Falar dos automóveis importados directamente antes da formação e disseminação das empresas oficiais de distribuição, com contratos de exclusividade para todo o país ou para algumas das suas regiões, é uma tarefa que envolve a consulta de fontes sem características próprias definidas. Tanto pode surgir em meios especializados, desencontrados no tempo, como em pequenos textos memorialistas e, por isso, o que se segue é uma tentativa de depurar, de tudo aquilo que se conhece e que se consegue minimamente abordar com fontes credíveis e cruzadas, os factos que nos possam estimar o número de veículos com motor que entraram em Portugal antes da estatístifca oficial que teve início em Julho de 1900.
Sanches de Castro, num dos seus artigos em que desfia memórias sobre a história do automobilismo entre nós, começa por avisar o leitor que “nos apontamentos que vai passar a papel é possível que por vezes haja enganos de datas, nomes ou informações.”184 Mas as recordações por ele, ou por outros, invocadas, acabam por constituir pistas que nos permitem construir ideias e cenários com alguma probabilidade de veracidade. Por exemplo, num dos seus primeiros artigos memorialistas, aborda um automóvel que tem estado escondido na historiografia – um veículo a vapor, provavelmente destinado ao transporte de pessoas, e que terá sido importado ainda no século XIX:185
Um dos primeiros automóveis que entraram em Portugal, talvez mesmo o primeiro, deve ter sido o importado pelo Sr. Sebastião das Neves, de Viana do Castelo. Eu mesmo vi esse carro, mas informações de pessoas do tempo dizem que ele era um carro a vapor com tejadilho e rodas de carroça e de caldeira vertical alimentada à pá por um homem. Seria uma cópia do célebre L’Obeissante que faz parte da história do automobilismo mundial?
Embora seja interessante perceber se este veículo foi importado antes do Panhard et Levassor do Conde de Avilez, é fundamental integrá-lo, desde já, na história do automobilismo nacional. Uma conhecida intelectual de Viana do Castelo, Maria Emília Sena de Vasconcelos, publicou um pequeno trabalho sobre o automobilismo naquela cidade e embora aborde a actividade de Sebastião das Neves na área dos transportes não se refere nunca ao tipo de viaturas por ele utilizadas.186 Pouco se sabe sobre este automóvel a vapor que ter-se-á instalado em Viana do Castelo, pelo que até prova em contrário, o primeiro veículo motorizado que entrou no nosso país foi a motocicleta importada por João Garrido em 1895, ainda antes do Panhard et Levassor do Conde de Avilez.
;@ !" 4 ) @ % M " % ,) 8 4 9 % ) A K % ) 2 ) A' A @ % ! J ) % IQ P ! @ % aK b 5 ! % Q ! ? : * ) ? ? 5 IQ ! ' ( > M @ : ! ! ) ' 3 = 4 ) : 4 0 4V ( ! ) 3 ) @ : ' A 4 : ,) A '
Os Estabelecimentos João Garrido terão induzido involuntariamente nesta história alguma “névoa” pois no seu famoso catálogo de 1903 escreveram que esta ”bicicleta com motor” tinha sido importada em 1894. Mas o filho de João Garrido, em 1929, consultando os seus arquivos, esclarece em definitivo a data de importação desse veículo histórico: Julho de 1895.187 A imprensa desportiva do Porto deu alguma cobertura a este veículo e a notícia da sua importação pode ser confirmada pelo periódico O Velocipedista que se referiu assim à “bicicleta com motor a petróleo”:188
O conhecido industrial e comerciante portuense, o nosso amigo João Garrido, despachou no dia 29 do mês findo, na Alfândega de Lisboa, uma bicicleta com motor a petróleo e que chegou ao Porto no dia seguinte, anteontem. O Sr. Garrido vai fazer uma experiência pública deste aparelho em um dos velódromos do Porto. A bicicleta em questão tem estado exposta no estabelecimento que o Sr. João Garrido possui à rua Passos Manuel.
A dita demonstração pública foi efectivamente efectuada,189 mas de acordo com as afirmações de João Garrido Filho, a bicicleta a motor nunca chegou a ser vendida.190 Há igualmente registo de que a empresa Santos Beirão & Henriques, Lda, conhecida como Casa Memória, também terá importado veículos com motor ainda no século XIX, o primeiro dos quais terá chegado pouco tempo depois do Panhard do Conde de Avilez. Em 1895, na imprensa lisboeta divulgava-se a seguinte notícia, sob o título “Bicicleta a vapor”:191
Chegou ontem de tarde a biciclete movida a petróleo para o nosso amigo Santos Beirão. É uma magnífica máquina de 1,5 metros de comprimento, tendo o motor, lâmpadas, válvula de segurança, tubos de respiração, registo, travões, etc., colocados na frente do selim. Tem a força de 2 e meio cavalos, sendo de grande vantagem para os velocipedistas pois que vence quase todas as subidas. Acha-se em exposição na Casa Memória, ao Rossio, da qual é proprietário o conhecido comerciante Sr. Santos Beirão. Brevemente far-se-ão experiências.
Foi em 1897 – ou seja, uns meses depois de ter sido constituída juridicamente a firma Automobiles Peugeot e sete anos após a decisão do grande grupo industrial em avançar para a então recente indústria automóvel – que veio para Portugal o primeiro veículo daquela marca, graças aos esforços do Dr. Eduardo Tavares de Mello – pai de José Tavares de Mello, que viria a desempenhar um papel fundamental no desenvolvimento do automobilismo nacional – que o importou e o pôs a andar. O primeiro Peugeot importado para Portugal era ainda um dos primeiros exemplares de produção daquele construtor: o motor era um “2 cilindros” em V da Daimler, produzido sob licença na Panhard et Levassor e o chassis, em tubos metálicos soldados, havia sido produzido na nova fábrica de Audincourt, desenhada de propósito para esse novo negócio da família, de forma a libertar a antiga fábrica de Valentigney.192 Parte da história da importação desse primeiro Peugeot foi transmitida pelo próprio filho do Dr. Eduardo Tavares de Mello, em entrevista realizada no final dos anos 50:193
Meu pai, embora formado em Direito, era um artista mecânico, amador invulgar e foi isso que o levou e me levou com ele em Agosto de 1896 a ver um concurso de automobilismo em Spa, estância de águas termais na Bélgica. Aí apareceu com maior força, se bem o tenho fixado, o motor Daimler de 2 cilindros em V, 2 ¼ cavalos sobre rodas em borrachas maciças e em pneumáticos. No ano seguinte, em 1897, portanto, em Abril, trouxe meu pai para Portugal o primeiro automóvel sobre pneus. Era do então construtor de bicicletas e ferramentas Peugeot. (…) Era um quadro Peugeot com motor Panhard colocado à retaguarda e com a força de 1 ¾ cavalo. Tinha 3 velocidades e marcha-atrás. Eu e meu pai exibimo-nos na Foz do Douro nesse ano e a nossa primeira viagem foi de Coimbra à Guarda. Levámos 16 horas…
=. ) # ! ) . " 5 L% ! % ! ! ! !P ! - 7 - " j, . ) O % ) 3 ) ' 8 4 ) ) ) ' : 6 ' ))) R 4 ) 0 N ! % ! ! ! @ ' * . " ' > Q5 ) 5 # 5 L% ! ) ) ! 0 = ', 8 4 ) @ % ) ) ' 1 %? % ! ! 4 ? ) ? ) ! Q " ) !? % C ? E) 5 ! !" W " ! ', 4 + ) , 4 . ) 3 ' 9 % ) 3 O % ) ) 3' 3K ) ! # P ! ! 5 % ! IQ ! ) ! % ! # ! !" ' 24 + ) , 4 . ) 3 '
Há dois registos muito claros, quase contemporâneos, da chegada deste automóvel a Portugal, ambos publicados na revista O Ocidente. No primeiro194 escreve-se literalmente o seguinte:
“(…) e, por curiosidade, mencionaremos que neste momento se encontra na nossa alfândega geral um veículo automóvel adquirido por um cavalheiro de Coimbra, sobre cuja classificação se suscitaram dúvidas, por omissão da pauta aduaneira, e não se saber se deverá pagar como velocípede se como veículo movido a vapor.
Numa edição posterior195 volta-se a retomar o tema da inusitada importação desse Peugeot:
A carruagem automóvel que o Sr. Dr. Tavares de Mello mandou vir de França e que importou em cerca de 1:600$000 réis, incluindo todas as despesas de alfândega, transportes, etc. tem aqui sido alvo de todas as atenções. É um carro elegante e com lugares para três pessoas. Tem grossas rodas pneumáticas e é movido por motor a petróleo (naphta) cuja despesa regula por 20 réis à hora. Nas subidas, pode atingir a velocidade de 11 kilometros por hora e em caminho plano 26, podendo parar facilmente, mesmo na maior velocidade. É esta a segunda carruagem automóvel que existe em Portugal sendo muito mais aperfeiçoada do que a primeira que veio, que pertence ao Sr. Conde de Avilez. O Sr. Dr. Tavares de Mello tem a vantagem de poder reparar qualquer avaria que se dê no seu excelente carro, porque em obras de marceneria e serralheria é um artista como poucos.
Este automóvel é igualmente referenciado num artigo escrito em 1931 na revista do ACP exibindo até duas preciosas fotografias, uma do chassis completamente despido da sua carroçaria (datado incorrectamente de 1894) e uma outra, com menos qualidade ilustrando um dos famosos passeios à Foz a que o decano do automobilismo nacional, José Caetano Tavares de Mello, faz breve referência na sua entrevista. O artigo do ACP esclarece alguns dos principais aspectos desse automóvel:196
. ;' 8 4" ' ) =
. 0 . ! ! 9 ) O ,) = ' ) ; 2 0 A
As características eram as mesmas do primitivo [Panhard et Levassor], motor em V a 4 tempos, 2 cilindros, já aperfeiçoado, Phoenix Daimler, construído por Panhard et Levassor, ignição por incandescência, motor colocado na parte da retaguarda, força de 1 cavalo e ¾,
;8 8 9 % 3 - ) =) '
O % ,) 8 8 9 % ) ( ) =) '
chassis de tubos de aço construído pela fábrica de bicicletas Peugeot (Audincourt). É curioso notar que já este automóvel tinha rodas metálicas, embora desiguais, como hoje mais correntemente é usado nos automóveis. O cárter da caixa de velocidades, que tinha já três velocidades e marcha-atrás, era uma simples saca de couro afivelada. Arrefecimento primitivo, já por circulação de água, que nalguns tipos, para ser completo, passava nos tubos de chassis! A embraiagem era feita pela alavanca grande, à direita que, segundo a posição, engrenava em uma das três rodas de velocidades, que eram de bronze. Direcção por meio de uma alavanca, que comandava o eixo da frente, por intermédio de uma corrente e uma roda dentada.
Há ainda um outro testemunho deste primeiro Peugeot, também recolhido por Vasco Calixto em entrevista ao Conde de Vinhó e Almedina:197
Quando o Tavares de Mello trouxe para Portugal o seu primeiro carro (...) levou-o para a Figueira e fui eu e a minha mulher quem primeiro andámos nesse carro. Demos umas voltas pelo Bairro Novo e foi a admiração de toda a gente. Ora isto foi... deixe ver, creio que em 1897.
Ao contrário do que sucedeu com o Panhard et Levassor importado pelo Conde de Avilez, que terá feito uns pequenos percursos em Lisboa – no dia em que o automóvel foi desencaixotado e preparado para começar a andar – e a viagem que o levou a Santiago do Cacém, Eduardo Tavares de Mello fez várias viagens, embora nem todas estejam referenciadas. Para além da temerária jornada efectuada muito provavelmente ainda no ano de 1897 entre Coimbra e Guarda, a que José Tavares de Mello faz referência, existe registo de um passeio efectuado em Janeiro de 1902, com a presença do Dr. Eduardo e do seu entretanto “desajustado” Peugeot que se vê confrontado com veículos mais modernos, apresentando outras evoluções tecnológicas características dos automóveis do início do século XX. A notícia desse passeio, aliás magnificamente ilustrada, veio a lume na revista A Caça, num artigo assinado por Zico Pedal, que era afinal o pseudónimo do conhecido José Caetano Tavares de Mello – que também participou na arrojada viagem embora a bordo de um Panhard, e não ainda de um Darracq, marca que começaria a importar pouco tempo depois. A crónica rezava assim:198
Eu, que folguei sempre com o progresso de qualquer ramo de «sport» no nosso país, registo hoje com prazer o passeio de automóveis, organizado em Coimbra, em que estes se apresentaram já num número regular, visto nele tomarem parte todos os existentes aqui. De facto, na manhã do dia 12 de Janeiro partiram da estrada da Beira em direcção à Pampilhosa, os seguintes veículos, propriedade dos Exmos. Senhores conde do Ameal (Phaeton Panhard 8 cavalos), João de Menezes (trycicle Comiot 1 cv ¾), Dr. Refóios (Benz 10 cv), Afonso de Barros (voiturette Richard 3 cv ½), António Rainha (voiture legére Clément, tipo 6 cv) e Dr. Eduardo Tavares de Melo, decano dos «chauffeurs» em Portugal (Landaulet Peugeot 6 cv). (…) O regresso, feito rapidamente e com insignificantes «pannes» que o autor destas linhas era chamado a resolver mostra o aperfeiçoamento a que já chegou a indústria de automóveis..
Até ao final do século XIX há ainda registo de mais três Peugeot importados para Portugal, fazendo fé na publicidade que o próprio Albert Beauvalet faria em 1905. Do primeiro, depois do veículo pioneiro do Dr. Tavares de Mello, existe abundante informação pois o seu cliente fez inúmeros contactos por carta não só com a fábricas Peugeot mas também com periódicos estrangeiros da especialidade e com outros clientes portugueses, dando-nos um testemunho impressionante das dificuldades que representava, nessa época, ter a coragem de encomendar um automóvel e, depois, andar com ele. Com efeito, no final do século XIX, uma extraordinária personagem surge no automobilismo nacional. Bernardino de Oliveira Baptista Saraiva era um proprietário de Vila Nova de Tázem que se apaixonou pelos automóveis. Esta relação, que teve tanto de inexplicável como de emocional, fez com que Oliveira Baptista iniciasse nos princípios de 1897 uma extensa consulta quer a fabricantes quer ainda a portugueses que ele julgava poderem ser representantes desses fabricantes. Depois de muito porfiar, estabeleceu a encomenda na Peugeot numa carta199 que estabelecia assim o perfil do automóvel pretendido:
Que tenha quatro lugares, sendo em forma de «break»; isto é, dois lugares à frente voltados para diante e dois atrás «vis a vis» um do outro, e com entrada por detrás, devendo o condutor
=4 + ) , 4 . ) 3='
% , E 9 % - ) 3) '
4 O * T ' ) ( =) 5 . % - 9 ! )
ocupar o lugar da frente do lado direito; que tenha tejadilho (…) com cortinas de tecido com borracha, devendo o tejadilho cobrir todos os quatro lugares e as cortinas taparem todo o carro de modo que a chuva e o vento não cheguem às pessoas que forem nele. (…); que as almofadas e os estofos sejam em marroquim preto; que o motor tenha a força de 6 cavalos; que as rodas sejam com pneumáticos; que tenha o «graisseur» Henry.
Em 29 de Maio, a Peugeot estabelece o contrato comercial do automóvel, pelo preço de 8010 francos,200 incluindo um desconto de 4%, pedindo para o efeito um avanço contratual de 2600 francos sendo a encomenda confirmada por carta201. O prazo de entrega ficou fixado em 10 meses, o que consternou vivamente o Sr. Oliveira Baptista, facto que ele justamente realça numa das cartas enviadas para Audincourt:202
Sinto e admiro que V. Exa. não possa dar o carro pronto em menos de 10 meses; esse tempo é quase uma vida e não sei se eu ainda viverei esse tempo nem se ao menos ele virá a tempo de ir nele para o outro mundo.
Nessa mesma carta, o pioneiro automobilista conhece as primeiras dificuldades na definição precisa do seu automóvel, como consequência dos ruídos de comunicação num processo negocial efectuado à distância:203
Recebi a sua carta de 12 do corrente e fiquei surpreendido por V. Sª dizer que o carro que eu encomendei não compreende tejadilho (dois) e que não sabia de que cortinas eu falo. (...) O que eu encomendei não é um «phaeton» é um «break para quatro pessoas. (...) Se da sua parte houve esquecimento em incluir na conta o preço do tejadilho e se é preciso aumentar o preço dele eu sujeito-me a isso. Admiro também que o carro só possa subir rampas de 10% na pequena velocidade, que é de 5 kilometros por hora, porque com essa velocidade sobem os que têm o motor de 5 cavalos, ora como este tem 6 cavalos parece-me que deve subir com mais velocidade. Não será assim?
No dia 11 de Setembro, Bernardino de Oliveira Baptista Saraiva, dirige nova missiva à Peugeot:204
Desejava saber se a construção do meu carro vai adiantada e venho pedir-lhe o favor de a activar de modo que esteja pronto sem falta no prazo de dez meses que me pediu, e que finda em 4 de Abril de 98, pois foi em 4 de Junho último que lhe fiz a encomenda. Lembro-me que, como eu estou longe, V. Sª poderá servir primeiro os clientes daí que irão talvez pessoalmente pedir para lhes apressar as suas encomendas. Isso seria para mim um desgosto e causar-me- ia grande inconveniente se daí me falam não se concluir o meu «phaeton» no prazo marcado, porque hei-de fazer em fins de Maio uma jornada para a qual o preciso.
Dois meses depois, Oliveira Baptista manteve a sua pressão sobre o construtor francês, enviando uma nova carta:205
Faz hoje exactamenthe cinco meses que lhe encomendei o meu «phaeton»; metade do tempo que V. Sª me pediu para mo entregar; pelo que deve estar pelo menos metade feito. Hoje tenho ainda mais necessidade dele, porque, para aproveitar a ocasião, já vendi os cavalos e as carruagens que tinha e como vivo numa pequena aldeia, onde não há carros de aluguer, estou privado de meio de transporte.
Enquanto esperava e desesperava pelo seu automóvel, Oliveira Baptista fez-se assinante da revista La France Automobile e encomendou o Petit Cours de Locomotion à Pétrole de Baudry de Saunier para se inteirar dos «feitiços da mecânica». Mas a parte prática não foi descurada, como este trecho de uma carta bem o ilustra:206
3 > ? ! ! 5 6' - ' 2 ' K ) ! ! 'A # ! # ) 5 + !Q ! 5 ! " ! + ' 3 4 O * T ' ) ; - " =) 5 . % - 9 ! ) 4 ' 3 3 ) = - " =' 3 2 ' 3 ; ) @ % =' 3 4 O * T % ) ; K % =) 5 . % - 9 ! ) 4 ' 3 A ) ; K % ='
O Sr. Dr. Eduardo Tavares de Mello, de Coimbra, que este ano lhe comprou um carro, será o meu mestre para me ensinar a manobrar com o carro e diz-me que Vª. Sª manda umas instruções para isso. Neste caso rogo-lhe que m’as mande já para eu ir antecipadamente estudando a teoria.
O automóvel, com o número de chassis 395, foi efectivamente entregue em Abril de 1898, fazendo de Bernardino Oliveira Baptista um feliz proprietário de um Peugeot. E fiel, pois em 1904, compraria um novo modelo de 6 ½ cv monocilíndrico, desta feita a Albert Beauvalet.
. ;'3 8 O ' C " E O * )
. 0 5 . % - 9 ! ) ( 4 '
Existem dois magníficos testemunhos gráficos207 da dedicação de Oliveira Baptista à causa automóvel, ambos referentes a um passeio que se realizou em 1904, de Coimbra a Montemor- o-Velho e onde estão reunidos nove automóveis, entre os quais um Peugeot do pioneiro de Vila Nova de Tazém. Apesar das duas fotos não serem suficientemente explícitas, parece-nos que o Peugeot em causa é o primitivo adquirido em 1898, embora a carroçaria esteja algo diferente e as rodas não apresentem a normal assimetria entre eixos que caracterizava os veículos do século XIX. O detalhe que nos faz supor tratar-se do primeiro Peugeot – e não do segundo, já encomendado na Agence Générale d’Automobiles – é o sistema de direcção que não tem volante, facto que em 1904 já estava definitivamente banido no catálogo da marca de Audincourt. E a própria forma da carroçaria mais parece uma adaptação, mantendo-se a configuração do tejadilho com que o automóvel foi entregue. Este veículo histórico foi recordado cerca de trinta anos mais tarde na imprensa especializada portuguesa,208 que publicou uma foto de catálogo acompanhada da seguinte legenda:
Automóvel Peugeot, adquirido em 1898, directamente na fábrica Peugeot pelo Sr. Oliveira Baptista de Passarela, Gouveia. Foi o terceiro automóvel entrado em Portugal. Tinha o motor atrás, debaixo do assento traseiro. A água do radiador circulava nas longarinas do chassis. (...) Devido á sua primitiva mecânica, as «pannes» eram constantes, mas sempre resolvidas, embora com algumas dificuldades, pelo seu proprietário, Sr. Oliveira Baptista que foi sempre um grande amador do automobilismo. Possuiu-o muitos anos, embora nos últimos tempos não fizesse uso dele.
3 = E 9 % ) - " ) ;) A A '
O terceiro Peugeot a entrar em Portugal – confiando na informação veiculada nas próprias indicações da publicidade efectuada por Albert Beauvalet – foi para Setúbal, ao cuidado do Dr. Luis Teixeira de Macedo e Castro, em 1899. Desconhecemos, contudo, se este Peugeot foi adquirido directamente na fábrica ou se já foi comprado através do primeiro representante oficial da marca francesa no nosso país, o famoso ciclista José d’Orey que em 1898 começou a vender entre nós as bicicletas daquela marca, anunciando paralelamente tratar-se do único agente em Portugal dos automóveis Peugeot. A quarta unidade – que se encontra actualmente no Museu do Caramulo – foi também adquirida em 1899 por P. Machado, morador na Rua Formosa, 121, no Porto. Foi facturado no dia 20 de Setembro de 1899, tendo chegado ao nosso país em Outubro, princípios de Novembro desse ano. Este automóvel está recenseado nos arquivos da fábrica e de acordo com essa informação trata-se de um Type 16, Vis-a-Vis, com o número de chassis 778, equipado com um grande radiador de cor azul e vivos amarelos. O facto de não haver referência ao importador e as informações do cliente final estarem registadas na própria Peugeot parece permitir a conclusão que esta viatura não passou pelo