16. APPENDIX D: RADIATION PROTECTION
16.1 A PPENDIX D1: N OTE FROM THE N ORWEGIAN R ADIATION P ROTECTION A UTHORITIES
3º CAPÍTULO: O DEVIR–CRIANÇA
Procuro despir–me do que aprendi Procuro esquecer-me do medo de lembrar que me ensinaram E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, Desembrulhar–me e ser eu, não Alberto Caeiro, Mas um animal humano que a Natureza produziu.50
Neste capítulo, será efectuado o seguimento à nossa análise sobre o fenómeno do devir para especificar o conceito de devir‐criança. Além dos devires que já foram assinalados, como o devir‐animal, o devir‐mulher, o devir‐molecular ou o devir– imperceptível, Deleuze reporta‐se, ainda, a um outro, o devir‐criança. Antes de analisarmos o devir‐criança, tal como ele vem descrito pelo filósofo, em Mille Plateaux, iremos debruçar‐nos sobre um devir‐criança muito particular, o do poeta Alberto Caeiro. Seguindo a análise de José Gil a respeito da escrita do poeta, tentaremos perceber em que medida é que o poder de se tornar outro de Caeiro, depende dum mergulho na Infância. Por fim, será tido em conta não apenas estes dois autores, como aquilo que foi referido sobre os estudos de Daniel Stern e a concordância.
3.1 Aproximação da Visão de Caeiro à criança segundo José Gil
Alberto Caeiro é o mestre dos outros heterónimos de Fernando Pessoa porque, segundo José Gil, é o único que possui a , ciência do “ver”, isto é aquela que lhe permite olhar para as coisas como elas são, na sua pureza e sem artifícios:
55 “Ver as coisas como elas são, é vê-las despojadas das significações com que a cultura e as civilizações as vestiram. É vê-las nuas, ou seja, na sua existência pura51.”
A partir desta citação do filósofo José Gil, percebe‐se que são os significados que atribuímos às coisas, oriundos da cultura, que não nos deixam ver como o poeta. Portanto, qualquer outra pessoa (que não Caeiro) para conseguir ver necessita, como o próprio refere, de aprender a ver. É necessário desaprender aqueles significados que lhe foram incutidos através da sua educação, dos valores culturais do seu país, da civilização em que se encontra, etc. Caeiro seria o único que, através da sua mestria, conseguiria olhar para a Natureza sem lhe atribuir um significado.
Segundo a análise de José Gil, quando começamos a projetar na Natureza os nossos pensamentos e os nossos sentimentos deixamos de a ver como ela é verdadeiramente e tornamo‐nos doentes dos olhos. Assim que começamos a tentar encontrar na natureza algum mistério, entramos numa busca de sentido para a qual não há fim.
“O mistério da Natureza volta-se contra aquele que pensa. Esta espécie de hemorragia do sentido que atinge os poetas “místicos” e os “filósofos” testemunha a perda do verdadeiro sentido e da verdadeira existência: a Natureza não tem sentido, apenas existe, e todo o seu sentido se esgota na sua visibilidade. A doença metafísica contém todo o mal do mundo: buscamos incessantemente o sentido último do mistério (e buscar já é uma doença) (...)52.”
Um sentido reenvia para outro e assim incessantemente, de maneira que, ao tentarmos atribuir algum significado à Natureza, acabamos por esquivar o seu verdadeiro significado que é o de não ter nenhum. As coisas não têm significação, têm existência, como diz o poeta. A sua visão faria aparecer as coisas tal qual são, i. e., existindo apenas. Para isso, afirma o filósofo, é necessário cortar o fio contínuo que liga os pensamentos, i. e., fragmentar o sentido das coisas, separando-o da coisa vista.
“Trata-se pois: 1. De quebrar esse fluxo contínuo de pensamentos para que o significado de uma coisa não remeta para outro significado, e mais outros, indefinidamente53”.
A ciência do “ver” de Caeiro depende, assim, de uma “técnica” ou de uma operação que ao isolar a coisa vista do seu sentido, permite ao poeta desfazer-se de tudo o que aprendeu. 51 GIL, J. (2008): p. 23. 52 GIL, J. (2013): p. 14. 53 GIL, J. (2013): p. 23.
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No seu livro, Diferença e Negação na Poesia de Fernando Pessoa, José Gil refere‐se à mestria de Caeiro, designando‐a por Ciência “do Ver” e, num outro livro seu, escrito mais recentemente, Cansaço, Tédio, Desassossego, por Ciência “do Ver e do Sentir”. Através desta última designação, ficamos a perceber que a visão do poeta é indissociável da uma certa de maneira de sentir e de viver. “(...) no facto de ele possuir a ciência “do ver e do sentir”. Não apenas a ciência, mas a prática, a concretização dessa doutrina num modo de fisicamente, ser e viver.(...)54.” De acordo
com esta citação, trata‐se de uma ciência que tem a particularidade de se traduzir numa prática efetiva relacionada com a própria existência. É sem dúvida essa razão que faz de Caeiro o Argonauta das sensações verdadeiras, aquele que sente tudo de todas as maneias:
“Ele viaja e conhece a arte de viajar nas sensações, de devir-outro, de se metamorfosear, de viver a multiplicidade das sensações, e desta maneira produzir heterónimos (...)55”
Através desta nova referência do livro de José Gil, percebemos que a Ciência do Ver e do Sentir está associada à arte de viajar nas sensações mediante um devir‐outro. Logo, existe uma correlação entre a mestria de Caeiro e o fenómeno do Devir. Trata‐ se de analisar o processo do devir‐outro do poeta, afim de justificar como é que ao devir‐outro, ele adquire o poder de ver as coisas tal qual são ou, ainda, como o autor o diz, na sua existência pura.
Para começar a refletir sobre esta questão, consideremos uma outra ideia que está presente na análise de José Gil, segundo a qual, seria possível estabelecer uma aproximação entre o olhar do poeta e o das crianças.
“Aprender a desaprender, como escreve Caeiro, para se ter acesso a uma visão espontânea e natural. Isso não equivaleria, de algum modo, a retornar à infância, à frescura e à ingenuidade primeiras do olhar infantil?56”
De acordo com o filósofo, o olhar de Caeiro despojado de significação e a visão das crianças, poderiam ter algo em comum. Vejamos mediante as análises anteriores de que maneira poderíamos estabelecer essa proximidade. De facto, se levarmos em conta os estudos de Daniel Stern, sabemos que as crianças têm uma apreensão do mundo muito singular, ainda que não o percebam quanto à sua significação. Por
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GIL, J. (2013): p. 13.
55 GIL, J. (1999): p. 84. 56 GIL, J. (1999): p. 21.
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exemplo, quando uma mãe diz para o seu bebé, meu querido!, embora o significado das suas palavras não seja acessível para ele, ele é sensível ao modo como o som delas ecoa nele e acolhe a sua vibração ou a sua tonalidade afectiva. O processo de concordância afectiva permite‐nos, assim, considerar a hipótese de haver algo que liga a visão de Caeiro, desprovida de significação, à da criança. Nesse caso, o olhar de Caeiro estaria situado no mesmo plano que a percepção amodal dos bebés, i. e., para lá da Imitação.
Por outro lado, à luz do que referimos sobre o devir‐cavalo do pequeno Hans, também sabemos que a apreensão que ele tem do cavalo não é da ordem da representação. Pelo contrário, tal como vem descrito por Deleuze no livro Critique et Clinique, o pequeno Hans traça uma lista de afectos do cavalo e devem ‐cavalo nesse agenciamento com o animal, mapeando as forças que atravessam estes dois seres, ao mesmo tempo que o cavalo devem outra coisa. Usando as expressões do filósofo, a criança faz corpo com o cavalo, um corpo que como vimos é designado por corpo sem órgãos. Assim, tanto a percepção da criança tida como experiência directa (pré‐verbal e pré‐cognitiva), situada fora da consciência, como a sua experiência enquanto captura de forças inconscientes e irredutíveis a uma forma, podem ser consideradas para se entender a ideia de José Gil. Como foi anteriormente referido, ambos os processos situam‐se para lá do domínio da Imitação e do campo da representação e, consequentemente, também não se encontram na esfera da significação. Como tal, é possível estabelecer uma ponte entre o olhar das crianças e a Visão de Caeiro.
Antes da compreensão do cavalo enquanto imagem ou representação, existe um outro plano que permite à criança ter uma apreensão do animal totalmente distinta. Em vez de imitar o cavalo segundo um modelo, ao devir‐cavalo, Hans consegue apreendê‐lo na sua singularidade. Ora para Caeiro, ver as coisas é vê‐las na sua diferença e singularidade:
“Não é possível ver a coisa singular quando ela entra em relação com uma outra coisa; pois seria então vista através de uma significação.57”
Assim, como se pode ler nesta citação de José Gil, para apreender algo na sua diferença, é necessário que o poeta saia do campo da significação. Podemos realçar
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mais este aspecto, como sendo comum à visão de Caeiro e, por outro lado, o devir de Hans. A visão do poeta torna singular e diferente cada coisa vista:
“É como um limiar de intensidade máxima de «partes sem todo»: de movimentos singulares que se destacam e se distinguem uns dos outros, da «igualdade divergente das vendedeiras», das «cores que divergem mais que as coisas» (...) tudo diverge, tudo se diferencia no movimento cada vez mais rápido do surgimento das coisas58.”
A visão de Caeiro implica este movimento de diferenciação ou de singularização, a partir do qual, tal como é referido na citação, as cores passam a divergir mais do que as coisas. Isso significa que além do significado das coisas, é a forma das coisas, a forma segundo a figura, que entram num processo de dissolução para dar lugar a outra coisa. Esse movimento do olhar de Caeiro implica velocidade e intensidade, tal como no devir e tal como na concordância efetiva. Segundo Deleuze, trata‐se de dar lugar ao afecto ou, ainda, segundo Stern, às sensações internas tornando, assim, perceptível aquilo que seria parece imperceptível num outro plano. José Gil descreve a percepção de Caeiro, como tendo o poder de captar ínfimas perceções, detalhes ou pormenores que habitualmente, no domínio da forma, são imperceptíveis:
“A descrição da vista que mostra a intensificação de todos os elementos já referidos: ruídos, luzes, passos lentos, passos de corrida; outros movimentos surgem, «a oscilação dos padeiros, monstruoso de cesto»(...)59”
Esta descrição da visão de Caeiro, remete‐nos novamente para o movimento do devir do pequeno Hans, no qual o sujeito e as formas se dissolvem para poder captar partículas moleculares numa escala macroscópica e conectar com outras. Nos relatos de Stern, nomeadamente no Journal d´un bebé, um outro livro da sua autoria, aparece descrita uma experiência de um bebé contada na primeira pessoa. Nesse livro, Stern tentar colocar‐se na pele de um bebé para contar o que ele ressente ao longo dos seus dois primeiro anos de vida. Num desses relatos, Stern descreve a experiência de um bebé com algumas semanas, diante da apreensão de um reflexo do sol na parede do seu quarto. O bebé sente interesse e fascínio por esse reflexo que lhe aparece como um espetáculo de dança constituído por formas em movimento, brilho e intensidade de luzes. Apesar do bebé não percepcionar o reflexo do sol enquanto
58 GIL, J. (1999) : p. 21. 59 GIL, J. (1999): p. 21.
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representação, ele apreende as sensações e as forças que o percorrem. Assim, as descrições de José Gil, a propósito do olhar de Caeiro e da forma como este implica um movimento de individuação que faz com que surjam perceções ínfimas, podem claramente aproximar‐se das de Deleuze ou das de Stern quanto à percepção da criança enquanto experiência directa. Todas se situam para lá do domínio da Imitação, da forma, da representação e da significação.
A partir daqui, podemos voltar a considerar uma citação referida anteriormente, segundo a qual, José Gil considera Caeiro como aquele que possui a arte de viajar nas sensações, de devir‐outro e de se transformar. Recapitulando, a Ciência do Ver e do Sentir do poeta não é independente de um tornar‐se outro incessante. Aliás, é desta forma que o filósofo explica a criação dos outros heterónimos a partir do mestre Caeiro. Por sua vez, as ligações que foram estabelecidas a partir da percepção da criança, também remetem para a mesma ideia segundo a qual existe uma correlação entre a visão do poeta e o processo do devir. O movimento de individuação e de singularização presentes tanto no poeta como na criança, constituem‐se como um movimento de devir.
Além disso, como já referimos, para Caeiro, os significados das coisas são para ser desaprendidos. Como José Gil explica no seu livro Cansaço, Tédio, Desassossego, é necessário cortar o fio que liga os pensamentos, separando a coisa vista do seu significado ou do seu nome. Essa fragmentação do sentido implica um devir que irá romper com o domínio da significação. Por fim, podemos ainda assinalar um outro aspecto, a saber, a dissolução do sujeito Caeiro ou a não‐relação que ele estabelece com as coisas. Por exemplo, num poema seu, Caeiro refere o seu afecto por uma pedra como dependendo de uma não relação com ela:
“<Mas gosto dela por ser uma pedra, gosto dela porque ela não sente nada, gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo60>.”
Segundo José Gil, embora essa não‐relação possa parecer paradoxal, é ela que funda todo o processo de devir em Caeiro e que permite que o poeta se torne outro, se torne pedra, planta ou coisa natural: “A não –relação torna possível não uma
60 GIL, J. (1999): p. 28. (Reis, in Fernando Pessoa, Obra Poética e Prosa, Tomo I, Lello & Irmãos,
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relação de união, mas um processo de devir.61” Se, em vez disso, o poeta procurasse
atribuir um significado às coisas da natureza, projetando sentimentos e pensamentos, então, a sua relação com elas ficaria confinada ao domínio do eu‐ sujeito. Por todas estas razões podemos afirmar, por um lado, que a Ciência do Ver e do Sentir, tal como José Gil explica na sua análise, encontra‐se no plano do devir. E, pelas mesmas razões, é possível também dizer, por outro lado, que existe uma proximidade entre o olhar de Caeiro e o da criança. Porém, quanto a esta última ideia é necessário ainda explicar como é que o poeta consegue mergulhar na percepção de uma criança sem deixar de ser um adulto. Tal como podemos perceber através destes versos de Caeiro, citados no livro de José Gil, aquilo pelo qual o poeta anseia, não é voltar a ser criança, mas continuar a ser adulto e, ao mesmo tempo, poder coexistir com a Infância.
“Quem me dera, neste momento o sinto, ser alguém que pudesse ver isto como senão tivesse com ele mais relação que vê-lo, contemplar tudo como se fora o viajante adulto chegado à superfície da vida! Não ter aprendido, da nascença em diante, a dar sentidos dados a estas coisas todas, poder vê-las na expressão que tem separadamente da expressão que lhes foi imposta.62”
Como se pode verificar, paradoxalmente, Caeiro quer ser um viajante adulto com características de uma criança, tal como as que foram delineadas anteriormente. Assim, de acordo com esta passagem de Bernardo Soares, heterónimo de Fernando Pessoa, discípulo de Caeiro, deduz‐se que não se trata do poeta querer regressar à Infância, por exemplo, através das lembranças de quando era criança, mas de continuar a ser adulto e, simultaneamente, criança. Se se tratasse de um querer voltar a ser criança, então, seria possível supor que o poeta tivesse tentado realizar essa aspiração evocando memórias do tempo em que era criança. Consequentemente, ter‐se‐ia necessariamente que admitir um sujeito: o sujeito‐ Caeiro recordando o sujeito‐criança que fora. É sabido que a Ciência do Ver e do Sentir depende de um processo de devir e, portanto, da dissolução do sujeito. Além disso, aquilo que Caeiro pretende não é deixar de ser adulto mas, enquanto tal, aproximar‐se da experiência na Infância com o objectivo de por em prática a sua sabedoria. Se ele pudesse ser um adulto que nunca tivesse aprendido a dar sentido às
61 GIL, J. (1999): p. 28.
62 GIL, J. (1999) : p.22 (in Bernardo Soares, Livro do Desassossego, I, Ática, Lisboa, 1982, pp.90-
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coisas, então, facilmente poderia ver as coisas tal como são, independentemente do seu significado. Isso implica, por um lado, que o adulto‐Caeiro e a criança‐Caeiro possam coexistir, i. e., uma simultaneidade. E, por outro lado, uma mistura, como se já não se pudessem mais distinguir um do outro.
Reconhecemos que uma criança e um adulto tendo tempos de vida diferente encontram‐se à partida separados por essa característica, a da idade. Primeiro é‐se criança e só depois é que alguém pode tornar‐se um adulto. Sendo que o tempo segundo cronos é sequencial, jamais um adulto poderá voltar a ser criança). Assim, apesar de termos verificado alguns aspectos comuns à visão de Caeiro e à percepção das crianças, segundo o que foi analisado nos capítulos anteriores, para dar conta da ideia apresentada na passagem de Bernardo Soares, heterónimo de Fernando Pessoa, acima referida, é necessário reunir as condições que possibilitem uma coexistência, uma mistura, em último caso, a criação de uma zona de indiscernibilidade entre um e outro. E, para além disso, a possibilidade da criança poder ser apreendida independentemente da sua idade, o que à partida parece contraditório.
Supondo ainda outra hipótese, a saber, Caeiro querendo ser igual a uma criança, imitando‐a. Nesse caso, como a imitação depende de um processo cognitivo consciente e o devir‐cavalo da criança e a concordância afectiva nos bebés estão ligados à experiência directa, pré‐cognitiva e inconsciente, ela não serve para explicar o fenómeno que faz Caeiro mergulhar na Infância. Não se trata de imitar a criança.
Na sua análise, José Gil, assinala a possibilidade dos adultos poderem usar um certo pensamento ligado à Infância: “Como se houvesse um pensamento infantil a ser usado – também - pelos adultos63”. Esta ideia conduz-nos a considerar a outra hipótese, a
partir da qual poderíamos pensar na ligação entre o adulto Caeiro e a Infância, não mais segundo a esfera da Imitação, mas segundo um processo de devir. Ao deixarem-se afectar ou contagiar por um pensamento “infantil”, os adultos entrariam numa linha de devir na qual se encontrariam com a criança. Confirmando-se esta possibilidade, já se poderia admitir uma coexistência entre os dois. Em seguida, iremos considerar algumas passagens do livro Mille Plateaux nas quais Deleuze escreve sobre a criança, nomeadamente o devir- criança.
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3.2 O devir-criança em Deleuze e o devir-criança de Caeiro
Tal como não se trata da rapariga se tornar uma mulher, como vimos no capítulo dois, Deleuze afirma a possibilidade da criança poder ser apreendida sem ser segundo uma evolução na direcção do adulto: “L´enfant ne devient pas adulte, pas plus que la jeune fille ne devient femme 64.” Por outro lado, como já foi referido no segundo capítulo a propósito da ideia da produção de um corpo sem órgãos, tanto a rapariga como a criança extraem as suas forças de um devir–molecular. Neste sentido, seria através da produção de uma linha de partículas moleculares que a criança poderia adquirir o poder de ser outro, como acontece durante as suas brincadeiras.
“Savoir vieillir n´est pas rester jeune, c´est extraire de son âge les particules, les vitesses et lenteurs, les flux qui constituent la jeunesse de cet âge 65”
Independentemente da idade, é sempre possível extrair as forças que são relativas à criança, i. e., produzir um ser molecular que irá conectar-se com as partículas da criança. Em consequência, o devir-criança pressupõe uma ideia de Infância como estando situada para lá do tempo cronológico, independente da idade e, igualmente fora do âmbito da Imitação.
Regressando à análise sobre a poesia de Alberto Caeiro, todas as aproximações que estabelecemos entre a visão do poeta e a experiência da criança, tornam-se agora exequíveis, de maneira a poder fazer coexistir o adulto-poeta com uma certa ideia de Infância. Tendo em conta o conceito de devir-criança em Deleuze e com o objectivo de Caeiro conseguir ver as coisas numa não-relação, ou seja, para que possa ser o viajante adulto chegado à superfície da terra e para que não tenha que desaprender todos os