9 Hvordan organisasjonen husker
9.2 Krigere og saksbehandlere
O termo “velho” tem sido empregado de forma pejorativa e muitas vezes com um sentido de exclusão. Historicamente, os velhos que possuíam um certo status social eram denominados idosos, passando a caracterizar sujeitos respeitados. Na década de 60, a palavra “velho” saiu dos documentos oficiais e foi substituída pelo termo “idoso”. Mas os esforços para a mudança na nomenclatura não reverteram na mesma intensidade as alterações políticas e sociais 44.
De forma poética e filosófica, poderíamos dizer que o idoso tem planos e curte o que lhe resta da vida, mas o velho tem saudades e sofre porque se aproxima da morte. O idoso leva uma vida ativa, cheia de projetos, mas para o velho as horas se arrastam porque são marcadas de amargura e tédio.
Então o que significa velhice ou envelhecer?
A velhice é um período da vida. Sem dúvida, é uma fase diferente da vida. E se é vida, é fundamental que se viva bem cada momento. É preciso investir no agora, nas ações e nas relações estabelecidas a fim de restabelecer o significado do já vivido, na busca de outros olhares e de outros tempos45.
Quando a velhice é tratada de forma depreciativa, “pode causar calafrios, pois
é uma palavra carregada de inquietude, de fraqueza e até de angústia”, diz Minois46. O autor acrescenta, ainda, que no terreno espiritual pode ser vista como um mal, castigo divino, maldição, como resultado dos pecados do homem. Já Olievenstein47, entende que a velhice pode ser objeto de satisfação e júbilo por estar vivo. O prazer
43 RUFFIÉ, Jacques. Biologia humana e medicina de predição. In: MORIN, Edgar (org.). A religação dos saberes – O desafio do século XXI. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001, p. 249.
44 KACHAR, Vitória. Op. cit., pp. 25-26.
45 LOUREIRO, Altair Macedo L. A velhice, o tempo e a morte. Brasília: Editora UnB, 1988. 46 MINOIS, Georges. História da velhice no Ocidente. Lisboa: Teorema, 1999.
de contemplar tudo de belo já vivenciado, por meio de memórias, pela óptica do otimismo. Aceitar a idade, construir e reconstruir sempre contribuem para perpetuar o olhar de sedução pelo novo.
Beauvoir48 enfatiza que a velhice não é um fato estático, e sim “o resultado e
o prolongamento de um processo ... um fenômeno biológico...”, ou seja, são certas
características e singularidades da idade avançada, pois a velhice modifica a relação do indivíduo com o tempo; a relação com o mundo, consigo mesmo e com sua própria história é afetada.
Se tentarmos ver o idoso integralmente, notaremos que o físico e o moral não seguem evolução rigidamente paralela. Por exemplo, o indivíduo com degradação física pode conseguir grandes ganhos intelectuais.
Apesar de o fator biológico ser muito importante na época do envelhecimento, pode-se notar que não é o único aspecto a caracterizar o idoso. O envelhecimento decorre de várias alterações biofisiológicas, variando de um órgão para outro e de indivíduo para indivíduo. Varia também de cultura para cultura. O envelhecimento pode ser encarado como uma composição múltipla de elementos socioculturais, que muitas vezes independem da idade cronológica. É um processo com determinantes não apenas biológicos, mas bem mais amplos49.
Por isso, surgiu uma ciência para estudar o idoso numa ampliada visão interdisciplinar de homem, denominada Gerontologia. Uma ciência que pode colaborar para um melhor aprofundamento das situações que acontecem com o adulto após os 40 anos. A Gerontologia (vem do grego geron, que significa velho,
velhice) é uma ciência atual (busca o auxílio de demais ciências das áreas humanas
e da saúde, como a psicologia, a sociologia, a geriatria, a fisioterapia, etc.) que vem estudando as mudanças que se processam no organismo maduro e idoso 50. Já a Geriatria é uma ciência da área médica. Além de muitas outras informações, ela explica que a partir dos 40 anos há um declínio progressivo das taxas de
48 BEAUVOIR, Simone de. A velhice. 4ª. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.
49 STANO, Rita de Cássia M.T. Identidade do professor no envelhecimento. São Paulo: Cortez, 2001, p. 16.
testosterona, secretada pelas glândulas endócrinas do homem. As mulheres passam a sentir os sintomas da menopausa e muitas necessitam de uma terapia de reposição hormonal.
Afim de melhor conhecer o sujeito idoso, serão analisados alguns fatores de maior incidência que ocorrem na velhice, porque há diferenças marcantes entre os adultos mais jovens e os mais idosos, e mesmo entre os mais velhos há habilidades e potencialidades próprias que os colocam em melhores condições físicas, emocionais e cognitivas. Podemos ver essas alterações nitidamente na fonação, na audição, na utilização da linguagem etc. A velhice é heterogênea e diferente em cada pessoa e em cada sociedade.
Papaléo & Ponte51 fazem uma síntese informando que aos 20 anos começa o processo de declínio em diversas funções dos órgãos do indivíduo, e a partir dos 30 anos inicia-se uma perda anual de 1% das funções vitais biológicas. Por volta dos 40 anos, surge uma condição visual conhecida como “presbiopia” ou “vista cansada”, diminuindo a qualidade da visão de perto. Este problema acentua-se até por volta dos 60 anos, tendendo à estabilização. Outros incidentes visuais podem ocorrer com a idade, como o glaucoma (desregulação da pressão intra-ocular, ocasionando lesões progressivas dos nervos ópticos, surgindo lesões de campos visuais, podendo terminar em cegueira), e a catarata (opacificação do cristalino, gerando freqüentemente o embaçamento visual)52.
Algumas hipóteses mostram que as pessoas com mais idade têm dificuldade em distribuir a atenção: seletiva, alternada ou dividida. A atenção seletiva refere-se ao grande número de informações apresentadas em sala de aula e ao ato de selecionar a informação. A atenção alternada diz respeito à dificuldade de ouvir e anotar a informação fornecida, e a atenção dividida exige que o ouvinte preste atenção enquanto anota. Agir simultaneamente (fazer duas atividades ao mesmo tempo) é difícil para o idoso. O declínio de desempenho explica-se por uma diminuição nos recursos dos quais o sistema cognitivo se utiliza para trabalhar com a
51 PAPALÉO NETTO, Matheus & PONTE, José R. Envelhecimento: Desafio na transição do século.
In: PAPALÉO NETTO, Matheus (org.) Gerontologia: a velhice e o envelhecimento em visão globalizada. São Paulo: Ed. Atheneu, 1996, pp. 3-12.
informação e seus graus de complexidade. Lidar com estas situações, exige da relação professor-aluno um conhecimento diferenciado, do aluno jovem e do aluno idoso.
A memória é bastante afetada no idoso. Segundo alguns psicólogos, desde os 11 anos, e mais especialmente depois dos 30, a memória imediata começa a decair progressivamente, de modo que se torna cada vez mais difícil reter na mente, por exemplo, todo um conjunto de numerais complexos. Sem dúvida, o armazenamento total de lembranças está crescendo como se cada uma delas expulsasse as outras. Thompson, no entanto, esclarece:
(...) para a média do grupo testado um declínio da memória se instala por volta dos 30 anos, e prossegue muito lentamente, mas não chega a ser drástico antes que se atinja uma doença terminal ou a senilidade53.
Se houver uma debilidade do funcionamento do sistema nervoso central em pessoas de mais idade, vai favorecer a recordação de acontecimentos mais antigos em oposição a acontecimentos mais recentes, pois estas recordações recentes são as primeiras a serem prejudicadas.
A memória envolve processos cognitivos ativos, mesclando novas experiências a eventos relembrados. Há evidências de que os idosos não organizam as informações em categorias e não formam imagens efetivas. Isto dificulta a memorização e diminui a capacidade para manipular e organizar as informações da memória de curto prazo. Kachar elucida:
(...) Um adulto possui em média 14 bilhões de neurônios, que armazenam e evocam as memórias, por meio de sinapses. A partir de dois anos de idade começamos a perder neurônios numa escala pequena e gradativa, afetando as várias funções; no caso da memória, informações vão embora junto com a morte do neurônio54.
53 THOMPSON, Paul. Op. cit, p. 156. 54 KACHAR, Vitória. Op. cit., p. 118.
Um artigo de um especialista para a Revista Veja55, sobre envelhecimento,
informa que a maioria das células cerebrais não tem capacidade de reprodução. Portanto, elas se degeneram com a idade, ocasionando doenças como Alzheimer, Parkinson e outras.
Para ativar a memória do idoso, utiliza-se como parte do processo de aprender, uma estratégia pouco apreciada nas abordagens de educação inovadora – o exercício e a repetição.
A repetição é um instrumento efetivo na memória, porque age na função sináptica (relação de contato entre os dendritos das células nervosas), sob o lema, no dizer de Kachar , “quanto mais, melhor”.
Já o estado depressivo, que acomete as pessoas com mais idade, pode interferir diretamente no déficit de memória.
Os motivos que podem trazer ao idoso um desequilíbrio emocional são inúmeros. As doenças, os vários tipos de perdas, o envelhecimento do corpo, as dificuldades econômicas contribuem para a diminuição da auto-estima e da auto- imagem.
Os mecanismos pelos quais se desgasta a matéria viva são numerosos, dentre eles, a mutação dos genes, a alteração das proteínas, a acumulação de gorduras. O idoso acaba tendo vários problemas nos ossos porque a matéria sólida, que aparentemente não se modifica, renova-se mais devagar do que a pele e os intestinos, e precisa estar sempre em reparos56 .
Os fenômenos de regulação, como alimentação e respiração, têm um potencial importante que permite o equilíbrio do corpo.
Quando envelhecemos, o peso dos músculos e dos ossos diminui por oposição às estruturas gordurosas, tornando-se frágeis, devido em grande parte às
55 SCHELP, Diogo. Op. cit., pp. 92-94.
perdas musculares. Os exercícios físicos são aconselháveis com maior cautela e acompanhamento médico.
Schelp57 informa, quando acaba o auge da capacidade de reprodução do
homem e da mulher, começa a decadência do corpo. Nota-se que as articulações, os músculos e outros traços anatômicos, que serviram tão bem durante a juventude, começam a dar sinais de fraqueza. Algumas doenças de caráter genético, como Alzheimer,com a predisposição de aparecer de geração para geração, só manifestam-se em idades mais avançadas. A tendência da natureza é selecionar as qualidades do indivíduo que o ajudam a sobreviver até a fase reprodutiva do homem, e não aquelas que determinam uma velhice mais saudável. Para o autor, do ponto de vista da evolução, a longevidade não traz vantagens.
Outros problemas são encontrados na velhice. Por exemplo, no idoso, o hormônio do estresse, o cortisol, é geralmente elevado. Em conseqüência disto, há alterações no funcionamento cerebral, e defeitos imunitários com possíveis conseqüências tumorais, informa Lusvarghi58:
(...) Uma célula tumoral, cancerígena, é uma célula defeituosa, com genes que trazem o câncer e o envelhecimento. Uma célula, quando tem de dividir os cromossomos, utiliza alguns genes muito importantes nesse processo. Os genes defeituosos podem trazer câncer.
Numa pessoa idosa, a célula já efetivou esse processo de divisão muitas vezes. Quanto mais o tempo passa, mais a célula demora para se duplicar mas, por outro lado, cresce rapidamente, gerando um acúmulo de erros. As pesquisas de Lusvarghi apontam que por esse motivo todo mundo morrerá de câncer se viver o suficiente para isso, porque ele é uma modificação do DNA, uma mutação.
Sabemos que a medicina do século XXI procura soluções para as doenças vasculares, câncer, doenças degenerativas, inflamações crônicas, enfim, males que
57 SCHELP, Diogo. Op. cit., pp. 92-94. 58 LUSVARGHI, Luiza. Op. cit., p. 17.
acometem principalmente pessoas idosas. Schelp59 informa que a engenharia genética promete ser a chave para a cura dessas doenças e para a ampliação da longevidade humana e de uma velhice mais saudável.
As funções cerebrais do idoso devem ser acompanhadas com muito cuidado, devido à sua complexidade. Nelas estão centradas a inteligência do homem e o seu conhecimento do mundo.
Uma evidência, às vezes esquecida, é que a complexidade do mundo está ligada à complexidade do cérebro. “Não existe subjetividade sem cérebro”, diz Vicent60.
A revista Medicis mostra uma recente pesquisa feita em ratos, explicando que o gene da juventude produz um importante componente da enzima chamada
telomerase, a qual estimula a recuperação dos telômeros (encontrados nas
extremidades dos cromossomos), os quais tiveram seu tamanho reduzido durante a divisão celular. Cada vez que a célula se divide, o tamanho dos telômeros diminui. Quando chegam a uma redução mínima, a célula começa a morrer. Quanto mais reduzidos os telômeros, mais rápido o envelhecimento dos ratos61 .
Do ponto de vista de mudanças orgânicas, muito se tem estudado e compreendido em relação às pesquisas do envelhecimento, tanto pelo metabolismo celular quanto pelos genes e cromossomos.
No homem, à medida que as células envelhecem, presenciamos o efeito do potencial reduzido de divisão das células no organismo, que sofre de distúrbios como osteoporose e declínio da função imunológica. Todas as células tendem a apresentar alterações com o tempo. O idoso precisa aprender a conviver com essas diferenças e lembrar-se de que ele existe e está vivo. Mas o idoso só existe como
59 SCHELP, Diogo. Op. cit., pp. 92-94.
60 VICENT, Jean-Didier. As paixões e o humano. MORIN, Edgar (org.). A religação dos saberes – O desafio do século XXI. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001, pp. 182-183.
sujeito num mundo que lhe pertence e o define. Este é o mundo apenas dele. Vicent62 chama-o de espaço extra-corporal, pois este espaço:
(...) é a um só tempo produto do corpo, seu criador e aquele que lhe
dá ordens, graças a epigênese. O espaço extra-corporal é único, ele pertence realmente ao indivíduo: é um mundo dele, cujo tamanho depende apenas de seu saber.
O espaço extra-corporal viaja pelos currículos existentes intra e extra-classe, e depende de como indivíduo vislumbra o seu mundo, pois só existe no corpo, porque o corpo produz o seu mundo, ou melhor, o corpo fabrica o seu próprio ser63. Para um estudante universitário idoso, os ano de experiência, a construção de uma história de vida ampla só pode contribuir para o enriquecimento desse mundo.
O cérebro é um espaço privilegiado que resume o corpo. A representação nele é inseparável da ação. Se as representações fossem simples transcrição do real, não teriam valor para uma definição de ser e, neste caso, o corpo não passaria de uma máquina de apreender o real. A escola não pode ir contra esse ser que é sentimento, prazer e emoções. Deve trabalhar com toda a sua totalidade para atender a esse momento de afluência de idosos para a universidade.
Geralmente, fala-se que o processo de envelhecimento é triste, sofrido e doloroso, até mesmo sem haver problemas físicos; entretanto há os que, apesar de terem alguns problemas físicos, consideram o envelhecimento uma etapa de regozijo e vitórias. O fato de conseguir adaptar-se ao mundo contemporâneo, em transformação a cada momento, pode contribuir para diminuir a marginalidade do idoso e fazê-lo sentir-se gente.
Em nossa sociedade, ser velho já é uma desvantagem. O idoso é percebido como um sujeito vivendo à margem das possibilidades do mundo, das tecnologias,
62 VICENT, Jean-Didier. Op. cit., pp. 182-183.
63
Existem várias teorias e posições sobre a construção, essência e funcionamento integral do ser humano. A visão transcendental é ampla e gera uma profusão de interpretações e questionamentos que não coube a esta pesquisa.
das mudanças de valores e atitudes. Não é necessário o velho corresponder a essa estereotipia, mas acreditar que ainda é capaz de pesquisar, estudar, ter lazer e trabalhar. Enfim, ser útil à sociedade. Ele não precisa excluir-se e privar-se do que gosta, e pode escolher várias formas de envelhecimento saudável64.
Não há dúvida de que essa visão possa parecer utópica, sobretudo numa sociedade e época em que não se valoriza o idoso, o qual não recebe atenção especial nos centros médicos, nem nas ruas, escolas e lares. Pierre Furter65 encara esta situação da seguinte forma:
É fatigante ser utópico porque os fatos são duros e, quando se chega ao fim, cai-se de escantilhão como Sísifo: e mais ainda quando se envelhece. É certo que algumas almas caridosas são consoladoras identificando – um pouco precipitadamente – velhice e sabedoria. Saberíamos então melhor, depois de tantas provas, erros e experiências vividos até a amargura, apreciar os nossos limites. Se é verdade que a idade é um revelador notável do grau de sabedoria que alcançamos (ou que julgamos ter alcançado), revela também, e sobretudo, por vezes, o esgotamento da inspiração, o ronron de um pensamento repetitivo e até a tendência para um regresso à infância: em suma, se a velhice pode conduzir à sabedoria, pode também ser fonte de gatismo. Estas experiências – positivas e negativas – impostas pela idade, tornaram-se mais duras nos nossos dias devido aos problemas inerentes a um período que alguns de nós denominam de ‘pós-moderno’.
É certo, contudo, que o declínio de algumas atividades não inviabiliza a apropriação de conhecimento e a busca de ideais. Explorar outras possibilidades, como cursar uma universidade sem o preconceito da idade, é deixar o idoso entender que pode ser feliz, com direitos e deveres concernentes a todos os
64 STANO, Rita de Cássia M.T. Op. cit., p. 66.
65 FURTER, Pierre. Paulo Freire e Ivan Illich: Das utopias pedagógicas às utopias sociais. In: APPLE, Michael W. & NÓVOA, António (orgs.). Paulo Freire: Política e Pedagogia. Portugal: Porto Ed., 1998, p. 89.
cidadãos, para satisfazer os seus sonhos e esperanças. Enfim, viver com todas as suas potencialidades.