conseguiu lidar com a rejeição de um corpo em seu corpo ao não considerar a rejeição ao filho como sua, mas vinda de algo que lhe era externo.
Dentre as dificuldades presentes em sua dinâmica familiar, Elisa destaca, sobretudo, as que tem na relação com sua mãe e irmã. Em relação a Benedita, diz que essa não tem consigo o mesmo carinho e paciência que tem com seus irmãos. Em sua dificuldade de se desprender do outro, parece não reconhecer que Benedita tem outros desejos, além do desejo de ser sua mãe, nem a compreender que essa, como um ser que tem a sua própria falta, não pode realizar tudo.
Isso remete ao que Aulagnier (1991) indicou sobre a relação entre o psicótico e sua mãe. Já na gravidez, “o que é narcisicamente investido no nível do embrião é o significante onipotência materna” (p. 60). Tudo o que no corpo da criança lembra a contribuição paterna é negado. Como indicou essa autora, “a foraclusão do nome do pai tem aqui o seu ponto de origem” (p. 61). Nessa relação que se estabelece entre mãe e filho, constitui-se para o segundo a dificuldade de se ver como um sujeito. Ao se colocar na posição de objeto, demanda ao outro respostas para a condução de sua vida. Provavelmente, isso contribui para que considere que Benedita só será uma boa mãe, ou melhor, como ela quer, se lhe der o cuidado que demanda. É uma dedução que lhe traz as mais diversas dificuldades em assumir o que lhe cabe na relação com sua mãe e como mãe – conforme será discutido no capítulo referente à análise das entrevistas realizadas com sua família.
Quando discorre ainda sobre como gostaria de ser tratada, Elisa afirma que se sua avó paterna e o pai de seu filho estivessem vivos, não estaria no CAPS. Como cuidariam dela, não a deixariam adoecer. Nessa lógica que constrói, parece considerar que como sua mãe não quer dela cuidar, transfere o cuidado para a instituição. Mas, como não reconhece o Centro de Atenção como um lugar de cuidados, quando nele ingressa, considera que sua mãe lá a colocou apenas para dela “se livrar”, pois “desde quando ela me botou aqui, ela nunca veio falar com nenhum médico. Ela só me deixa no portão e vai embora”. Sente que é entregue à instituição, sem que se questione seu desejo de estar ali. O CAPS se torna, assim, para ela, um lugar em que tem de ficar por não poder permanecer em casa durante o dia.
Parece identificar o Centro de Atenção como um local em que os familiares colocam os membros indesejáveis, cuja voz não tem crédito na dinâmica familiar. Sobre essa instituição, Elisa diz que: “Tudo o que eu falo pra ela (sua mãe) que acontece aqui, ela não acredita”. O questionamento à qualidade do tratamento e aos eventos que ocorrem na instituição são apenas mais uma prova de que não está mesmo bem.
Conforme Elisa, seu pai não considera ser necessário que ela esteja no CAPS, pois “falou pra mamãe que isso é bobagem... Que eu tenho que fazer... procurar outra atividade pra mim fazer”. A partir da discordância entre seus pais, parece considerar que aquele está do seu lado, apesar de haver momentos em que ele também é grosseiro. Descreve a relação que tem com cada um:
Com o meu pai que tava sendo péssimo, agora tá sendo bom. Com a minha mãe que tava sendo bom, tá sendo ruim agora. Porque ela não entende. Ela
não entende que quando eu não quero vim pra cá, é porque eu não quero vim. Ela não entende isso. Ela quer que eu venha todo dia.
A relação com Joaquim melhorou depois que ele se libertou dos “espíritos” e voltou a ser o pai que “era antes”. A relação com sua mãe ficou ruim depois que ela começou a insistir que fosse para o CAPS. Em ambos os casos, parece adotar como critério de avaliação da qualidade da relação a aceitação pelo outro de sua vontade de estar em tratamento.
A relação entre Elisa e seu pai é, provavelmente, a mais polarizada, por ser marcada por momentos de significativa proximidade e de intenso conflito. Embora não questione o investimento que dele recebe, como faz em relação a sua mãe, seu pai parece ter perdido para ela a probidade que tinha em razão de relações extraconjugais. Pôde-se perceber, ainda, que os conflitos entre Joaquim e Benedita tendem a se misturar com os de sua relação com Elisa. É possível que, diante do círculo que os pais estabelecem em torno da filha, é como se não houvesse mais espaço para outras questões entre o casal.
Na identificação que Elisa gradativamente estabelece com o CAPS como lugar de tratamento, quer indicá-lo inclusive para membros de sua família, em especial, sua irmã, Carla, que descreve como “agressiva”. Parece considerar que se está “doente”, não é a única de sua família a estar assim.
Descreve os sinais que associa à necessidade de sua irmã também estar em tratamento no CAPS: é “materialista”, “muda de comportamento de hora em hora”, “é difícil de ficar alegre” e “tem mais o lado de maldade do que o lado positivo”. São ações que se tornam para Elisa indícios de alguma alteração psiquiátrica. Tenta compreender o porquê de ser a única a estar “internada”. Não percebe o que a diferencia dos demais membros de sua família. Quer que sua irmã esteja junto com ela no CAPS. Como não identifica nenhum fator que as aproxime, percebe a internação da irmã como uma possibilidade de realizarem algo juntas, nem que seja um tratamento.
Elisa sofre ainda por considerar que sua irmã e o noivo dela querem machucá-la e a seu filho. Como forma de proteger a ambos, teria pego uma tesoura para mostrar ao noivo de sua irmã que não tem medo dele. Ele estaria agindo assim porque é “de umbanda e pra ele casar com ela (com sua irmã), ele tem que dar uma criança em troca do casamento. E ele ta querendo dar o meu filho”.
Como apontam Coriat e Pisani (2001), se, na neurose, o sujeito admite que o inconsciente fala através dele e que ele é seu agente involuntário, na psicose, o sujeito,
repleto de certeza, tem a dolorosa convicção de ser vítima de uma voz tirânica que o aliena. Diante da ameaça que sente, quer que sua irmã e o noivo dela também sejam internados. Quinet (2006, p. 103) indicou que, na paranóia, “como efeito da foraclusão do Nome-do-Pai, o Outro não tem lei, e é por isso que ele tenta colocar a lei no Outro, acusando-o, abrindo processos, recorrendo à justiça”, não aceitando a decisão que contradiga sua causa. O sujeito quer colocar uma lei naquilo que lhe parece ser uma desordem do mundo, como Elisa querer uma internação para sua irmã e o noivo dessa. Reivindica uma justiça para que não tenha que fazer a sua própria por meio de ameaças. Observa também que seus pais também precisam de um auxílio externo, pelo menos um atendimento psicológico, sem a necessidade de estar no Centro de Atenção: “a minha mãe, ela precisa de uma psicóloga. Minha mãe e meu pai precisam de um psicólogo. E eles não querem aceitar, mas eles precisam de psicólogo”. Parece querer encaminhar seus familiares para tratamento no CAPS ou, ao menos, psicológico, de acordo com sua avaliação do grau de severidade do caso e da qualidade da relação que tem com cada um dos membros com os quais reside. Quando fala do psicólogo, ressalta ainda a necessidade de que esse profissional transmita orientações a seus pais sobre como serem melhores pais ou, como já abordado, como serem os pais que ela deseja ter. Demanda, ainda, uma intervenção por parte da instituição para que sua família corresponda ao ideal que tem de família. Com isso, seu pai, mãe e irmã serão mais carinhosos, tolerantes e, conseqüentemente, menos exigentes com ela.
Em seu discurso sobre a relação entre o CAPS e sua família, gradativamente, quando parece não mais considerar que sua mãe a leva para lá por querer dela se “livrar”, Elisa percebe que a atenção que essa lhe dedica aumentou, por estar em tratamento. Se a família recorre a uma instituição de saúde como forma de salvaguardar o bem-estar entre os membros e de poder encontrar um suporte que a ajude a lidar com as passagens ao ato pelo sujeito psicótico, como a tentativa de suicídio descrita, é como se Elisa reconquistasse um apoio perdido no cotidiano das relações, por meio do tratamento. Mesmo sendo um apoio condicionado a que tenha uma abertura para tratar de questões que extrapolam as soluções que a família tem, isso é algo necessário para que ela identifique sentidos em estar na instituição. Observa, ainda, que o tempo de permanência no CAPS trouxe benefícios para sua relação com a irmã:
Quando eu chego do CAPS, ela já fala comigo. Ela já fala comigo direitinho. Ela tá mudada. Ela tá mudando. Acho que é o fato de eu não ficar o dia inteiro perto dela, acho que ela vai sentindo falta.
Um pouco de distância – mesmo que seja de horas – como um meio para se preservar algo em sua relação. Com este afastar, há uma possibilidade de revisão dos sentimentos e das expectativas em relação ao outro, pensamento que é provavelmente compartilhado pelos demais membros de sua família. A instituição CAPS parece se tornar, assim, um espaço que possibilita a (re)construção de referências de vida e de afeição para a família.