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Dentre as várias áreas de atuação de que Ruth Escobar, o sistema carcerário também recebeu especial atenção de sua parte. Ela acreditava que os presos, por meio da arte teatral, poderiam realizar um trabalho de qualidade e que o mesmo lhes serviria como ferramenta de conscientização.

As incursões de Ruth Escobar no mundo carcerário começaram em 1964. O Teatro Popular Nacional (TNP) se apresentou no pátio da Casa de Detenção, em São Paulo, com o espetáculo As desgraças de uma criança. Em 1972, Missa Leiga foi apresentada no Presídio Tiradentes, também em São Paulo e, no presídio da cidade do Porto em Portugal514. Revista do Henfil, em 1978, foi levada no presídio Lemos Brito, na Bahia e no de Itamaracá, no Ceará. Em São Paulo, apresentou-se durante dez dias na Casa de Detenção. Nos anos de 1980, Ruth Escobar retomou suas atividades nos presídios de São Paulo e fez uma série de intervenções teatrais na Penitenciária do Carandiru. A atuação de Ruth Escobar no interior do presídio começou nos moldes aplicados anteriormente, somente com apresentações avulsas.

Em 1980, o Serviço Nacional do Teatro (SNT) criou um programa de intercâmbio com grupos europeus para realizar apresentações em algumas cidades brasileiras, principalmente em São Paulo, Recife, Brasília e Rio de Janeiro. Dois grupos portugueses, o Teatro Experimental de Cascais (TEC) 515 e A Barraca foram selecionados para apresentar espetáculos no Brasil,

510 ATO, Folha de São Paulo, 22 ago. 1980, p. 6.

511 No original: “Mujeres com ropas negras y pañuelos blancos desfilarán em silencio y leerán um documento que

afirma que la visita “del dictador argentino Jorge Rafael Videla es uma demonstración más del enorme abismo que separa al Pueblo brasileño de su gobierno”. MANIFESTACIÓN, El día, 22 ago. 1980.

512 No original: “Argentina es um país amigo los dictatores no lo son. El Pueblo argentino sería muy bien

bienvenido em caso que viniera aqui” MANIFESTACIÓN, El día, 22 ago. 1980.

513 No original: “ofensas al presidente de un país amigo [e que] cualquer extranejero que participe em esos actos,

será expulsado del país, y que los brasilenõs serán juzgados por la Ley de Seguridad del Estado”. MANIFESTACIÓN, El día, 22 ago. 1980.

514 A passagem do espetáculo Missa Leiga no presídio em Portugal será abordada no capítulo oito dessa

pesquisa.

515 O Teatro Experimental de Cascais (TEC) apresentou seis espetáculos durante o mês de junho de 1980: Auto da Índia e Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente, Don Quixote de Cervantes adaptado por Yves Jamiaque,

Fuenteovejuna de Lope de Vega, A maluquinha de Arroios de André Brun, Ivone, princesa de Borgonha de Witold Gombrowicz, Oração e Os dois verdugos de Arrabal. Entre junho e julho do mesmo ano, A Barraca encenou

além do Centre d´Étude et de Diffusion des Techniques Actives des Expressions, fundado e dirigido por Augusto Boal. Os dois grupos se exibiram no Teatro Ruth Escobar e foram convidados por ela para realizar apresentações no projeto que desenvolvia com os presos do Carandiru, desde maio de 1980. O TEC expôs A maluquinha de Arroios, em 18 de junho e, A Barraca a encenação Preto no Branco, em 02 de julho de 1980. A respeito dessas apresentações, Ruth concluiu que: “as consequências foram positivas e muito alegres: a grande maioria daquela população nunca tinha ido ao teatro [...] depois de cada apresentação dos grupos profissionais, os presos discutiam entre eles os inúmeros temas relacionados àquele cotidiano”516.

Para desenvolver esse projeto junto aos presos do Carandiru, Ruth Escobar constituiu uma equipe para trabalhar numa montagem com os detentos; equipe formada por Roberto Lage, Andrea Leão Gonçalves, Jean Pierre Garfunkel, David Lindenbaum, Luiz Carlos Laborda e Ameir de Paula Barbosa, responsáveis pela elaboração de um espetáculo com os presos do Carandiru. Além deles, Ruth também se cercou de outros profissionais: o psiquiatra Helio Stern e a assistente social Maria Lucia Gaspar.

Ao longo dos meses, os ensaios transcorreram normalmente. Construído em conjunto com os presos, o texto do espetáculo Aqui há ordem e progresso refletia o cotidiano da prisão, bem como situações pessoais dos detentos. No total, foram elaborados setes esquetes, que deveriam compor esse espetáculo: A audiência, O reincidente, Concorrente, Monólogo, B.B.B.517, C.O.D.P.H.U518 e Ordem e Progresso.

O projeto concebido por Ruth Escobar não estaria longe de polêmicas. Com data marcada para estrear, em 12 de outubro de 1980, a produtora, dias antes, foi comunicada pelo Secretário de Justiça de São Paulo, José Carlos Ferreira de Oliveira, que a encenação estava proibida, pois a considerava “de baixo nível”519 e por ser “perniciosa à reabilitação dos presos”520. Ao saber desta proibição do secretário, Ruth declarou que “nenhum deles assistiu a um ensaio geral e todos basearam suas opiniões apenas na leitura dos textos521”. Obviamente, ela não deixaria essa situação sem lutar por aquilo em que acreditava após cinco meses de elaboração e ensaios com os detentos.

Numa primeira reunião para tentar resolver o problema censório, o Secretário da Justiça exigiu que fossem retiradas “as referências a personalidades como o senador Jarbas Passarinho e os delegados Rubens Liberatori e Wilson Richetti, entre outros”522. Porém, a censura foi ainda maior. Aos 22 de outubro de 1980, em reunião com outras autoridades, decidiram que os quadros: Concorrente e BBB – Bola, Buchicho e B... fossem vetados integralmente523. Ruth recuou para prosseguir.

Após uma série de negociações, em 30 de outubro, a peça Aqui há ordem e progresso foi exibida no auditório da penitenciária. Em cena, cerca de quarenta atores expuseram o espetáculo para quatrocentos presidiários e diversos familiares e convidados. Ruth recordou

quatro peças: É menino ou menina (colagem de textos de Gil Vicente), Zé do telhado e D. João 6º de Helder Costa e Preto no Branco, de Dario Fo.

516 ESCOBAR, 1982, p. 14.

517 Bola, Buchicho e Bunda é o título da esquete. 518 Conselho Ornamental de Defesa da Pessoa Humana. 519 PEÇA, O Estado de São Paulo, 14 out. 1980, p. 17. 520 SECRETÁRIO, Folha de São Paulo, 11 out. p. 9. 521 DIREÇÃO, Folha de São Paulo, 09 out. 1980, p. 17. 522 SECRETÁRIO, Folha de São Paulo, 11 out. p. 9.

523 O texto O Concorrente fala de um delegado que, para eliminar seu concorrente na venda do tráfico, contrata

um bandido para mata-lo. E tem outra cena em que trata de uma mulher que ao visitar seu marido na cadeia, conta- lhe que engravidou de outro homem. Ao invés de se aborrecer, ele grita aleluia, como um louco. B.B.B. trata do homossexualismo dentro da cadeia.

que as apresentações foram uma “catarse total, pois nos 90 minutos do espetáculo a platéia se identificava a cada segundo”524. Foi o que sentiu o deputado estadual Almor Pazzianotto Pinto do PMDB. Dias após assistir ao trabalho dos detentos, em 07 de novembro de 1980, o político discursou na Assembleia Legislativa de São Paulo, homenageando o projeto de Ruth Escobar:

Sr. Presidente, Srs. Deputados, desejo hoje, desta tribuna, talvez reiterando pronunciamentos anteriores de outros ilustres parlamentares, prestar homenagem a uma personalidade paulista, e mais que isto, uma personalidade Brasileira de enorme envergadura moral e intelectual, de grande coragem cívica, de grande estrutura política que é a atriz Ruth Escobar. (Muito bem!) Esta homenagem, Srs. Deputados, presto em função de uma longa e enumerada série de realizações de Ruth Escobar, que ao meu ver estão coroadas por uma iniciativa que tomou mais recentemente, e que me tocou de maneira profunda. Ruth Escobar, com uma equipe de auxiliares, igualmente valorosos e competentes, foi a penitenciária do Estado, venceu inúmeras dificuldades burocráticas produzidas pela incompreensão de autoridades estaduais e conseguiu, reunindo número expressivo de presidiários, organizar uma representação teatral, a qual tive a honra de assistir na última segunda-feira. Uma representação que, num curto espaço de tempo, durante alguns minutos, põe a nu toda a degradação que caracteriza o sistema penitenciário Brasileiro. Ruth Escobar, naquele instante, atingiu as culminâncias do sublime; ela, seus auxiliares e os detentos, que transmitiram a mensagem de tal conteúdo humano, que conseguiram produzir um documento autêntico e vivo dos erros que caracterizam esta nossa pseudo-política de recuperação do criminoso, do delinqüente. Não me envergonho de dizer aos Srs. que me senti profundamente deprimido naquele instante, e até mesmo envergonhado diante do muito pouco, ou do nada, que temos feito em benefício da justiça e em favor daqueles homens, muitos deles mal entrados na maturidade, e que mesmo com os erros que cometeram, não poderiam ficar submetidas a penas tão ociosas, tão desumanas, tão medievais como essas, que o sistema carcerário Brasileiro conseguiu imaginar, preservar e consegue defender.[...] (Muito bem!) (Palmas).525

Para o crítico Jefferson Del Rios, o espetáculo Aqui Há Ordem e Progresso teve “momentos convincentes de representação e engenhosidade na concepção dos cenários e figurinos. É teatro apesar das limitações naturais. Não tem sentido analisar em detalhes as qualidades artísticas do empreendimento que, evidentemente, não segue padrões estéticos convencionais. O que interessa é constatar a alegria dos envolvidos no processo” 526. Da mesma

opinião, o crítico Sábato Magaldi escreveu no Jornal da Tarde:

Há uma reflexão serena e bem-humorada sobre a vida do presidiário, levando-o, certamente, a conscientizar-se e a conscientizar a sociedade a propósito do confinamento que lhe é imposto. A dramatização dos conflitos atenua as tensões e facilita um diálogo com as autoridades

[...]

Na área propriamente artística, vê-se como os depoimentos sinceros, mesmo carentes do aprendizado técnico específico, tem o poder de sensibilizar a platéia. Algumas cenas provocam real emoção, porque a linguagem simples e despojada fala ao espectador. O testemunho verdadeiro, nascido de uma necessidade profunda, encontra um ouvido mais receptivo do que para muitos empreendimentos teatrais527.

Ainda que não houvesse um arrojo técnico interpretativo, a simplicidade suplantou as grandes produções realizadas por Ruth Escobar até aquele momento. Composto por biombos,

524 ESCOBAR, 1982, p. 15. 525 DOSP, 21 nov. 1980, p. 99. 526 DEL RIOS, 2010, p. 191.

mesas, cadeiras e um varal com camisas penduradas ao longo do palco, o cenário foi concebido de acordo com as condições encontradas no local da apresentação. Naquele local sombrio, havia esperança. Mais do que a simplicidade interpretativa, o cenário também refletia essa condição.

Ao longo do mês de novembro de 1980, Aqui há ordem e progresso foi apresentada para todos os presidiários do Carandiru; na época, havia cerca de mil e duzentos detentos. Nessas apresentações, deputados, juízes, autoridades penitenciárias, jornalistas e críticos estiveram presentes para prestigiar o trabalho de Ruth Escobar junto aos detentos. Em 30 de novembro fizeram a última apresentação. Ruth avaliou o projeto:

Os espetáculos para os familiares dos detentos também foram experiências sensacionais. Muitas destas pessoas, por sua condição econômica, nunca tinham ido a um teatro e quando tiveram a oportunidade de verem seus filhos, esposos, sobrinhos ou pais no palco representando, uma nova sensação tomou conta destas famílias, algumas das quais, pela primeira vez na vida, deixaram de ter vergonha em ver seus familiares presos. Pela primeira vez, em muitos anos, alguns destes detentos foram aceitos novamente pela família528.

Apesar da curta temporada desse espetáculo, o sucesso de crítica e a repercussão positiva do projeto impulsionaram Ruth Escobar a construir um novo espetáculo. O desejo dos detentos era o de que a nova encenação fizesse parte dos festejos de fim de ano. Para isso, alguns deles conversaram com o diretor do presídio, a fim de solicitar autorização para que, no dia 21 de dezembro de 1980, houvesse uma programação diferenciada. Com as devidas autorizações, iniciaram-se os ensaios e a organização desse dia festivo.

Apesar do pouco tempo de preparação para a construção do novo espetáculo, Ruth Escobar e sua equipe aceitaram o desafio. O elenco se manteve quase inalterado, algumas modificações se fizeram necessárias, devido à transferência de detentos para outras unidades prisionais. Visto que havia pouco tempo para construir a encenação, Ruth optou por texto pronto. O texto escolhido foi o Auto do Burrinho de Belém, de Chico de Assis. Para dirigi-la, Ruth convidou Luiz Carlos Laborda e Emílio de Biase.

Conforme acertado com a direção do presídio, naquele domingo, dia 21 de dezembro os detentos “ganharam o Natal como não tinham há muitos anos. Das 8 da manhã às 4 da tarde, com mães, esposas e crianças; um show percorreu todos os pátios e mais de 60 voluntários [...] visitaram presos que não tinham famílias. E foi um domingo de alegria, afeto e confraternização” registrou a Folha de São Paulo529. Durante o dia, os detentos puderam desfrutar da visita dos familiares; mas a noite foi reservada à estreia de Auto do burrinho de Belém, ao qual somente os detentos puderam assistir. A estreia oficial ocorreu no dia seguinte, em 22 de dezembro de 1980. Sessão aberta a convidados e familiares.

Apesar do sucesso do espetáculo anterior junto à imprensa, desta vez os críticos não compareceram na estreia. Infelizmente, não foi uma decisão acertada. Um dia após a estreia, o Carandiru foi palco de um motim. Outros contornos estavam sendo desenhados.

Para o diretor da Penitenciária, Irineu Bruno Vizoto, o motim foi provocado por três razões: “o termino antecipado de um jogo de futebol, por causa da chuva e porque a guarda do presídio levou a bola; o descontentamento dos presidiários que não foram incluídos na lista dos que passaram o Natal com suas famílias, “o que não acredito”; e a revolta insuflada pelo grupo teatral Ruth Escobar, segundo declarações de um preso”530.

528 Relatório do Teatro Ruth Escobar In: FERNANDES, 1985, p. 163. 529 DETENTOS, Folha de São Paulo, 30 dez. 1980, p. 13.

Quando interrogada por um jornalista, Ruth Escobar rebateu as acusações: “O que fazemos ali dentro é um trabalho de teatro e claro que procuramos também conscientizar os presos de seus direitos e deveres. Agora, dizer que eu sou a culpada é uma leviandade”531. Na mesma reportagem, Ruth esclareceu que “o grande massacre na Penitenciária aconteceu sexta- feira (um dia após o motim) quando cerca de 600 policiais da Tropa de Choque da Polícia Militar entraram e bateram em todo mundo”532.

Após o incidente, em 28 de dezembro, Ruth Escobar visitou o presídio, sendo seguida pelos agentes do DOPS como era de se esperar. Conforme relatou o capitão da Polícia Militar do DEOPS, do Centro de Comando da Polícia Militar (CECOPOM), Israel Nunes Rodrigues: “a atriz Ruth Escobar esteve hoje as 10h00min na penitenciária do estado et concitou os familiares dos presos a se reunirem a as 17h00min no Teatro Ruth Escobar vg sito aa rua dos ingleses na bela vista pt”533.

A informação do relatório rapidamente foi repassada a outros agentes. Às 11h25, o Delegado Chefe do DOPS, Roberto Tuma, repassou as informações ao Sistema Nacional de Informações (SNI) II Exército, IV Comando Aéreo Regional (COMAR) e Departamento de Polícia Federal (DPF). No mesmo dia, o delegado de plantão Roberto Fernandes designou o policial Paulo S. Quagliato para observar a reunião com os familiares dos presos no Teatro Ruth Escobar. Com cerca de setenta pessoas presentes na reunião (quase todas eram mães), Ruth argumentou que:

- Que, a rebelião ocorrida, no dia de Natal, foi motivada, ou melhor, provocada pelos guardas da Penitenciária, os quais constantemente agridem e torturam presos. -Que, foram funcionários da Penitenciária que também colocaram fogo nos colchões, e, em virtude de estarem espancando alguns presos, os que se encontravam em suas celas começaram a gritar para que parassem, quando então deu início à rebelião, forçados pelos funcionários.

-Que, o sistema carcerário não oferece condições aos presos, pois ao invés de reeducá- los, eles saem da prisão mais violentos e perigosos, em virtude das torturas e espancamentos sofridos.

-Que, ela tem provas de todas as arbitrariedades que ocorreram e que tinha ainda fotos, filmes e gravações, comprovando tudo.

-Que, todas as noites, após o incidente, entra a Tropa de Choque e dá “PORRADA EM TODOS OS PRESOS”. 534

A respeito dessas declarações, dias após a reunião no Teatro Ruth Escobar, o jornal Folha de São Paulo publicou o depoimento de um preso em liberdade condicional que confirmou a denúncia de Ruth Escobar. Ele afirmou que eram “corriqueiros os espancamentos dos presos, pelo pessoal do Serviço de Vigilância Especial (conhecido dentro da prisão como “choque”. O preso também asseverou que “mataram a socos e pontapés um preso conhecido como Valdemar Maluco, que havia morto um guarda a golpes de estilete”535. Com o inquérito instaurado para apurar as causas, iniciou-se um jogo de acusações. O diretor da Penitenciária afirmou “é certo que alguns guardas e detentos afirmaram que o grupo de teatro insuflou os presos contra os policiais, mas não temos nada além disso”536.

531 ATRIZ, Folha de São Paulo, 28 dez. 1980, p. 15. 532 ATRIZ, Folha de São Paulo, 28 dez. 1980, p. 15.

533 Processo 20-C-44-15190 / 20-C-44-15189 / 20-C-44-15188. As siglas são correspondentes à pontuação do

texto: pt (ponto), vg (vírgula), aa (crase) et (e).

534 Processo 50-Z-129-22639 e 50-Z-129-22638. APESP. 535 DENÚNCIAS, Folha de São Paulo, 31 dez. 1980, p. 9. 536 PENITENCIÁRIA, Folha de São Paulo, 04 jan. 1981, p. 16.

Nesse encontro com os familiares537, houve a formação um Comitê de Defesa dos Direitos Humanos do Preso Comum. Conforme relatório do DOPS, esse comitê foi formado por “grupos de três mulheres e se dirigirão às rádios e também à T.V., onde irão pedir a todas as mães de presos que se encontram na Penitenciária do Estado, que se dirigidas à Secretaria da Justiça, no Páteo Colégio, com a presença do Cardeal Dom Paulo, representantes da Ordem dos Advogados do Brasil para exigir a liberação imediata de visita aos presos e a relação dos presos espancados que se encontram espancados”538. Após alguns dias, as visitas foram liberadas.

No entanto, em meio à zona de turbulência, Ruth Escobar prosseguiu com o projeto. Além de fazer teatro com os detentos, ela registrou todo o processo em vídeo-tape539 no período em que estiveram no Carandiru. O intuito da produtora era o de fazer um documentário educativo com o material captado. Segundo ela:

O nosso objetivo agora é transformar todo este material gravado em video tape, num filme educativo, que pela força de imagens e depoimentos, poderiam modificar o pensamento de milhares de pessoas que não tem acesso a nenhuma informação sobre presídios. Esse filme, em si, já se constitui numa semente visual e educativa, a ser exibido em favelas, unidades de menores abandonados, para familiares de presos, juristas, advogados, estudantes de direito, em Faculdades de Psicologia, Sociologia e Comunicações, na Câmara doa Deputados e Senado, e principalmente fomentar a criação de vários comitês em todo o país, “Em Defesa dos Direitos Humanos do Preso Comum”.

Durante os seis meses, gravamos mais de cinco horas de fitas com depoimentos de vários presos sobre suas vidas, as atividades teatrais de um grupo de 70 presos, laboratórios e workshops musicais e artísticos, depoimentos das famílias em dias de visitas, análises de psiquiatras, sociólogos e autoridades que lidam juridicamente com problemas carcerários. Além disso, gravamos o próprio espaço físico da Penitenciária (cozinha, celas, pátios), atividades nas hortas, oficinas e hospital540.

Ainda que a ideia inicial de Ruth Escobar tivesse como objetivo a produção de um documentário de caráter educativo, no qual fosse demonstrado o processo de desenvolvimento de um trabalho artístico com a população carcerária, pôde constatar-se que, por detrás dessa iniciativa, havia um propósito de denunciar a situação desses presos. A proposta documentária de Ruth Escobar continha uma reflexão sobre a realidade escondida nos intramuros do presídio. Além disso, no início dos anos de 1980, o assunto sobre os direitos humanos, destinado aos detentos comuns, era pouco discutido pela sociedade brasileira.

Para concretizar esse projeto de documentário, em 26 de janeiro de 1981, Ruth Escobar encaminhou um pedido ao presidente Secretário de Cultura do Ministério da Educação e Cultura, Aloisio Magalhães, solicitando recursos financeiros no valor de quatrocentos e cinquenta mil cruzeiros, para finalizar a edição das imagens no formato de dezesseis milímetros

537 Processo 20-C-44-15190 / 20-C-44-15189 / 20-C-44-15188. APESP. 538 Processo 50-Z-129-22639 e 50-Z-129-22638. APESP.

539 De acordo com Ruth Escobar, “desde o seu início, a experiência com video tape atendia a duas expectativas:

1º) gravar material que poderia ser estudado mais demoradamente para que pudéssemos fazer uma avaliação real e exata do comportamento do preso (e as expectativas de cada um na instituição conforme faixa etária). A partir deste ponto, depois de processadas as informações, devolvemos essas informações para o próprio preso e, juntos, trabalhamos com o novo comportamento. 2º) modificação, através de centenas de respostas que foram fornecidas