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Svenske  politiske  signaler  og  veiretninger

4.4   Kunnskap  og  kompetanse  som  vekst-­‐  og  konkurransefaktor

4.4.3   Svenske  politiske  signaler  og  veiretninger

Aqueles que tiveram a oportunidade de viver na década de 1970 devem lembrar-se que, no âmbito da música, os festivais eram a sensação do momento; na literatura, o decreto-lei 1.077379 instituiu a censura de periódicos e livros, o que acarretou cerca de trezentos e cinquenta títulos proibidos para a venda. Dentre eles estavam: História Militar do Brasil de Nelson Werneck Sodré, Minha Luta de Adolf Hitler, Trópico de Câncer e Trópico de Capricórnio, ambos de Henry Miller, Feliz Ano Novo de Rubem Fonseca, O Livro Vermelho do General Mao Tsé-Tung entre tantas outras publicações. Por outro lado, havia livros que faziam parte da geração desbundada:380 A Contracultura de Theodore Roszak, Eros e Civilização de Herbert Marcuse, Woodstock Nation de Abbie Hoffman, etc. Na música, Raul Seixas, Rita Lee, 14 Bis, Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso despontavam como principais cantores e compositores.

No âmbito do teatro, destacou-se no Rio de Janeiro, o espetáculo Trate-me Leão do Asdrúbal Trouxe o Trombone, a remontagem de Cemitério de Automóveis, Grupo Opinião com o sucesso de Hoje É Dia de Rock, de José Vicente. Em São Paulo, em virtude dos recursos provenientes da Comissão Estadual de Teatro (CET), os grupos conseguiam realizar uma quantidade de espetáculos superior às produções cariocas, destacando-se o trabalho do Pessoal do Vítor, Pod Minoga e do Teatro do Ornitorrinco. Arena e Oficina entraram em crise: Augusto Boal foi preso e torturado, partiu logo após sua liberdade para o exílio, assim como José Celso Martinez. A década de 1970, de acordo com Elio Gaspari, Heloisa Buarque de Holanda e Zuenir Ventura ficou marcada pela:

[...] quantidade suplantando a qualidade, o desaparecimento da temática polêmica e da controvérsia na cultura, a evasão dos nossos melhores cérebros, o êxodo de artistas,

379 BRASIL, 1970.

380“Desbunde” é uma gíria, inventada no Brasil durante os anos 60, para designar quem abandonava a luta. Ela

foi evoluindo e passou a designar não só quem tivesse abandonado a resistência ao regime militar, mas toda figura interessada em contracultura a ponto de viver seus ideais. Foi inventada pela esquerda, mas seu emprego foi muito além de círculos trotskistas ou marxistas. Passados tantos anos desde a invenção desta gíria, ela já ganhou o domínio público e basta dizer “desbundado” para vir à mente a imagem de alguém com cabelos longos e roupas coloridas fazendo o símbolo da paz com a mão e segurando uma flor com a outra. AMORIM, 2007.

o expurgo nas universidades, a queda de venda dos jornais, livros e revistas, a medio- crização da televisão, a emergência de falsos valores estéticos, a hegemonia de uma cultura de massa buscando apenas o consumo fácil381.

Mesmo com a situação difícil em que se encontrava o país, Ruth Escobar não diminuiu o ritmo de produções: remontou o espetáculo Cemitério de Automóveis (1970) no Rio de Janeiro e encabeçou novos projetos: Os Dois Cavaleiros de Verona (1971), Missa Leiga, A Massagem, A Viagem (1972) e Autos Sacramentais e Capoeira da Bahia (1974), Torre de Babel (1977), Revista do Henfil (1978), Caixa de Cimento e Fábrica de Chocolate (1979). Além disso, Ruth organizou dois festivais internacionais de teatro (1974 e 1976) e levou, consecutivamente, entre 1972 a 1973, um espetáculo por ano a Portugal382 e, quando possível, realizou circulação na Europa e na África de seus trabalhos.

Enquanto O Balcão continuava em cartaz no Ruth Escobar, desde dezembro de 1969 a empresária iniciou, em 1971, a montagem Os dois cavalheiros de Verona, de Shakespeare. A obra do dramaturgo inglês apresenta as aventuras de dois jovens da cidade de Verona que seguem para Milão. Um viaja à procura da fortuna, o outro, parte relutante, deixando a namorada. Em Milão, encontra o companheiro com uma bela jovem e esquecendo o amor antigo passa a cortejá-la, tentando afastar o amigo e um rico pretendente da cidade.

Para dirigir este espetáculo, Ruth Escobar contratou Michael Bogdanov, nome que anunciou em 1969 para montar uma obra shakespeariana (neste ano ele dirigiu Os Dois Cavalheiros de Verona, em Londres), porém essa parceria somente se concretizou em 1971. Além de o encenador ter experiência com essa montagem, Ruth Escobar tinha outra razão para contratá-lo: Bogdanov era pupilo de Peter Brook. Isto é, o encenador era uma via de acesso ao encenador inglês que estava na lista de profissionais com quem Ruth desejava trabalhar.

Porém, Ruth Escobar também já havia conseguido se tornar um nome conhecido entre artistas na Europa, fator que foi decisivo para que Bogdanov aceitasse o convite. Ele afirmou que:

Aceitei o convite para encenar Os Dois Cavalheiros de Verona no Teatro Ruth Escobar, antes de tudo, pela curiosidade de trabalhar em outra língua, em outra cultura. É um desafio, é um empresa estimulante comunicar Shakespeare para uma platéia brasileira. Depois, é muito boa a reputação do teatro de São Paulo na Europa, por causa das visitas de Victor Garcia, Jérome Savary e Genet, sem contar do êxito de O Balcão. Sabemos que o teatro aqui não tem mêdo de experimentar. Escolhi essa comédia porque só disponho de 5 semanas e meia de ensaios e ela é pequena, exigindo elenco reduzido383.

O fato de a empresária ter em seu currículo produções teatrais com encenadores renomados, dava-lhe mais credibilidade e repercussão fora do Brasil. Aliada a essa estratégia, Ruth apostava em encenações contundentes, assim como arriscava em novos modos do fazer teatral.

No entanto, ressalto que, ao contrário do que afirmou o encenador, o espetáculo reuniu vinte e quatro atores e mais de quinze profissionais da equipe técnica de produção. Logo, não se pode dizer que seja um elenco reduzido, tampouco pequeno. Porém, o pouco tempo que o diretor esteve junto ao elenco foi decisivo na montagem de Os dois cavalheiros de Verona. Para

381 GASPARI; HOLLANDA; VENTURA, 2000, p. 58.

382 Algumas dessas produções teatrais não serão abordadas nesse subitem. Foram agrupados em outros capítulos

para dialogar com outros motes. Há um capítulo exclusivo sobre a organização dos festivais.

esta encenação, Bogdanov atualizou a obra shakespeariana ao contexto de 1971. Ele afirmou que “em termos de relações humanas, a peça não mostra um homem tradicional, mas um homem de agora, aqui, em São Paulo”384. Além disso, as músicas d´Os Mutantes foram escolhidas para compor a trilha sonora do espetáculo. O resultado da inserção de elementos contemporâneos num texto clássico, somado à direção instantânea de Bogdanov provocou, novamente, críticas ao trabalho da produtora Ruth Escobar, conforme pode ser constatado nas palavras do crítico Jefferson Del Rios:

1) O espetáculo “Os Dois Cavalheiros de Verona” [...] é um engodo, um desrespeito ao público e aos que fazem teatro a sério no Brasil. Quem acompanha regularmente as atividades dos amadores sabe que nos festivais anuais surgem melhores criações. Fujam desse esbulho.

2) O texto de Shakespeare mas é chato, tão chato quanto de um autor menor. É uma das primeiras peças do dramaturgo e não há nada de estranho no fato de o futuro gênio incorrer numa comediazinha rala de amor.

3) A montagem é assinada pelo inglês Michael Bognadov, assistente do famoso diretor Peter Brook. Isto tudo não significa nada. Ele chegou aqui (provavelmente após uma lida em “Shakespeare: Nosso Contemporâneo, de Jan Kott) e, a toque de caixa, costurou as cenas. Sem saber português, sem noção desde o início, de que teatro disporia, etc..., acendeu a bomba e foi tomar chá com torradas no País de Gales. Seu trabalho é tão superficial que anula um elenco de nomes respeitáveis. Na sessão para a crítica, o cachorrinho “Siri, que participa da estória, chamou mais atenção. Reconhece-se um ator/personagem apenas em Sérgio Mamberti. O pior é que a culpa não é da maioria dos interpretes que, evidentemente, não passaram pelo que se entende como direção.

4) Cenografia, figurinos e música não acrescentaram nada ao espetáculo, ou atrapalham, como é o caso do cinza chumbo e do preto do cenário, que matam de vez a possibilidade de um mínimo de clima no ambiente. A propalada piscina que haveria no palco é um ridículo tanque de água.

5) A montagem foi anunciada com estardalhaço, a chegada de Bogdanov um “suspense”, os planos mirabolantes. O teatro brasileiro parecia prestes a viver um momento histórico. O que se viu foi aventurismo empresarial que merece a condenação do público e do próprio teatro.

6) Finalizando: o jornal Le Monde, de 6/5/71 traz um comentário de Colette Godar sobre as apresentações dos grupos brasileiros no Festival de Nancy (pag. 19). Referindo-se aos espetáculos “O Evangelho Segundo Belzebu” e “Teatro Jornal”, a articulista conclui, significativamente:

“Teatro mais representativo do Brasil do que os faustosos espetáculos montados por prestigiosos diretores importados da Europa”.

Como diria Shakespeare: o resto é silêncio385.

Nunca na trajetória de Ruth Escobar houve uma crítica teatral tão feroz como esta escrita por Del Rios. Ainda que, sinteticamente, o crítico perpassou em diversos pontos da construção de um espetáculo: o texto, a interpretação, a direção e, em todos eles, suas observações foram contundentes. Palavras como engodo, ridículo, chato dimensionam a visão que o crítico teve do espetáculo. Em suma: reprovável.

A estreia de Os dois cavalheiros de Verona aconteceu no Auditório da Fundação Getúlio Vargas, teatro que abria suas portas ao público paulistano em 07 de maio de 1971. Após estrear, o espetáculo teve problemas que se relacionavam com a subvenção financeira da Comissão Estadual de Teatro (CET). Naquele momento, a CET reformulava a sua forma de subvencionar os espetáculos teatrais. De acordo com a nota publicada n´O Estado de São Paulo, “empresários

384 PEÇA, O Estado de São Paulo, 07 mai. 1971, p. 8. 385 DEL RIOS, Folha de São Paulo, 18 mai. 1971, p. 23.

e atores de diversas companhias não concordaram com o critério adotado pela CET de submeter os espetáculos à apreciação crítica, após a estréia, só então decidindo se êles receberiam ou não o subsídio”386.

Ao contrário das produções anteriores, Ruth somente apresentou o pedido de subvenção após a estreia, procedimento considerado errado pelo órgão que acabara de mudar as regras para apoiar o teatro paulista. Em relação ao espetáculo produzido por Ruth Escobar, a CET emitiu o seguinte parecer:

Com referência a montagem de “Os 2 Cavalheiros de Verona”, a Comissão decidiu: a) manter a denegação de verba ao pedido inicial; b) apreciar o requerimento da empresa produtora para adaptação do espetáculo e sua remontagem em nova sala de espetáculos destinados a público juvenil; c) conceder auxilio para apresentação de 15 espetáculos a preços populares, exclusivamente no sentido de defender os legítimos interesses dos atores e outros profissionais que integram o elenco e que poderiam vir a ser prejudicados pela não concessão do auxílio387.

Ainda que meteórica, essa produção não deixou de estar envolvida com problemas que Ruth Escobar teve de encarar. Além disso, o fato de a empresária contratar um encenador que havia montado o mesmo espetáculo anteriormente, assim como, reduzir o tempo de montagem e de produção significaria, pensava a produtora, quase sucesso garantido. Neste caso, Ruth queria uma fórmula pronta ou quem sabe um passe de mágica. Não deu certo!

Após encerrar a longa e premida temporada d’O Balcão, Ruth Escobar iniciou uma nova produção teatral. Nos planos dela, o próximo espetáculo seria Ascenção e Queda da Cidade de Mahagonny (Aufstieg und Fall der Stadt Mahagonny), escrita por Brecht no final da década de 1920. No entanto, Ademar Guerra não aceitou o convite para dirigir o texto. Ele recordou os motivos dessa negativa:

[...] Ruth Escobar me procurou para eu dirigir Mahagonny, de Bertolt Brecht, uma peça que eu adorava e sempre esteve nos meus planos e que mais tarde dirigi com Renato Borghi e Ester Góes. Mas não achava que aquele era o momento de

Mahagonny, até porque se tratava de uma produção difícil, cara, e a Ruth estava até o pescoço com as dívidas de O balcão, o espetáculo do Victor García. Eu a convenci de que ela não teria condições de encarar uma produção como a de Mahagonny. Quando apresentei a idéia (tínhamos então só a idéia de Missa leiga), a Ruth comprou a barra. Agora faltava o texto, do qual só sabíamos a estrutura, que seria a da missa católica388.

Escrita por Chico de Assis e dirigida por Ademar Guerra, a estrutura dramatúrgica passava por todas as partes da liturgia da missa católica. O autor transformou a história de Jesus Cristo na de um homem comum, que deve decidir se deseja ou não passar pelo suplício da crucificação. Concebido a partir de episódios bíblicos, em forma de ritos, o texto aborda as angústias e amarguras do ser humano, “uma forma de apelo à consciência do homem como senhor do seu próprio destino [...] um chamado à nação, usando uma forma de entendimento familiar aos brasileiros, que é a missa”389, pontuou Oswaldo Mendes.

Antes mesmo de iniciar a temporada do espetáculo, Missa Leiga esteve envolvida em polêmicas, principalmente, em torno do local escolhido para encená-la. A produtora desejava continuar a exploração e a adaptação de espaços físicos em função do espetáculo e da

386 ESPETÁCULO, O Estado de São Paulo, 21 mai. 1971, p. 7. 387 MONTAGEM, O Estado de São Paulo, 27 mai. 1972, p. 12. 388 MENDES, 1997, p. 81.

dramaturgia. Para essa encenação, Ruth Escobar escolheu a Igreja da Consolação, espaço que serviria de contraponto ao texto. No entanto, a utilização desse espaço foi alvo de críticas dos conservadores que não admitiam torná-lo palco de uma encenação que negava a própria trindade católica, explícita no próprio nome do espetáculo.

Na concepção de Rofran Fernandes, Missa Leiga começou a ser alvo de ataques depois da publicação de dois artigos no Jornal da Tarde nos dias 22 de novembro de 1971 e 13 de janeiro de 1972. Ele disse que foi a partir deles que se “estruturou um movimento de bloqueio à idéia, liderado por Lenildo Tabosa Pessoa”390. Porém, como Ruth Escobar era alvo constante da ditadura, a vigilância se iniciou antes dessa data. Uma série de documentos confidenciais e sigilosos foram produzidos pelos órgãos fiscalizadores.

Em 12 de novembro de 1971, a Delegacia Regional de São Paulo transmitiu um comunicado à DPF a respeito de Missa Leiga. Produzido a partir da reportagem Espetáculos na Igreja e o Centro de Cultura, publicada no jornal Diário da Noite em 11 de novembro, o relatório391 destacou os principais pontos da notícia: 1) que foi realizado um coquetel dentro da Igreja da Consolação com Ruth Escobar, padre Olavo Pezzoti, Adhemar Guerra e Claudio Petraglia; 2) que a peça foi escrita por Chico de Assis com direção de Adhemar Guerra, o mesmo que dirigiu Hair e Marat Sade; 3) que seguiria a mesma concepção realizada em outros países; 4) que provocaria antagonismo entre o Governo Revolucionário e a Igreja; 7) que solicitaram suspensão da exibição da entrevista concedida por Ruth Escobar a TV Cultura para que a mesma fosse analisada.

O relatório continha uma série de informações que diziam respeito a Ruth Escobar e pessoas próximas. Visto que durante a ditadura militar a relação entre arte e governo era tensa, essa mesma lógica também deveria servir a seus aliados, nesse caso, a Igreja Católica. Para os militares, Missa Leiga poderia representar o início de “racha” junto a seus aliados.

De acordo com Rofran Fernandes, o jornalista Lenildo Tabosa, conservador assumido e defensor da corrente progressista da Igreja Católica, publicou no Jornal da Tarde, em 22 de novembro, um texto que combatia e atacava a produção do espetáculo de Ruth Escobar. Reproduzo na íntegra esse texto:

“CRISTO ENTRA EM CENA (Autodestruição)

A ‘mudança’ é hoje o denominador comum sob o qual se unem os partidários de correntes aparentemente antagônicas: o liberal e o marxista/ortodoxo, o idealista e o inocente útil, todos se sentem à vontade, acobertados pela legenda da ‘mudança’. Lógico, para o homem de esquerda, isto é natural e proveitoso. Para ele tudo é sujeito a mudanças, tudo é contestável. As normas morais são relativas e mutáveis.

Por isso, seus alvos preferidos são as instituições mais duradouras, o Estado, a Igreja e a Família.

- A IGREJA, pelos seus dogmas, sua organização hierárquica, sua disciplina.

- A FAMILIA como base de todas as continuidades, o elo de tudo que perdura de geração em geração.

E qual a melhor forma, senão a única eficiente de sua destruição? Sem dúvida será a que vem de dentro, de maneira subliminar, subreptícia, mascarada.

- AUTODESTRUIÇÃO - foi a expressão cabal empregada pelo PAPA PAULO VI para se referir àqueles que, dentro da Igreja, atentam contra a doutrina e ignoram normas e práticas corruptoras ou negadoras da fé católica.

390 FERNANDES, 1985, p. 99.

E que outra classificação, que não autodestruição se pode dar à iniciativa do Padre OLAVO PEZZOTI, aliado a RUTH ESCOBAR, que juntos pretendem levar na Igreja da Consolação o espetáculo herético intitulado ‘MISSA LEIGA’.

Nossa repulsa, já não se refere à peça em si, que se subversiva, está na alçada da Secretaria da Segurança verificar e prevenir.

Já não se atém a RUTH ESCOBAR - a ativista comunista, a quem coube a iniciativa e foi a estimuladora do teatro do palavrão, a arrecadadora de fundos para a agitação.

Nossa repulsa se prende ao local, premeditado minuciosamente escolhido - a nave da Igreja da Consolação. A única Igreja do País que tem suas portas abertas dia e noite, e onde existe um plantão espiritual noturno, socorrendo os aflitos, sejam moços, cabeludos, blusas de couro e calças desbotadas ou pobres mulheres de vestimenta igualmente significativa.

Ora, se o objetivo é despojar a Igreja de modificações sofridas no passado, tudo para liberá-la de deformação imposta pela teologia católica tradicional, se devemos estudar a verdadeira Igreja de Cristo, como existiam nos inícios, voltemos à Bíblia e reflitamos como Mateus, Cap. 21: E, entrando ele em Jerusalém, toda a vida de se alvoroçou, dizendo: Quem é este?

E a multidão dizia: Este é Jesus, o Profeta de Nazaré da Galiléia.

E entrou Jesus no templo de Deus, e expulsou todos os que vendiam e compravam no templo, e derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. E disse-lhe: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração - mas vós a tendes convertido em covil de ladrões.'

Ruth Escobar que vá vender suas pombas além mar.

NÃO PERMITIMOS QUE OS MERCENÁRIOS VERMELHOS RETORNEM ASSIM AO TEMPLO DO SENHOR.

IGREJA E FAM1LIA”392.

O manifesto escrito por Lenildo Pessoa atacou diretamente a figura de Ruth Escobar e a todos aqueles que permitiram que Missa Leiga – cujo nome era considerado herético para ele – fosse apresentada dentro da Igreja da Consolação. Ele defendia a integridade absoluta da tríade da Estado, Igreja e Família, sendo que as mesmas não podiam ser alvo de comunistas desejosos por desestruturar essas instituições. Percebe-se, também, que o jornalista tinha conhecimento da trajetória polêmica de Ruth Escobar ao pontuar sobre produções teatrais, anteriormente produzidas, que usavam palavrões – uma afronta à moral! Isto é, para ele era inadmissível um lugar abrigar alguém que adotava um posicionamento contrário aos princípios religiosos.

Apesar de Ruth Escobar conseguir autorização do padre Olavo Pezzoti, do arcebispo Paulo Evaristo Arns e de Dom Lucas Moreira Neves, porta-voz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Tradição, Família e Propriedade (TFP), fundada em 1960, por Plínio Correia de Oliveira, espécie de organização paramilitar de direita que defendia o conservadorismo católico, declarou “guerra ao espetáculo”. Para isso, TFP ameaçou o espetáculo com bombas e agressão ao atores - repetindo o que havia acontecido com Roda Viva, em 1968. Segundo Oswaldo Mendes, desde o início do projeto “sabíamos que o espetáculo enfrentaria resistência dos setores mais tradicionais e conservadores da Igreja”393.

Outro relatório394 foi produzido a respeito de Missa Leiga. Datado de 29 de dezembro de 1971, foram feitos os seguintes apontamentos: 1) que Missa Leiga estava liberada pela censura; 2) que matinha contato com o Cel. Otávio Costa – Assessor de Relações Públicas da Presidência da República – o qual apoiava a vinda do Gen. Garastazu Médici na estreia: 3) que

392 FERNANDES,1985, p. 99-100. 393 MENDES, 1997, p. 85.

Ruth teria recebido quinhentos mil cruzeiros do Clero para montagem do espetáculo e que um funcionário tinha visto o cheque; 4) que a empresária planejava encenar Missa Leiga em Nova Iorque. Ainda que haja documentos que comprovem todos essas observações, o fato é que Ruth Escobar, naquele momento, estava em negociação com Joseph Papa para a montagem d´O Balcão aos EUA, não de Missa Leiga. As informações inseridas nos relatórios produzidos pelos órgãos de vigilância possuem erros e contradições que induzem e reforçam o “esquerdismo” da