2. METODE
3.6. Tilbakeføringsprosessen
Poder-se-ia dizer, pelo simples olhar, que a Escola Alfa é pobre. Com suas paredes desbotadas e carcomidas pelo tempo, suas salas improvisadas, cobertas por estrutura de zinco numa região onde o calor costuma atingir 40ºC, esforçados ventiladores a girar espalhando democraticamente o calor escaldante entre alunos e professores. Não há biblioteca, nem refeitório, nem espaço para convivência... Um pátio que parece abandonado, onde o mato cresce às alturas e a pequena calçada de cimento denuncia seu incômodo por meio de rachaduras do sol das tardes quase sempre, insuportavelmente, ensolaradas.
De fato, a Escola Alfa está localizada em um dos bairros mais pobres e violentos da cidade. É conhecido pela existência de locais, denominados ―bocas‖ onde se reúnem os usuários de drogas para o consumo. Durante o período da pesquisa, vários casos de invasão e uso de drogas no prédio escolar foram relatados pela direção e professores, além das marcas de violência revelada pelo alto grau de depredação da estrutura física da unidade. Tudo revela um quadro de abandono do poder público, inclusive pela inexistência de espaços adequados para as atividades pedagógicas. 88
As condições físicas da escola em nada fazem lembrar uma instituição responsável pela transmissão do capital cultural. Lembra sim uma estrutura destinada à apartação social.
Segundo os professores da Escola Alfa, os estudantes são filhos de trabalhadores pobres, com pouca formação cultural, injustiçados pelas condições sócio-econômicas. Alguns (ou boa parte) dos pais são analfabetos, muitos entregues ao vício. Vários dos alunos são usuários de drogas 89.
88 Embora a escola atenda crianças de 05 a 14 anos, não há estruturas para atividades lúdicas como parque de diversão infantil, espaço para jogos. A direção da escola informou existir um projeto de reforma da escola, mas até o fechamento da pesquisa não havia sido implementado.
89 Síntese das percepções dos professores sobre os estudantes e suas famílias, conforme reuniões ocorridas entre fevereiro a março/2010.
Até 2008, a escola contava com turmas de ensino fundamental e médio, chegando a ter mais de mil e quinhentos alunos, porém, o alto grau de violência e o baixo rendimento escolar, levaram muitos pais do bairro a procurar outras escolas, mesmo que mais distante de casa. A decisão da SEDUC foi pelo fechamento das turmas de ensino médio, permanecendo apenas o ensino fundamental. A apreensão pelo risco de fechamento das demais turmas é algo recorrente nas conversas dos professores e assim, vivem pressionados por essa ameaça iminente.
Não foi preciso muito para perceber que em muitas histórias de aluno; dramas sociais de abandono, de uso de drogas, de violência familiar, de abusos sexuais...90 São crianças pobres vítimas de violência e, na escola, vítimas de um tipo que se impõe desde as condições físicas do lugar. Um tipo silencioso, penetrando o consciente e o inconsciente dos professores, das crianças, como que a gritar que ali estão os desterrados da terra, apartados socialmente, introjetando dia-a-dia hábitos de submissão à condição imposta pelo seu destino social. É do lugar da dominação-submissão simbolicamente representado por uma estrutura física inadmissível para um ambiente escolar, que aprendem como devem tratar o mundo e como serão tratados.
[...] Pelo fato de as disposições serem o produto da incorporação das estruturas objetivas e as expectativas tenderem a se ajustar às chances, a ordem instituída tende sempre a se manifestar, mesmo aos olhos dos mais desfavorecidos, como algo evidente, necessário, mais necessário e ainda mais evidente em todo caso do que se poderia crer do ponto de vista dos que, não tendo sido formados em condições tão impiedosas, só podem considerá-las espontaneamente insuportáveis e revoltantes (BOURDIEU, 2001, p. 210).
4.2.1 Quadro de professores
Carlos Rodrigues Brandão, certa vez, num encontro entre educadores apresentou as seguintes questões:
Eu pergunto o que impede que cada local de encontro entre educadores-e- educandos seja verdadeiramente (e não na aparência, como costuma acontecer), um lugar de se recriar, para os usos de cada escola, de cada região, de cada tipo de agência pedagógica, a própria prática de educação? O que é que impede que a massa [...] dos educadores-professores [...] sejam equipes, verdadeiras equipes de criadores, na prática, junto aos alunos, dentro do próprio exercício cotidiano de ensinar-e-aprender, de seu trabalho pedagógico [...] (BRANDÃO, 1982, p. 78).
Constituir equipes de aprendizagem parece ser o sentido dado ao trabalho pedagógico pelo autor. Poder-se-ia dizer que este trabalho é o meio pelo qual os professores organizariam a função de acessibilidade ao capital cultural através da escola. Acessibilidade que se dá não pela ação individual, mas por todo conjunto de arranjo criativo protagonizado por esses profissionais, capazes de criar um ―espírito‖ escolar favorável à apropriação do capital cultural. No entanto, algumas condições precisam ser observadas para que a possibilidade apontada pelo autor seja confirmada. Que precedentes permitem arranjos criativos na ação pedagógica? Seria essa possibilidade fruto apenas do desejo e da consciência do professor ou este se inscreve, irremediavelmente, à sua própria trajetória de vida? Como não renovar, em meio à própria violência, a violência simbólica da ação pedagógica, com reforço das estruturas da escola, extensão das estruturas opressoras sob a qual se submetem professores e estudantes? Como a formação continuada se insere nesse contexto, seria o reforço da violência ou a resistência tão sonhada?
As imagens produzidas a partir das condições físicas da escola indicam os elementos de adversidades postas à organização da unidade escolar. Levando em conta as duas ações de formação continuada de professores, oferecidas pelo CEFAPRO: Cursos de curta duração e Sala do Professor, pode-se entender as condições em que essas ações são empreendidas no âmbito do corpo docente e os sentidos produzidos a partir da realidade em que estão inseridos.
4.2.2 Os professores da escola Alfa
Mais de 80% dos professores respondentes são mulheres, a maioria na faixa etária entre 30 a 40 anos, 82% são casados, as famílias são pequenas, no máximo 03 filhos. Apenas 30% dos conjugues possuem curso superior completo, a grande maioria exerce atividades profissionais que não exigem habilitação em curso de nível superior. Desse modo, quando se analisa o fator renda familiar, percebe-se que a renda do professor é, majoritariamente, a principal rendimento da família. A maioria dos professores da Escola Alfa (73%) recebe renda mensal familiar entre 5 e 7 salários mínimos. Para 55%, a renda individual está entre 3 a 4 salários mínimos. O salário médio está bem acima do Piso Nacional,91 no entanto, neste caso, trata-se não somente do salário auferido para uma jornada de 40h na escola, refere-se ao
91 A lei 11.738 de 16/07/2008 define o piso salarial profissional nacional para os profissionais do magistério público da educação básica. No ano da publicação da lei o piso era R$ 950,00, a partir de 1º de janeiro de 2010 sofreu o primeiro reajuste de 7%, passando para 1.024, 67 para regime de 40h semanais.
total por jornadas duplas e até triplas de trabalho no magistério, sem direito à hora atividade, destinadas ao planejamento, à correção de provas, reuniões e estudos.
Veja-se a escolaridade da família dos professores:
Gráfico 5 – Escolaridade do Pai
Gráfico 7 – Escolaridade dos Irmãos
Gráfico 8 – Escolaridade do Cônjuge
Como é possível observar, as condições sócio-educaconais de origem indicam baixo acesso ao ensino superior e a alta escolarização. Os professores vivem em condições desfavoráveis à apropriação do capital cultural e intelectual. Não encontram no legado de suas famílias as condições propícias à aprendizagem escolar e aos estudos continuados. Conseguiram superar a baixa escolaridade de seus pais, são exceções entre os irmãos e casaram-se, na maioria dos casos, com pessoas de escolaridade inferior à sua. Essas condições sociais, têm efeitos sobre a trajetória intelectual e profissional, impõem limites à constituição do profissional cuja função pressupõe a detenção de capital cultural incorporado desde a trajetória familiar. A situação em tela tem importância crucial para a compreensão da trajetória de formação desse profissional, pois:
O capital cultural e o ethos, ao se combinarem, concorrem para definir as condutas escolares e as atitudes diante da escola, que constituem o princípio da eliminação difernecial das crianças das diferentes classes sociais. Ainda que o êxito escolar,
diretamente ligado ao capítal cultural legado pelo meio familiar, desempenhe um papel na escolha da orientação , parece que o determinante principal do prosseguimento dos estudos seja a atitude da família a respeito da escola, ela mesma função, como se viu, das esperanças objetivas de êxito escolar encontradas em cada categoria social (BORDIEU, 1998, p. 50).
Os estudos de Bourdieu, apesar de não contemplarem uma realidade de desigualdades abissais como o caso brasileiro e de suas análises sobre o professor, partirem de condições de formação muito diferentes, é evidente que permitem compreener a realidade em questão pelo caráter sociologicamente abrangente da teoria e evidencias anunciadas pela realidade em estudo. O baixo capital cultural/escolar das família dos professores da Escola Alfa é um fator que constitui a problemática de sua formação e do próprio exercício de sua função.
No caso em tela, os professores são frutos do mesmo processo de apartação social de que são vítimas seus alunos e, dada às condições do legado familiar em termos de ethos e de cultura escolar, suas condições de exercer uma função exigente em capital cultural está a exigir grande esforço individual e coletivo/institucional.