1. Introduction
1.4 Health-related quality of life among people with opioid dependence
1.4.3 Effect of opioid agonist therapy on health-related quality of life
“Portas. – Assim como o adulto, a criança vê portas em tudo o que se vivencia e se aprende: mas para ela são acesso, para ele, apenas passagens” (Nietzsche, 2008, 122)
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Em busca de dar continuidade à pesquisa saí pela aldeia, procurando o que fazer. Encontrava sempre grupos de crianças por ali, alguns tirando laranja que ainda estavam verdes, outros brincando com estilingue atirando em passarinhos, lagartos e em frutas treinando o alvo, outros brincando de algum tipo de jogo inventado no momento, alguns improvisavam um futebol com pequenas bolas, brincadeiras de luta e etc. Sem saber o que fazer sai andando com eles, eram meus novos companheiros, e no momento quase não se via os homens da aldeia - diziam que tinham ido coletar castanha, e as lideranças daquele momento, Motjibi e Mumdeu, tinham ido até Brasília numa reunião a respeito de Belo Monte. Perguntei às crianças se tinham banana, e logo o grupo foi me indicando o caminho deixando-me ir na frente, e apesar de a todo momento eu diminuir o passo para que eles passassem, não passavam, até que disseram que eu é que deveria ir na frente porque era o mais velho. Saímos de perto da casa onde eu estava alojado, o Posto da Funai, que fica logo barranco acima da trilha que vem do rio. Ao lado dessa casa, de taipa, de barro com reboco e telhas Brasilit que fazem dela um verdadeiro forno, fica a casa onde as professoras estavam alojadas a cerca de um metro, de palha e madeira, construída pelos Arara.8 Fomos até uma bananeira que ficava do lado oposto da aldeia do qual estávamos alojados. Nesse caminho passamos por uma casa com cobertura de palha e sem paredes revestidas, e adiante fomos atravessando algumas casas Arara, as quais eram todas revestidas de palha, até que avistei em seguida, a cerca de uns 20 metros da última casa Arara, a escola, feita de madeira e cobertura de telhas de barro, com uma pequena varandinha cercada com madeira. A aldeia tinha uma disposição estranha, tentei ver o formato e mais me parecia com uma meia lua toda rachada e preenchida com casas, sem seguir uma forma geométrica muito determinante e visível. Aos poucos, fui percebendo como essa forma também aparecia em situações de disposição das pessoas em certas reuniões sociais, nos modos como se apresentam as decisões e outras questões centrais desse caminhar. Dava para notar certos caminhos com a terra mais batida que são os caminhos pelos quais circulam na aldeia, rodeado por uma gramínea baixinha e em alguns locais pouco frequentado crescia um mato largado displicentemente. Passamos pela
8 A casa era dividida em duas partes, em uma funcionava uma sala de aula, e na outra o alojamento das professoras, com piso de cimento queimado nos três cômodos: uma cozinha, um quarto, que as três professoras dividiam, e uma sala de tv com redes.
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escola e andamos mais uns 10 metros em meio a um matagal rasteiro até uma bananeira. Paramos e logo disseram para que eu cortasse. Eles me deram a faca que usavam pra descascar laranja e eu tirei um grande cacho de banana ainda verde. Enquanto fazia o caminho de volta até em casa, todos que passavam perguntavam quem tinha me dado. Eu respondia que tinha sido as crianças, e seguíamos cada um seu caminho. Só depois de um tempo que fui entender que a banana não era da comunidade, mas de alguma família, e que geralmente as crianças não estão autorizadas a sair pegando, apesar de ludibriar os estrangeiros em busca de seus interesses. Essa problemática me deixou consternado para alguns dias, mas depois esqueci. Foi um caso, no entanto, marcante e, por isso o retomei, visto que mostra que
“A solução para todos os envolvidos reside nos esforços do antropólogo para controlar seu choque cultural e lidar com a frustraçao e o desamparo de sua situação inicial. Uma vez que esse controle envolve adquirir competência na língua e nos modos de vida locais (e quem são os especialistas nisso senão os nativos?), as pessoas dali terão a oportunidade de fazer sua parte controlando, ora
ludibriando, o forasteiro – domesticando-o, por assim dizer. E é aqui que as experiências do
antropólogo diferem daquelas dos missionários e de outros emissários da sociedade ocidental.” (Roy Wagner, 2010, 34-35 – adição minha em negrito).
A partir das percepções que Clarice Cohn foi me abrindo ao longo de nossa relação, pude perceber as crianças não só como companheiras e muitas vezes facilitadoras na abertura de relações, mas também como agentes, com interesses próprios que por vezes quebram as normas sociais para realizarem seus objetivos. Seres em processo de formação, acabam sendo alvo de julgamento de outros onde aparecem intrigas grupais, passando as consequências de seus atos geralmente para seus responsáveis - “filho de tal”, “não ensinam ele direito”, por “isso fazem feio”, dizem às vezes uns dos filhos dos “outros”. Há certa moralidade que perpassa entre os grupos residênciais com autonomia política e econômica, a qual une e também dispersa, exercendo a influência em modos de ser comuns, mas, ao mesmo tempo criando diferenças e distanciamento nas relações, relativo a percepções e julgamentos que fazem uns dos outros, unindo os “outros” como os separando.
Ao longo desses dias fiquei acompanhando vários grupos de crianças, e sempre que buscava o que fazer encontrava com algum bando e decidia ir fazer o que elas faziam. Elas ficavam curiosas, passavam as mãos em meus cabelos, em minha rala barba, queriam
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saber se tinha pai, se tinha mãe, se tinha irmão, irmãs, mulher, filhos. Elas riam sempre que eu dizia que tinha só duas irmãs, que não tinha filhos e que tinha uma “namorada” e não uma mulher. Riam gostosamente de um ser estranho que ficava andando junto com elas e que não era de Altamira. Em contrapartida eu perguntava se tinham pai, se tinham mãe, irmãos, tio, avô e onde moravam. Apontavam os lugares de suas casas e respondiam. Alguns não sabiam quem era seu pai, e ficavam quietos. Algum intrometido logo já começava a falar – “ele é filho de fulano”, ou, “ele não tem pai”, deixando a outra criança cabisbaixa, ao que logo mudavam de assunto. Com essas andanças entre as crianças, fui aprendendo onde moravam, entre quem moravam, e compreendendo um pouco das relações entre as casas.