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Em Portugal, a primeira prova desportiva de automóveis decorreu no mês de Agosto de 1902 mas em vez de ligar duas cidades, numa distância quilométrica razoável, consistiu apenas em dez voltas ao improvisado circuito do Hipódromo de Belém, numa distância total de 12 200 metros. O Hipódromo de Belém foi um lugar sui-generis da história do desporto em Lisboa. Foi inaugurado em Junho de 1874 e estava situado a cerca de 500 metros a poente do Mosteiro dos Jerónimos. Nasceu naturalmente para as diferentes modalidades do hipismo mas as suas condições excepcionais rapidamente o colocaram como cenário privilegiado de outros desportos. Seria, aliás, nos terrenos do Hipódromo que “voaria” em Portugal o primeiro avião, em 27 de Outubro de 1909, quando o francês Armand Zipfel, aos comandos de um Voisin- Antoinette, equipado com um motor de 40 cv, faria um “salto” de 200 metros, atingindo a altura máxima estimada de 8 metros, acabando a aventura com uma queda não programada que provocaria alguns danos materiais.330 Essa estrutura polidesportiva seria, aliás, celebrizada por por Eça de Queiroz em Os Maias:331
O hipódromo elevava-se suavemente em colina, parecendo, depois da poeirada quente da calçada e das cruas reverberações da cal, mais fresco, mais vasto, com a sua relva já um pouco crestada pelo sol de Junho e uma ou outra papoula vermelhejando aqui e além. (...) Para além, dos dois lados da tribuna real forrada de um baetão vermelho de mesa de repartição, erguiam-se as duas tribunas públicas, com o feitio de traves mal pregadas, como palanques de arraial.
Com o passar dos anos, o hipódromo de Belém foi perdendo a sua importância. O Jockey Club transferir-se-ia para o Campo Grande e os cavalos, gradualmente, foram abandonando o formoso recinto à beira-Tejo. Porém, pontualmente, como foi o caso desta manifestação desportiva de Agosto de 1902, o velho Hipódromo engalanava-se e acolhia de novo um público curioso com o inovador programa proposto, organizado pelo Sport Club, o qual apresentava vários aliciantes: um desafio de futebol, várias corridas de bicicletas, uma prova de motos e,
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finalmente, uma corrida de automóveis. As provas do Hipódromo tiveram algum impacto no universo desportivo lisboeta na época. A organização do Sport Club conseguiu um extraordinário feito ao juntar no mesmo evento as corridas de velocípedes, com as competições consagradas às novas máquinas do século: as motos e os automóveis.
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Na corrida de motos, participaram seis condutores, destacando-se no conjunto dos inscritos o dr. Tavares de Mello, fundador da empresa Leão, Moreira e Tavares, Lda. também conhecida por Empresa Automobilista Portuguesa, representante em Portugal dos automóveis Darracq e das motos Werner. Mas ao contrário do que se poderia esperar, este empresário não participou no traçado de Belém ao volante de um automóvel, antes optando pela inscrição na corrida de motos, com uma Werner.
Ao organizar o conjunto de provas do Hipódromo, o Sport Club não tinha consciência que estava a fazer história. Serviu-se desses novos meios de locomoção como corolário de um conjunto de manifestações desportivas, de forma a atrair público e angariar receita. Os automóveis apareceram não como um instrumento de potenciação do próprio automobilismo mas sim como mais uma peça do cartaz desportivo. Por isso não tiveram nem mais nem menos destaque do que os restantes eventos, conforme se pode observar pelas notícias transcritas de O Século:332
Realizaram-se ontem no hipódromo de Belém as anunciadas corridas de bicicletas, motocicletas e automóveis, promovidas pela direcção do Sport Club, cujo produto reverte a favor da Assistência aos Tuberculosos, benemérita instituição protegida por sua Majestade a rainha Senhora D. Amélia. Pelas 4 horas, tendo comparecido o sr. Contra-almirante Capello que representava suas majestades, começaram as corridas. (...) As (...) que maior entusiasmo despertaram foram as das motocicletas e automóveis. Na primeira tomaram parte seis máquinas, ganhando o primeiro prémio o Sr. Dr. Tavares de Mello, distinto sportman de Coimbra, que ganhou por uma volta aos seus antagonistas, o segundo – Sr. Cândido da Silva e o terceiro – Sr. Gomes Leite.
No Diário de Notícias, na mesma data333, a corrida de motos era assim relatada:
5ª Corrida – Motocicletas, 5 voltas (6.100 m). 1º prémio: objecto de arte conferido pelo sr. Conde de Tondela; 2º prémio: objecto de arte, conferido pelo sr. Conde de Caria (Bernardo). Esta corrida foi disputada por cinco “chauffeurs” que se houveram com galhardia, sobressaindo todavia o dr. Tavares de Mello, de Coimbra, na sua motocyclette Werner, de 2 ¾ cv de força, a qual já ganhou dois prémios nas importantes corridas Paris-Brest e Bordeaux- Paris. O 2º prémio foi ganho pelo antigo corredor Cândido da Silva e o 3º pelo sr. Gomes Leite.
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Em relação à corrida das motos, existe uma diferença significativa que diz respeito ao número de participantes – seis no caso do Século, cinco no caso do Diário de Notícias. Contudo, outra fonte, o Diário,334 refere-se também a seis motos participantes, facto que é igualmente confirmado pela notícia mais completa que se conhece desta corrida, transcrita na revista O Ciclista, que era o orgão especializado da velocipedia portuguesa, no princípio do século. Em ambos os diários, apenas conhecemos os nomes dos três primeiros classificados, omitindo-se assim a identificação dos restantes concorrentes e apenas o Diário de Notícias refere explicitamente a marca da moto vencedora, uma Werner, ficando também por apurar a proveniência dos restantes motociclos. Contudo, tal dúvida é desfeita através da notícia de O Ciclista:335
No dia 17 do corrente realizaram-se no Hipódromo de Belém as corridas velocipédicas e de automóveis organizadas pelo Sport Club de Lisboa (...). 5ª corrida – Motocyclettes, 6100 metros. Esta corrida foi disputada pelos seguintes chauffeurs: Dr. Tavares de Mello, Gomes Leite, Carlos Mello e Carlos Viegas, em Werner; Cândido da Silva, em Clement e Augusto Sá da Costa, em Minerva.
Ficava assim amplamente confirmada a supremacia do homem de Coimbra no restrito universo do desporto motociclista nacional e esse facto seria amplamente utilizado na publicidade que a Leão, Moreira & Tavares, Lda. efectuaria em torno da sua representada, a Werner, que era claramente a mais popular entre nós.
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Entre a corrida de motos e a esperada corrida de automóveis, os organizadores fizeram, judiciosamente, intercalar mais provas de velocipedia. Mas todos sabiam que o espectáculo mais ansiosamente aguardado seria constituído pela demonstração das “carruagens sem cavalos”, mesmo que o seu número fosse consideravelmente reduzido. Compareceram à linha de partida três concorrentes, todos eles em veículos diferentes, não se sabendo se os três automobilistas presentes à partida foram convidados para tal ou se corresponderam a uma circular genérica de inscrição efectuada pelos organizadores:
- O americano Abbott, num Locomobile, marca americana com motor a vapor, representada no nosso país pela F. Street & Cª;
- O francês Albert Beauvalet, engenheiro que participou num Panhard, cuja representação era, à época, sua;
- O português Alfredo Vieira, ao volante de um Darracq, representada entre nós pela Empresa Automobilista Portuguesa, de Leão, Moreira e Tavares, de Coimbra.
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Com um perímetro de 1220 metros, o Hipódromo oferecia um piso de condições relativamente difíceis para os automóveis, sobretudo porque antes da sua prova, as corridas de bicicletas e, particularmente, a de motos tinham já alterado um pouco a sua regularidade.
Como prova de espectáculo que era, sem grandes preocupações de aferição de velocidade, força ou fiabilidade, ficou decidido pela comissão organizadora – de que era presidente Luis Sande Júnior – que a mesma seria constituída por um total de dez voltas ao recinto, perfazendo assim a distância de 12.200 metros. Ao contrário do que se poderia pensar, os desequilíbrios entre os concorrentes revelaram-se notórios e a vitória do americano Abbott foi convincente sob todos os pontos de vista, pois o condutor do Locomobile cortou a meta com duas voltas de avanço sobre os seus perseguidores. No que diz respeito à corrida de automóveis, os dois jornais deram igualmente tratamentos diferenciados, sendo o Século mais comedido no seu comentário, com algumas confusões à parte:336
Teve finalmente lugar a grande corrida de automóveis na qual tomaram parte as seguintes: do sr. Street & Cª – guiado pelo sr. Abbott, do sr. Beauvalet – pelo sr. Panhard e do sr. Alfredo Vieira – pelo sr. Darracq. O sr.Street apresentou uma máquina magnífica e muito elegante, que chegou com duas voltas de avanço sobre os outros automóveis, causando esta corrida grande entusiasmo.”
Estranhamente, a imprensa supostamente especializada em automóveis, liderada por O Tiro Civil, não fez qualquer referência a esse acontecimento desportivo. O Diário de Notícias referiu-se assim ao evento:337
9ª corrida – Grande corrida de automóveis: 10 voltas (12:200 m). 1º prémio: conferido pelo governo de Sua Majestade; 2º prémio: objecto de arte conferido pelo sr. Conde de Valenças; 3º prémio: objecto de arte conferido pelo sr. Ministro do Brasil, dr. Alberto Fialho. Saíram da meta os seguintes automóveis: The Locomobile, chauffeur, mr. Abbott; Panhard et Levassor, chauffeur mr. Beauvalet; Darracq, chauffeur, sr. Alfredo Vieira. Ganhou o primeiro prémio Mr. Abbott no magnífico automóvel The Locomobile, o qual causou o assombro de todos os espectadores não só pela perícia do chauffeur como pela regularidade da marcha, velocidade e silêncio. São representantes desta apreciável marca os srs. Street & Cª. O segundo prémio foi ganho por Mr. Beauvalet (Albert) no “tonneau” Panhard-Levassor e o terceiro, também no “tonneau” Darracq, pelo sr. Alfredo Vieira. Esta corrida, que sem exagerar podemos classificar de “clou” da tarde, foi a que despertou maior entusiasmo, sobretudo quando o Locomobile dobrou os seus concorrentes. Então, os aplausos foram estrepitosos, repetindo-se na chegada à meta, com o avanço de 2080 metros o que é para atender, visto que os competidores também se esforçaram.
O Século, como é visível, confundiu representantes com representadas e com os próprios chauffeurs. Mas o Diário de Notícias já conseguiu definir claramente os papéis das pessoas e das empresas em causa. O Ciclista, trata também da prova de Belém, nos seguintes termos:338
O primeiro prémio foi ganho pelo Locomobile com a força de 4 ½ cavalos, que chegou à meta com cerca de 2000 metros de avanço. O segundo e o terceiro foram ganhos respectivamente pelo Panhard e Darracq, também com 4 ½ cavalos de força. Pode dizer-se afoitamente que foi a corrida que maior entusiasmo despertou atendendo a que foi a primeira que se fez em Portugal.
A corrida, embora circunscrita, teve repercussões comerciais importantes e a Locomobile, que continuava a apostar no vapor como forma de motorização, numa altura em que o motor a explosão revelava já vantagens apreciáveis, aproveitou a ocasião para – através da publicidade – potenciar as suas vendas no nosso mercado. Mas para além dessa faceta, mais operacional e prática, o Hipódromo não representou mais do que uma mera manifestação das potencialidades dos novos veículos, sem qualquer outro intuito que não o do espectáculo. A prova nunca foi citada nas actas que antecederam a realização da prova da Figueira da Foz, que se organizou nos finais de Outubro, como iremos ver adiante, nem o Relatório da Comissão Executiva dessa corrida alguma vez lhe fez menção, nem que fosse a título de exemplo. A generalidade da Imprensa praticamente não tocou no assunto e, sintomaticamente, os títulos que acabaram por estar na base da criação da comissão executiva da grande corrida da Figueira – A Época, O Tiro Civil e A Caça – apenas se referiram de forma ligeira à
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performance de apenas um daqueles três automóveis: o Locomobile. A Época,339 na sua missão de elucidar o público sobre as aptidões e os curricula dos participantes à corrida da Figueira, citou Abbott nos seguintes termos.
É um nome célebre na sua arte; ganhou a medalha de ouro, primeiro prémio, nos mil e tantos kilómetros, na Inglaterra, e ganhou, também, o primeiro prémio na pequena corrida realizada há tempos em Belém.
A prova dos “mil e tantos kilómetros” aqui citada referia-se ao Reliability Trial, organizada no Reino Unido, uma corrida mista que incluia provas de resistência, rampa, travagem, consumo e regularidade.340 Já a revista A Caça aflorou de raspão essa primeira corrida,341 num artigo dedicado à corrida americana de Brighton Beach, onde justamente se destacaram os Locomobile:
O automóvel Locomobile que tão boa figura fez na primeira e na última destas corridas, tem como representante em Lisboa a casa F. Street & Cª que, na festa desportiva que teve lugar no Hipódromo de Belém, fez inscrever um carro Locomobile, que despertou grande entusiasmo pela facilidade com que ganhou duas voltas de avanço. Estes carros não produzem trepidação nem ruído e, com os últimos melhoramentos que tiveram, estão destinados a um largo futuro.
A prova do Hipódromo ficou assim registada por ter sido a primeira. E por ter permitido constatar que seria, sem sombra de dúvida, a mais popular de todas as formas de corridas entretanto criadas – pedestrianismo, velocipedia, motociclismo e automobilismo – pois os jornais e revistas que se lhe referem sempre fizeram questão de destacar que tinha sido essa a competição que maior entusiasmo despertou.
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6.2 A corrida Figueira da Foz – Lisboa como ponto de inflexão da expansão do