5. Discussion
5.4 Confounders and causality
Passamos o dia seguinte todo viajando embaixo de um forte sol e alguns momentos de chuva. Chegamos no entardecer, e encontramos na recepção apenas as famílias dos que esperavam seus co-residentes chegar da cidade. Ficaram surpresos ao me ver chegando junto, já que não tinha dado tempo de avisarem a aldeia de minha vinda, não tinha gente ali esperando pra “espiar” a chegada de um “outro”, que acaba por reunir curiosos de todas as casas. Subi a ladeira e fui falar com Motjibi, que na época era considerado liderança da aldeia junto com Mumdeu, para ver se ainda poderia ficar alojado na casa de apoio da Funai. Ele estava com o porte da chave e, surpreso, fez
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algumas perguntas, querendo saber quanto tempo eu iria ficar e como estava “meu pessoal” em São Carlos, para sem mais liberar a chave com um sorriso.
Depois de arrumar a casa de minha estadia já era noite, e sai até a oropta´g onde havia pessoas assistindo à televisão. Sentei-me ao lado de Typtjigoriwy, homem de uns 40 anos que falou: “tu voltou mesmo, Eduardo. Não estou acreditando. Achei que tu não voltava mais não. Tu viu Ieipari? Foi eu que cortei. Nas últimas três festas que teve eu que cortei. Ninguém quer cortar não. Dizem que se não acertar no corte a pessoa morre. Eu fiquei com um medo na hora. Será que morre mesmo?”
- “Acho que morre né, se os velhos dizem... deve ser verdade. Tenta pra vê....”, disse eu. “Ah, Eduardo, tá brincando comigo, né, mas só eu que tive coragem.”. disse ele.
- “E como foi a festa?”
- “Foi muito boa, a gente brincou muito. Fizemos duas festas com esse pau já. Tão pensando em fazer outra, mas acho que não pode mais não. Isso eu não sei, os véio que sabem. Bebemos muito amuru, dançamos, cantamos. Tudim da aldeia participou. Fomos pro mato, outros foram pescar, fizeram amuru demais, foi mais de 10 dias de festa.”
“Ahh, queria ter participado também.”
“Logo que você foi embora a gente já começou a organizar. Alguém que pediu pros véio, parece que Milem, não sei. Foi festa boa demais, da nossa cultura, chamamos o Isaac e ele veio. Depois você pode assistir, a Carol, linguista, filmou tudinho. Ieipari tá alí, tu viu? Vai lá ver.”, disse Typtjigoriwy apontando para um poste ali perto.
Saí e fui ver o Ieipari: um poste reto fincado no chão, com diâmetro de uns 40cm, não muito alto nem muito baixo, mediano, com uma forma ovalada moldada em barro no topo com imagem de ser uma cabeça, onde havia um cocar, além de pinturas corporais borradas e semiapagadas pelo tempo. Ieipari26, o poste cerimonial de um dos mais importantes ritos Arara:
26De acordo com Márnio Teixeira Pinto, “a palavra ieipari é composta por iei (pau, tronco, madeira) + ipari (“afim”).” (387:1997)
99 “condensa em si as mensagens do rito: produto de uma violência, produtor das condições das trocas e das formas de generosidade, gentileza e solidariedade. O poste, então, embute a contradição fundadora da existência social; e a cerimônia ao seu redor delineia o conflito de valores que subjaz entre a condição do mundo e as relações intra-humanas. É a imagem, a figura que representa a unidade de representações distintas – sim, figuração do real, ieipari é a pura expressão das forças contraditórias de estruturação do mundo social – ao mesmo tempo a violência constitutiva do cosmos e as formas solidárias de uma sociabilidade construída sobre as trocas daquilo que se arranca do mundo. Introduzir uma parte na outra parte, só às custas da arte de reduzir a morte às produções da vida no poste.” (Teixeira-Pinto, 1997, 401).
Voltei à televisão e puxei assunto querendo saber mais sobre a festa. Apesar de pouco faladores, a repercussão dessa grande cerimônia, do “encontro de gente”, como eles dizem em português, ainda fazia grande repercussão nas lembranças e no entusiasmo com que contavam tudo, falando que todos dançaram, cantaram e brincaram muito, que “os mais velhos foram ensinando todo mundo, porque a maioria não sabia, mas que agora aprenderam. É importante, não pode perder cultura não”, disse Momuru. Foi Mute quem organizou a festa, segundo ele, porque as crianças tão perdendo a cultura, por isso fizeram como faziam antigamente.
“Eduardo, você tem que escrever livro nosso, da nossa cultura, mas tem que fazer certinho, não pode fazer errado igual costuma fazer os antropólogos. Eu vou te ensinar da nossa cultura agora, vou te mostrar como faz a bebida do coco inajá, ainda tem lá, que a gente fez pra festa. Vou te dar um pouco pra você experimentar.” – disse Momuru.
Fiquei surpreso, quase estarrecido diante da afirmação. Até então escrever sobre eles parecia ser impossível. Era uma dúvida cruel, que eu ainda matutava em como iria fazer de modo que eles consentissem, visto que o tempo todo se punham a falar que antropólogo conta muita mentira, que faz coisa errada e só quer ficar rico. Márnio Teixeira-Pinto costuma ser alvo de críticas dos que falam o português, principalmente dos que na época de seu campo eram jovens27. Dizem que escreveu as palavras errado, e que escreveu
27 Questões como acusações de outros antropólogos e da autoridade de seus interlocutores em campo são mais comuns do que se imagina na antropologia. Antropólogos são alvo de acusações desde o Estado (com confrontos com a FUNAI, por exemplo), passando por missionários atuando em áreas indígenas, até pelos próprios indígenas, que com frequência questionam sobre os “reais”
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coisas que não são verdades, apesar de ninguém ter lido o livro, com exceção de um homem que pediu para que eu deixasse o livro para ele ler, a quem dei, que foi lendo e gostando. Leu a respeito de como os Arara caçam, de como fazem as festas e foi comentando comigo que era daquele jeito mesmo, o que até o instigou a me mostrar um pouco sobre a “cultura” Arara – apesar das palavras erradas, o que se refere ao estilo da grafia adotado por Teixeira-Pinto que difere com o estilo dos missionários. Visto esse acontecimento, percebi então que as acusações que faziam do livro de Teixeira-Pinto (1997) ressoava de alguém que tinha lido que não era Arara. O mais que comum conflito entre antropólogos e missionários também se passou frente aos Arara. Como os missionários continuaram indo à aldeia, construíram casa e mantiveram as relações, quem sobrou para contar a história narrou a sua versão, não uma só vez, mas várias vezes, transformada com a realidade e acontecimentos, trazendo elementos, tirando outros, como um mito que se transforma ao longo do tempo.
Em meio a essas situações apareciam lampejos ainda um tanto enigmáticos do que eu deveria e poderia fazer. As afirmações mostravam então que os Arara também têm o interesse que se escreva sobre a vida deles, sobre a “cultura” deles. Mesmo que tais críticas que fazem possam ser fruto de críticas que outros incitaram aos Arara, questiono o que seria a verdade – tendo em vista a afirmação de que antropólogo já escreveu muita coisa errada? O que é o certo? O que é a verdadeira cultura? Ou, talvez, a questão seja: o que os Arara querem expor a respeito de suas vidas? O que cada um quer e pensa ser possível ser exposto? Ou haveria algo comum a todos? Dentro disso, o que é comum para “os Arara”, ou, como se auto referem, aos “ugoro´gmo? (nós todos, ‘a gente’), de modo que o que eu venha a escrever não sejam “mentiras”? Essas são questão centrais que permeia por todo o vir a ser da dissertação, é a partir dessa problemática que venho tentando inserir minhas narrativas, minhas reflexões, abrindo os caminhos para novas aparições e possibilidades. No contexto de minha pesquisa de campo entre os Arara, muitas questões e possibilidades de aprofundamento apareceram, mas o que mais marcou e chamou a atenção foi como fazer antropologia, ou, se for preferível, como escrever dos
interesses da pesquisa antropológica. A autoridade dos “nativos” implicados na pesquisa também já foi, vez ou outra, questionada. Neste caso, soma-se, claramente, um conflito de gerações. Sobre os modos nativos de definir a verdade, cf Toren 2006.
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Arara. Poderia negar e pensar que não é bem esse o meu tema de estudo, que meu foco do projeto de mestrado apresentado ao PPGAS para a seleção do mestrado foi a questão da chefia, da posição tão fluida das lideranças, da relação entre os grupos e etc, mas, se assim eu fizesse estaria negando algo que marcou e direcionou meus caminhos ao longo da vivência com os Arara e também a questão que tanto me importunava quando eles faziam: “Eduardo, você não vai inventar coisa e falar mentira da gente, né?” Isso me gerava aflição, tentando saber então o que eu deveria fazer, mas até então, em momento algum tinham dito o que deveria ser escrito, o que era a “cultura” e o que não era, ou melhor, qual é a parte expositiva da vida e o que não é. A opção narrativa, descritiva e reflexiva foi, penso, o melhor modo de compor as andanças, onde os temas aparecem e somem para aparecer outros, e depois tornam a aparecer em meio a outro contexto, para desaparecer novamente e, de repente, tornar a surgir. Como um fantasma que ronda, foi assim que essa questão apareceu-me ao longo das viagens, e penso ser interessante assim inserir, pelo modo de fazer algo fluido, de modo que procure ser para os Arara algo que não é certo ou errado, mas algo que aconteceu e acontece, deixando o julgamento para eles. O que estava em questão, no fundo, era o que e como se definia o que era verdade para os Arara. Como veremos nestas minhas andanças com os Arara, essa questão volta sempre, em forma de algumas acusações sobre as minhas e a própria antropologia, mas, por outro lado, pela valorização pelos Arara de meus aprendizados. (Toren, 2006)
Quando pergunto aos Arara sobre o que escrever, falam da cultura, falam da festa de
Ieipari, que vem de longe, falam também de seus preceitos de certo e errado misturados
com os da igreja evangélica. A “cultura” tem sido agenciada politicamente, servindo como um instrumento de empoderamento frente ao outro.
“A escolha do termo de empréstimo cultura indica que estamos situados num registro específico, um registro interétnico que deve ser distinguido do registro da vida cotidiana da aldeia. O fato de eu povos indígenas no Brasil usem a palavra cultura indica que a lógica de cada um desses sistemas é distinta. E já que cultura fala sobre cultura, como vimos, cultura é simplesmente o termo de empréstimo nativo para quilo que chamei de “cultura” (Carneiro da Cunha, 371, 2009)
Enfim, diante da problemática construção da verdade, meu texto ficará sobre o julgo do agenciamento que fizerem dele. Para o bem ou para o mal, venho tentando estar entre, contando um poucos das experiências por que passei, são tantas associações que por aqui
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passam, que não cabe a mim tentar criar a verdade eterna, posso apenas produzir a verdade do caminho.
2.3 Fazer e afazeres coletivos, a origem das lideranças e a ética da divisão: férias