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“Ora, no espaço estriado, as linhas, os trajetos têm tendência a ficar subordinados aos pontos: vai-se de um ponto a outro. No liso, é o inverso: os pontos estão subordinados ao trajeto.” (Deleuze e Guattari, 2012, 197)

Os cantos dos pássaros inhambu, socó-boi, socó, e outros bichos são os indicadores para os Arara de que a floresta está amanhecendo. Na aldeia, são os cantos dos galos criados nas proximidades das casas pelas famílias residenciais que fazem a algazarra. Há ainda outros pássaros que anunciam a alvorada quando estão em expedições na floresta. Alguns pássaros específicos são os índices quando estão na beira do rio, e outros quando estão mais para o “centro da mata”. Muitas vezes o sol ainda não nasceu e grupos de pescadores Arara, depois de comerem o que sobrou do dia anterior, já estão preparados e ligando os motores das voadeiras e canoas para pescarias e caçadas combinadas antecipadamente que duram geralmente até as duas ou três horas da tarde, ou se excedem por dias quando combinado. As saídas são sempre em parcerias:

“A formação das parcerias formais de caça obedece a alguns critérios de exclusão: pais e filhos ou dois irmãos não devem andar juntos, avôs e netos tampouco. As relações que sobram para assentar as parcerias são, por isso, as relações de afinidade real (genro e sogro, cunhados) ou aquela que existe entre tio materno e sobrinho (lembrando outra vez que os Arara são uxorilocais)” (Teixeira-Pinto, 1997:89, negrito do autor).

Os horários dependem dos hábitos das presas, que os Arara, bons caçadores e comedores, conhecem com meticulosidade: tanto os alimentos que suas presas consomem, por onde transitam, os horários propícios e tantas outras formas de rastreamento por meio de pegadas, cheiros, e pelo mapa mental da floresta e de seus habitantes que têm consigo – o que serve como material para a ação. Já perdi algumas viagens em que tinham me incluído em pescarias e em caçadas por ter perdido o tempo combinado por questão de minutos (os quais são preciosos, tendo em vista os hábitos das presas). A questão do tempo combinado para as caçadas, pescarias e tantas outras atividades sempre foi uma dificuldade para mim. Nunca consegui me adequar bem aos horários e às referências que

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eles davam para as saídas, visto que são próprias do ambiente, dos cantos dos bichos, da intensidade de luz solar, da neblina do rio, e outras ainda que não compreendo bem. Os modos de se encontrar e os lugares também foram um aprendizado lento e contínuo. Eu costumava pedir para que eles me chamassem quando fossem, para não ter problemas de perder a hora, mas isso nunca acontecia se eu não estavisse já dando as caras fora da minha casa. Ao longo do tempo fui me adequando a esses ritmos e horários que são mais próprios da vida social em relação ao ambiente que os rodeia, e não tanto de um calendário e horário cartesiano ligado ao relógio, que hoje também já faz parte da vida Arara.

Quando me levantava antes de o sol nascer e saía para dar uma volta pela aldeia encontrava poucas pessoas fora de suas casas, mas dava já para ouvir burburinhos e barulhos do interior. A sonoridade da floresta e do rio prevalecia sobre o barulho humano, que sobressaía com o nascer do sol. Pouco tempo depois de o sol nascer já estavam se encaminhando para suas atividades diárias, as quais variam conforme a relação das necessidades Arara com as possibilidades do entorno. Antes de começarem a sair, a técnica em enfermagem saía em visitas matinais às casas Arara, procurando saber se havia alguém doente ou com necessidades especiais. Após essa caminhada, voltava para a farmácia e ligava o rádio para ouvir as informações diárias do horário da saúde instituído pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI), que coordena e faz a intermediação de Altamira-PA das informações a serem transmitidas e recebidas das aldeias indígenas às 8 horas da manhã, enquanto ela recebia as pessoas que vinham tomar o remédio, numa rotina em que aparecia com frequência velhos, alguns adultos e crianças com alguma enfermidade. Além do remédio, ficavam por ali por um tempo como em um lugar de tendência sociável, conversando ora com um, ora com outro. Já os mais apressados pegavam logo o remédio e saíam, mas sempre havia um certo corpo de pessoas esperando o tempo passar. Pouco depois de o sol esquentar, E´ggoi, o Agente Indígena Sanitário (AISAN) da aldeia, liga o motor da bomba que puxa água para a caixa destinada à casa dos karei (a farmácia, a casa das professoras e a casa de apoio da Funai) e para a caixa maior referente às casas dos Arara, transtornando os ouvidos de quem fica ao redor.

As 8 horas da manhã, aqui sim um horário cartesiano, que os Arara apreendem por seus próprios meios e pelo trânsito das professoras, era também o horário das aulas escolares, na escola e na casa das professoras, e logo se via as crianças acompanhando as

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professoras até a escola. Às vezes decidia-me por ir banhar e lavar roupa na beira do rio, aproveitando que o sol tinha nascido nesses tempos de chuva. Eu tinha o costume de frequentar dois portos diferentes, o principal, onde chegam as embarcações, e um outro que fica logo em frente à farmácia, descendo um barranco íngreme numa escada escavada na terra pelos Arara e destruída pelas chuvas torrenciais. Esses portos são frequentados por pessoas diferentes para banhar, lavar roupa, pescar e usufruir do espaço. Eu não sabia se tinha um espaço destinado para minhas atividades de banho, lavagem de roupa e etc. ou não, por isso transitava por diferentes portos. Indo logo depois de o sol nascer, os portos eram calmos e tranquilos, onde eu costumava me encontrar apenas com crianças que ali estavam pescando pequenos peixes com minhoca, gongo (larva que come a castanha do coco de babaçu, os quais os Arara quebram e pegam ele para pescar) e às vezes outras iscas. Em pouco tempo essas crianças pequenas, entre 7 e 11 anos em sua maioria, pegam em um bom dia uma porção de peixes e levam para que suas mães façam para comer o desjejum em casa. Ficávamos ali por conversar, num momento de pouca exaltação, enquanto eles quietinhos ficavam pescando eu lavava minhas roupas. Em outros dias aparecia com minha tela (como chamam as linhas de pesca), anzol e minhocas para pescar com eles – que aos poucos foram me ensinando a ser mais rápido que as presas. As pescarias com as crianças, assim como com jovens e adultos, parecia com uma disputa que se trava com a presa e também em relação aos outros presentes, isso ao menos quando eu estava junto – às vezes contavam, usando palavras na língua, e outras em português. Lentamente fui melhorando nessa atividade, mas não cheguei a ser tão bom quanto eles e não deixei de ser motivo de piadas: “você é muito lento”, “tem que fazer igual eu” e outras afirmações. Às vezes eu pedia para que me ensinassem, e eles não respondiam nada verbalmente, mas pegavam e punham a atividade em ação. Aos poucos fui percebendo que dependia de outros modos de ensino-aprendizado a que eu não estava acostumado, mas que aos poucos fui aprendendo. Ficavam inconformados com minha ausência de saber, de experiência e com meu amadorismo, mas tinham paciência para sempre mostrar novamente como fazer direito e também para esperar o tempo de experiência necessária do aprendiz. No fim das atividades, tanto com as crianças, quanto com os adultos, eu acabava por ganhar um peixe para levar comigo. Em outros dias, ia sozinho para a beira do rio pescar, e ocasionalmente aparecia algumas crianças perguntando se eu queria que eles pescassem pra mim. Eu emprestava outras telas e

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anzóis e às vezes apareciam com a deles mesmo. No fim era como que uma ajuda e ensino, terminando com brincadeiras e diversão tumultuando a água quando se cansavam – alguns dias subiam comigo para casa e perguntavam por bolachas.

Nessas pescarias, dependendo do tempo em que permanecia no rio, encontrava- me frequentemente com mulheres e crianças que iam lavar as roupas de toda a família residencial nuclear: uma mãe lava a roupa de seus filhos que ainda não têm esposa, dela própria e do marido, com ajuda de suas filhas acima da idade da menarca ainda não casadas, apesar de as menores também ajudarem sempre carregando algo, cuidando de crianças de colo e que não sabem nadar e outras pequenas tarefas. Ficava a conversar, perguntavam se eu tinha pai e mãe, irmãos, mas a curiosidade maior era se eu tinha “muié”, queriam saber o nome e ficavam a repetir com dificuldade, questionavam onde ela estava, se eu tinha filhos e diziam sempre que era “pra eu trazer”. Em contrapartida eu perguntava delas, quem era o marido, se tinha filhos, quem era pai, mãe, e irmãos, e tudo o que elas me perguntavam eu refletia como curiosidade. Assim fui conhecendo e percebendo com mais clareza quais eram as famílias residenciais e por quem eles perguntavam quando queriam saber de me conhecer. Eu devolvia as perguntas que eles me faziam, pensando serem estas as importantes questões para a ocasião.

O horário das roças não costuma ser muito cedo, logo que o sol esquenta eles saem e ficam até um pouco depois de o sol estar a pino. Esse é um espaço mais frequentado e trabalhado pelas mulheres durante o ano todo, com exceção dos períodos de derrubada e queima das futuras roças, que é um trabalho dos homens. Costumam carregar alguma coisa para comer no caminho ou durante o trabalho, e também garrafa PET com água com uma alça improvisada para carregar – o que sempre me oferecem, como que por regra de boas maneiras, quando ia com eles para suas roças. Geralmente voltam com algum tipo de produto colhido da roça, algum tubérculo, milho em seus tempos, bananas, e ou frutas e castanhas nativas coletadas no caminho. Mais raramente as mulheres vão à roça pela tarde, momento em que os caçadores e pescadores chegam com a comida e todos estão com fome. Além do mais, o período da tarde já está marcado com o compromisso escolar para boa parte das mulheres, ao que elas se adaptam. Nessa primeira viagem de campo, poucas vezes fui à roça com os Arara, devido às minhas intenções e também por ser um lugar mais frequentado pelas mulheres. Em minha última viagem de

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campo, no tempo de derrubada, queima e plantio, tive diversas oportunidades de frequentar esse espaço, já que o assunto e o trabalho pareciam pairar no ar pela aldeia – ao menos entre os homens, meus principais interlocutores e companheiros durante minha estadia na aldeia. Nesses tempos de aldeia, as roças estavam um tanto quanto abandonadas por boa parte dos Arara, já que o Plano Emergencial estava disponibilizando 30 mil reais mensais, dos quais boa parte era gasto em comida, que sobrava a estragar.21

Com o período livre das salas de aula, algumas com a manhã, outras com a tarde, as crianças ficam a brincar por perto de suas casas, também na beira do rio com outras crianças próximas, e em outros momentos formam grupos maiores de futebol que jogam perto da oropta´g ou no campo de futebol – atividade que reúne grupos maiores e de toda aldeia – vão para a beira do rio em brincadeira coletivas na água, e em outras oportunidades saem para caçar, pescar e em excursões para a floresta em busca de frutas, castanhas e outras atividades. No semestre escolar, as atividades possíveis das crianças têm que ser adaptadas com relação às aulas escolares – gerando uma seleção de possibilidades, visto que os pais preferem deixá-las para as aulas do que levá-las junto para as atividades que poderiam fazer com que percam a escola, e ou adaptam os horários – tal como expedições na floresta em coletas de frutas, pescarias de um dia todo, e outras possibilidades nas quais são deixadas para a escola.

O período da tarde é o momento em que boa parte das mulheres vão para as aulas depois das atividades rotineiras diárias – da preparação do que há de comida, do período no rio lavando as louças e as roupas e do banho antes da escola, onde ficam até quase o entardecer, após o que começam a preparar a refeição principal com o que há de comida disponível para o dia no fogo culinário, particular de cada mulher: - homens que se relacionam com duas esposas têm cada uma seu próprio fogo culinário, que abarca comida dos filhos nascidos dela e de seu marido; e casas que envolvem mais do que uma família residencial abarca um fogo culinário para cada mulher, os quais ficam num espaço fora do lugar onde moram, geralmente em um puxadinho com teto coberto e paredes

21 O assunto das roças voltará a ser tratado em outro momento, referente ao tempo em que eu

frequentei diversas vezes esses espaços com os Arara, e por motivos contingenciais relativos aos efeitos da UHE Belo Monte, o assunto pairava no ar.

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abertas atrás do espaço da casa, lugar onde cozinham, ficam a descansar e a conversar, realizando tarefas domésticas.

O fim de tarde é um momento em que a maioria já voltou para a aldeia de suas atividades diárias, é período de descontração e de banho antes da chegada da noite. Perto do pôr-do-sol, as crianças começam a jogar o futebol diário próximo da oropta´g, onde se reúnem em um grande grupo que se divide para o jogo. Já os jovens ainda não casados e homens recém-casados, em torno dos 30 anos, reúnem-se no campo de futebol para “brincar”, a não ser que muitos estejam em alguma atividade fora da aldeia. Nesse antigo espaço, que vi transformado na última vez que fui para a aldeia, o campo era grande e dividiam em dois times. Os times mudavam um ou outro integrante, mas geralmente eram os mesmos, replicando certas relações entre as famílias residências a que são pertencentes. Às vezes, os times ficam desequilibrados, quando completados por jogadores mais jovens, e acabam sendo mais uma brincadeira e exaltação de força e habilidade dos mais velhos, contra a garra, correria e tentativas de trombar e mostrar o vigor dos mais novos. O jogo costumava ser sério e acirrado e nenhuma das equipes queria perder, mostrando certas rixas entre alguns jogadores, exaltação de força, habilidade e competição coletiva. Eu costumava ser chamado para jogar quase sempre com o mesmo time, mas às vezes era deixado para o outro time quando chegava atrasado e este já estava completo. Quase sempre era Akui, que ainda não era casado mas já tinha filhos pela aldeia, um bom jogador de futebol, brincalhão e agenciador de grupos em seu entorno que me chamava para o time. Pelo futebol minhas relações foram se intensificando com essas pessoas, que via todo final de tarde e com quem participava desses jogos coletivos. No começo pedia para que me chamassem quando fossem jogar bola, mas aos poucos fui percebendo o movimento da aldeia e ficando mais ligado para chegar junto no horário de encontro. O futebol nunca era um encontro marcado com antecedência, tal como um compromisso, mas um agenciamento que ia acontecendo conforme chegava o horário, também conforme as pessoas que estavam dispostas na aldeia, em que um ia chamando o outro que está próximo e sabendo de um outro por meio de outro, ligando caminhos e famílias residenciais numa abrangência por toda aldeia. Às vezes só saiam de suas casas em direção ao campo, preparados para o jogo e chamando em voz alta quem vissem e quem sabiam que estavam em casa: “bora lá, fulano” quando passavam por perto. Assim também era comigo, chamavam: “bora Eduardo” – passando

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perto de onde eu estava. Com o fim do jogo cada um seguia seu caminho do rio, já sem o sol, com a algazarra dos bichos marcando a passagem para a noite, eu ia com eles (às vezes ia em um porto e ora em outro) e ficava a banhar lentamente, onde rolava conversas sobre o dia que passou, combinavam pescarias ou caçadas para o dia seguinte. Não tardavam para subir barranco acima em direção de suas casas antes do anoitecer.

Logo depois de escurecer o AISAN E´ggoi costumava ligar o motor para o geração de energia da aldeia. Na época já boa parte das casas contava com energia elétrica, consumida na geração de luz, e por poucos aparelhos televisivos em casas – na casa de quem tinha algum dinheiro mensal (AIS, AISAN, aposentados). Na época eram poucas as televisões nas casas, e a maioria ia assistir TV na oropta´g, onde ficava uma televisão da comunidade e vários bancos. No início da noite as crianças dominavam o lugar, assistindo o programa do Chaves e outros programas infantis, e aos poucos iam chegando outros expectadores: jovens homens e mulheres não casados que vinham em grupos de amigos, casais com seus filhos que ainda ficam sob proteção, homens e mulheres de meia idade, junto com alguma filha já passada da fase menarca, que também fica sob relativa proteção22, e outros homens casados que às vezes vão sozinhos e ficam por pouco tempo. A ocupação dos bancos é marcada virtualmente: sentam-se numa disposição que reproduz o espaço das casas na aldeia, encontrando em suas proximidades as pessoas que têm casas próximas. Pouca interação acontece entre os que estão longe, a não ser quando as relações de casamento aproximam uns dos outros. A maioria das pessoas ficam pouco, e logo já vão saindo, aonde costumava restar apenas os não casados para a novela da globo depois do Jornal Nacional da mesma mídia, entre os quais acontecia momentos de paquera e flertes que se estendiam para outros lugares. Em dias de futebol, quarta-feira, principalmente em jogos do flamengo, o gerador ficava ligado e alguns jovens assistiam dali aos jogos, com quem eu compartilhava os momentos e diversões, trocávamos brincadeiras e rivalidades em torno dos nossos times, e intensificávamos nossa amizade. Boa parte desses jovens, alguns deles recentemente casados, eram os mesmos que jogavam futebol, com os quais eu mantinha relações mais intensas que começavam a variar em suas formas (tal como um amigo que se tornou

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formal aos poucos) e a se estender para outros campos, tal como em pescarias e caçadas que eu pedia para ir junto (ao que eles quase sempre negavam – sendo eu um peso morto e um não possível parceiro capacitado e eficaz, participando das excursões sem um parceiro recorrente).

Sem telespectadores, a televisão era desligada e o gerador de energia movido a óleo diesel dava uma trégua para a escuridão e os diversos sons da floresta, contra os latidos dos cachorros anunciando bichos, onças e seres da noite, quando cada um já estava recolhido em suas casas, com a porta fechada e protegida dos perigos da noite, embalado na rede para uma noite de sono.

1.9 Quebrando o ritmo ou seguindo a referência? - encontros de comer e beber, dia