Para investigarmos se as participantes incluíam a relação mãe-bebê no atendimento, perguntamos se a mãe ou o cuidador costumava participar das sessões. Em caso afirmativo, qual seria o objetivo da participação e, em caso negativo, por que razão pais, mães ou cuidadores não participavam. Além dessas questões, analisamos os relatos escritos a partir do texto auxiliar e, assim, construímos os seguintes indicadores:
A) A relação é um meio e não um fim e não constitui parte integrante do atendimento.
Para as participantes da pesquisa, a relação mãe-bebê funciona como um meio de conquistar a confiança da mãe ou de acalmar a criança para que o profissional possa propor e desenvolver as atividades com a criança. Ou seja, se a criança ainda não está adaptada à professora, ou se chora muito durante o atendimento, a professora permite que familiares ou cuidadores permaneçam no mesmo espaço para que a criança possa ficar mais tranquila. Por outro lado, os familiares, ao observarem como o profissional trabalha, sentem-se mais seguros em deixar as crianças sozinhas com os professores. Assim que possível, os familiares são convidados a esperar do lado de fora da sala de atendimento, pois sua presença pode atrapalhar o andamento das atividades propostas. Trazemos, para ilustrar, a fala de Tânia:
Então se acontece a necessidade de uma troca de fralda ou, a criança tá irritada, tá muito nervosa, chorando, a gente chama a mãe, a mãe vem e acalma. Quando a criança já está calma, a mãe sai de novo. Então nesse período que a mãe já estabeleceu essa confiança já fica mais fácil de a gente fazer um desligamento. Por quê? Porque a mãe começa às vezes a interferir no atendimento (Tânia).
A professora Marisa relata o que lhe chama atenção no texto auxiliar:
A criança precisa olhar pra mim porque se ele ficar olhando pra mãe o tempo todo, é melhor eles irem pra casa (Marisa).
Já Roberta, ao justificar a presença da mãe no atendimento, argumenta: A gente preza pelo atendimento com a mãe. Só que há alguns casos em que a gente percebe que a presença da mãe, em vez de ajudar, prejudica. É que, às vezes, a mãe tá tão ansiosa que ela fica conversando com a gente enquanto a gente tá tentando fazer uma atividade (Roberta).
Olívia chega a relatar que inclui a mãe no atendimento e esta inclusão consiste em escutar o que as mães têm a dizer sobre suas angústias, seus problemas. Mas “escutar” a mãe parece não ter relação direta com o atendimento e muito menos efeitos sobre a criança.
A gente dedica mais o tempo para as mães do que para as crianças no atendimento, porque elas vêm com problemas pessoais, familiares, de dificuldade em casa com as crianças. Elas chegam e desabafam com a gente,
contam, choram muitas vezes, entendeu? Aí a gente para aquele atendimento com a criança na hora e a prioridade vai ser a mãe (Olívia).
O discurso de Elis também ilustra o quanto as participantes não consideram o que a mãe diz como parte do atendimento ou como fonte de informações relevantes a respeito dos aspectos psíquicos do desenvolvimento da criança:
Nesse dia praticamente não teve atendimento, ela só chorou e contou (Elis). Discutindo sobre o texto auxiliar, Dalva também demonstra que a relação mãe-bebê no atendimento não é importante:
Nesse atendimento fica bem nítido como a mãe intervém de forma negativa. Primeiramente amamenta a criança logo no início dificultando esse distanciamento entre ela e o bebê. Posteriormente a mãe interfere na aula facilitando a ação que a professora espera que a criança execute (Dalva)
Joana chega a afirmar que o atendimento descrito no texto auxiliar tem tamanha interferência da mãe que ela não o considera um atendimento propriamente dito, embora considere que a relação mãe-bebê seja o “cerne do atendimento”:
O atendimento não aconteceu ainda, normal para o segundo atendimento. Esse vínculo mãe-criança é o cerne do atendimento (Joana).
A participante Nana considera que os momentos de relação mãe-bebê descritos no texto auxiliar “atrapalham” a atuação do profissional:
A mãe interrompe o trabalho o tempo todo. A intervenção deve ser feita por meio do professor no momento do atendimento (Nana).
O segundo indicador foi construído a partir do discurso de Vanessa, que considera a relação mãe-bebê não só como um meio de desenvolvimento da criança, mas como um objetivo a ser alcançado nos atendimentos.
B) A relação é incentivada porque é um meio e um fim e constitui parte integrante do atendimento.
Vanessa, ao relatar como pais, mães, familiares e/ou cuidadores participam de seus atendimentos, revela:
Tudo o que eu faço é observando como que a mãe tá fazendo, que tipo de dificuldade que a mãe tá encontrando nessa relação com a criança pra que ela possa vencer essas dificuldades. Às vezes você observa que tem mães que tão realmente com uma dificuldade de vínculo com aquele bebê, pela dificuldade de aceitação da diferença, de como é o seu filho, né, dependendo da forma como ela introjetou essas normatizações, essa cobrança toda de um padrão a ser atingido, um modelo que essa criança deve corresponder, né, porque não sei se você tá estudando a questão da constelação da maternidade, né, quando uma mãe tem um bebê, ela tem o bebê que ela foi, né, assim, o bebê da própria vivência dela como bebê, o bebê que ela sonha, tem expectativa de ter que é bebê que a gente brinca dizer “o bebê Johnson”, né, então, o bebê lindinho, perfeito, essa questão da norma, do modelo e do bebê real (Vanessa).
E mais adiante, Vanessa esclarece mais detalhadamente:
O objetivo da participação da mãe é orientá-la, dar um suporte a ela, tirar dúvidas, aprender com ela, saber como ela já faz, como ela vê a criança. Então é fundamental pra mim a presença do pai, da mãe porque pra mim essa é a figura que faz a mediação da relação dessa criança com o mundo, com as outras crianças, com o ambiente. Essa pessoa, pra mim, é a pessoa chave do trabalho (Vanessa).
Em momentos diferentes, as participantes evocam a importância da relação entre a mãe e seu bebê, mas quando trazemos à tona as situações práticas do atendimento, a relação é secundarizada ou não é considerada relevante. Apenas uma participante aponta concepções e prática diferenciadas.
No discurso, não há distinção entre os termos relação, vínculo e interação, sendo utilizados como sinônimos e de maneira aleatória.
A maioria das participantes se refere à relação mãe-bebê como processo fundamental, fusional, íntimo, entre uma mãe e seu bebê, mas nenhuma delas faz referência à presença/ausência ou aos entraves na relação como marcas da constituição do sujeito e fundamentais ao seu desenvolvimento psíquico.
Apenas Vanessa possui uma definição clara do que vem a ser essa relação, referindo-se a uma “unidade biológica e afetiva de desenvolvimento”. Os aspectos interacionais estruturados nos IRDI’s, por exemplo, são nomeados por ela como sendo “canais interativos multimodais” já que se baseia nos pressupostos teóricos de Hubert Montagner (2003) para a realização de sua prática profissional.
Para complementar a questão sobre o que vem a ser a relação mãe-bebê, perguntamos quais os aspectos que as professoras participantes observam para avaliar a interação entre a mãe e seu bebê. De maneira geral, as participantes focalizam as atitudes da mãe para observarem como acontece essa relação: a mãe sabe o que a criança está querendo ou sentindo, a mãe fala com a criança de uma maneira afetiva, a mãe olha para a criança, a mãe estimula a criança, a mãe cuida da criança. Além disso, a discussão do texto auxiliar revelou que quando a relação mãe-bebê era tomada como dado importante do atendimento, o que chamou mais a atenção foram as ações da mãe e não as respostas da criança.
A professora Vanessa, que faz referência a teorias relacionais, identifica alguns indicadores, nomeados como “canais multimodais”, reconhece e sustenta a relação mãe-bebê e aponta que ambos possuem participação ativa no estabelecimento dessa relação. Quando se refere ao olhar da mãe, por exemplo, registra que também a criança precisa corresponder a esse olhar.
Quando contextualizamos a relação mãe-bebê em situações práticas de atendimento, a maioria das participantes, embora reconheça a importância da relação entre a mãe e o bebê, revelou que só permite que mãe e bebê interajam para que a mãe confie mais no profissional ou para que a mãe acalme o bebê, caso o profissional não consiga fazê-lo. Portanto, a maioria das participantes da pesquisa considera que a interação entre a mãe e o bebê durante o atendimento é desnecessária e, em alguns momentos, negativa, como revelaram os apontamentos a partir do texto auxiliar. Além disso, ao relatar que as mães usam o atendimento para falar de suas angústias, as participantes não levam em conta os aspectos transferenciais presentes na relação com o profissional. Como mencionamos anteriormente, na intervenção com bebês, quando os tratamos como sujeitos ainda não constituídos, sabemos que quem estabelece inicialmente a transferência são os pais e, por isso, devemos fazer uma leitura do campo discursivo estabelecido pela alternância dos significantes produzidos ora pelo profissional, ora pelos pais, ora pela criança (KUPFER, 2002). Em outras palavras, adotando uma perspectiva psicanalítica, a escuta dos pais, mãe e cuidadores é parte do atendimento.
Diferentemente das demais participantes, Vanessa conta que seu atendimento é permeado por momentos de interação entre a mãe e o bebê porque, além de considerar que é por meio da relação entre eles que o bebê se desenvolverá, defende também que essa relação precisa ser construída no
atendimento, para que o bebê possa desenvolver-se. Assim, adota a relação mãe- bebê como um dispositivo utilizado na intervenção e um objetivo a ser atingido durante os atendimentos, que se aproxima bastante da perspectiva sociocultural de estudo das interações mãe-bebê (PICCININI et al, 2010) e, em certa medida, da perspectiva psicanalítica, que atribui à relação mãe-bebê e ao estabelecimento das funções materna e paterna um papel fundamental na constituição do sujeito.
Portanto, com exceção de Vanessa, as participantes concebem a relação mãe-bebê como sendo um conjunto de ações e atitudes realizadas predominantemente pela mãe. Para elas, a relação, além de ser sinônimo de vínculo e interação, não é considerada fundamental no atendimento.