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2. Aims and objectives of the thesis

2.2 Objectives

“A chamada observação participante é um aspecto de nosso ofício que, acredito, deve ser celebrado: a imersão nas relações sociais em que consiste o campo nos capacita a restituir por meio da escrita aspectos da vida estudada que não colocamos na linha de frente de nossa narrativa. Nos capacita a fazer mais do que aquilo que pretendemos.” (Lima, 2013, 17)

Em meio ao estriamento do espaço social Arara, o lugar que ocupei na primeira vez que cheguei na aldeia foi a casa de apoio da Funai. Sou um karei antropólogo, cheguei junto com as professoras e estava me propondo a trabalhar com a escola e a cultura. Ser antropólogo em meio aos Arara era uma complicação que sempre fez com que eu ficasse atento em meus passos para não complicar os pré-conceitos com relação a essa profissão. Costumavam dizer que antropólogo inventa muita história, que boa parte do que escrevem não é verdade e que só querem ficar rico. Essas afirmações apareciam sempre que eu queria “saber demais”, como as rodas de homens recentemente casados e outros que estavam próximos dessa fase afirmavam quando eu fazia perguntas a respeito do que estavam conversando. As conversas costumavam ser com mais frequência na língua portuguesa, em meio a qual misturavam algumas expressões da língua Arara. Os assuntos eram variados, giravam em torno de caça, pesca, coleta de produtos da época da floresta,

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sobre Belo Monte, sobre a Funai, sobre religião e a vontade de virar crente, planos para o futuro, novas possibilidades que estavam aparecendo junto com a barragem e seus efeitos arrasta. Em meio às rodas de conversas, tudo era novo e desconhecido pra mim, e o turbilhão de informações a respeito do cotidiano me colocava numa posição de não querer deixar minhas dúvidas passar em branco. A cada vez que fazia perguntas sempre apareciam respostas irônicas ou sarcásticas, e dificilmente me levavam a sério. Essa não era uma atitude de todos os Arara, mas particularmente de homens que estão na fase de transição de se casar e gerar filhos. Essa atitude também aparecia frequentemente quando fazia perguntas em meio a grupos e rodas de conversas, e dificilmente davam essas respostas quando estávamos no tête-à-tête – nesses momentos se esquivavam, ficavam quietos e deixavam o assunto morrer quando não queriam responder. Já as lideranças10 eram bem solícitos e buscavam esclarecer minhas dúvidas e questionamentos quando era possível. Isso variava, ora apareciam com respostas formais, respostas que imaginam que o outro quer ouvir, e ora apareciam com suas opiniões pessoais.

O escopo de pessoas Arara com quem eu conseguia conversar era naquele momento um tanto limitado, visto que eu não sabia falar nem compreender a língua deles e nem todos sabiam o português11. Aos poucos fui aprendendo a falar uma ou outra palavra, a dizer algumas frases e também a utilizar algumas expressões, e aos poucos comecei a compreender um tanto do que eles falavam na língua materna – apesar de ter tido pouco progresso na empreitada, já que boa parte da população se relacionava entre eles e comigo no português. Por isso, meus meios de pesquisa eram um tanto quanto

10 Uso esse termo, pois é o mesmo que os Arara usam, ele me parece ter vindo da relação com os

brancos, um termo que foi ganhando força a partir do uso que os karei dão a ele. No entanto, o termo liderança usado pelos Arara se relaciona mais ao modo de tomar iniciativa e ser o condutor de algum assunto em específico, e não no sentido de mando-obediência, próprio das relações hierárquicas. O assunto é de fundamental importância para este trabalho, e ficará mais claro ao longo do desenvolvimento do texto, junto com a exposição do modo de ser e se relacionar dos Arara frente ao mundo com que se relacionam nos dias atuais.

11 Todos os nascidos pós-contato (em torno de quatro décadas atrás) sabem falar o português, e

também os que eram crianças e jovens na época. Alguns um pouco mais velho dessa faixa de idade sabem falar um pouco e também ouvir, mas não com tanta fluência.

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direcionados pelo que era possível ser feito frente às possibilidades de entendimento e as ações possíveis – tal como a observação e as conversas em português, a participação nos movimentos e as traduções que dificilmente eles faziam. Em muitas conversas eu não tinha acesso. Falavam na língua para manter certa privacidade quando não queriam que eu não soubesse, além do limite de entendimento em conversas com os mais velhos que falavam apenas em Arara, visto que aparecia como uma linguagem bem diferente da que os mais jovens e falantes de português expressavam, a qual alguns dos quais diziam que também não compreendiam bem. Apesar do empecilho da língua, os não falantes do português tinham seus métodos de se aproximar e de conversar comigo, assim como eu tinha os meus para conversar com eles – a relação acontecia por meio de trocas12, trocas de curiosidades em relação a roupas, utensílios corporais, expressões e etc., troca de palavras e gesticulações corporais, e outras tentativas de aproximação que era apenas estar junto e “espiar” o outro, tal como foi minha relação com o velho Toitji.

Procurei então seguir com cautela em meio às dificuldades para realizar a pesquisa que tinha me proposto o OEEI. Apesar disso, o interesse dos Arara para com a escola facilitava meu caminho e abria as portas da aldeia para que eu pudesse circular com mais segurança. Por ser karei e estar alojado num espaço karei da aldeia, os Arara nunca me ofereceram suas casas para que eu me alojasse, apesar de eu já ter brincado ora com um e ora com outro dizendo que da próxima vez queria ficar junto deles – diziam que podia, mas nunca faziam um convite formal ou mesmo informal ao ponto de me convidar –, e isso demarca que minhas relações não eram cristalizadas com nenhum grupo em específico, apesar de eu manter mais relações com alguns grupos. Ao mesmo tempo que

12 Toitji, um velho Arara, frequentemente aparecia na minha casa pela manhã junto com sua

filhinha pequena que carregava em seu ombro um macaco de estimação. Batia na porta e me chamava, às vezes até me acordava, quando eu “perdia a hora”. Costumava ter um café feito, e logo oferecia pra ele. Também oferecia meus produtos de café da manhã que tinha trazido da cidade: bolacha de água e sal com manteiga, bolacha recheada. Com frequência ele levava em suas visitas diárias algum produto de sua vasta roça: bananas, limões, algum tubérculo, e outras coisas, ao que eu costuma retribuir com algum produto de meu rancho: arroz, feijão, café, açúcar, bolachas, etc. Ficávamos a maior parte do tempo tomado por um silêncio tranquilo, entremeado por tentativas de comunicação.. Das outras vezes que fui à aldeia não encontrei mais Toitji, que tinha ido morar numa aldeia WaiWai com sua família.

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eram abertas a todos os grupos, tornavam-se complexas à medida do tempo e de minhas andanças ora com uns grupos ora com outros, o que complicava a relação, visto as intrigas entre grupos em que eles me engajavam colocando-me como aliado, ao que eu fazia-me de desentendido – de um lado era bom por eu poder andar com todos, mas por outro exigia jogo de cintura para não me colocar entre intrigas pessoais-grupais.

Estava no começo da pesquisa, eu era iniciante tanto em teoria antropológica quanto na pesquisa de campo, e o grupo do OEEI/UFSCar também era recente. Nos primeiros passos na aldeia, em minha primeira viagem de campo, eu buscava com afinco as questões que tinha levado para a aldeia: queria saber como era a relação da comunidade Arara com a escola; também me interessava como os pais olhavam para a escola e quais eram seus interesses em enviar seus filhos para as salas de aula; qual a relação das crianças com a escola dentro e fora da sala de aula; qual o papel da escola para os Arara enquanto um povo; se a escola transformava os ritmos e horários dos alunos e dos Arara em geral; o que saía da escola e o que levavam para a escola; enfim, a questão central era tentar ver os efeitos da presença da escola na aldeia Arara Laranjal.13

Diante dessas questões eu saía pela aldeia em busca de preencher as informações, assistia algumas aulas durante a semana; conversava com a crianças para saber o que elas achavam, se gostavam ou não, quais eram seus interesses; também conversava com os pais das crianças que as enviavam para as salas de aula, quais eram os interesses que tinham com a escola, o que esperavam que as crianças aprendessem; dialogava com as professoras para saber qual era na opinião delas o papel da escola na aldeia. Isso foi feito com perguntas que às vezes pareciam formais em momentos informais, e principalmente de modo indireto, em conversas e oportunidades que davam a possibilidade de expandir esses assuntos e, principalmente, pela observação participante, por meio da qual eu podia ver os ritmos e horários que a escola colocava no cotidiano das pessoas, e o que falavam da escola sem serem perguntadas a respeito do assunto.

13 Para mais informações a respeito dessas questões ver a monografia A caminho da escola: uma

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No começo essas questões me geraram certos problemas até eu aprender a encontrá-las na vida social sem os questionamentos prontos que trazia comigo. Quando eu saía, no começo da minha pesquisa, com meus bloquinhos de notas procurando em situações diversas fazer perguntas relativas à escola, ora me davam respostas formalizadas, ora usavam do sarcasmo, ora não respondiam – mudavam de assunto, deixavam o silêncio pairar e etc. Aos poucos fui percebendo que assim não seria possível fazer pesquisa e fui mudando meus métodos de participação e observação.

A bagagem de questões e interesses que eu trazia do OEEI/UFSCar e da antropologia tinham que ser colocadas com cuidado, nos momentos devidos, caso contrário, tudo o que eu recebia era o silêncio, respostas irônicas e sarcásticas, ou de má vontade. Foi importante esse fracasso para perceber como os Arara lidam com a desconfiança e os modos impróprios de relação. Aos poucos eles foram me educando aos modos da conduta ética e moral, ensinando-me a fazer a pesquisa, a perguntar, a conversar, a participar, e assim, também, a mostrar o que de fato é importante.

Não é somente por minha escolha que esse texto veio a ser assim, não é somente uma escolha antropológica dar essa condução e conteúdo ao texto, há, é claro o tempo da antropologia, do que encontrei durante minha formação, e há também o tempo Arara, dos povos indígenas no Brasil e no mundo, a posição política e a formação desse corpo que envolve também outros aliados não-indígenas, impossível de enumerar, visto as complexas relações e diferenciações da formação desse ser múltiplo que se empondera na simplicidade de suas relações e interesses – o que também afeta a minha antropologia. (Bruce Albert, 1997)