3.2 Korpusarbeid og elisitering
3.2.1 Korpus
Este sector de actividade começou a ser publicitado no Porto, em 1899, graças a dois empreendedores, ambos dedicados ao negócio das bicicletas, através das respectivas empresas: João Garrido, representante dos velocípedes Clément, e Silvestre Dias Teixeira, distribuidor das bicicletas Gladiator. Com uma diferença de semanas, estes dois pioneiros começaram a anunciar os seus novos produtos na imprensa local. Silvestre Dias Teixeira falava de “triciclos e automóveis com o novo motor Aster-Gladiator” em Agosto de 1899226 e umas semanas depois, voltava a referir-se aos “triciclos com o motor a petróleo Aster-Gladiator, os que melhor resultado têm dado nas estradas portuguesas”. Só em Dezembro, João Garrido publica um anúncio onde explica que a sua casa é “agência de motociclos e automóveis dos principais construtores franceses.”227 Nesse mesmo suporte, Silvestre Dias Teixeira vai mais longe na comunicação:
Os Automóveis e Motociclos munidos do motor Aster Gladiator de 2 ¼ até 12 cavalos de força são os mais aperfeiçoados que apareceram ultimamente e os que melhor resultado têm dado em todas as estradas, conservando sempre boa marcha, devido ao seu excelente carburador
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patenteado. Esta casa fornece também triciclos automóveis com o antigo motor Dion &
Bouton, com um abatimento de 10% (da força de 1 ¾ até 3 cavalos).
Em Janeiro de 1900, surge aquele que é, provavelmente, o primeiro anúncio publicado em Portugal, sob a responsabilidade de Silvestre Dias Teixeira, onde aparece explicitamente a gravura de um automóvel, um Gladiator, no qual se afirma:228
Carros automóveis – Tomam-se encomendas e dão-se todos os esclarecimentos sobre automobilismo. Correspondência directa com os melhores fabricantes franceses, ingleses e alemães. . ' 8 > Q ) ) L ! % ! 5 + ! ) ! ! . . 0 8 ? ) = - ) ) ;'
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A família Dias Teixeira estava claramente envolvida neste novo negócio da mobilidade e a comercialização de automóveis era um prolongamento por continuidade da sua primeira actividade: as bicicletas. Alfredo Dias Teixeira recordou,229 alguns anos mais tarde, que em 1893 iniciaram as vendas das bicicletas Gladiator e, pouco depois, motos da mesma marca. Só em 1900 começaram a trabalhar os automóveis Gladiator, que abandonaram três anos depois por terem ficado com a representação da FIAT. Todavia, a existência de publicidade não é condição suficiente para comprovar a venda de veículos. É o caso do primeiro anúncio conhecido, em Lisboa, em que se faz alusão a automóveis, numa breve nota de pé de página, e que foi publicado em 1898, sendo da responsabilidade de José d’Orey, um dos grandes ciclistas nacionais da altura e representante das bicicletas Cycledor e Peugeot no nosso país. Numa das suas inserções tendo como foco principal as bicicletas, pode ler-se em nota de rodapé: “Únicos agentes em Portugal dos Automóveis Peugeot – José d’Orey & Comandita”. O que não se conhece é o alcance da sua actividade comercial entre nós, neste contexto.
No Porto, João Garrido publicou bastante informação sobre a sua actividade comercial. Em 1903, Garrido mandou editar um magnífico folheto onde anunciava as principais novidades na área automóvel, da sua responsabilidade. No texto, o comerciante reclama uma série de precedências: a importação da primeira bicicleta-automóvel em 1894, o primeiro triciclo automóvel, em 1898 e a primeira voiturette automóvel, em 1901, dando depois uma lista de clientes, dos quais dois – o rei e o conde da Penha Longa – eram garantidamente usufrutuários das marcas que representava, mas não clientes da sua casa. Nessa lista, entre automóveis, motociclos de mais de um lugar e voiturettes, podemos contar, para além dos dois anteriormente citados, 17 nomes, aos quais se acrescentam mais 14 nos motociclos, o que perfaz um total de trinta e um veículos vendidos.230
Nos textos sobre importadores de automóveis editados avulsamente nos anos seguintes na imprensa especializada, nunca se fala de José d’Orey – nem das eventuais vendas de automóveis Peugeot sob a sua responsabilidade – tal como também se ignora a actividade de João Soares Pereira, um inesperado comerciante de automóveis em Viseu. Porém, estes dois nomes, como outros, são citados por Alfredo Duro:231
O primeiro português que no nosso país se dedicou à propaganda e venda de automóveis foi o senhor João Soares Pereira, da cidade de Viseu, onde era estabelecido, em 1896, com o negócio de venda de bicicletas. Fora o introdutor naquela região das máquinas Raleigh e seus acessórios. Era simultaneamente agente para aquele distrito das máquinas de costura
Memoria, Winhon, Seidal e Triester. Em Março de 1897, segundo um documento oficial em
nosso poder, o senhor João Soares Pereira, que possuía o privilégio para a venda dos carros
automóveis que sejam alimentados com petróleo e movidos sem cavalos, vendeu um destes
transportes para a África Ocidental, pelo preço de 3.800 francos. Podemos afirmar, porque temos as provas na mão que o senhor João Soares Pereira foi o fundador do comércio de automóveis em Portugal. Seguiram-se-lhe cronologicamente as firmas José Diogo d’Orey, Santos Beirão e Henriques (Casa Memória), de Lisboa; Silvestre Dias Teixeira e João Garrido, do Porto. Isto é, de 1897 a 1901.
No arquivo do Museu do Caramulo, existe um conjunto de transcrições de cartas de um “promitente-comprador” de um automóvel, o senhor Bernardino de Oliveira Baptista Saraiva, a que já nos referimos anteriormente, que antes de comprar o seu Peugeot contactou o empreendedor João Soares Pereira em 18 de Abril de 1897, onde se afirmava o seguinte:232
Dizem-me os senhores Oliveiras e Diogo, de Lisboa, que Vª Sª lhes mandou vir do estrangeiro um carro movido a petróleo. Se pois, Vª Sª é agente de alguma casa construtora desses carros peço-lhe o favor de me dizer que casa é, e de me enviar os catálogos com desenhos, preços e mais esclarecimentos, pois talvez resolva comprar um.
No dia 22, João Soares Pereira terá respondido a Bernardino Oliveira Baptista, afirmando que iria solicitar catálogos à sua representada, a marca Benz. Mas, provavelmente, como os catálogos recebidos estavam em alemão, a partir desta data, Bernardino de Oliveira Baptista passa a negociar directamente com a Peugeot, em França, com quem acabará por fechar
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negócio. Do que aqui se refere, parece-nos óbvio concluir, em primeiro lugar, que João Soares Pereira terá vendido efectivamente automóveis em regime de comissionista – conforme se conclui quer da documentação observada por Alfredo Duro, quer pelas cartas de Oliveira Baptista – e, em segundo, que tinha acesso directo a alguns fabricantes, muito provavelmente à Benz.233 Como se referiu no capítulo anterior, também a empresa Santos Beirão & Henriques, Lda, conhecida como Casa Memória, iniciou a importação de veículos com motor em 1895,234 o que coincide com as declarações de Duro.
Antes da viragem do século, são estes os únicos operadores que se conhecem no sector automóvel,235 em Portugal, verificando-se assim que Lisboa teve um papel diminuto nesta área de negócio, até 1902, altura em que as vendas crescem e os representantes sedeados na capital começam a surgir. Em 1901, surge na imprensa da capital um anúncio a um Eduardo Taborda – Comissões e Consignações,236 localizado na Rua do Arco da Bandeira, 54, 1º, que faz referência à venda de automóveis sistema Scott para passageiros e carga, “usados com grande êxito no exército francês”, mas não há registos que assinalem alguma actividade deste comissionista, materializados em vendas de automóveis. Taborda, aliás, tinha uma área de actuação vastíssima, que ia das locomotivas aos motores, passando por velocípedes, materiais para caminhos-de-ferro, ferramentas e acessórios para a indústria e agricultura. Os reflexos do trabalho na área do comércio automóvel até meados de 1902, na cidade de Lisboa, são assim praticamente nulos, o que nos leva a concluir que a frase de João Garrido (Filho), proferida três décadas depois, não estivesse muito longe da verdade:237
Um dos automóveis anunciados na revista «Sombra e Luz» (…) foi vendido para Lisboa em 21 de Maio de 1901 e lá entregue por meu pai. O comprador, não tendo encontrado em Lisboa quem vendesse automóveis, teve de ir ao Porto fazer a aquisição.
Outras referências mostram o atraso de Lisboa nesta demanda pelo progresso, destacando-se em particular um texto escrito por José Caetano de Tavares e Mello, filho de Eduardo Tavares de Mello – importador do segundo automóvel com motor a explosão que veio para Portugal – e ele próprio futuro importador dos automóveis Darracq na cidade de Coimbra, numa crónica assinada com o seu habitual pseudónimo, Zico Pedal:238
Este nosso passeio, o primeiro no seu género (…) mostrará pelo menos ao país e principalmente a Lisboa, onde existem menos automóveis que no Porto e mesmo em Coimbra, que o automobilismo (…) tem hoje um fim verdadeiramente económico e prático.