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Ao serem questionadas sobre o referencial teórico-prático que adotam no exercício de seus trabalhos, as participantes fizeram referência a Vygotsky, Piaget e Wallon, não estabelecendo uma ligação consistente entre os pressupostos teóricos desses autores e a prática que realizam. Uma única participante citou outros autores, se diferenciado de suas colegas.

Este conteúdo temático possui dois indicadores, que serão expostos a seguir. A) Visão compartimentada e evolucionista do desenvolvimento, baseada na experiência profissional e, supostamente, nos conceitos de Vygotsky, Piaget e Wallon.

As professoras praticamente colocam a experiência profissional acima de qualquer referencial teórico, como podemos perceber nas falas de Cássia e Dalva.

Referencial teórico? Não, é no imediatismo do momento mesmo, assim, na hora. Não tem referencial teórico não (Cássia).

Tem o referencial que a gente usa da Precoce, né, que eles mesmos quando fizeram o Programa colocaram Piaget, Wallon e essas coisas. A gente até usa, mas acaba que o dia-a-dia... Tem um referencial teórico? Tem. Só que eu acho que na prática, às vezes a gente não consegue ficar tão preso à teoria. Às vezes

tem que ser da forma como você consegue usar ali na hora, o que conta é sua experiência (Dalva).

Além disso, as participantes utilizam termos tais como escalas e testes, demonstrando uma concepção compartimentada e fragmentada do desenvolvimento infantil, como expõem Fernanda, Cássia e Joana.

Nós fazemos os testes na criança pra saber se ela está de acordo com a faixa etária, a partir daí vamos traçando estratégias para tentar trazer o mais próximo da idade dela (Fernanda).

A criança às vezes não tá nem sentando e a mãe já quer que vá andando. Então a gente explica que é importante ser passo a passo: primeiro sentar, depois vamos tentar não pular nenhuma habilidade, tentar conquistar todas, né, pro desenvolvimento da criança (Cássia).

O nosso objetivo é esse, é atender essas crianças e fazer com que seu desenvolvimento vá seguindo aquela escalinha, né, subindo a escadinha conforme o dito normal, que é o que se espera de uma criança (Joana).

Percebe-se um apego aos padrões “universais” de normalidade que vão contra os pressupostos teóricos de Vygotsky e Wallon, que consideram a criança uma pessoa concreta e singular, cujo desenvolvimento depende dos contextos históricos, culturais e afetivos nos quais está inserida.

Marisa é a participante que esboça melhor a articulação entre os teóricos e a prática, mas, ainda assim, aspectos importantes das teorias dos autores citados não são explicitados com clareza em termos de sua influência sobre a prática profissional. Conceitos amplamente difundidos são apenas destacados, tais como a zona de desenvolvimento proximal, em Vygotsky, a afetividade, em Wallon, e a noção de estágios de desenvolvimento, em Piaget.

Então nós nos baseamos muito em Piaget pra compreender o desenvolvimento da criança, e eu particularmente no Vygotsky pra fazer o planejamento e trabalhar na zona de desenvolvimento proximal, olhando o que ele consegue fazer sozinho, e onde eu quero chegar e os passos que eu quero dar pra poder chegar ao desenvolvimento proximal. Também considero outros teóricos como o Wallon, né, e tem outros teóricos, mas principalmente minha base pra planejamento de atividades são mais esses três, né, porque o Wallon trabalha mais com essa parte mais afetiva também, essa relação afetiva do bebê (Marisa).

Apesar das contribuições incontestáveis desses pensadores, existe, por parte dos profissionais dos sistemas educacional e de saúde, uma dificuldade em traduzir

seus conceitos em operadores práticos que orientem as ações e intervenções educativas e terapêuticas.

Assim, embora as participantes da pesquisa e os documentos que estruturam o Programa façam referência aos pressupostos teóricos de Wallon, Piaget e Vygotsky acerca do desenvolvimento e da aprendizagem, não há uma relação direta e consistente entre teoria e prática. Por outro lado, ao considerarem a experiência profissional um dos referenciais mais importantes para a intervenção com crianças, os professores atribuem um sentido intuitivo à prática realizada.

Vanessa foi a única professora a citar referenciais teóricos que utilizam os aspectos relacionais como meio de promover o desenvolvimento. Ela tentou fazer uma conexão entre os autores relatados e sua prática, o que deu origem ao segundo indicador.

B) Visão global do desenvolvimento, supostamente baseada em autores que abordam os aspectos relacionais como meio de promover o desenvolvimento (Stern, Spitz, Winnicott, Montagner).

Então, Stern eu uso muito. Spitz eu acho uma referência importante já que ele foi um precursor, vamos dizer assim. Mazet é um cara importante também, eu acho que ele traz muito as questões maternas importantes. Montagner, né, já que eu estudei muito essa questão dos sistemas corporais interativos, então eu uso mais esses autores do primeiro ano de vida mesmo. Winnicott também é uma referência importante. Todos esses caras me mostram como a relação que a mãe estabelece com a criança e a relação que eu posso estabelecer com elas vão me ajudar para que a criança desenvolva outros aspectos: motores, afetivos, cognitivos (Vanessa).

No que diz respeito ao referencial teórico-prático utilizado pelas participantes, podemos destacar o grupo que considera a experiência profissional como uma referência importante e que cita Vigotysky, Piaget e Wallon como autores que mais contribuem para sua prática profissional. Merece também destaque a participante Vanessa, que adota como referência autores de outro campo teórico-epistemológico e os articula a aspectos e fatores relacionais de sua prática, como forma de promover o desenvolvimento infantil.

3.2.1.3 Conteúdo temático: diferença entre Estimulação Precoce e Educação