5. NUCLEAR REACTORS FOR THORIUM
5.4 F UTURE N UCLEAR E NERGY S YSTEMS
5.4.1 The Indian Advanced Heavy Water Reactor Design (AHWR)
Apesar de a vontade se objectivar em vários graus, Schopenhauer deixa claro que esta gradação não diz respeito a ela como coisa em si – a ela como o “x” incógnito
Identität, die Identität unsers Willens mit jenem uns bis dahin unbekannten x, das in aller Kausalerklärung übrig bleibt. Demzufolge sagen wir alsdann: auch dort, wo die palpabelste Ursache die Wirkung herbeiführt, ist jenes dabei noch vorhandene Geheimnißvolle, jenes x, oder das eigentlich Innere des Vorgangs, das wahre Agens, das Ansich dieser Erscheinung, — welche uns am Ende doch nur als Vorstellung und nach den Formen und Gesetzen der Vorstellung gegeben ist, — wesentlich das Selbe mit Dem, was bei den Aktionen unseres, eben so als Anschauung und Vorstellung uns gegebenen Leibes, uns intim und unmittelbar bekannt ist als Wille.”
71 W II, 192: “Was nun also Kant von der Erscheinung des Menschen und seines Thuns lehrt, das dehnt
meine Lehre auf alle Erscheinungen in der Natur aus, indem sie ihnen den Willen als Ding an sich zum Grunde legt. Dies Verfahren rechtfertigt sich zunächst schon dadurch, daß nicht angenommen werden darf, der Mensch sei von den übrigen Wesen und Dingen in der Natur specifisch, toto genere und von Grund aus verschieden, vielmehr nur dem Grade nach.” Não desenvolveremos mais esta temática, pois ela envolveria um estudo mais detalhado da noção de liberdade em Schopenhauer que se encontra para lá dos objectivos e limites desta dissertação. Sobre a metafísica de Schopenhauer como única possibilidade de conciliar a necessidade no curso da natureza com a liberdade cf. ainda W I, 337-9, 341, 597; W II: 192s., 364-5, 608; E: 81s., 96, 174s., 176.
que a natureza é no seu todo – pois, como tal, a vontade é uma e a mesma em cada coisa (W I, 152). Os vários níveis ou graus de objectivação dizem respeito apenas ao seu fenómeno. No entanto, a multiplicidade de graus de objectivação da vontade tem mais significado relativamente à objectivação da vontade do que à sua manifestação como pluralidade de coisas individuais. Os primeiros constituem as formas e tipos naturais que todas as coisas podem assumir72, ao passo que a diferença numérica diz respeito apenas à repetição indefinida de coisas de um mesmo tipo73. Schopenhauer exprime esta circunstância ao dizer que a vontade é objectivada directamente nas forças da natureza, nas espécies de seres vivos e nos caracteres humanos individuais, quer dizer, nas formas originais que a natureza apresenta, e apenas indirectamente nos indivíduos que as instanciam.
Para exprimir conceptualmente os graus de objectivação da vontade como graus de objectivação imediata ou directa (unmittelbar) da vontade, por contraposição aos entes individuais que objectivam a vontade apenas indirecta ou mediadamente, através das suas qualidades, das forças da natureza que se expressam nelas ou da espécie a que pertencem, Schopenhauer recorre à noção platónica de ideia:
(...) os diferentes graus de objectivação da vontade, que, expressos em inumeráveis indivíduos, se apresentam como os modelos inalcançáveis destes ou como as formas eternas das coisas, não ocorrendo eles próprios no espaço e no tempo (o medium dos indivíduos), mas estando fixos, não submetidos a nenhuma mudança, sendo sempre e nunca devindo, ao passo que aqueles se originam e perecem, devêm constantemente e nunca são (...) – estes graus de objectivação da vontade não são outra coisa senão as Ideias de Platão.74 (W I, 154)
72 Motivo pelo qual Schopenhauer diz que o conceito de grau de objectivação da vontade equivale ao
conceito aristotélico, retomado pela escolástica, de forma substantialis. Cf. W I, 170: “Denn des Aristoteles forma substantialis bezeichnet genau Das, was ich den Grad der Objektivation des Willens in einem Dinge nenne.”
73 Hamlyn (1980: 101) nega que a noção de pluralidade radique nas representações do espaço e do tempo.
Sem entrar propriamente nessa discussão, note-se, apenas, que não é verdade que, segundo Schopenhauer, a pluralidade se reduza à pluralidade espácio-temporal, uma vez que para além daquela existe ainda a pluralidade das ideias platónicas. Poder-se-ia, quando muito, dizer apenas que, segundo Schopenhauer, a diferença numérica depende, de facto, das representações do espaço e do tempo.
74 “(...) jene verschiedene Stufen der Objektivation des Willens, welche, in zahllosen Individuen
ausgedrückt, als die unerreichten Musterbilder dieser, oder als die ewigen Formen der Dinge dastehn, nicht selbst in Zeit und Raum, das Medium der Individuen, eintretend; sondern fest stehend, keinem Wechsel unterworfen, immer seind, nie geworden; während jene entstehn und vergehn, immer werden und nie sind (...) diese Stufen der Objektivation des Willens nichts Anderes als Plato’s Ideen sind.”
Entendo por ideia cada grau determinado e fixo de objectivação da vontade, na medida em que esta é a coisa em si e, por isso, alheia à pluralidade. Estes graus relacionam-se com as coisas particulares como as suas formas eternas ou os seus modelos.75 (W I,
154)
Nas forças mais universais da natureza não há diferença entre as instâncias e a ideia: uma manifestação da lei da gravidade é imediatamente manifestação da ideia platónica de gravidade. Só na natureza orgânica é que a ideia surge como um modelo ou ideal dos fenómenos. Segundo Schopenhauer, todos os indivíduos de uma determinada espécie de ser vivo são uma manifestação imperfeita da respectiva ideia platónica (neste caso, o carácter da espécie). A ideia platónica funciona como ideal da espécie ao qual nenhum dos espécimes corresponde perfeitamente. O ser humano, ao contrário dos animais, não tem apenas um carácter da espécie, mas também um carácter individual. Por esse motivo, cada ser humano é considerado por Schopenhauer como manifestação de uma ideia platónica própria (W I, 185). Com efeito, cada ser humano não é apenas uma instanciação, mais ou menos perfeita, do carácter geral da espécie, mas manifesta também individualidade. Isto não significa que os seres humanos objectivem sempre, de forma perfeita, a sua individualidade. Como vamos ver no próximo capítulo (cf. infra, V.5), a manifestação adequada da individualidade que é própria de cada ser humano requer que o ser humano adquira um conhecimento do seu próprio carácter (i.e. da ideia platónica de que é a manifestação).
Verifica-se que, à medida que há um incremento de complexidade dos organismos e aumenta o seu grau de individualidade, a manifestação da ideia torna-se progressivamente mais mediada. As plantas manifestam a ideia não apenas através da sua figura, mas também através do desenvolvimento temporal dos seus órgãos. Já o organismo animal não é suficiente para manifestar a respectiva ideia, o carácter da espécie só é completamente visível através da série das suas acções. A própria ideia de ser humano em geral só pode ser expressa através de uma pluralidade de caracteres individuais humanos, uma vez que cada um deles revela apenas um aspecto da ideia de humanidade76.
75“Ich verstehe also unter Idee jede bestimmte und feste Stufe der Objektivation des Willens, sofern er
Ding an sich und daher der Vielheit fremd ist, welche Stufen zu den einzelnen Dingen sich allerdings verhalten, wie ihre ewigen Formen, oder ihre Musterbilder.”
76 Sobre a relação entre o grau de individualidade dos fenómenos e o carácter mediado da manifestação da
Apesar de haver uma variedade de ideias platónicas na natureza, não é demais repetir que as gradações de objectivação da vontade não dizem respeito à vontade como coisa em si (W I, 152, 171-2). Isto implica que as ideias sejam intrinsecamente relacionais. Isto é, elas encontram-se em relação umas com as outras, de tal modo que somente a totalidade delas constitui a objectivação da vontade una. Schopenhauer pensa, de forma analógica, a multiplicidade de ideias como actos da vontade una. Assim como a vontade individual no seu todo se manifesta através de uma pluralidade de actos no tempo, sem que isso obste à unidade do carácter que se exprime em cada um deles, a vontade como coisa em si, considerada para lá da possibilidade de pluralidade, manifesta-se em vários actos metafísicos a que correspondem precisamente as ideias platónicas:
Para facilitar a compreensão, podemos considerar estas diferentes ideias como actos de vontade particulares e, em si, simples, nos quais a sua essência se expressa em maior ou menor grau: os indivíduos são, por seu turno, fenómenos das ideias, isto é, aqueles actos no tempo e espaço e na pluralidade.77 (W I, 184)
Schopenhauer não se limita a afirmar a unidade da vontade como coisa em si apoiado na ideia de que a coisa em si está para lá da pluralidade. Segundo Schopenhauer, pode-se descober indicíos da unidade da vontade através da “analogia interna” (W I, 172) que os fenómenos das várias ideias apresentam entre si, como, por exemplo, aquela que existe entre a força da gravidade e a força de atracção eléctrica ou as analogias morfológicas entre as várias espécies animais.
A analogia interna que as ideias apresentam entre si deve-se ao facto de todas elas formarem uma escala de objectivação da vontade em que as superiores incorporam ou assimilam em si as inferiores. Por exemplo, a vida orgânica, apesar de não ser redutível a fenómenos químicos ou físicos, pressupõe-nos e incorpora-os no seu decorrer78. Schopenhauer chama “assimilação subjugante” (überwältigende
77“Wir können, zu leichterer Faßlichkeit, diese verschiedenen Ideen als einzelne und an sich einfache
Willensakte betrachten, in denen sein Wesen sich mehr oder weniger ausdrückt: die Individuen aber sind wieder Erscheinungen der Ideen, also jener Akte, in Zeit und Raum und Vielheit.” Cf. ainda W I, 185-6 e 187.
78 Koßler (1990: 120) refere a afinidade formal entre o processo de überwältigende Assimilation e a
Aufhebung de Hegel. De facto, trata-se tal como em Hegel de um processo em que dois pólos opostos são simultaneamente anulados (como pólos autónomos), conservados e elevados pela identidade de um terceiro. Refira-se que Schopenhauer também usa o termo Aufhebung, mas apenas no sentido de “anular” ou “suprimir”.
Assimilation) (W I, 173) a esta relação segundo a qual cada grau de objectivação da vontade incorpora os inferiores.
Schopenhauer procura, pois, descrever o surgimento das ideias superiores a partir das inferiores por intermédio da “assimilação subjugante”, ainda que, segundo o próprio, esta descrição tenha um estatuto meramente hipotético (W I, 172). A descrição consiste no que se segue.
As várias ideias platónicas encontram-se numa relação de conflito entre si. O objecto deste conflito é a matéria, pois cada uma delas corresponde a uma tendência, ou a um esforço (Streben), para se manifestarem na matéria, que é a condição da sua objectivação. As ideias lutam, assim, pela “posse” da matéria na qual a sua objectivação tem lugar. Neste conflito, tem origem, segundo Schopenhauer, uma nova ideia, um novo grau da objectivação da vontade que domina os anteriores e se lhes sobrepõe, incorporando-os, simultaneamente, em si:
Quando, nos graus mais baixos da objectivação, isto é, no [mundo] inorgânico, vários dos fenómenos da vontade entram em conflito, por cada um deles se querer apoderar da matéria segundo o fio condutor da causalidade, origina-se nesta luta o fenómeno de uma ideia mais elevada. Esta subjuga as ideias mais imperfeitas existentes até aí, mas de tal modo que deixa a essência delas subsistir de um modo subordinado, ao acolher em si algo de análogo a elas. Este processo só se pode compreender precisamente a partir da identidade da vontade que se manifesta [erscheinend] em todas as ideias e a partir da sua tendência para uma objectivação cada vez mais elevada.79 (W I, 172)
A ideia mais perfeita, que surge da vitória sobre várias ideas ou objectivações da vontade inferiores, adquire, pelo facto de acolher algo de análogo às subjugadas numa potência mais elevada, um carácter inteiramente novo: a vontade objectiva-se de um modo mais visível: inicialmente, através de generatio aequivoca e, posteriormente, por assimilação do germe existente, têm origem a seiva orgânica, a planta, o animal, o ser humano. Portanto, a partir do conflito entre os fenómenos inferiores surge o superior
79“Wenn von den Erscheinungen des Willens, auf den niedrigeren Stufen seiner Objektivation, also im
Unorganischen, mehrere unter einander in Konflikt gerathen, indem jede, am Leitfaden der Kausalität, sich der vorhandenen Materie bemächtigen will; so geht aus diesem Streit die Erscheinung einer höhern Idee hervor, welche die vorhin dagewesenen unvollkemmeneren alle überwältigt, jedoch so, daß sie das Wesen derselben auf eine untergeordnete Weise bestehn läßt, indem sie ein Analogon davon in sich aufnimmt; welcher Vorgang eben nur aus der Identität des erscheinenden Willens in allen Ideen und aus seinem Streben zu immer höherer Objektivation begreiflich ist.”
que os devora a todos, realizando também a tendência daqueles num grau superior.80 (W
I, 173)
Pode-se verificar que a ideia de humanidade, embora seja algo de original e não redutível aos graus inferiores de objectivação da vontade, pertence originalmente à natureza, uma vez que a sua existência pressupõe toda a escala de objectivação da vontade. Inversamente, pode-se também dizer que a natureza não estaria completa, não seria inteiramente natureza, sem a existência do ser humano:
Ainda que a vontade encontre no ser humano, como ideia (platónica), a sua objectivação mais visível e completa [deutlichste und vollkomenste], esta ideia não poderia, por si mesma, expressar a sua essência. Para se manifestar na significação que lhe é apropriada, a ideia de ser humano não poderia apresentar-se sozinha e sem conexão, mas teve de ser acompanhada pela escala que percorre todas as formas dos animais, passando pelo reino vegetal, até ao reino inorgânico: somente todas estas completam a objectivação total da vontade; elas são pressupostas pela ideia de ser humano tal como as flores da árvore pressupõem folhas, ramos, caule e raiz; elas formam uma pirâmide cujo vértice é o ser humano. Se se gosta de comparações, pode dizer-se também: o seu fenómeno acompanha o do ser humano de forma tão necessária como a luz na sua totalidade é acompanhada pelas sucessivas gradações de meias-luzes, através das quais ela se perde na escuridão; ou pode chamar-se-lhes o eco do ser humano e dizer: animal e planta são a quinta e a terça descendente do ser humano, o reino inorgânico é a oitava baixa.81 (W I, 182-3)
80“Die aus solchem Siege über mehrere niedere Ideen, oder Objektivationen des Willens, hervorgehende
vollkommenere gewinnt, eben dadurch, daß sie von jeder überwältigten, ein höher potenzirtes Analogon in sich aufnimmt, einen ganz neuen Charakter: der Wille objektivirt sich auf eine neue deutlichere Art: es entsteht, ursprünglich durch generatio aequivoca, nachher durch Assimilation an den vorhandenen Keim, organischer Saft, Pflanze, Thier, Mensch. Also aus dem Streit niedrigerer Erscheinungen geht die höhere, sie alle verschlingende, aber auch das Streben aller in höherm Grade verwirklichende hervor.”
81 “Obgleich im Menschen, als (Platonischer) Idee, der Wille seine deutlichste und vollkommenste
Objektivation findet; so konnte dennoch diese allein sein Wesen nicht ausdrücken. Die Idee des Menschen durfte, um in der gehörigen Bedeutung zu erscheinen, nicht allein und abgerissen sich darstellen, sondern mußte begleitet seyn von der Stufenfolge abwärts durch alle Gestaltungen der Thiere, durch das Pflanzenreich, bis zum Unorganischen: sie alle erst ergänzen sich zur vollständigen Objektivation des Willens; sie werden von der Idee des Menschen so vorausgesetzt, wie die Blüthen des Baumes Blätter, Aeste, Stamm und Wurzel voraussetzen: sie bilden eine Pyramide, deren Spitze der Mensch ist. Auch kann man, wenn man an Vergleichungen Wohlgefallen hat, sagen: ihre Erscheinung begleitet die des Menschen so nothwendig, wie das volle Licht begleitet ist von den allmäligen Gradationen aller Halbschatten, durch die es sich in die Finsterniß verliert: oder auch man kann sie den Nachhall des Menschen nennen und sagen: Thier und Pflanze sind die herabsteigende Quint und Terz des Menschen, das unorganische Reich ist die untere Oktav.”
O ser humano representa o grau mais elevado de objectivação da vontade, não havendo, de acordo com Schopenhauer, nenhuma ideia “superior” à do ser humano. Assim, a natureza “completa-se” precisamente com o advento da humanidade82.
Segundo Schopenhauer, é precisamente porque a espécie humana alberga em si a possibilidade de, pelo menos em alguns dos seus membros, realizar o completo autoconhecimento da vontade, e, consequentemente, negar a vontade, que não faz sentido considerar a possibilidade de uma ideia superior à ideia de ser humano. Esta é, por isso, simultaneamente o ponto onde a objectivação da vontade se completa e aquele onde a vontade se “volta” e nega a si mesma. Teremos oportunidade de detalhar esta ideia quando abordarmos o tema da negação da vontade (cf. infra, cap. VII).