• No results found

5. Discussion

5.3 Internal validity

Em meio a tantos engenheiros e outros trabalhadores que se dirigiam à obra de Belo Monte, chegamos em Altamira eu e Clarice Cohn, observando e ouvindo os comentários entusiasmados quanto às novidades da obra, e outros um tanto quanto receosos de se afastar da família pelo período de trabalho na cidade do megaempreendimento. Falavam também de planejamentos em levar a família para morar junto nessa “nova” cidade que se criava com Belo Monte.

Depois de nos acomodarmos numa casa de conhecidos de Clarice, que foi solicitada para um trabalho relativo ao PBA junto aos Xikrin, em meio à desordem de Belo Monte, saímos para jantar na orla do rio Xingu, local onde ficam vários restaurantes com um preço que estava se ajustando aos estrangeiros de Altamira, e excluindo boa parte dos altamirenses que não recebiam um salário compatível com os novos valores da comida desses estabelecimentos.

Estávamos a cerca de 100 metros da Casa do Índio - local onde os indígenas da região se hospedam quando vão para Altamira -, e logo que saí em direção dela para ver se tinha algum conhecido, avistei e fui visto por um grupo de Arara na sombra da noite de uma mangueira. Contente em ver Akui, Mumdeu, E´ggoi, Po´ggo, Coquinho, e outros, fui entusiasmado querer saber como estavam e até quando iriam ficar por ali. Disseram que já estavam pra partir no dia seguinte, e eu logo fui querer saber se tinha espaço pra mim na voadeira. Disseram que estava um pouco cheia a voadeira, mas que iriam ver e depois me comunicavam – com um tom frio diante de minha presença.

Clarice acenou e eu voltei à mesa, pensativo na frieza da recepção e em como ir à aldeia. E depois, a pedido de Clarice, trouxe os Arara até à mesa para se conhecerem. Clarice os convidou para comer, mas com vergonha acabaram não aceitando.

Depois da janta, saí logo no encalço dos Arara para ver se eu não poderia mesmo ir com eles. Já sem pressa, sentei perto e fiquei por ali, esperando ver o que iria acontecer, sem forçar o pedido de ser levado. Quiseram saber mais sobre Clarice, quem era ela e o

95

que estava fazendo em Altamira. Contei que esta era minha professora que eu tinha falado que trabalhava com os Xikrin já há muitos anos e que tinha vindo pra fazer um trabalho com eles. Perguntaram de mim, como estava minha namorada, meu pai, minha mãe, minhas irmãs, e também meus amigos. Fui contando que estava tudo bem, que já tinha matado a saudade e que agora estava de volta querendo ficar mais umsa mês que eu tinha de férias para aproveitar a aldeia. Logo falaram que tinha tido festa de Ieipari. Fui aos poucos fazendo perguntas de como tinha sido, e tudo o mais. Respondiam as perguntas mas não contavam detalhes. Até que em outra pergunta falaram, “calma você vai ver quando chegar na aldeia”. Perguntei então se estava certo de que iria me caber e disseram que sim, que iam me levar, mas que era pra eu avisar antes da próxima vez, porque tinha que avisar a comunidade toda e ver se concordavam com minha nova visita. Falaram que dessa vez iriam se responsabilizar pela minha ida, sem falar com a comunidade mesmo, já que estava em cima da hora.

Fui perceber que o modo frio, quieto faz parte da investigação que fazem para ver os motivos da volta, já que fiquei tanto tempo ausente. O estar longe é como uma quebra das relações e, para voltar a se relacionar, é preciso conquistar um ao outro. Sabendo que eu estou de volta, inferiram que tinho algum motivo, interesse, ao que eles me questionam e querem saber:

“É nesse sentido que a avaliação é essencialmente antecipante, já presente nos primeiros termos da série. Vê-se que a utilidade marginal (aferente aos últimos objetos receptíveis dos dois lados) não é de modo algum relativa a um estoque abstratamente suposto, mas ao agenciamento respectivo dos dois grupos.” (Deleuze & Guatarri, 2012, 142)

Por outro lado, procuram entender o que eu vou dar em troca, que eles inferem por meio das respostas que eu vou dando.

“Trata-se de uma desejabilidade como componente de agenciamento: cada grupo deseja segundo o valor do último objeto recebível, para além do qual ele seria forçado a mudar de agenciamento. E todo agenciamento tem precisamente duas faces, maquinação de corpos ou de objetos, enunciação de grupo. (Deleuze & Guatarri, 2012, 142)

O fato de Clarice, minha professora, orientadora e, de certo modo chefe, como às vezes se referem, estar junto e trabalhar já há tanto tempo com os Xikrin foi como um bônus que ganhei frente aos Arara, um crédito de confiança.

96

O dia seguinte foi corrido, saí em busca de compras no mercado, presentes para levar aos Arara, e tudo o que iria ser necessário para essa volta à aldeia. Encontrei-os no porto combinado e tinha duas voadeiras prontas para a viagem. Numa delas estava alguns homens com esposas e seus filhos e na outra tinha apenas jovens casados e não-casados sem sem suas esposas na viagem. Coloquei minha bagagem junto às famílias, mas disseram que era pra eu pegar minha bagagem e ir na outra. Tinha meus ranchos, minha mochila, presentes aos Arara e um botijão de gás. Saímos já perto das três horas da tarde. Paramos num bairro afastado do centro da cidade, Coquinho, rapaz de 14 anos foi destinado a ficar tomando conta da voadeira, e também o responsável por avisar o outro barco Arara que estava de saída que eles estavam por alí. Desceram cumprimentando os conhecidos em direção a um mercadinho do bairro. Compraram alguns fardos de refrigerante, arroz, feijão, farinha e outros utensílios que iam levar para atender aos pedidos de pessoas que ficaram na aldeia, com os respectivos dinheiros. Geralmente os pedidos veem da família residencial, os quais já dão logo o dinheiro para as compras, principalmente os velhos, que geralmente preferem não ir pra cidade, deixando na mão dos mais jovens as compras. Cada um é responsável por sua parte e pelo dinheiro do qual está se responsabilizando, como as devidas marcações nas caixas para não confundir na hora de chegada na aldeia. Enquanto a maioria foi no mercado, um homem recém-casado foi cortar o cabelo numa barbearia conhecida do bairro e voltou com um corte da moda, agilizando logo as suas compras para que pudéssemos seguir viagem. Nesse espaço os Arara pareciam bem à vontade frente aos cidadãos altamirenses, como quem anda sem preocupações num lugar conhecido. Peguei também algumas coisas e voltamos à voadeira, onde cada um deu alguma coisa para Coquinho, que tinha ficado de guarda – recebeu balas, bolachas, refrigerante, e etc., assim como durante a viagem toda, já que era como que um “faz tudo” na viagem, tarefa destinada geralmente aos mais jovens.

Seguimos viagem ao pôr-do-sol até umas nove horas da noite, quando enfim paramos num “rancho” - termo usado para falar de beiradões possíveis de passar a noite - já que era uma noite sem lua, e a viagem ainda iria longe com o motor rabeta.

Encostamos o barco e cada um foi logo armar sua rede. Um amigo formal me ajudou a armar minha rede perto da sua, já que eu ainda não tinha facilidade nessa tarefa. Foram todos banhar e já começaram a preparar uma fogueira, enquanto outro homem ia pescando

97

alguns peixinhos para assar com um redinha. Cada um foi então preparando sua comida, meu amigo formal tirou as sardinhas enlatadas que tinha comprado para o propósito dessa janta, e misturou com farinha. Eu tinha me preparado com uma farinha e dois açaís que já estavam descongelados que dividi com todos. Nessa atividade do grupo, apesar de estarmos juntos, cada um tinha seu sustento, sua parte da refeição. A autonomia e independência vigora mesmo quando entre amigos, apesar de haver certo compartilhamento de uma coisa ou outra, ninguém fica nas custas do outro.

Na manhã seguinte foi difícil levantar depois da noite de sono tranquila no meio da mata, longe do tumulto da cidade. Perguntaram se eu ouvi algo durante a noite. Falei que não, e logo riram de mim dizendo que uma onça ficou esturrando a noite toda na ilha ao lado, que mal tinham dormido direito e por isso estávamos saindo tão cedo.

Apesar do “gelo” que me deram no reencontro, aos poucos foram me acolhendo e me inserindo em meio a eles. Parece-me muito um modo de testar, ver os propósitos antes de acolher um “outro” para o grupo. Com os animais domésticos, Teixeira-Pinto (1997) diz que primeiro eles são presos e ficam sem comida, até que só depois de alguns dias começam a alimentar com carinho e cuidado. Com o “outro”, a acolhida parece também se dar nesses termos. Primeiro há certo distanciamento, certa frieza, perguntas como quem não quer nada e demonstração de pouca importância, mas com o passar do tempo se aproximam e se mostram brincalhões e receptivos, acolhedores e bons amigos.