5. Discussion
5.8 Study implications and recommendations
Logo no dia seguinte fui chamado para “rodar tracajá”. Apesar de cansado do dia anterior, não neguei, não era sempre que me apareciam oportunidades de sair com eles em expedições. Fui junto com mais uns 10 homens jovens-casados, e mais alguns jovens ainda não casados e uma criança, todos bons nadadores e preparados para essa tarefa que foi aprendida pós-aldeamento, com os instrumentos dos brancos. Os mais jovens, que ainda não sabiam pilotar o barco, eram os responsáveis pela tarefa, geralmente acompanhados de alguém mais experiente que ia instruindo. A não ser que estivessem pilotando muito mal, eram deixados no comando. Dificilmente reclamavam de que estavam fazendo errado, sempre eram bem pacientes com os aprendizes e seus erros. Nessas saídas eu percebia claramente a divisão da aldeia em dois grandes grupos que envolvia várias casas residenciais – cada dia o barco era usado por um grupo.29
29 Antes do contato, os subgrupos que compõe a Aldeia Laranjal estavam separados na floresta, os quais mantinham relações sociais por meio de matrimônios, festas e trocas, com exceção de um desses subgrupos, que estava um pouco afastado dessa rede de relações. Hoje, na aldeia, foram aos poucos se aproximando dos outros, apesar de haver certa tentativa de alguns em manter a separação. Por isso digo que a aldeia é composta de dois grandes grupos, um tanto embaralhado e misturado por redes de relações que se cruzam, apesar de um olhar mais minucioso mostrar também vários
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No baixo volume de água do rio, as tracajás se concentram próximo dos poções, perto das praias onde irão depositar seus ovos na areia, e quando boiam, os Arara, à espreita, estão prontos para mergulhar, agarrar e esperar a meia volta do barco para subir, para então se preparar para mais um mergulho. Ficam todos em cima do barco, mas geralmente pula quem vê primeiro ou quem está em posição mais propícia para pegar. Por um tempo fiquei junto com eles no teto do barco, depois acompanhei os pilotos, e descansei na parte dos tripulantes, onde as tracajás eram jogadas, acompanhado de uma criança que ainda não estava na idade nem de pular nem de pilotar, que ia juntando as tracajás, explorando a anatomia do ser e observando os modos e características de sua futura presa.
Assim eram os dias de “rodar tracajá”, a principal atividade e alimento da época. Em um desses dias, depois de um acerto de contas com pescadores que compram certos peixes para vender na cidade, aportamos na aldeia Kararao, de onde subiu 4 homens, também da idade dos Arara. Juntos, conversando e brincando uns com os outros, foram catando tracajás. Depois de mapearem os melhores lugares, rodar e catar muitos tracajás, levaram de volta os homens Kararaô. Já que não estava separado os que cada um tinha pego, começaram a selecionar algumas, separando na areia do porto. Os Arara não falaram nada quanto as escolhidas, apenas observaram, apesar de ter surgido olhares em desaprovação depois que saímos. Fomos embora e voltamos a rodar mais um tempo. Logo partimos para a aldeia Laranjal e aportando, já apareceram várias crianças correndo e subindo no barco, sendo repreendidas. Começaram a “dividir”: cada um foi pegando não o equivalente ao que tinha catado, mas o que pensava ser justo de modo a deixar alguma parte para outros que pouco tinham pego, e também aos pilotos. Os melhores caçadores, ao invés da avareza de ficar com todos os seus, deixavam o excesso para os outros, sendo honrados com sua generosidade diante do grupo. Tal como a função de um chefe que recebe muitos bens é de depois dividir, esses homens mais perspicazes na caça se tornam lideres pela natureza de suas qualidades individuais como caçadores que trazem a abundância, a qual é incentivada à divisão pelo socius. Ser bom caçador exalta a natureza do indivíduo frente aos outros, enquanto a tendência a divisão exalta seu caráter generoso, social, sendo assim um modo de a socialidade capturar o ser que se diferencia: ao invés de exaltar sua natureza, sua individualidade, sua diferenciação como melhor que os outros, exalta-se seu caráter social – ao invés de gerar focos de poder separado, gera-se
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socialidade, gera-se magnificação do sujeito. A moralidade de se diferenciar do devir onça, ser individual, solitário, implica num modo de existência, promovendo a ética da generosidade. Se antes o espaço político se continha em torno de um líder-sogro, no momento, diante de uma comunidade mais populosa começam a surgir possibilidades de magnificação, na expressão de Marilyn Strathern (1991), homens capazes de “conter outros homens” que não se extrapola ao egoísmo de submeter os outros às suas vontades, mas que é seguido por admiradores “não-declarados”.
É interessante constatar que apesar de serem incentivados à divisão, à generosidade, em nenhum momento de suas vidas são obrigados a isso. Como pude notar diversas vezes na educação que os pais dão aos seus filhos. Certa vez, estava num barco com uma família em que a mãe dividiu um pedaço de carne de abiana (queixada) para cada um dos membros. A criança menor, recebeu um pedaço um pouco menor, visto seu tamanho, e logo acabou de comer, assim como todos os outros, com exceção de outra criança ainda em torno de seus oito anos, que demorava para comer. O menor pediu a este um pedaço, que negou em dar. Sua mãe interviu e falou para ele dar um pedaço, mas este continuou negando. A criança começou a chorar, pedindo insistentemente, e a mãe calmamente falando para seu filho dar um pedaço ao seu irmão, mas ele continuou negando. Sem conseguir convencer o pequeno, a mãe deu outra coisa para a criança que não parava de chorar, mas em nenhum momento usou da violência ou de qualquer outro tipo de força para que o pequeno, que não queria dividir, obedecesse.
A artimanha do socius Arara em capturar os indivíduos é tal que a necessidade do poder, do mando, da submissão do outro, não aparece. Tendo a liberdade e responsabilidade pelos seus atos desde a infância, não sendo obrigado a nada, conforme vai crescendo e vivendo com os outros, vai se deparando com a ética do ser Arara, que aos poucos é incorporada. Diferente Da tortura nas sociedades primitivas (Clastres, 2003), da lei escrita, da lei marcada no corpo dos ritos de sofrimento, o modo Arara de significar um pertencimento social é mais brando, lembra mais os modos Yawalapiti da “vergonha” e do “medo”, do “respeito”, descrito por Viveiros de Castro (1977). No caso Arara, enquanto o fazer-vergonha aparece como sanção ao indivíduo frente à socialidade (sempre se faz vergonha frente a outros), o fazer-medo, como usam as mães com as crianças para dizer até onde podem ir no rio, ou no mato e em suas atividade, até mesmo
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frente as pessoas (-“Eduardo vai te levar, quer ir com ele?”, dizem as mães aos seus filhos em minha frente; imagino que também devem fazer isso frente a “outros” com quem não querem que se relacionam, ou que não vão até), coloca os limites do território e das possíveis socialidades, funcionando como uma marcação moral, estriando o modo de existência.