Deleuze intitulou “Souvenirs à un spinoziste, I”, o parágrafo em que é esclarecida uma definição relativa ao corpo muito diferente de todas as conceções tradicionais da filosofia. Partindo da forma extraordinária como Espinosa apreendeu o corpo, Deleuze extrai algumas noções para conceptualizar um corpo do devir. Nesse mesmo parágrafo estabelece-se um outro devir, o devir-cavalo do pequeno Hans, referindo–se a um caso bem conhecido da psicanálise segundo Freud. Assim, a partir de uma leitura deste parágrafo, iremos tentar não apenas responder às questões que foram levantadas acerca da condição de possibilidade de se definir um corpo sem sujeito, sem forma, sem órgãos e sem caracteres e de como nos podemos aproximar da noção de devir– criança.
Segundo Espinosa, importa considerar duas dimensões do corpo, por um lado, a sua longitude e a sua latitude, i. e., as relações de movimento e repouso, velocidade e lentidão entre elementos sem forma, moléculas e partículas e, por outro lado, os afectos ou o grau de potência. Vejamos melhor em que é que consiste cada uma destas dimensões e como se define um corpo que vai implicar a dissolução do sujeito e da forma.
“Mais Spinoza procède radicalement: arriver à des éléments qui n´ont plus de forme ni de fonction, qui sont parfaitement abstraits en ce sens, bien qu´ils soient parfaitement réels. Ils se distinguent seulement par le mouvement et le repos, la lenteur et la vitesse24. »
Nesta citação, Deleuze refere–se à apreensão levada a cabo por Espinosa, segundo a qual, os elementos só se distinguem pelo movimento e pela velocidade da qual decorre uma ideia do corpo que é diferente daquela que é dada pela determinação das suas funções e dos seus órgãos. Com efeito, a questão passa a ser a da velocidade, ou seja, a rapidez das partículas. Segundo o livro Ética, de Espinosa, não se trata de átomos nem de elementos finitos dotados de uma qualquer forma, mas de elementos procedendo sempre por infinidades, irredutíveis, situados num plano de composição ou plano de Imanência.
“Plan fixe, où les choses ne se distinguent que par la vitesse et la lenteur. Plan d´immanence ou d´univocité, qui s´oppose à l´analogie. L´Un se dit en un Seul et même sens, de tout le multiple, l´Être se dit en un Seul et même sens de tout ce qui diffère25.”
24 DELEUZE, G. GUATTARI, F. (1980): p. 310. DELEUZE, G.; GUATTARI, F. (1997): p. 33.
Trad.: “Mas Espinosa procede radicalmente: chegar a elementos que não têm mais nem forma nem função, que são portanto abstractos nesse sentido, embora sejam perfeitamente reais. Distinguem-se apenas pelo movimento e o repouso, a lentidão e a velocidade”.
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Nesse plano definido por Espinosa, o uno diz-se da multiplicidade e o ser diz–se da diferença. É o plano da diferença e do diferente em si no qual se vão operar individuações, tais como acontece no devir-mulher ou no devir-animal. A análise realizada anteriormente sobre o conceito de devir-animal em Deleuze, só faz sentido se for entendida nesse plano: o animal diz–se de uma multiplicidade, o homem devém-animal e não o imita. Eis que uma nova condição do devir se define mediante uma captação dos elementos segundo o movimento – movimentam-se com suficiente rapidez para operar um devir. Esta situação, abre-nos para uma nova definição do corpo.
Embora Espinosa não se refira ao conceito de devir, mas sim à latitude e à longitude de um corpo, podemos pensar que Deleuze encontra-se com Espinosa no ponto em que um corpo devém: é necessário anular os órgãos para libertar novos elementos que ao conectar–se suficientemente rápido com elementos vizinhos, operam um devir:
“La question est celle, des éléments et particules, qui arriveront assez vite pour opérer un passage, un devenir ou un saut sur un même plan d´immanence pure26”.
Assim sendo, podemos afirmar que o devir implica velocidade de passagem entre os extratos, maior e menor, homem e mulher, homem e animal, criança e animal, i. e., velocidade de passagem pelo meio. Simultaneamente, dizemos que o corpo do devir, ao contrário do corpo segundo um conjunto de órgãos e funções, reenvia para a diferença. Essa diferença é dada por uma variação constante, uma transformação constante dos órgãos.
“Les enfants sont spinozistes. Lorsque Hans parle d´un « fait–pipi », ce n´est pas un organe ni une fonction organique, c´est d´abord un matériau, c´est-à-dire un ensemble d´éléments qui varie d´après ses connexions, ses rapports de mouvement et de repos, les divers agencements individués où il entre27."
A variação dada pela relação do movimento dos elementos define, assim, uma certa plasticidade do corpo, i. e. a propriedade de se tornar incessantemente outro. Deste modo, deixa-se de percepcionar o corpo como um conjunto de órgãos com uma
25 DELEUZE, G. GUATTARI, F. (1980): p. 311. DELEUZE, G.; GUATTARI, F. (1997): p. 33.
Trad.: “Plano fixo, onde as coisas não se distinguem senão pela velocidade e a lentidão. Plano de imanência ou de univocidade, que se impõe à analogia. O Uno se diz num só e mesmo sentido de todo o múltiplo, o Ser se diz num só e mesmo sentido de tudo o que difere.”
26 DELEUZE, G. GUATTARI, F. (1980): p. 312. DELEUZE, G.; GUATTARI, F. (1997): p. 33.
Trad.: “A questão é a dos elementos e partículas, que chegarão ou não rápido o bastante para operar uma passagem, um devir ou um salto sobre um mesmo plano de imanência pura.”
27 DELEUZE, G. GUATTARI, F. (1980): p. 313. DELEUZE, G.; GUATTARI, F. (1997): p. 35.
Trad.: “As crianças são spinozistas. Quando o pequeno Hans fala de um "faz- pipi", não é um órgão nem uma função orgânica; é antes um material, i. e., um conjunto de elementos que varia de acordo com suas conexões, suas relações de movimento e repouso, os diversos agenciamentos individuados onde ele entra.”
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localização e uma identidade fixa, estanque, imutável. Para Deleuze, quando uma criança fala de um órgão, esta não se refere a uma função orgânica, mas a um devir, emissão e recepção de partículas moleculares – velocidade entre o meio.
“On a pu remarquer qu´un organe, pour les enfants, subissait milles vicissitudes, était mal localisable, mal identifiable, tantôt un os, un engin, un excrément, le bébé, une main, le cœur de papa..28.”
As crianças devêm constantemente outro: inseto, gafanhoto, pirata, baleia, gato, nuvem, árvore, etc. Nesses devires, extraem–se do seu corpo elementos que entram em conexão com partículas vizinhas do outro, num plano de composição, segundo diferentes relações de movimento. Deste modo, os órgãos sofrem uma transformação segundo cada um desses devires, tornando–se sempre diferentes até se apagarem.
Importa, assim, descrever resumidamente a acepção do corpo segundo Espinosa para compreender a descrição que Deleuze faz acerca do que acontece ao pequeno Hans, quando este sai da sua casa, atravessa a rua e se encontra com um cavalo. Que espetáculo poderá ser para uma criança “um cavalo orgulhoso, um cavalo de olhos tapados, um cavalo puxa uma carroçaria, um cavalo cai, um cavalo é espancado?” Ao contrário da interpretação psicanalítica, a relação da criança com o cavalo não derivaria de uma representação, nem da analogia com a imagem paterna, como Freud o pensou. As olheiras do cavalo não são os óculos do pai, o escuro em torno da sua boca não corresponde ao seus bigode, etc. A questão não é a dos órgãos, mas a da velocidade. Neste caso, a velocidade de passagem pelo meio, entre os dois extratos. Por outro lado, essa relação seria de tal ordem que não conceberia o cavalo como membro de uma espécie ou segundo o seu género – como é usual os animais serem classificados nos manuais escolares. A relação não seria mediada pela imagem de uma forma, identificável consoante a classificação do animal a partir dos seus caracteres. Em consequência, não estaria em causa uma imitação do cavalo, nem uma identificação da criança com o animal, algo aconteceria directamente, sem mediação entre a criança e o cavalo, no concreto, i. e., ao nível do campo da experiência sensível. Dar–se–ia uma mistura de partículas comuns à da criança e às do cavalo, a um nível molecular, em que estas se reenviariam umas às outras, fazendo a criança devir–cavalo ao mesmo tempo que o cavalo devém-outra coisa.
28 DELEUZE, G. GUATTARI, F. (1980): p. 313. DELEUZE, G.; GUATTARI, F. (1997): p. 35.
Trad.:“Podemos notar que um órgão, para as crianças, sofria "mil vicissitudes", era "mal localizável, mal identificável, ora um osso, um trequinho, um excremento, o bebê, uma mão, o coração de papai...".”
34 “ Il s´agit de savoir si le petit Hans peut donner à ses propres éléments des rapports de mouvement et de repos, des affects, qui le font devenir cheval, indépendamment des formes et des sujets. Y a t–il un agencement encore inconnu qui ne serait ni celui de Hans ni celui du cheval, mais celui du devenir-cheval de Hans, et où le cheval par exemple montrerait les dents, quitte à ce que Hans y montre autre chose, ses pieds, ses jambes, son fait -pipi, n´importe quoi ?29 ”
Com esta citação, percebemos ainda como o devir-cavalo da criança implica, além da velocidade, circulação de afectos (intensidade). O pequeno Hans deixa-se afectar pelos afectos do próprio cavalo. Esta circulação de afectos seria possível mediante a montagem de um agenciamento, no qual Hans tentaria conectar partes do seu corpo com as do corpo do cavalo, através da libertação dos elementos. É aqui que se cruza com o devir-animal do pequeno Hans, uma outra noção de Espinosa, relativa a uma segunda dimensão do corpo, a latitude. A cada relação de movimento e de repouso, de velocidade e de lentidão, na qual entram um conjunto de elementos, corresponde um grau de potência. Trata–se de definir as intensidades que afectam um Indivíduo, aumentando ou diminuindo a sua potência de agir:
“Les affects sont des devenirs. Spinoza demande : - Qu´est ce que peut un corps? On appellera latitude d´un corps les affects dont il est capable, suivant tel degré de puissance, ou plutôt suivant les limites de ce degré. (…) Tout comme on évitait de définir un corps par ses organes et ses fonctions, on évite de le définir par des caractères Espèce ou Genres : on cherche à faire le compte de ses affects30.”
Através da consideração do corpo segundo o afecto ou o seu grau de potência, Espinosa estabelece uma diferença cada vez mais clara quanto à noção de corpo. A longitude de um corpo faz anular os seus órgãos. Eis que a sua latitude faz desaparecer o corpo enquanto representação, fazendo emergir um corpo de afectos. Trata–se também de abandonar a abordagem do corpo segundo uma classificação da sua espécie e do seu género. Ora, as crianças fazem isso naturalmente. “Ter os olhos tapados, ser orgulhoso, ser espancado, ter um grande faz-xixi, cair, morder”, etc., são todos afectos do cavalo apresentados por Deleuze que definem a sua potência máxima. “O cavalo cai na rua, é
29 DELEUZE, G. GUATTARI, F. (1980): p. 315. DELEUZE, G.; GUATTARI, F. (1997): p. 37.
Trad.: “Trata-se de saber se o pequeno Hans pode dar a seus próprios elementos, relações de movimento e de repouso, afectos que o fazem devir cavalo, independentemente das formas e dos sujeitos. Há um agenciamento ainda desconhecido que não seria nem o de Hans nem o do cavalo, mas o do devir-cavalo de Hans, e onde o cavalo por ex. mostraria os dentes, mesmo que Hans tivesse que mostrar outra coisa, seus pés, suas pernas, seu faz-pipi, qualquer coisa?”
30 DELEUZE, G. GUATTARI, F. (1980): p. 314. DELEUZE, G.; GUATTARI, F. (1997): p. 36.
Trad.: “Os afectoafectos são devires. Espinosa pergunta: o que pode um corpo? Chama-se latitude de um corpo os afectoafectos de que ele é capaz segundo tal grau de potência, ou melhor, segundo os limites desse grau. (...) Assim como evitávamos definir um corpo por seus órgãos e suas funções, evitamos defini-lo por características Espécie ou Gênero: procuramos enumerar seus afectoafectos.”
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espancado e vai morrer” determina a sua potência mínima. Juntos, traçam uma lista de afectos, que circula no devir–cavalo do pequeno Hans.
Este encontro entre Espinosa e Deleuze permite–nos considerar os afectos enquanto devires e enquanto propriedades de um corpo. Considerando a longitude e a latitude de um corpo é possível inferir, para além de tudo o que já foi anteriormente deduzido, que o devir implica também velocidade e intensidade. O devir diz–se, assim, de um corpo sem órgãos e sem sujeito. Repetindo diferentemente, trata–se de uma composição de velocidades e de afectos, sob um mesmo plano de consistência. Apaga–se o órgão, libertam–se partículas que se misturam com partículas vizinhas, criando-se uma zona de indiscernibilidade, de pura osmose, onde circulam os afectos e de onde decorre o devir. A análise do devir–cavalo do pequeno Hans permite–nos não só compreender o fenómeno do devir–animal à luz de uma descrição cada vez mais detalhada, como ficarmos mais próximos do que pode uma criança, dos afectos de que ela é capaz, dos seus devires.
Antes de passar à análise da noção de devir–criança, parece-nos importante expor mais claramente a crítica que Deleuze estabelece em relação à psicanálise, quanto ao seu desconhecimento dos devires que atravessam as crianças. Em relação ao devir-cavalo do pequeno Hans em particular, o filósofo esclarece que o problema fundamental reside no facto do psicanalista não saber de todo apreender os animais fora da esfera da representação. O devir de Hans está imbricado num agenciamento, de tal forma que não pode ser considerado sem ter em conta, por exemplo, a sua relação com a rua, a forma como esta lhe é proibida ou aquilo que ele ressente quando encontra o cavalo, i. e., os afectos que o fazem devir-cavalo e que foram enumerados acima. Da mesma forma, o próprio cavalo não existe fora de um agenciamento de que ele faz parte. Ao conceber o cavalo como mera representação, enquanto animal dotado de caracteres e reenviando para uma determinada espécie e género, Freud torna impossível a sua captação segundo uma lista de afectos, situação que acaba por o conduzir ao estabelecimento de analogias do tipo da semelhança como, por exemplo, a identificação que estabelece entre o cavalo e o pai de Hans:
“Là encore, il serait abusif d’y voir comme Freud, une simple dérivation du père–mère: comme si la vision de rue, fréquente à l´époque un cheval tombe, est fouetté, se débat n´était pas capable d´affecter directement la libido, et devait rappeler uns scène d´amour entre les parents...
36 L´identification du cheval au père touche au grotesque, et entraîne une méconnaissance de tous les rapports de l´inconscient avec les forces animales.31”
O devir-cavalo de Hans não se reporta a nenhuma analogia, explica Deleuze, mas a uma composição de afectos e velocidades num plano de consistência. Basta não ter em conta essas velocidades e intensidades para fazer parar a circulação de afectos em jogo, i. e., para partir, quebrar e anular o devir.
Esta crítica de Deleuze faz-nos ainda pensar que como Freud não considera a zona de indiscernibilidade ou vizinhança que se estabelece entre o animal e a criança, na qual se operam trocas de partículas intensivas, Freud também não se dá conta da experiência da criança, ao nível do inconsciente do corpo:
“Il s´agit de faire corps avec l´animal, un corps sans organes défini par des zones d´intensité ou de voisinage32.”
A sua conceção da criança seria dada somente no domínio da representação. Apesar de Freud descrever o inconsciente, verificamos com Deleuze como se trata de um inconsciente relativo às formas das figuras, mas não das forças. Só assim se pode explicar que o cavalo seja identificado com outra figura, através de uma analogia do tipo da semelhança, seja ela a figura paternal. Apreendê-lo como pulsão, afecto ou ainda enquanto agenciamento, implicaria pensá-lo de uma outra forma, numa outra esfera que como vimos reenvia para a diferença. Além disso, esta reflexão permite-nos ainda deduzir sobre a maneira como Freud se limitou a conceber a experiência da criança, sempre a partir das suas próprias categorias de adulto, deduzindo-a através de operações cognitivas complexas, tal como a identificação e a projeção. Para o psicanalista, o cavalo não passa de uma representação. Nada se produz entre um e outro, nenhum movimento, nenhuma circulação de forças, nenhuma transformação. A criança e o cavalo são determinações fixas dotadas de uma forma e de um sujeito. Apesar do psicanalista analisar fenómenos ao nível do inconsciente, trata-se de um inconsciente relacionado com as formas e as figuras, os símbolos e as analogias. Portanto, as suas interpretações a partir do que as crianças dizem estão limitadas ao campo da representação.
31
DELEUZE, G.. (1993): p. 85.
32 DELEUZE, G. GUATTARI, F. (1980): p. 335. DELEUZE, G.; GUATTARI, F. (1997): p. 54.
Trad.: “Trata-se de fazer corpo com o animal, um corpo sem órgãos definido por zonas de intensidade ou de vizinhança.”
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O movimento do devir do pequeno Hans é um movimento de transformação de intensidades, velocidades e afectos no sentido de se aproximar das velocidades, intensidades e afectos do cavalo. Para que esse processo de devir aconteça, é necessário pensar num corpo capaz de emitir e receber essas forças. O corpo de Hans é afectado pelas forças que atravessam o corpo do cavalo. É exatamente dessa forma que ele entra em devir. No próximo capítulo, pretende-se abarcar os estudos de Daniel Stern sobre o processo de concordância afectiva no sentido de se poder averiguar outros fenómenos para além do devir que possam estar inerentes à experiência da criança.
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2º CAPÍTULO: A CONCORDÂNCIA AFECTIVA
“A experiência primeira é a da imagem intensiva. Antes de a percepção se estabilizar, se fixar à distância e se impor, o mundo da primeira infância organiza–se em torno de vagas sensoriais num turbilhão, imprevisíveis. Antes da constância percetiva, há as variações da imagem. Porque a sensação desabrocha em imagens, tal como a percepção: o bloco emotivo que as atravessa e as envolve mantém–nas ainda soldadas, indiferenciadas, sincronizadas. (...)33”