Em 1957, iniciou-se um novo ciclo na vida de Maria Ruth. Casou-se com Carlos Henrique Escobar126, poeta, revisor do Diário de São Paulo e militante político de esquerda desde sua adolescência. Foi preso no DOPS pela primeira vez aos 15 anos de idade e, aos 17, escreveu seu primeiro texto para o teatro: Antígone-América, dramaturgia encenada no início da década de 1960 em que Ruth, ainda sem nenhuma experiência mais aprofundada em interpretação, assumiu o papel principal do espetáculo. Logo em seguida, decidiram morar na cidade luz (Paris) com o objetivo: “ele para estudar filosofia e eu para estudar teatro”127. Carlos Henrique Escobar, em solo francês, teve o primeiro contato com as teorias de Foucault e Deleuze por meio de seu professor Maurice Merleau-Ponty. Sem muitos recursos financeiros para morar em Paris, uma pensão localizada na rue Saint-Jacques foi a solução encontrada naquele momento. Foi nessa cidade que Maria Ruth fez sua primeira experiência teatral mais
121 LADEIRA, Jornal do Brasil, 1974. 122 LADEIRA, Jornal do Brasil, 1974. 123 LADEIRA, Jornal do Brasil, 1974.
124 A íntegra dessa reportagem está transcrita no anexo I.
125 Entrevista não localizada durante a pesquisa. ESCOBAR, 1987, p. 91.
126 Carlos Henrique Escobar recebeu o título de Notório Saber pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
em 1986, tornou-se um importante intelectual brasileiro com publicações em diversas áreas do conhecimento: teatro, poesias, filosofia, ciência política, ensaios e na organização e participação em coletâneas.
profissional: frequentou o curso de direção no Théâtre Huclette128, ministrado por Pierre Valde em que também se encontrava José Renato129, encenador que realizou a montagem do espetáculo de abertura do Teatro Ruth Escobar. Grávida de oito meses de seu primeiro filho, encenou fragmentos do texto Antígone, de Jean Anouih, na Schola Cantorum. Recebeu menção honrosa pela interpretação.
Com dificuldades financeiras, Ruth viu o anúncio de um emprego para vendedora de perfumes que falasse português. Essa vaga de emprego surgiu após a viagem do empresário Max Habermann, que ficou fascinado com a diversidade cultural do Brasil. Ao retornar a Paris, decidiu focar as vendas de perfumes para brasileiros. Contratada para essa função - ela estava grávida - Ruth teve a ideia de transformar a perfumaria numa galeria de arte. Para isso, convidou seu amigo Cyro Del Nero, que estava na Alemanha, para ajudá-la nessa empreitada: “Eu e Cyro Del Nero destruímos a loja de perfumes”, recordou Ruth.
A mostra de arte intitulou-se 7 Brésiliens à Paris. Ela expunha cerâmicas, gravuras e artesanatos de artistas brasileiros. Conforme nota publicada no jornal, O Globo:
Max Haberman, diretor-presidente de Helena Dale. Depois de sua recente viagem pela América do Sul, entusiasmado com o espírito do povo brasileiro e com a metrópole que mais cresce no mundo, decidiu criar na sua organização em Paris, um departamento de relações públicas para divulgar coisas e gente do Brasil. Esse departamento é dirigido por Ruth Santos Escobar, jornalista brasileira que ora organiza a presente exposição na qual telas de Bandeira, Krajcberg, e Tanaka, gravuras de Chaves e Piza e cerâmica de Elizabeth Nobling, e prepara para novembro a 1ª exposição de artesanato brasileiro em Paris que terá lugar nos salões de Helena Dale130.
De acordo com Ruth, “a exposição foi um sucesso”, mas após três meses, “o dono da loja começou a se dar conta de que a galeria ia muito bem, mas os perfumes não. Veio a época de baixa, era inverno. Eles vendem muito no verão para turista americano. Ele falou para mim que eu tinha que ir embora”131. Naquela noite de abertura da exposição, Ruth sentiu as dores do parto. Foi levada para um hospital no subúrbio de Paris. Nascia seu primeiro filho, Christian, em 20 de agosto de 1958.
Novamente, Ruth se colocou numa posição diplomática intermediadora entre países, uma “legítima” representante da cultura brasileira, repetindo o que havia feito entre Camboja e Portugal. A diferença é que ela adentrava o campo artístico e começava a buscar espaços para exposição e projeção da arte produzida no Brasil.
Devido aos escassos recursos financeiros para viver na França, decidiram mandar para o Brasil, sem nenhum acompanhante, via companhia aérea Panair, o filho recém-nascido, Christian, com apenas quatro meses de idade. Segundo Ruth Escobar, isso foi motivado pela “ameaça do inverno, [nos] demos conta de que continuar em Paris com um bebê era insustentável. Meus cunhados, o irmão de C.H. e a sua mulher se ofereceram para ficar com ele até prepararmos nossa retirada da França”132, recordou Ruth Escobar. A respeito dessa história, seu ex-marido, Carlos Henrique Escobar, em entrevista ao pesquisador, recordou que “o motivo
128 Durante a pesquisa não foi encontrado nenhum material que falasse sobre os cursos frequentados por Ruth
Escobar.
129 José Renato Pécora fundou o Teatro de Arena de São Paulo, em 1953, um dos responsáveis pela modernização
do teatro brasileiro aos paradigmas europeus e norte-americanos ao longo da década de 1960. Esse diretor estava na França para realizar um estágio como assistente de direção de Jean Villar no Théâtre National Populaire (TNP).
130 “HELENA”, O Globo, 1958.
131 ESCOBAR, Entrevista concedida a Aramis Millarch. 132 ESCOBAR, 1987, p. 103.
era econômico [...] ela acertou com a Panair do Brasil que faria uma espécie de propaganda: Olha! Levamos uma criança de lá para cá”133. E, como não poderia deixar de ser, junto à imprensa brasileira, noticiou-se que:
Christian Escobar, de quatro meses de idade, viajou sozinho de Paris ao Rio. Veio num DC-7 da Panair aos cuidados da tripulação. Seus pais, o casal Escobar, estão, atualmente naquela cidade, e têm o tempo dividido entre o trabalho e o estudo. Não podiam, assim, dar a Christian a necessária atenção. Enviaram-no, então, aos avós que residem aqui. Christian fez boa viagem. Não chorou, tomou seu leite à hora certa e não deu mais trabalho do que aquêle que, normalmente, dá uma criança de sua idade. Na foto, colhida a bordo do DC-7, Christian é visto quando em plena travessia do Atlântico, fazia a sua primeira refeição matinal. Mas o olhar de Christian é triste134.
Este episódio gerou muitas polêmicas na imprensa brasileira. Ressalto que a nota termina de modo negativo – olhar triste de uma criança. Uma criança de quatro meses não teria essa compreensão. O jornalista julgava o casal e colocava tristeza no olhar do bebê para mostrar ao seu leitor o sentimento de abandono que passava “pelo olhar” da criança. Como se vê, as ideias de Maria Ruth surtiam os devidos efeitos.
A sua estadia em Paris durou um ano e nove meses, tempo suficiente para refletir sobre seu passado e projetar seu futuro no Brasil. O contato contínuo com o filósofo Carlos Henrique Escobar proporcionava à Maria Ruth mais aproximação com o pensamento político de esquerda do Brasil,135 pois desde jovem ele era militante de esquerda. O período em que esteve em Paris foi ideal para Maria Ruth pensar sobre si mesma e traçar objetivos que fossem importantes para satisfazer seus desejos. Naquela ocasião, “o que era essencial em mim era fazer teatro”136. Sendo assim, Maria Ruth optou por dedicar sua vida ao teatro e não mais ao jornalismo. Fazer teatro era um anseio que tinha desde menina, mas, para conquistar seus objetivos de encenar peças revolucionárias, conseguir recursos, teve de se transfigurar em Ruth Escobar.
Aquela menina frágil, desengonçada que deixou Porto rumo ao Brasil havia se lançado em aventuras nacionais e internacionais. Ela se fizera editora e jornalista com desenvoltura na busca de espaços. Nascia Ruth Escobar, uma mulher destemida que desejava conquistar espaço de credibilidade e visibilidade no mundo teatral. Atriz e produtora, Ruth Escobar foi responsável por encenações memoráveis na cena brasileira, bem como pela criação de um espaço – o Teatro Ruth Escobar – que serviu de palco de espetáculos contundentes e renovadores da cena brasileira, além de sediar e organizar palestras, cursos, seminários que visavam trazer à tona debates relevantes ao amadurecimento da sociedade paulistana sobre o contexto repressor que se encontrava ao longo das décadas de 1960-1970. Atos de coragem, resistência e mobilização política contra as ações repressivas, desencadeadas pela ditadura militar brasileira, foram apenas algumas das ações de Ruth. Mas, tudo isso é assunto para os próximos capítulos, pois a fase de Maria Ruth estava encerrada. Nascia uma mulher – que amada, respeitada ou odiada – ajudou como poucos a construir a renovação da cena brasileira, Ruth Escobar.
133 ESCOBAR, Entrevista concedida a Aramis Millarch. 134 ESCOBAR, 2003, p. 146.
135 Durante o regime da ditadura militar (1964-1985), ele foi preso e torturado, perdendo a audição de um ouvido.
Além disso, foi proibido de lecionar e, somente em 1986, durante o governo José Sarney, foi anistiado. Pode-se compreender que o contato de Maria Ruth com Carlos Henrique Escobar, proporcionou uma eclosão, ainda mais intensa no seu posicionamento político. Ele reside na cidade de Aveiro, em Portugal. Em fevereiro de 2013, sua filha Maria Clara Escobar apresentou uma cinebiografia de seu pai intitulada Os dias com ele, produção cinematográfica premiada na 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes.