7 Det indre kompasset
8.1 Stress og mental helse 15
O objetivo desta pesquisa, analisar a presença do ideário neoliberal nos sentidos e significados sobre trabalho em estudante de EJA, foi possível graças ao uso das categorias analíticas e metodológicas, cientificamente produzidas pela Psicologia Sócio-Histórica e da utilização das concepções de ideologia, globalização, neoliberalismo e flexibilização.
Foi possível, ao articular os núcleos entre si, fazer surgir uma nova realidade, além da mera descrição dos conteúdos das entrevistas, por meio da análise das condições sociais, históricas, ideológicas, de classe e gênero. Esse movimento entre os núcleos e as categorias foi capaz de detectar a gênese de alguns fatos, de afastar as análises de concepções naturalizantes, e fez com que os dados adquirissem, inclusive, uma outra qualidade. Tal realidade nova é mais complexa, integrada e reveladora de contradições. A explicitação das contradições colabora de forma fundamental para a apreensão da constituição dos sentidos.
A teoria pôde ser reafirmada, pois se percebeu que a apreensão das necessidades é realmente fundamental, atentando para o peso da ideologia que pressiona e constitui tais necessidades. Portanto, elas são históricas, mas não intencionais. Tornou-se viável iluminar o fenômeno pesquisado com uma nova tonalidade, quando ocorreu a teorização a partir das categorias, e, assim, a mediações singulares (que serão debatidas mais à frente) configuradas ao longo da história de Roberta, foram reveladas.
Há muito vários autores discutem o peso do ideário neoliberal, e a marca que a noção do esforço individual imprime sobre o sujeito, e as análises aqui apresentadas corroboram o que já foi por eles descrito. Dessa forma, as discussões feitas na análise fornecem mais elementos para que a gênese social da noção de esforço pessoal na vida de estudantes (só para citar uma das mediações) seja mais compreendida.
O ideário neoliberal é eficaz no caso de Roberta ao super valorizar os poderes do indivíduo, tanto na sua capacidade para ser bem sucedido, como para fracassar. O ideário também demonstra eficiência ao colaborar para a ocultação das multideterminações históricas, econômicas e sociológicas do mundo do trabalho. Algumas questões que ilustram esse ponto podem ser apontadas: a crença no esforço individual para obtenção de um emprego ou para aprovação no vestibular e a valorização social do professor que depende exclusivamente de seu desempenho pessoal.
O ideário também é enérgico quando os projetos de vida de Roberta são substituídos por projetos de consumo, de forma a cobrir as mercadorias almejadas com um véu sobrenatural, com qualidades e capacidades que ultrapassam a sua natureza. A forma como Roberta se apropria dos significados sobre a compra de mercadorias, como a geladeira, ou seja, o sentido produzido nestas circunstâncias, não é neutra, traz embutida intenções e elementos ideológicos.
As propagandas das mercadorias vinculam, afetiva e cognitivamente, a compra com significados sociais carregados de valores. O resultado é que, ao indivíduo que
adquire o produto, será atribuída uma suposta valorização social, por exemplo, como homem viril, ou como mulher que alcançou o sucesso na vida familiar.
A base material, inclusive os significados sociais, é constitutiva dos sujeitos, e revela propósitos, interesses que são de classe (portanto não beneficiam a todos do mesmo modo), e, conseqüentemente, a ideologia que dá sustentação a esta forma de produzir e de se relacionar dos homens.
Contudo, a forma como cada sujeito, na sua singularidade, vai se apropriar dos significados (apresentados como matéria prima advinda da sociedade) será única, constituída no plano da sua subjetividade. Então, é possível afirmar que cada sujeito transforma os significados sociais em sentidos subjetivos de maneira irrepetível.
Comprar uma geladeira para sua mãe não é apenas ter um produto que funciona adequadamente, esse significado é ampliado (tal como foi discutido no referencial teórico da Psicologia Sócio-Histórica, quando Vigotski afirma que o sentido é inesgotável e mais amplo que o significado). Ele se transforma em corpo inorgânico de Roberta e passa a ter outras funções na sua vida. Ou seja, o fetichismo da mercadoria entremeia com vigor as relações sociais como um todo. Todavia, ele possui grandes chances de ser potencializado quando é apropriado por uma pessoa que tem, como condições concretas de existência, a carência sistemática, não só desse tipo de bem de consumo, mas também de luz, emprego, educação. Considerando-se tais pontos nodais, é possível começar a desvelar a dinâmica singular de Roberta.
No entanto, de maneira contraditória, apesar do ideário elevar a individualidade à condição suprema, em Roberta isso não se verifica dessa maneira. Quando Novaes
(2003, p. 18) cita Thurow (1997) em sua pesquisa, percebe-se a progressiva desvalorização da célula familiar: “(...) pesquisas de opinião pública, publicadas por
Bellah em 1991, que demonstravam que a satisfação individual estava mais bem classificada do que a constituição de uma família ou a solidariedade familiar.”
No caso de Roberta, é a sua família a categoria central. Seus objetivos, seus sonhos e sua auto-avaliação passam sempre por essa instituição. No entanto, essa valorização da família não a encaminha para outras formas coletivas de organização, como associação de moradores, sindicato de trabalhadoras domésticas ou agremiações estudantis de EJA. Ou seja, trata-se de uma forma de manutenção do individualismo que atribui à célula familiar o destaque positivo.
O cuidado mútuo entre os membros da família também foi detectado como uma mediação constitutiva de Roberta, que extrapola o seio familiar e atinge o contexto escolar. Isso demonstra que, na estudante, a significação atribuída à escola, como lugar de cuidado e reafirmação dos valores familiares, é tão veemente, que a escola não é significada por ela como o local de apreensão do conhecimento, ou mesmo como a instituição que viabilizará a diversificação de possibilidades de emprego, (ainda que precarizados) graças ao diploma de Ensino Médio alcançado).
Outro ponto analisado tratou de como as questões de gênero ainda não foram superadas, como no caso em que Roberta não fez os cursos de eletricidade. Apesar de, na contemporaneidade, o ideário neoliberal não apregoar o sexismo e a existência de profissões mais apropriadas para homens e para mulheres (uma vez que o capital precisa explorar também a mão-de-obra das últimas), a perpetuação (inclusive pela
mídia televisiva) do modelo burguês de família colabora para que comportamentos díspares tenham a probabilidade de sua freqüência diminuída, quando não totalmente eliminados ou taxados pejorativamente.
Conforme foi tratado na análise, o sentido do trabalho para Roberta articula muitas mediações, tais como a não apropriação das determinações constitutivas do desemprego, o modo como planeja minimizar o sofrimento da mãe que é atravessado pela necessidade e imposição de consumo e o seu patrão juiz como exemplo de trabalhador, que superou condições precárias graças ao esforço pessoal.
O papel que a mídia exerce no cotidiano de Roberta mostra como a heterogeneidade deforma, e, além de não produzir no telespectador a habilidade da crítica dos conteúdos, e a possibilidade de entendê-los para além da aparência, ainda reforça concepções naturalizantes e estereotipadas da sociedade, mesmo quando se propõe a realizar um merchandising social, solapando uma apreensão mais completa da sociedade.
A educação escolar e seus professores possuem, para Roberta, uma autoridade que se configura a partir dos padrões de bom comportamento advindos de sua família, e não provém da importância dos conhecimentos transmitidos. O esvaziamento desse papel do educador provavelmente ocorre em consonância (além dos fatores históricos e econômicos) com as atitudes dos professores de culpabilizar, ainda que de forma sutil, os estudantes pelo sono que sentem e, também, quando abafam o caráter de classe que a escola adquiriu ao longo do desenvolvimento do capitalismo.
O tipo de educação e a apropriação dos conhecimentos historicamente acumulados constituem-se mediações importantes para a produção do pensamento crítico, para a criação e a imaginação (inclusive de novas possibilidades de sociedade e modo de produção). No entanto, para Roberta, esses conteúdos não foram apropriados como instrumentos para a realização de sua atividade vital, de forma que eles possam revolucionar o instituído e propor o novo, conforme conceitua Clot (2006, p. 221).
De acordo com a concepção de educação adotada nesta pesquisa, ela é entendida como instrumento de luta pela transformação da realidade social, uma vez que a partir da apropriação do conhecimento sistematizado da realidade os indivíduos adquirem maiores condições de agir, de acordo com os interesses de sua classe, e não necessariamente da classe dominante. Na análise das entrevistas, notou-se que Roberta não teve as oportunidades para adquirir essas condições.
Durante a formação de professores de EJA, poder-se-ia debater de forma contínua e sistemática como esse fenômeno do esforço, entre outros, oriundos do ideário neoliberal, constitui-se uma das mediações principais, e como parte do conjunto de significados que será subjetivados por jovens e adultos que vivem as novas formas de exclusão social, sem abandonar as velhas, conforme Pochmann et al (2003) inventariou.
A fim de melhor compreender o aluno e atuar de modo indireto e mediato (SAVIANI, 1986, p.76), os professores de EJA poderiam, no planejamento de aulas, na elaboração do Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola e nos horários de trabalho pedagógico coletivo (HTPC), discutir de que forma as diversas disciplinas poderiam
abordar o que o ideário prega sobre o esforço pessoal, começando por sua desnaturalização.
Torna-se fundamental que o conhecimento sobre os processos de apropriação e objetivação do ideário neoliberal, por todos os envolvidos na educação escolar, seja aprofundado. Esta é uma questão importante, já que a compreensão deste processo (objetivação/apropriação) explica a produção dos sentidos, justifica o estudo dos mesmos e a necessidade de conhecimento sobre a gênese social do individual, ou seja, como o singular se constitui no universal. Ao mesmo tempo, a análise pautada pela lógica dialética deixa claro que este movimento não se dá sem considerar-se os significados sociais, atravessados pela ideologia, valores, cultura, que em última instância contém e movimentam o jogo social.
A perspectiva sócio-histórica, articulada à epistemologia qualitativa, prevê que o “potencial de generalização de um conhecimento é a sua capacidade de ampliar o
potencial explicativo da teoria dentro de um domínio concreto dela [teoria]” (GONZÁLEZ
REY, 1999, p. 162 apud OZELLA, 2002, p.125).
A análise por nós realizada permitiu vincular, em um mesmo espaço de significação, componentes que, antes da realização da pesquisa, não tinham tanta relação entre si, em termos de conhecimentos referentes ao sujeito pesquisado. Ou seja, a construção teórica utilizada permitiu dar conta, em termos explicativos, de manifestações mais diversas, o que denota a sua capacidade de generalização.
De maneira sintética, esses foram os achados desta pesquisa (que se referem à estudante de EJA,) alcançados ao realizarmos o movimento de explicitação, análise e teorização.