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Como vimos atrás, foi igualmente a França que tinha já uma indústria de bicicletas particularmente forte, que começou a organizar provas desportivas, onde as suas marcas iam demonstrando o seu portfolio de argumentos tecnológicos. Por outro lado, a sua rede de estradas era vasta e tinha qualidade suficiente para poder receber os automóveis pioneiros com as suas suspensões hipomóveis. Esta situação só se inverteria em meados da primeira década do século XX, como ressalva Fridenson:138

En 1904-1905 la France est détrônée, et l’automobile atteint sa vitesse de croisière. Les Etats- Unis deviennent le premier pays producteur do monde et esquissent avec Oldsmobile une orientation de masse. Le parc automobile de Grande-Bretagne (à défaut de sa production) dépasse celui de France.

O atraso do Reino Unido no contexto da indústria automóvel europeia é notório – embora a sua capacidade empresarial se tenha revelado bem cedo. Como justificar este atraso da grande potência industrial do século XIX face aos seus congéneres europeus? Também aqui não há consensos generalizados, embora as variáveis apontadas pelos historiadores sejam as mesmas ainda que com ponderações de importância diferentes. Fridenson139 tem uma opinião diferente da generalidade dos historiadores do automóvel, valorizando a fraude financeira que foi esboçada sobre os construtores britânicos:

La Grande-Bretagne a elle aussi connu un lent démarrage de sa production automobile. La responsabilité en incombe surtout à une poignée de financiers sans scrupules que ont accaparé les capitaux disponibles et les brevets à bâtir des firmes efficaces. Les autres données qu’on invoque habituellement – la législation imposant jusqu’en 1896 une limitation de vitesse draconienne, le prestige de la machine à vapeur dans son pays natal – ont eu en réalité une importance moindre.

Uma ideia diametralmente oposta é aquela que defende, por exemplo, Bird:140

If the American industry lagged surprisingly behind France, English backwardness was positively disgraceful when one considers that the supremacy of Britain in the last century was based upon the native inventiveness and industrial enterprise. There was little point in devoting time and money to developing motor cars in Great Britain when motoring was, in effect, illegal. Since the Acts of 1861 and 1865 (slightly modified by another of 1878) the only commercial outlet for native inventiveness had been in the field of the heavy steam traction engine which could operate profitably within the limitations of the 4 mph speed restriction.

Em 1896 entraria em vigor a Locomotives on Highways Act que libertaria, enfim, os automóveis do homem de bandeira vermelha que se deveria deslocar à sua frente como aviso aos outros transeuntes da estrada. Para comemorar esta nova lei, um grupo de entusiastas britânicos do automobilismo lançou a ideia da Emancipation Run, disputada entre Londres e Brighton.141 Mas Bird aborda também a fraude que foi tentada por alguns dos principais financeiros da época (Lawson, Rucker e Hooley) apropriando-se ilegalmente de todas as patentes registadas em todo o mundo, de modo a controlarem, mafiosamente, a indústria automóvel britânica desde o seu início, exigindo royalties a todos os construtores através da sua empresa, a British Motor Syndicate.142

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O atraso da Alemanha, depois do avanço conseguido logo no princípio da década de 80, também parece difícil de explicar. Os alemães tinham todas as condições tecnológicas para serem os líderes no âmbito da indústria automóvel europeia. Mas a verdade é que o avanço tecnológico não tinha equivalência noutros sectores igualmente determinantes para o seu desenvolvimento. Recuperando Fridenson:143

Cela tient à la personalité du public allemand: il admire la prouesse technique, mais n’achète pas le produit, d’autant que les municipalités allemandes imposent toutes sortes de restrictions à son usage. (…) Plusieurs obstacles l’ont gênée : le mauvais état des roues, l’absence de soutien des banques, il est vrai liées aux chemins de fer, une industrie mécanique moins aventureuse qu’en France.

Os outros registos merecem breves comentários, sendo de realçar a posição da Bélgica, que é interessante, ocupando a quarta posição no ranking por número de marcas, à frente do império Austro-Húngaro, da Suíça ou mesmo da própria Holanda. Não será despicienda nesta classificação o facto daquele país ter estado na linha da frente da revolução industrial na Europa continental, como vimos atrás. Das 19 marcas aqui referenciadas, nada menos de doze começaram a sua actividade utilizando motores licenciados e outras duas (FN e Pieper) tinham já enorme experiência na concepção e execução de peças de precisão uma vez que o seu core business consistia na produção de armas. Em Itália, que se revelaria um dos países mais emocionais no contexto da indústria automóvel anos mais tarde, a dimensão do mercado para além dos estreitos limites industriais e humanos, foram as principais razões que condicionaram o seu arranque no contexto dos países construtores, como destaca Enrica Aceti:144

Nel nostro Paese l’automobile tarda ad affermarsi non tanto per mancanza de interesse quanto per mancanza delle strutture necessarie ad avviare una vera produzione industriale.

Um último destaque para a presença de registos portugueses. Não constam de qualquer enciclopédia internacional mas a entrega de patentes de indústria de duas empresas e a realização de pelos menos dois protótipos, realizados pela Empresa Industrial Portuguesa, entre 1899 e 1901, sob a supervisão do técnico francês Albert Beauvalet – mais tarde, importador oficial da Peugeot para o nosso país – a par dos seis veículos construídos nas instalações da Parry & Son, são factos amplamente documentados demonstrando-se assim que houve iniciativa, embora não materializada em produção regular.

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Thomas A. Edison, in an 1895 interview, was asked to comment on the future of automotive propulsion. His reponse: As it looks at present, it would seem more likely that they will run by a gasoline or naphta motor of some kind.

Gordon L. Rinschler e Tom Asmus, “Powerplant Perspectives” in The Automobile – A Century of Progress, 23

3. O primeiro automóvel importado com motor a