4. EMPIRICAL FINDINGS
4.4. Strength in Numbers (1999-‐2010)
Já tínhamos comentado a defesa de propostas pelo movimento “Todos pela Educação”, que, expressando parte do ideário neoliberal disseminado com maior força nas últimas décadas, teve suas metas incorporadas pelo Ministério da Educação. Neste sentido, vale comparar, porém, as diferentes maneiras pelas quais esta proposta de mobilização dos pais e comunidades é considerada e implementada nestas diferentes esferas de governo. Enquanto que o governo do Estado de São Paulo, na gestão do governador José Serra,
115 acolherá praticamente todo este receituário defendido nos artigos do Instituto Fernand Braudel, excetuando esta última recomendação citada da mobilização das comunidades, uma postura diferente será adotada pelo Ministério da Educação, que procurou estimular a mobilização de comunidades em torno, principalmente, das metas, diretrizes constantes do Plano de Desenvolvimento da Educação:
“Visando ao sucesso na implantação do Plano de Desenvolvimento da Educação – PDE, o Ministério da Educação buscou o apoio das entidades representativas das Igrejas Cristãs – Conselho Latino Americano de Igrejas (CLAI), Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (CONIC) na mobilização das famílias com as quais interagem. O objetivo é garantir que o Brasil alcance, em 2022 um padrão de qualidade na educação semelhante ao dos países mais desenvolvidos do mundo. Surgiu, assim, o Plano de Mobilização de Igrejas Cristãs pela Educação. Ele tomou como referência:
As diretrizes do Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação - programa integrante do Plano de Desenvolvimento da Educação. A experiência de igrejas cristãs na sua prática cotidiana nas
comunidades”.
(FAMILIAEDUCADORA.BLOGSPOT.COM, 31/10/2008)
O texto acima é recortado da apresentação do “Manual para Formação/ Capacitação de Agentes Mobilizadores de Igrejas Cristãs pela Educação”, numa versão preliminar distribuída, para discussão a partir de outubro de 2008, como forma de subsidiar a formação de grupos nas comunidades estimuladas pelas entidades cristãs, que atenderam ao apelo do Ministério da Educação.
Esta adesão de importantes setores da sociedade, como demonstra o caso da CNBB e demais organizações cristãs ao PDE, não significa que o apoio que este plano obteve teve sua repercussão e apoio de parte do Governo do Estado e da mídia em São Paulo. O Plano federal, o PDE, foi lançado praticamente no mesmo período em que foram publicados no jornal “O Estado de S. Paulo”, os artigos do Instituto Fernand Braudel. Mas apesar de ambos incluírem as mesmas metas, sugeridas pelo compromisso “Todos pela Educação”, e que, por sua vez, continham diretrizes referenciadas no ideário neoliberal, propagadas por organizações privadas nacionais e internacionais, ambas tiveram repercussão diferenciada na imprensa paulista:
“O Plano de Desenvolvimento da Educação, PDE, teve duplo lançamento. Em meados de março e no dia 24 de abril, com toda pompa e circunstância, pelo ministro Fernando Haddad. Ganhou aplausos generalizados [...]. O assunto andou pelas primeiras páginas durante alguns dias. Depois, foi sumindo. Tome-se o caso da Folha de S. Paulo[...] 16 de março, o PDE foi para a capa sob o título “Governo quer prova nacional para crianças”. Um editorial da Folha saudou o plano. No dia 25, o segundo lançamento, feito pelo ministro Haddad, foi a manchete do jornal. No dia 26, permaneceu na capa: “Para governo, só 0,8% das cidades têm ensino ideal”, era o título da chamada [...]. No dia 27, saiu da primeira página. O PED não voltou
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mais... a Folha não toca no assunto desde o dia 30 de abril, quando publicou entrevista de Haddad”. (OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, 13/06/2007)
Nesta reportagem, parcialmente transcrita do Observatório da Imprensa, o chefe da Assessoria de Comunicação Social do Ministério da Educação, Leandro Marshall, comenta, em tom lamentoso, a falta de cobertura, pela mídia impressa, do PDE, que teve até uma boa aceitação pela mídia quando do seu lançamento, mas que, pelo menos da imprensa paulista, citada, saiu de evidência. Nas palavras de Marshall, a “Folha não toca no assunto”, mas, como estamos vendo, outro importante jornal deste estado, no início do mandato do governador José Serra (que viria a concorrer, pelo PSDB na sucessão presidencial contra a candidata do PT Dilma Roussef, em 2010), “O Estado de S. Paulo” dava bom destaque às propostas do Compromisso “Todos pela Educação”, elaborado principalmente por grupos empresariais, através dos artigos do Instituto Fernand Braudel.
Mas por que este assessor de comunicação do Ministério da Educação, Leandro Marshall esperaria uma cobertura da imprensa de São Paulo compatível à importância deste Plano de Desenvolvimento da Educação?
Ao analisar o contexto em que PDE foi lançado fica mais compreensível tanto as expectativas frustradas da assessoria de comunicação do MEC como as causas prováveis desta frustração.
A frustração talvez decorresse do fato de que o MEC, afinal das contas, tinha adotado praticamente no PDE, todo o conjunto de propostas contidas no compromisso “Todos pela Educação”, que tinha sido lançado, solenemente, no ano anterior, em 6 de setembro de 2006. Num evento carregado de simbologia, nas vésperas das eleições presidenciais em que um candidato que tinha sido metalúrgico e líder sindical, fundador do Partido dos Trabalhadores, seria reeleito para seu segundo mandato na Presidência do País, a elite brasileira, no núcleo paulista, tinha escolhido o Museu do Ipiranga, na véspera também do Dia da Independência, para lançar o que Milú Villela (fundadora de “Todos pela Educação” e presidente do Instituto Itaú Cultural) chamaria de Pacto Nacional pela Educação ou um “novo projeto de Nação”.