Em 1895, o automóvel era uma experiência tecnológica muito recente em toda a Europa e nos Estados Unidos. Mas os portugueses já estavam conscientes da ideia de modernidade – e sobretudo das suas vantagens práticas e lúdicas – que o final do século XIX lhes trouxe. A introdução do "americano", com a consequente definição de uma rede de transportes públicos urbanos, a inauguração da luz eléctrica, em Lisboa e noutras cidades portuguesas, substituindo a vetusta iluminação a gás, e o aparecimento dos primeiros aparelhos de telefone motivaram parte de uma clientela especial, formada por alguma aristocracia e pela burguesia endinheirada, à empatia pelas coisas novas, pela tecnologia e pelo progresso – pelo menos à ideia dele. Quando Jorge de Avilez importou para Portugal o primeiro automóvel com motor a explosão, um Panhard et Levassor o facto não constituiu motivo de reflexão ou de ponderação histórica. A consciência das vantagens – e desvantagens – do trânsito automóvel chegaria alguns anos depois, numa altura em que, embora incipiente, existia já um pequeno “universo” que gravitava em torno dessas novas “carruagens sem cavalos”, desde os importadores e retalhistas – que normalmente se confundiam – até à opinião pública formada pelos jornalistas e aficionados da causa automóvel, passando pelo elemento essencial de todo este mundo: o cliente. D. Jorge, subconscientemente ou mesmo conscientemente – porque é provável que o resultado da corrida Paris-Bordéus-Paris o tenha influenciado de alguma forma – fez história ao tornar-se cliente da casa Panhard et Levassor, marca pioneira no panorama da indústria automobilística francesa – e, necessariamente, mundial. O próprio Conde deverá ter ignorado ou menorizado o facto de alguns meses antes se ter importado para o nosso país o primeiro veículo com motor a explosão, uma bicicleta com motor, que foi despachada na Alfândega de Lisboa em 29 de Julho de 1895.145 Mas as bicicletas exigiam esforço, equilíbrio, em suma, uma boa preparação física que o titular, nesta época, já não ostentava devido à tuberculose que o iria vitimar pouco tempo mais tarde. Ele sabia que era o primeiro, no nosso país, a ousar semelhante atitude mas quem haveria de saber, mais de cem anos depois, que o automóvel ganharia a importância social, económica e mediática que hoje desfruta?
Quem era, afinal, D. Jorge de Avilez? O 4º conde de Avilez – título atribuído D. Carlos, por decreto de 29 de Outubro de 1891 – era um rico proprietário alentejano, com património distribuído por diferentes zonas do Alentejo: Portalegre, Beja, Ferreira, Santiago do Cacém, Messejana, Ourique, Mértola, Almodovar e Castro Verde e era casado com D. Maria Amália do Cabo Arce Tomás, denominada como Morgada da Apariça, figura conhecida da pequena nobreza local, a qual viria a falecer em 1898.146
; 8 4 ) ) ) '
João Madeira ressalva147 algumas das mais importantes facetas públicas do fidalgo. Assim, para além de par do reino, D. Jorge teve uma intensa actividade política, tendo sido presidente da Câmara Municipal de Santiago entre 1899 e 1901. Já antes, em 1898, tinha sido nomeado como representante do município para as comemorações oficiais do V Centenário da descoberta do caminho marítimo para a Índia. Na sua actividade em prol do associativismo é um dos fundadores, em 1900, do Sindicato Agrícola dos Lavradores ao Sul do Sado, entidade que há-de servir de embrião, alguns anos mais tarde, ao nascimento da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo.
D. Jorge de Avilez interessou-se pelos desportos mecânicos bem cedo e as bicicletas tornaram-se uma paixão. Efectuava grandes viagens de bicicleta, requisitando para o efeito os fundamentais préstimos de alguns dos seus criados que corriam à sua frente com paus para afugentar os cães.148 Numa das fotos obtidas por Alfredo Duro no seu trabalho dedicado ao primeiro automóvel importado para Portugal149 D. Jorge surge ao lado de um amigo, Aníbal Augusto Rosa, reparando uma bicicleta.
É altamente provável que o carácter empreendedor de D. Jorge tivesse sido acossado pela presença de um francês, Jules Philippe, engenheiro de minas em comissão de serviço no Alentejo, cuja convivência com os novos automóveis em França deverá ter induzido a curiosidade num homem que gostava de usufruir das novidades mecânicas, uma conjectura com grande probabilidade uma vez que o seu nome aparece explicitamente na factura de fábrica, na condição de comissionista, com um valor de 4%.150 Criada a curiosidade, restava o fascínio da escolha. A influência de Philippe também deverá ter-se exercido nesse domínio, privilegiando claramente a oferta francesa. Meses antes da compra, a Panhard et Levassor tinha dado um passo importante na sua consolidação como marca de automóveis ao vencer de forma categórica a importante prova «Paris-Bordéus-Paris», sobrepondo-se não só como marca mas contribuindo também para a implantação de uma tecnologia, os motores a combustão, sobre os outros concorrentes – vapor e electricidade. A leitura de jornais franceses, certamente acessíveis a D. Jorge, terá igualmente pesado na decisão final pelo que o conde foi a França no final do Verão de 1895 – ou mandatou alguém em seu nome – e em Setembro formalizou a compra de um Panhard et Levassor.
. 2' 8 7 ' 2 5 ! ! C * + E) T 5
4 " 5 @ %
. 0 8 8 9 % ) 3 - ) =) 3'
A imprensa da época deu algum destaque ao Panhard et Levassor do Conde de Avilez, muito por "culpa" dos correspondentes que souberam dar ao acontecimento algum destaque. O
;=- ( ) D 4 9 ! ,)! ! ! 5 < = / / ) @ 4 !? ) 3 O % ) ' - ( ? ( % ! 4 @ 4 !? ) ! ' ; - ? . ! ),O 4 @ 4 !? ,) ! ! 4 5 < = / / ) @ 4 !? ) O % ) ' ; 6 ) ! = ' = ) 2' . % - 9 ! ) ( 4 '
Diário de Notícias deu-lhe a primeira página mas a generalidade dos diários lisboetas – O Século, A Tarde, Diário Ilustrado, Correio da Noite, O Repórter – atribuíram-lhe uma importância "local", relegando a notícia para as páginas interiores. O Século é o único periódico que se volta a referir ao Panhard, na sua passagem por Grândola, na edição seguinte e depois nunca mais se soube do "trem movido a vapor de petróleo", de acordo com as palavras da época.
Em 1953, Alfredo Duro fazia publicar no Norte Desportivo151 um artigo onde dava conta da identificação do primeiro automóvel entrado no nosso país, um Panhard et Levassor adquirido em 1895 pelo IV Conde de Avilez, D. Jorge de Sousa Feio. Posteriormente, coligiu esse artigo, acrescentando-lhe notas que visavam rectificar algumas das imprecisões do texto inicial e outros elementos entretanto recolhidos, dando à estampa, em 1955, como vimos anteriormente, um livro intitulado História do Primeiro Automóvel Entrado em Portugal.152 Este documento, embora francamente romanceado e sem o cuidado de fixar quaisquer referências ou fontes, constitui a primeira tentativa de estabelecer um conjunto de factos e datas no percurso do automóvel desde que chegou ao nosso país:153
Fez no passado dia 12 de Outubro, cinquenta e oito anos que foi despachado na Alfândega de Lisboa o primeiro automóvel ligeiro accionado por motor de explosão: um Panhard et Levassor, comprado em segunda mão, em Paris, pelo Sr. Conde de Avilez (Jorge). Desse carro sem cavalos tem-se ocupado a imprensa através dos tempos, em artigos e simples notas, por vezes destituídas de verdade técnica e histórica. (…) Foi esse automóvel despachado na Alfândega de Lisboa, após laboriosos trabalhos de classificação para fins pautais. Despachado o veículo foi este trazido encaixotado numa galera para as oficinas de carruagens de aluguer de Joaquim Martins Areias, na rua dos Sapateiros, 151 a 153. Aberto o caixote e preparado o Panhard et Levassor a fim de seguir viagem para Santiago do Cacém, onde residia o sr. Conde de Avilez (Jorge), no respectivo depósito de combustível, como ordenava o fabricante num prospecto que acompanhava o carro, foram vazados uns tantos litros de petróleo. Porém, por muitas voltas que fossem dadas à manivela, o motor não dava sinais de vida... não roncava! Porém, substituindo o combustível, ninguém quis dar à manivela do motor com receio de uma explosão! (…) Resolveram chamar um moço de esquina (…) e após meia dúzia de voltas o motor do Panhard et Levassor começa a funcionar normalmente. Iniciou-se a viagem de Lisboa até Palmela, que decorreu sem incidentes, porém, na passagem daquela vila se não fossem os bons travões do carro e o sangue-frio do sr. Conde de Avilez (Jorge) para evitar de matar um burro, o auto ter-se-ia voltado e o condutor e passageiros não sabemos qual teria sido a sorte de todos eles! (Nota – Não foram os travões, como erradamente afirmamos, que evitaram um grande desastre mas sim o burro! Quando o Panhard descia a estrada a caminho da vila de Palmela, surgiu-lhe pela frente um burro carregado de canas que, em vez de fugir, enfrentou o automóvel e aguentou o choque. Claro, o burro morreu e o sr. Conde de Avilez (Jorge) pagou ao dono, à Família Folque de Palmela, o melhor de dezoito mil réis, quando um burro naqueles tempos custava apenas cinco mil réis! Portanto, foi este o primeiro acidente de viação produzido com um automóvel no nosso país). (…) A chegada do Panhard et Levassor a Santiago do Cacém constituiu um sensacional acontecimento como é de calcular. O sr. Conde de Avilez (Jorge) percorreu, com ele, todas as vilas e aldeias em redor, provocando grande pasmo e os comentários das populações e dos seus amigos. Esse célebre automóvel foi baptizado pelo povo com o nome de Gasolina. Nesse tempo não existiam mecânicos aptos para afinarem um automóvel; apenas se encontravam ferreiros e estes, quando muito, sabiam ferrar as bestas e substituir, embora mal, os veterinários na ausência destes, porque a técnica mecânica automobilística era alfabeto grego... De maneira que o Sr. Conde de Avilez (Jorge) era o «chauffeur» e o mecânico do seu Panhard, para o que tinha certa arte. Mas um dia, o Panhard teve uma panne difícil de resolver, que o imobilizou e, por isso, veio para Lisboa, entregue à Empresa Industrial Portuguesa a fim de ser devidamente reparado.
Estas são as informações mais relevantes que Alfredo Duro dedicou ao Panhard et Levassor enquanto esteve na posse do Conde. No texto, sem grandes preocupações de exactidão histórica, resultado do que lhe fora transmitido oralmente por alguns dos intervenientes em alguns dos episódios relatados – ou pelos seus familiares – constam factos que constituem ponto de partida para a investigação da trajectória histórica do Panhard no nosso país.154 Os factos relevantes que são levantados por Duro são, assim, os seguintes:
- + ) 3 O % ) 2 ) ;' 36 ) ! = ' = 2 )=) ' ;6 ! ! # 6 ) # ! # ) " 8 8 ! ! ) ! @ ' . ! ) # ! Q 4 ) 5 ! ! ! 5 ! J ' 6 ) ! = ' = 2A'
i) O automóvel foi o primeiro importado para o nosso país com motor a explosão ii) O automóvel foi adquirido em Paris
iii) Era uma viatura em segunda mão
iv) Foi despachado no dia 12 de Outubro de 1895 na Alfândega de Lisboa v) A sua classificação para fins pautais foi laboriosa e difícil
vi) Depois do desalfandegamento foi enviado para a oficina de Joaquim Areias, na Rua dos Sapateiros
vii) Inicialmente o motor não pegava e só após a escolha acertada do combustível foi possível pôr o propulsor a funcionar normalmente
viii) A viagem começou no dia 14 de Outubro de 1895
ix) Em Palmela, o Panhard atropelou um burro que morreu no acidente x) D. Jorge de Avillez teve de indemnizar o dono do burro em 18 mil réis. xi) A chegada a Santiago constituiu um acontecimento sensacional
xii) D. Jorge percorreu com o seu Panhard todas as vilas e aldeias em redor xiii) O povo alcunhou o veículo de «Gasolina»
xiv) Contudo, uma avaria maior motivou que o Panhard se deslocasse a Lisboa, à Empresa Industrial Portuguesa, para ser reparado
Existem duas abordagens à primazia do Panhard (quesito i), escritas vários anos após a sua aquisição, publicadas na revista O Volante155 e no jornal Guiauto Ilustrado156 e em ambos os casos transcrevendo declarações de Albert Beauvalet. Essas declarações, contudo, servem também para elucidar outros factos pelo que as retomaremos um pouco mais à frente. Uma referência muito conhecida ao “Trem do Conde” surge num pequeno texto da autoria de Francisco de Lima que fez publicar na revista do Automóvel Clube um artigo com o título «O Automóvel em Portugal – A sua pré-história»:157
Foi, portanto, no ano da graça da 1893, nessas condições de estradas e de hospedarias, que o Conde de Avilez, D. Jorge, mandou vir o "carro a motor mecânico", ainda com rodas de aros de ferro. O motor era um Gotlieb-Daimler de Canstad, construído pela casa Panhard & Levassor, motor de dois cilindros em V, com inclinação de 15 graus entre os dois. Força, 1 cav. 3/4! Velocidades de 5 a 20 quilómetros em plano, que o faziam arrastar-se penosamente na mais pequena rampa. Tentativas até hoje infrutíferas não nos permitiram conseguir uma fotografia da época, nem sabemos se existe. Conseguimos apenas um desenho, dando o aspecto geral. Era tal a novidade que a Alfândega se viu seriamente embaraçada para o classificar para despacho, acabando, depois de penosas lucubrações, por o fazer na designação de Locomóvel.
À primazia do veículo do Conde de Avilez referem-se igualmente importantes figuras contemporâneas do Conde que reiteram sem dúvidas a precedência do Panhard sobre todos os outros. Mesmo em data posterior à sua descoberta e definitiva inventariação, numa entrevista, efectuada em 1957 por Vasco Calixto,158 o Dr. Tavares de Mello, instado sobre a primazia de ter importado o primeiro automóvel para o nosso país, respondeu:
(...) Não é bem assim e eu lhe digo. O primeiro carro a motor mecânico entrou em Portugal em 1895, e foi o Conde de Avilez que o importou. Era, porém, um carro com rodas de ferro. (...) ... em 1897, portanto, em Abril, trouxe meu pai para Portugal o primeiro automóvel sobre pneus. Era do construtor de bicicletas e ferramentas “Peugeot”.
Há um outro depoimento, de Alberto Andresen, publicado na revista do ACP159 em que o pioneirismo do Panhard do Conde é igualmente confirmado:
Segundo dizia meu pai, quando recebeu o seu primeiro automóvel Decauville já existia em Lisboa um carro-automóvel na posse de um titular. Este limitava-se a dar nele pequenos passeios dentro da área de Lisboa. Contudo, não possuía pneumáticos sendo as rodas revestidas com aros de borracha maciça.
8 4 9 % ) = ) 3A) 2' A. ) @ % ) 3 ) 3' =. ! ! 9 ) O ,) = ' ) ; 2 0 = 4 + ) , 4 . 3 3 ' = ' ) 2 0 3; 3 '
Constata-se assim que, através de vários testemunhos importantes, o Panhard nunca deixou de estar identificado como sendo o primeiro automóvel importado para o nosso país. A única excepção neste contexto – curiosamente publicada um pouco antes do texto de Francisco de Lima160 – terá sido dada por Alberto Sanches de Castro, figura emblemática mas também controversa do mundo automóvel de então. Em dois artigos publicados na revista O Volante,161 Castro dá a primazia da importação a Sebastião Neves, de Viana do Castelo, que terá trazido para Portugal um automóvel a vapor de caldeira vertical mas sem adiantar quaisquer dados relevantes: data, características do veículo ou outros elementos pertinentes, para além da forma da caldeira.
Em relação à aquisição do automóvel – quesitos ii) e iii) – os documentos recolhidos por João de Lacerda eliminam por completo as dúvidas até então existentes.162 D. Jorge de Avilez, um dos 76 clientes de 1895,163 adquiriu o seu automóvel em 13 de Setembro desse ano, apresentando, de acordo com a factura,164 as seguintes características:
"Voiture à 4 places forme Phaeton, avec pavillon en toile caoutchoutée, glace à l'avant, garniture maroquinnerie, par moteur à pétrole nº494."
Foram adquiridos ainda dois queimadores e duas correntes de reserva, um tubo de platina e facturada a pintura do brasão do Conde. No total, feitas todas as contas, o automóvel custou a D.Jorge 5.607,30 francos, já deduzido o desconto de pronto pagamento cifrado em 2% do total. Na factura, constam explicitamente os adiantamentos efectuados, ou uma comissão, na pessoa de M.Philippe – no valor de 233,60 francos, equivalente a 4% do valor total de factura o que demonstra a influência do amigo francês do Conde de Avilez, o engenheiro Jules Philippe.165
O conde de Avilez encomendou o seu automóvel com tecto amovível e pára-brisas, conforme atestam as designações «pavillon en toile e glace à l’avant», antevendo a necessidade de se deslocar no Alentejo, preservado minimamente das condições meteorológicas. Contudo, a memória do automóvel baniu de forma definitiva esses acessórios. Curioso é ainda o facto de D. Jorge de Avilez não ter encomendado peças sobressalentes referentes ao chassis, suspensão e rodas, talvez porque esse material pudesse ser perfeitamente arranjado ou substituído em Portugal, onde a produção hipomóvel tinha já bons expoentes. O documento de venda deste automóvel estabelece factos e datas que durante algum tempo constituíram verdadeiros mitos na definição histórica do Panhard et Levassor, nomeadamente no que diz respeito à data de fabrico e à hipotética aquisição em segunda mão. Assim, da sua análise é possível demonstrar que o Panhard foi adquirido novo, directamente à fábrica, no dia 13 de Setembro de 1895; que o automóvel construído em 1895, possuía ainda um motor P2D, de 2 cilindros em V aberto a 15º, com as especificações de 1894: diâmetro x curso de 75x146 mm, cilindrada de 1290 cc e uma potência de 3 cv 3/4, não beneficiando ainda do novo motor «Phoenix» de dois cilindros em linha,166 mais avançado e mais potente, introduzido precisamente nesse ano nas linhas de montagem da Panhard et Levassor e, finalmente, que Jules Philippe, mesmo que não esteja provada a sua presença física em Paris, teve papel activo na escolha e na compra do automóvel, sendo o seu nome mencionado na factura.
A Q ) V ! ) ! 5 H 4 % ! C # ! E + @ !" 4 ' A 8 4 9 % ) A K % ) 2 ) A 3 % ) 2 ) =' K + ) % M C@ % M " % E C " % E @ !" 4 ! # ! ) ! ! # ) 5 #M! ' A3 5 . % - 9 ! ) ( 4 ' K # ?! A ) - 9 ! ! " ?! B B M ! ! 4 ) L M ' A27? F ) 2 7 ' 2 ) " 0<<&&&'"$ ' < "< m m " m ' #) 3 ! ( 3 ' A;H ) 8 ) 2=' A 4 % % ) Q # ! ! 6' - P Q ! " . ) # ! 8 Q Q 4 5 M! ' @ " 5 ! ! 5 ? " I ) ? Q 5 " ) % % " ) ! " ! !V ! # ! 5 ! 6' - 5 !V ! 8 5 " \ # ! 8 5 ! ! ' ) %? " 5 # !P " ! " # ? @ 4 !? ' 6 # ) # ! ! # ( - 5 6 -L ' 4 + ) , 4 . ) ' AA* ? ) ' D 2 + 7 0 > ) = ) 23'
. 2'3 8 . ! ' 2 ! # M! 4 -
. 0 5 . % - 9 ! ) ( 4 '
Algumas das datas mais importantes, referentes à primeira viagem do carro são determinadas pelos próprios telegramas veiculados na imprensa da época. Contudo, a chegada a Lisboa, no dia 12 de Outubro de 1895 – dia referido explicitamente por Alfredo Duro como o do despacho de alfândega – um sábado, não consta em nenhuma informação coeva. Os documentos da Alfândega, desse ano, estão perdidos pelo que os registos oficiais não nos podem elucidar sobre a entrada do veículo em Portugal. Porém, embora não exista certeza absoluta de que o veículo comprado em Paris tenha viajado para Lisboa por comboio ou por navio, parece-nos defensável admitir como mais provável que o transporte tenha sido feito por via marítima que era o processo mais usado na época sobretudo para cargas mais volumosas. Além disso, estando a Panhard sediada em Paris, era relativamente fácil – e mais barato – providenciar um primeiro transporte através do Sena até ao porto de Le Havre e daí despachar o automóvel num caixote até Lisboa, aproveitando o fluxo normal de distribuição de bens entre essas duas cidades portuárias. Fixando esse princípio, se consultarmos os movimentos marítimos e as consequentes entradas na barra de Lisboa nessa segunda semana de Outubro – entre 7, uma segunda-feira e 12, um sábado – verificamos que existe apenas uma chegada de Havre, que entra na barra de Lisboa no dia 10 de Outubro: trata-se do navio francês Ville de Anvers, um vapor de 269 toneladas, capitaneado por L. Michel.167 A carga deste navio – que parou em Lisboa e seguiu para Cadiz – deu entrada na Alfândega de Lisboa no dia 11 de Outubro, pelo que, se admitirmos como boa a hipótese altamente provável do Panhard et Levassor ter sido transportado por via marítima, a sua entrada oficial no nosso país teve lugar no dia 11 de Outubro e não no dia 12 como está tacitamente estabelecido.
Nas diferentes cargas descritas na informação referente ao movimento marítimo, incluem- se várias curiosidades: uma caixa de bicicletas para o ministério de guerra, quatro caixas de velocípedes para a empresa Santos Beirão & Cª mas, obviamente, não existe referência alguma ao automóvel. Na verdade, tratando-se de uma completa novidade, não descriminado na pauta, o despacho de alfândega deve ter resumido o artigo como um “maquinismo” – a designação da época de máquina: uma em nome de Grandella & Cª, duas em nome de Mascarenhas & Cª e duas em nome de Iglesias & Cª. Em qual delas veio o Panhard et Levassor não podemos saber mas a nosso ver o primeiro automóvel que entrou no nosso país foi despachado como uma simples máquina embora, para efeitos da pauta alfandegária, os funcionários a tenham catalogado como veículo não especificado, visto que o Panhard não cabia em nenhum dos itens definidos nessas mesma pauta. Quanto aos direitos alfandegários, a leitura da Pauta Alfandegária de 1892 aponta apenas para uma possibilidade quanto à classificação desse "bem": não um «locomóvel» – tal como Francisco de Lima especulou no