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A PPENDIX D1: N OTE FROM THE N ORWEGIAN R ADIATION P ROTECTION A UTHORITIES

16. APPENDIX D: RADIATION PROTECTION

16.1 A PPENDIX D1: N OTE FROM THE N ORWEGIAN R ADIATION P ROTECTION A UTHORITIES

3º CAPÍTULO: O DEVIR–CRIANÇA

Procuro despir–me do que aprendi Procuro esquecer-me do medo de lembrar que me ensinaram E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, Desembrulhar–me e ser eu, não Alberto Caeiro, Mas um animal humano que a Natureza produziu.50

Neste
capítulo,
será
efectuado
o
seguimento
à
nossa
análise
sobre
o

fenómeno
 do
devir
para
especificar
o
conceito
de
devir‐criança.
Além
dos
devires
que
já
foram
 assinalados,
 como
 o
 devir‐animal,
 o
 devir‐mulher,
 o
 devir‐molecular
 ou
 o
 devir– imperceptível,
 Deleuze
 reporta‐se,
 ainda,
 a
 um
 outro,
 o
 devir‐criança.
 Antes
 de
 analisarmos
 o
 devir‐criança,
 tal
 como
 ele
 vem
 descrito
 pelo
 filósofo,
 em
 Mille
 Plateaux,
 iremos
 debruçar‐nos
 sobre
 um
 devir‐criança
 muito
 particular,
 o
 do
 poeta
 Alberto
 Caeiro.
 Seguindo
 a
 análise
 de
 José
 Gil
 a
 respeito
 da
 escrita
 do
 poeta,
 tentaremos
 perceber
 em
 que
 medida
 é
 que
 o
 poder
 de
 se
 tornar
 outro
 de
 Caeiro,
 depende
dum
mergulho
na
Infância.
Por
fim,
será
tido
em
conta
não
apenas
estes
dois
 autores,
 como
 aquilo
 que
 foi
 referido
 sobre
 os
 estudos
 de
 Daniel
 Stern
 e
 a
 concordância.


3.1 Aproximação da Visão de Caeiro à criança segundo José Gil

Alberto
 Caeiro
 é
 o
 mestre
 dos
 outros
 heterónimos
 de
 Fernando
 Pessoa
 porque,
segundo
José
Gil,
é
o
único
que
possui
a
,
ciência
do
“ver”,

isto
é
aquela
que
 lhe
permite
olhar
para
as
coisas
como
elas
são,
na
sua
pureza
e
sem
artifícios:


55 “Ver as coisas como elas são, é vê-las despojadas das significações com que a cultura e as civilizações as vestiram. É vê-las nuas, ou seja, na sua existência pura51.”

A
 partir
 desta
 citação
 do
 filósofo
 José
 Gil,
 percebe‐se
 que
 são
 os
 significados
 que
atribuímos
às
coisas,
oriundos
da
cultura,
que
não
nos
deixam
ver
como
o
poeta.
 Portanto,
qualquer
outra
pessoa
(que
não
Caeiro)
para
conseguir
ver
necessita,
como
 o
 próprio
 refere,
 de
 aprender
 a
 ver.
 É
 necessário
 desaprender
 aqueles
 significados
 que
lhe
foram
incutidos
através
da
sua
educação,
dos
valores
culturais
do
seu
país,
da
 civilização
em
que
se
encontra,
etc.
Caeiro
seria
o
único
que,
através
da
sua
mestria,
 conseguiria
olhar
para
a
Natureza
sem
lhe
atribuir
um
significado.



Segundo
 a
 análise
 de
 José
 Gil,
 quando
 começamos
 a
 projetar
 na
 Natureza
 os
 nossos
 pensamentos
 e
 os
 nossos
 sentimentos
 deixamos
 de
 a
 ver
 como
 ela
 é
 verdadeiramente
 e
 tornamo‐nos
 doentes
 dos
 olhos.
 Assim
 que
 começamos
 a
 tentar
 encontrar
na
natureza
algum
mistério,
entramos
numa
busca
de
sentido
para
a
qual
 não
há
fim.



“O mistério da Natureza volta-se contra aquele que pensa. Esta espécie de hemorragia do sentido que atinge os poetas “místicos” e os “filósofos” testemunha a perda do verdadeiro sentido e da verdadeira existência: a Natureza não tem sentido, apenas existe, e todo o seu sentido se esgota na sua visibilidade. A doença metafísica contém todo o mal do mundo: buscamos incessantemente o sentido último do mistério (e buscar já é uma doença) (...)52.”

Um
 sentido
 reenvia
 para
 outro
 e
 assim
 incessantemente,
 de
 maneira
 que,
 ao
 tentarmos
 atribuir
 algum
 significado
 à
 Natureza,
 acabamos
 por
 esquivar
 o
 seu
 verdadeiro
significado
que
é
o
de
não
ter
nenhum.
As
coisas
não
têm
significação,
têm
 existência,
 como
 diz
 o
 poeta.
 A
 sua
 visão
 faria
 aparecer
 as
 coisas
 tal
 qual
 são,
 i.
 e.,
 existindo
apenas.
Para
isso,
afirma o filósofo, é necessário cortar o fio contínuo que liga os pensamentos, i. e., fragmentar o sentido das coisas, separando-o da coisa vista.

“Trata-se pois: 1. De quebrar esse fluxo contínuo de pensamentos para que o significado de uma coisa não remeta para outro significado, e mais outros, indefinidamente53”.

A ciência do “ver” de Caeiro depende, assim, de uma “técnica” ou de uma operação que ao isolar a coisa vista do seu sentido, permite ao poeta desfazer-se de tudo o que aprendeu.
 51 GIL, J. (2008): p. 23. 52 GIL, J. (2013): p. 14. 53 GIL, J. (2013): p. 23.

56


No
 seu
 livro,
 Diferença
 e
 Negação
 na
 Poesia
 de
 Fernando
 Pessoa,
 José
 Gil
 refere‐se
 à
 mestria
 de
 Caeiro,
 designando‐a
 por
 Ciência
 “do
Ver”
 e,
 num
 outro
 livro
 seu,
 escrito
 mais
 recentemente,
 Cansaço,
Tédio,
Desassossego,
 por
 Ciência
 “do
 Ver
 e
 do
Sentir”.
Através
desta
última
designação,
ficamos
a
perceber
que
a
visão
do
poeta
 é
 indissociável
 da
 uma
 certa
 de
 maneira
 de
 sentir
 e
 de
 viver.
 “(...)
 no
 facto
 de
 ele
 possuir
 a
 ciência
 “do
 ver
 e
 do
 sentir”.
 Não
 apenas
 a
 ciência,
 mas
 a
 prática,
 a
 concretização
dessa
doutrina
num
modo
de
fisicamente,
ser
e
viver.(...)54.”
De
acordo


com
 esta
 citação,
 trata‐se
 de
 uma
 ciência
 que
 tem
 a
 particularidade
 de
 se
 traduzir
 numa
 prática
 efetiva
 relacionada
 com
 a
 própria
 existência.
 É
 sem
 dúvida
 essa
 razão
 que
 faz
 de
 Caeiro
 o
Argonauta
das
sensações
verdadeiras,
 aquele
 que
 sente
 tudo
 de
 todas
as
maneias:


“Ele viaja e conhece a arte de viajar nas sensações, de devir-outro, de se metamorfosear, de viver a multiplicidade das sensações, e desta maneira produzir heterónimos (...)55”

Através
desta
nova
referência
do
livro
de
José
Gil,
percebemos
que
a
Ciência
do
 Ver
e
do
Sentir
está
associada
à
arte
de
viajar
nas
sensações
mediante
um
devir‐outro.
 Logo,
existe
uma
correlação
entre
a
mestria
de
Caeiro
e
o
fenómeno
do
Devir.
Trata‐ se
 de
 analisar
 o
 processo
 do
 devir‐outro
 do
 poeta,
 afim
 de
 justificar
 como
 é
 que
 ao
 devir‐outro,
ele
adquire
o
poder
de
ver
as
coisas
tal
qual
são
ou,
ainda,
como
o
autor
 o
diz,
na
sua
existência
pura.


Para
começar
a
refletir
sobre
esta
questão,
consideremos
uma
outra
ideia
que
 está
 presente
 na
 análise
 de
 José
 Gil,
 segundo
 a
 qual,
 seria
 possível
 estabelecer
 uma
 aproximação
entre
o
olhar
do
poeta
e
o
das
crianças.



“Aprender a desaprender, como escreve Caeiro, para se ter acesso a uma visão espontânea e natural. Isso não equivaleria, de algum modo, a retornar à infância, à frescura e à ingenuidade primeiras do olhar infantil?56


De
acordo
com
o
filósofo,
o
olhar
de
Caeiro
despojado
de
significação
e
a
visão
 das
crianças,
poderiam
ter
algo
em
comum.
Vejamos
mediante
as
análises
anteriores
 de
que
maneira
poderíamos
estabelecer
essa
proximidade.
De
facto,
se
levarmos
em
 conta
 os
 estudos
 de
 Daniel
 Stern,
 sabemos
 que
 as
 crianças
 têm
 uma
 apreensão
 do
 mundo
 muito
 singular,
 ainda
 que
 não
 o
 percebam
 quanto
 à
 sua
 significação.
 Por


54

GIL, J. (2013): p. 13.

55 GIL, J. (1999): p. 84. 56 GIL, J. (1999): p. 21.

57

exemplo,
 quando
 uma
 mãe
 diz
 para
 o
 seu
 bebé,
 meu
querido!,
 embora
 o
 significado
 das
 suas
 palavras
 não
 seja
 acessível
 para
 ele,
 ele
 é
 sensível
 ao
 modo
 como
 o
 som
 delas
 ecoa
 nele
 e
 acolhe
 a
 sua
 vibração
 ou
 a
 sua
 tonalidade
 afectiva.
 O
 processo
 de
 concordância
 afectiva
 permite‐nos,
 assim,
 considerar
 a
 hipótese
 de
 haver
 algo
 que
 liga
a
visão
de
Caeiro,
desprovida
de
significação,
à
da
criança.
Nesse
caso,
o
olhar
de
 Caeiro
estaria
situado
no
mesmo
plano
que
a
percepção
amodal
dos
bebés,
i.
e.,
para
 lá
da
Imitação.



Por
outro
lado,
à
luz
do
que
referimos
sobre
o
devir‐cavalo
do
pequeno
Hans,
 também
 sabemos
 que
 a
 apreensão
 que
 ele
 tem
 do
 cavalo
 não
 é
 da
 ordem
 da
 representação.
Pelo
contrário,
tal
como
vem
descrito
por
Deleuze
no
livro
Critique
et
 Clinique,
o
pequeno
Hans
traça
uma
lista
de
afectos
do
cavalo
e
devem
‐cavalo
nesse
 agenciamento
com
o
animal,
mapeando
as
forças
que
atravessam
estes
dois
seres,
ao
 mesmo
 tempo
 que
 o
 cavalo
 devem
 outra
 coisa.
 Usando
 as
 expressões
 do
 filósofo,
 a
 criança
faz
corpo
com
o
cavalo,
um
corpo
que
como
vimos
é
designado
por
corpo
sem
 órgãos.
Assim,
tanto
a
percepção
da
criança
tida
como
experiência
directa
(pré‐verbal
 e
 pré‐cognitiva),
 situada
 fora
 da
 consciência,
 como
 a
 sua
 experiência
 enquanto
 captura
de
forças
inconscientes
e
irredutíveis
a
uma
forma,
podem
ser
consideradas
 para
 se
 entender
 a
 ideia
 de
 José
 Gil.
 Como
 foi
 anteriormente
 referido,
 ambos
 os
 processos
situam‐se
para
lá
do
domínio
da
Imitação
e
do
campo
da
representação
e,
 consequentemente,
também
não
se
encontram
na
esfera
da
significação.
Como
tal,
é
 possível
estabelecer
uma
ponte
entre
o
olhar
das
crianças
e
a
Visão
de
Caeiro.



Antes
 da
 compreensão
 do
 cavalo
 enquanto
 imagem
 ou
 representação,
 existe
 um
 outro
 plano
 que
 permite
 à
 criança
 ter
 uma
 apreensão
 do
 animal
 totalmente
 distinta.
 Em
 vez
 de
 imitar
 o
 cavalo
 segundo
 um
 modelo,
 ao
 devir‐cavalo,
 Hans
 consegue
apreendê‐lo
na
sua
singularidade.
Ora
para
Caeiro,
ver
as
coisas
é
vê‐las
na
 sua
diferença
e
singularidade:



“Não é possível ver a coisa singular quando ela entra em relação com uma outra coisa; pois seria então vista através de uma significação.57

Assim,
como
se
pode
ler
nesta
citação
de
José
Gil,
para
apreender
algo
na
sua
 diferença,
 é
 necessário
 que
 o
 poeta
 saia
 do
 campo
 da
 significação.
 Podemos
 realçar


58

mais
este
aspecto,
como
sendo
comum
à
visão
de
Caeiro
e,
por
outro
lado,
o
devir
de
 Hans.
A
visão
do
poeta
torna
singular
e
diferente
cada
coisa
vista:



“É como um limiar de intensidade máxima de «partes sem todo»: de movimentos singulares que se destacam e se distinguem uns dos outros, da «igualdade divergente das vendedeiras», das «cores que divergem mais que as coisas» (...) tudo diverge, tudo se diferencia no movimento cada vez mais rápido do surgimento das coisas58.”

A
 visão
 de
 Caeiro
 implica
 este
 movimento
 de
 diferenciação
 ou
 de
 singularização,
 a
 partir
 do
 qual,
 tal
 como
 é
 referido
 na
 citação,
 as
 cores
 passam
 a
 divergir
 mais
 do
 que
 as
 coisas.
 Isso
 significa
 que
 além
 do
 significado
 das
 coisas,
 é
 a
 forma
das
coisas,
a
forma
segundo
a
figura,
que
entram
num
processo
de
dissolução
 para
dar
lugar
a
outra
coisa.
Esse
movimento
do
olhar
de
Caeiro
implica
velocidade
e
 intensidade,
tal
como
no
devir
e
tal
como
na
concordância
efetiva.
Segundo
Deleuze,
 trata‐se
 de
 dar
 lugar
 ao
 afecto
 ou,
 ainda,
 segundo
 Stern,
 às
 sensações
 internas
 tornando,
assim,
perceptível
aquilo
que
seria
parece
imperceptível
num
outro
plano.

 
José
Gil
descreve
a
percepção
de
Caeiro,
como
tendo
o
poder
de
captar
ínfimas
 perceções,
 detalhes
 ou
 pormenores
 que
 habitualmente,
 no
 domínio
 da
 forma,
 são
 imperceptíveis:


“A descrição da vista que mostra a intensificação de todos os elementos já referidos: ruídos, luzes, passos lentos, passos de corrida; outros movimentos surgem, «a oscilação dos padeiros, monstruoso de cesto»(...)59

Esta
 descrição
 da
 visão
 de
 Caeiro,
 remete‐nos
 novamente
 para
 o
 movimento
 do
 devir
 do
 pequeno
 Hans,
 no
 qual
 o
 sujeito
 e
 as
 formas
 se
 dissolvem
 para
 poder
 captar
partículas
moleculares
numa
escala
macroscópica
e
conectar
com
outras.
Nos
 relatos
de
Stern,
nomeadamente
no
Journal
d´un
bebé,
um
outro
livro
da
sua
autoria,
 aparece
 descrita
 uma
 experiência
 de
 um
 bebé
 contada
 na
 primeira
 pessoa.
 Nesse
 livro,
 Stern
 tentar
 colocar‐se
 na
 pele
 de
 um
 bebé
 para
 contar
 o
 que
 ele
 ressente
 ao
 longo
 dos
 seus
 dois
 primeiro
 anos
 de
 vida.
 Num
 desses
 relatos,
 Stern
 descreve
 a
 experiência
de
um
bebé
com
algumas
semanas,
diante
da
apreensão
de
um
reflexo
do
 sol
na
parede
do
seu
quarto.
O
bebé
sente
interesse
e
fascínio
por
esse
reflexo
que
lhe
 aparece
como
um
espetáculo
de
dança
constituído
por
formas
em
movimento,
brilho
 e
 intensidade
 de
 luzes.
 Apesar
 do
 bebé
 não
 percepcionar
 o
 reflexo
 do
 sol
 enquanto


58 GIL, J. (1999) : p. 21. 59 GIL, J. (1999): p. 21.

59

representação,
 ele
 apreende
 as
 sensações
 e
 as
 forças
 que
 o
 percorrem.
 Assim,
 as
 descrições
 de
 José
 Gil,
 a
 propósito
 do
 olhar
 de
 Caeiro
 e
 da
 forma
 como
 este
 implica
 um
 movimento
 de
 individuação
 que
 faz
 com
 que
 surjam
 perceções
 ínfimas,
 podem
 claramente
 aproximar‐se
 das
 de
 Deleuze
 ou
 das
 de
 Stern
 quanto
 à
 percepção
 da
 criança
 enquanto
 experiência
 directa.
 Todas
 se
 situam
 para
 lá
 do
 domínio
 da
 Imitação,
da
forma,
da
representação
e
da
significação.



A
 partir
 daqui,
 podemos
 voltar
 a
 considerar
 uma
 citação
 referida
 anteriormente,
 segundo
 a
 qual,
 José
 Gil
 considera
 Caeiro
 como
 aquele
 que
 possui
 a
 arte
 de
 viajar
 nas
 sensações,
 de
 devir‐outro
 e
 de
 se
 transformar.
 
 Recapitulando,
 a
 Ciência
 do
 Ver
 e
 do
 Sentir
 do
 poeta
 não
 é
 independente
 de
 um
 tornar‐se
 outro
 incessante.
 Aliás,
 é
 desta
 forma
 que
 o
 filósofo
 explica
 a
 criação
 dos
 outros
 heterónimos
 a
 partir
 do
 mestre
 Caeiro.
 Por
 sua
 vez,
 as
 ligações
 que
 foram
 estabelecidas
a
partir
da
percepção
da
criança,
também
remetem
para
a
mesma
ideia
 segundo
a
qual
existe
uma
correlação
entre
a
visão
do
poeta
e
o
processo
do
devir.
O
 movimento
 de
 individuação
 e
 de
 singularização
 presentes
 tanto
 no
 poeta
 como
 na
 criança,
constituem‐se
como
um
movimento
de
devir.



Além
disso,
como
já
referimos,
para
Caeiro,
os
significados
das
coisas
são
para
 ser
desaprendidos.
Como
José
Gil
explica
no
seu
livro
Cansaço,
Tédio,
Desassossego,
é
 necessário
 cortar
 o
 fio
 que
 liga
 os
 pensamentos,
 separando
 a
 coisa
 vista
 do
 seu
 significado
ou
do
seu
nome.
Essa
fragmentação
do
sentido
implica
um
devir
que
irá
 romper
 com
 o
 domínio
 da
 significação.
 Por
 fim,
 podemos
 ainda
 assinalar
 um
 outro
 aspecto,
 a
 saber,
 a
 dissolução
 do
 sujeito
 Caeiro
 ou
 a
 não‐relação
 que
 ele
 estabelece
 com
 as
 coisas.
 Por
 exemplo,
 num
 poema
 seu,
 Caeiro
 refere
 o
 seu
 afecto
 por
 uma
 pedra
como
dependendo
de
uma
não
relação
com
ela:



“<Mas gosto dela por ser uma pedra, gosto dela porque ela não sente nada, gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo60>.”

Segundo
José
Gil,
embora
essa
não‐relação
possa
parecer
paradoxal,
é
ela
que
 funda
todo
o
processo
de
devir
em
Caeiro
e
que
permite
que
o
poeta
se
torne
outro,
 se
 torne
 pedra,
 planta
 ou
 coisa
 natural:
 “A
 não
 –relação
 torna
 possível
 não
 uma


60 GIL, J. (1999): p. 28. (Reis, in Fernando Pessoa, Obra Poética e Prosa, Tomo I, Lello & Irmãos,

60

relação
de
união,
mas
um
processo
de
devir.61”
Se,
em
vez
disso,
o
poeta
procurasse


atribuir
 um
 significado
 às
 coisas
 da
 natureza,
 projetando
 sentimentos
 e
 pensamentos,
 então,
 a
 sua
 relação
 com
 elas
 ficaria
 confinada
 ao
 domínio
 do
 eu‐ sujeito.
Por
todas
estas
razões
podemos
afirmar,
por
um
lado,
que
a
Ciência
do
Ver
e
 do
Sentir,
 tal
 como
 José
 Gil
 explica
 na
 sua
 análise,
 encontra‐se
 no
 plano
 do
 devir.
 E,
 pelas
 mesmas
 razões,
 é
 possível
 também
 dizer,
 por
 outro
 lado,
 que
 existe
 uma
 proximidade
entre
o
olhar
de
Caeiro
e
o
da
criança.
Porém,
quanto
a
esta
última
ideia
 é
necessário
ainda
explicar
como
é
que
o
poeta
consegue
mergulhar
na
percepção
de
 uma
criança
sem
deixar
de
ser
um
adulto.

 
Tal
como
podemos
perceber
através
destes
versos
de
Caeiro,
citados
no
livro
 de
José
Gil,
aquilo
pelo
qual
o
poeta
anseia,
não
é
voltar
a
ser
criança,
mas
continuar
a
 ser
adulto
e,
ao
mesmo
tempo,
poder
coexistir
com
a
Infância.



“Quem me dera, neste momento o sinto, ser alguém que pudesse ver isto como senão tivesse com ele mais relação que vê-lo, contemplar tudo como se fora o viajante adulto chegado à superfície da vida! Não ter aprendido, da nascença em diante, a dar sentidos dados a estas coisas todas, poder vê-las na expressão que tem separadamente da expressão que lhes foi imposta.62

Como
 se
 pode
 verificar,
 paradoxalmente,
 Caeiro
 quer
 ser
 um
 viajante
 adulto
 com
características
de
uma
criança,
tal
como
as
que
foram
delineadas
anteriormente.
 Assim,
 de
 acordo
 com
 esta
 passagem
 de
 Bernardo
 Soares,
 heterónimo
 de
 Fernando
 Pessoa,
 discípulo
 de
 Caeiro,
 deduz‐se
 que
 não
 se
 trata
 do
 poeta
 querer
 regressar
 à
 Infância,
 por
 exemplo,
 através
 das
 lembranças
 de
 quando
 era
 criança,
 mas
 de
 continuar
 a
 ser
 adulto
 e,
 simultaneamente,
 criança.
 Se
 se
 tratasse
 de
 um
 querer
 voltar
a
ser
criança,
então,
seria
possível
supor
que
o
poeta
tivesse
tentado
realizar
 essa
 aspiração
 evocando
 memórias
 do
 tempo
 em
 que
 era
 criança.
 Consequentemente,
 ter‐se‐ia
 necessariamente
 que
 admitir
 um
 sujeito:
 o
 sujeito‐ Caeiro
 recordando
 o
 sujeito‐criança
 que
 fora.
 É
 sabido
 que
 a
 Ciência
 do
 Ver
 e
 do
 Sentir
 depende
 de
 um
 processo
 de
 devir
 e,
 portanto,
 da
 dissolução
 do
 sujeito.
 Além
 disso,
 aquilo
 que
 Caeiro
 pretende
 não
 é
 deixar
 de
 ser
 adulto
 mas,
 enquanto
 tal,
 aproximar‐se
 da
 experiência
 na
 Infância
 com
 o
 objectivo
 de
 por
 em
 prática
 a
 sua
 sabedoria.
Se
ele
pudesse
ser
um
adulto
que
nunca
tivesse
aprendido
a
dar
sentido
às


61 GIL, J. (1999): p. 28.

62 GIL, J. (1999) : p.22 (in Bernardo Soares, Livro do Desassossego, I, Ática, Lisboa, 1982, pp.90-

61

coisas,
 então,
 facilmente
 poderia
 ver
 as
 coisas
 tal
 como
 são,
 independentemente
 do
 seu
 significado.
 Isso
 implica,
 por
 um
 lado,
 que
 o
 adulto‐Caeiro
 e
 a
 criança‐Caeiro
 possam
coexistir,
i.
e.,
uma
simultaneidade.
E,
por
outro
lado,
uma
mistura,
como
se
 já
não
se
pudessem
mais
distinguir
um
do
outro.



Reconhecemos
que
uma
criança
e
um
adulto
tendo
tempos
de
vida
diferente
 encontram‐se
 à
 partida
 separados
 por
 essa
 característica,
 a
 da
 idade.
 Primeiro
 é‐se
 criança
 e
 só
 depois
 é
 que
 alguém
 pode
 tornar‐se
 um
 adulto.
 Sendo
 que
 o
 tempo
 segundo
 cronos
 é
 sequencial,
 jamais
 um
 adulto
 poderá
 voltar
 a
 ser
 criança).
 Assim,
 apesar
de
termos
verificado
alguns
aspectos
comuns
à
visão
de
Caeiro
e
à
percepção
 das
crianças,
segundo
o
que
foi
analisado
nos
capítulos
anteriores,
para
dar
conta
da
 ideia
apresentada
na
passagem
de
Bernardo
Soares,
heterónimo
de
Fernando
Pessoa,
 acima
 referida,
 é
 necessário
 reunir
 as
 condições
 que
 possibilitem
 uma
 coexistência,
 uma
mistura,
em
último
caso,
a
criação
de
uma
zona
de
indiscernibilidade
entre
um
e
 outro.
 E,
 para
 além
 disso,
 a
 possibilidade
 da
 criança
 poder
 ser
 apreendida
 independentemente
da
sua
idade,
o
que
à
partida
parece
contraditório.



Supondo
 ainda
 outra
 hipótese,
 a
 saber,
 Caeiro
 querendo
 ser
 igual
 a
 uma
 criança,
imitando‐a.
Nesse
caso,
como
a
imitação
depende
de
um
processo
cognitivo
 consciente
 e
 o
 devir‐cavalo
 da
 criança
 e
 a
 concordância
 afectiva
 nos
 bebés
 estão
 ligados
à
experiência
directa,
pré‐cognitiva
e
inconsciente,
ela
não
serve
para
explicar
 o
fenómeno
que
faz
Caeiro
mergulhar
na
Infância.
Não
se
trata
de
imitar
a
criança.



Na sua análise, José Gil, assinala a possibilidade dos adultos poderem usar um certo pensamento ligado à Infância: “Como se houvesse um pensamento infantil a ser usado – também - pelos adultos63”. Esta ideia conduz-nos a considerar a outra hipótese, a

partir da qual poderíamos pensar na ligação entre o adulto Caeiro e a Infância, não mais segundo a esfera da Imitação, mas segundo um processo de devir. Ao deixarem-se afectar ou contagiar por um pensamento “infantil”, os adultos entrariam numa linha de devir na qual se encontrariam com a criança. Confirmando-se esta possibilidade, já se poderia admitir uma coexistência entre os dois. Em seguida, iremos considerar algumas passagens do livro Mille Plateaux nas quais Deleuze escreve sobre a criança, nomeadamente o devir- criança.

62

3.2 O devir-criança em Deleuze e o devir-criança de Caeiro

Tal como não se trata da rapariga se tornar uma mulher, como vimos no capítulo dois, Deleuze afirma a possibilidade da criança poder ser apreendida sem ser segundo uma evolução na direcção do adulto: “L´enfant ne devient pas adulte, pas plus que la jeune fille ne devient femme 64.” Por outro lado, como já foi referido no segundo capítulo a propósito da ideia da produção de um corpo sem órgãos, tanto a rapariga como a criança extraem as suas forças de um devir–molecular. Neste sentido, seria através da produção de uma linha de partículas moleculares que a criança poderia adquirir o poder de ser outro, como acontece durante as suas brincadeiras.

“Savoir vieillir n´est pas rester jeune, c´est extraire de son âge les particules, les vitesses et lenteurs, les flux qui constituent la jeunesse de cet âge 65”

Independentemente da idade, é sempre possível extrair as forças que são relativas à criança, i. e., produzir um ser molecular que irá conectar-se com as partículas da criança. Em consequência, o devir-criança pressupõe uma ideia de Infância como estando situada para lá do tempo cronológico, independente da idade e, igualmente fora do âmbito da Imitação.

Regressando à análise sobre a poesia de Alberto Caeiro, todas as aproximações que estabelecemos entre a visão do poeta e a experiência da criança, tornam-se agora exequíveis, de maneira a poder fazer coexistir o adulto-poeta com uma certa ideia de Infância. Tendo em conta o conceito de devir-criança em Deleuze e com o objectivo de Caeiro conseguir ver as coisas numa não-relação, ou seja, para que possa ser o viajante adulto chegado à superfície da terra e para que não tenha que desaprender todos os