3 Theoretical Framework
3.2 Institutions, Strategy, and Social Change
3.2.2 Strategy and Social Change
“Sem uma disposição para a melancolia, não há psiquismo, mas atuação ou jogo” (KRISTEVA, 1989, p.12).
Após abordar a história dos estados depressivos e ressaltar o modo como seus inúmeros significados foram reduzidos a uma disfunção neuroquímica, neste tópico apresentaremos o problema da depressão na atualidade a partir do viés psicanalítico. A leitura de Luto e melancolia (FREUD, 1917[1915]) permite conceber os estados depressivos como reações psíquicas diante de situações de perdas que exigem do psiquismo um “trabalho”. Desse ponto de vista, as experiências de perdas são consideradas um acontecimento traumático, pois metapsicologicamente entende-se que elas geram um excesso instintual no interior do aparelho psíquico, que o ego não pode “ligar” prontamente. A atividade a ser desempenhada pelo aparelho psíquico é elaborar as quantidades desse excesso geradas em seu interior. Esses processos serão abordados mais detalhadamente no capítulo 4; neste momento, introduziremos noções gerais que servem de base para compreender, segundo a psicanálise, o problema dos estados depressivos na atualidade. Desse modo, podemos compreender esses processos se desenrolando em três momentos.
O primeiro seria o violento impacto psíquico causado pela perda de um objeto de grande importância para o sujeito – um objeto idealizado narcisicamente. Essa perda, necessariamente, provoca dor e sofrimento psíquico – mesmo quando é esperada – devido à quantidade de afeto que é tornada livre, sem possibilidade de satisfação. A perda de objeto, no
entanto, precisa ser compreendida em um sentido mais amplo que, por exemplo, a morte de uma pessoa: em termos metapsicológicos, trata-se da perda de qualquer objeto de satisfação, seja uma pessoa, um ideal ou um trabalho, o que impossibilita a descarga de certas quantidades instintuais. A natureza narcísica da ligação com esse objeto justifica sua importância para a economia psíquica. O segundo momento seria aquele em que, no campo do imaginário, o sujeito se confronta com o acontecimento de perda. Nesse momento, o sujeito pode tanto aceitar quanto recusar a perda, porém nunca deixar de sofrê-la. A culpa seria sua marca principal, já que uma reação habitual é a avaliação de sua responsabilidade diante de tal perda. Torna-se determinante o grau de desenvolvimento do aparelho psíquico e o vínculo narcísico na relação com o objeto, para que possa ser efetuada a tarefa de ligação do afeto que permanece sem satisfação. Seja em um luto, seja em uma melancolia, o processo pode ser igualmente doloroso, uma vez que a tarefa de ligar as excitações sempre resulta em dor psíquica. A inibição e o recolhimento, típico dos estados depressivos, indicam a retirada do interesse do mundo, necessária para a realização de uma atividade psíquica que consome o sujeito. O terceiro momento seria a resolução do impasse psíquico causado pela perda, cuja tarefa de ligação resulta na simbolização dessa vivência. Nesse entremeio temos duas saídas. A esperada é a elaboração da perda através de sua simbolização. A penosa tarefa de elaborar o excesso de quantidades gerado pela impossibilidade de satisfação causada pela perda do objeto resultaria em ganhos por meio do desenvolvimento de recursos psíquicos. Ao simbolizar a perda – ligar as representações do objeto perdido e suprimir o seu estatuto psíquico de objeto de satisfação –, o indivíduo passa por uma transformação interna ao final da qual está novamente disponível para as atividades habituais da vida. Outra saída possível para o terceiro momento é a melancolia ou o luto patológico, significando uma dificuldade de elaborar a perda – uma estagnação no segundo momento. Aqui, a tarefa de ligação não pode ser efetuada, de forma que a quantidade segue casando dor e imobilização psíquica: “com a melancolia e o luto patológico, o sujeito se empobrece simbolicamente, pois não pode transformar a perda real em invenção simbólica” (BIRMAN, 2006, p.402).
A intervenção medicamentosa, nesse caso, pode significar um atalho a fim de se evitar esse processo doloroso, mas, ao erradicar o sofrimento depressivo, pode impossibilitar ao sujeito o encontro do caminho da simbolização. Com isso, ele permanece em uma posição empobrecida, dependente do que Birman chamou de pilularia proteica (2006). Entrando em cena como um paradigma quase que oposto a essa tendência vigente, a psicanálise se interroga sobre os seus sentidos da depressão para a organização psíquica do sujeito, auxiliando na tarefa de elaborar o luto patológico ou a estagnação da melancolia por meio da
simbolização. Por conceber a depressão como uma expressão afetiva inerente à existência humana, isto é, uma expressão da atividade psíquica de elaboração da perda, o objetivo da psicanálise não consiste em evitá-la, muito menos em tomar atalhos para sua travessia. A psicanálise, ao contrário da psiquiatria, entende que a experiência depressiva, embora dolorosa, é fundamental para o enriquecimento simbólico do sujeito. Os estados depressivos representam o espaço de realização da tarefa psíquica de elaboração diante do desequilíbrio gerado pelas experiências de perdas. Com isso, a psicanálise nos mostra, ao contrário do que se pensa normalmente, que o desenvolvimento psíquico, desde o início de sua formação, se dá através da elaboração das perdas. A perda impõe ao psiquismo um trabalho, um processo de ressignificação da experiência vivida.
Finalmente, é possível esclarecer algo sobre a história da melancolia: se a melancolia esteve presente em todos os momentos da humanidade, representando insistentemente, através das vivências de “perda”, os limites do ser humano frente ao desejo de controlar o curso das eventualidades inerentes à existência, ela também pode ser encontrada na vida de cada indivíduo frente às mesmas condições de se perceber limitado e desamparado. Scliar (2003) relaciona o renascimento melancólico do homem após a Idade Média à devastação provocada pela peste negra, trazendo à Europa do século XIV uma incessante preocupação com a morte. A melancolia foi abordada incansavelmente pela arte renascentista – vide Anatomia da melancolia, de Robert Burton, publicação da época –, e podemos especular que isso de deve à situação de perda traumática imposta à civilização europeia, tanto pelas perdas materiais ocasionadas pela peste negra, quanto pela perda dos ideais absolutos da religião. O progresso do conhecimento científico, intelectual e das artes, as dissecações dos anatomopatologistas e seu conhecimento sobre o corpo, as grandes explorações rumo ao novo mundo, ao lado das guerras e das pestes, demonstram que essa era uma época de grandes mudanças, um período de perdas. Época de desamparo diante do novo e de impotência diante das tragédias. A melancolia foi o clima emocional que dominou parte do Renascimento, de forma análoga às muitas fases do desenvolvimento do indivíduo, que são permeadas por transformações e perdas, por lutos e, muitas vezes, por estados depressivos.
Frente a isso, os estados depressivos não são simplesmente um desvio ou uma doença a ser erradicada da humanidade através de poderosas pílulas, como se faria com um vírus nocivo. Seriam, ao contrário, uma condição de recolhimento do psiquismo em que se elabora a dor psíquica causada pela perda, com maior ou menor dificuldade e inibição – o que permite concluir que os estados depressivos existem potencialmente em todo ser humano. O luto é o paradigma da depressão e a condição arraigada a toda vida humana diante dos limites
impostos pela mortalidade. Pois é no luto que todo ser humano vivencia perdas, separações e frustrações. Assim, encontramos fundamentos para relacionar a visão psicanalítica da depressão no indivíduo com registros sobre a melancolia ao longo da história da humanidade.
Para muitos autores da psicanálise, as questões em torno dos estados depressivos não devem ser consideradas de forma isolada, mas em conjunto com a configuração da sociedade atual. Como mostramos, a depressão se encontra definida, ao lado do pânico e das toxicomanias, como uma das formas de mal-estar predominantes na contemporaneidade. Vejamos, a título de ilustração, alguns psicanalistas que apontam para essa relação.
Se aceitarmos que a clínica das depressões aumentou consideravelmente na sociedade contemporânea, não podemos desconsiderar o valor traumático das perdas súbitas que não cessam de acontecer – perda de emprego, extinção de certos ofícios, ruptura de relações longas e significativas, solidão, perda de prestígio social e poder [...] (MENDLOWICZ, 2006, p.56).
Nesse sentido, o valor traumático se mediria pela ameaça ao narcisismo do sujeito, em situações sempre ligadas a perdas, seja do objeto amoroso, de partes de si próprio, dos ideais, do amor do superego. Segundo Mendlowicz, os estados depressivos remetem ao trauma do nascimento e à condição de desamparo, estando presente no psiquismo como potencial, podendo ser evocados diante de qualquer tipo de injúria narcísica. O trauma seria uma espécie de injúria narcísica grave, “provocando uma ruptura no eu, que perde o sentido de si próprio e do mundo em que vive”. Com isso, uma perda traumática é considerada o rompimento de um laço significativo que oferecia sentido à vida do sujeito, causando uma invasão do vazio na cena psíquica e mergulhando-o no desamparo e na perda da autovalorização. Os estados depressivos graves são resultados de um trauma que expõe a fragilidade narcísica do indivíduo e, como consequência, “abre as portas para a entrada triunfal da pulsão de morte”. Temos, assim, duas formas básicas de expressão do instinto de morte nos estados depressivos: em uma delas o superego ataca o ego e o maltrata sadicamente, culpando o sujeito; na outra forma, o instinto de morte “propala a desvitalização, tornando-o apático, desinteressado, entediado ou, ainda, mostra sua eficácia das duas formas” (MENDLOWICZ, 2006, p.56). Segundo a autora, a injúria narcísica é uma forma de abalo causado na organização narcísica – responsável pela integração e sustentação do psiquismo e que se relaciona aos recursos egoicos, elementos que compreendem o sentimento de autoestima. Tal injúria afeta, também, os aspectos ambivalentes, isto é, os nossos sentimentos de amor e ódio pelo mesmo objeto e a maneira pela qual o aparelho psíquico organiza e tolera esse paradoxo emocional. Nesse
sentido, Mendlowicz (2006, p.56) salienta a relação entre o desamparo e o tempo histórico atual:
Nesta acepção, as “pequenas” tragédias podem ter um valor traumático, pois o que interessa é a invasão do sentimento de desamparo, a ruptura da continuidade significativa do eu sem que, necessariamente, a causa traumática em si seja algo de dimensão maciça e avassaladora, como no caso das guerras.
A autora recorre ao modelo das neuroses traumáticas, conforme formulado em Além do principio do prazer (FREUD, 1920), para situar o papel do trauma nos quadros depressivos. Nesse livro, Freud toma as neuroses traumáticas como situações reais, observáveis e facilmente discerníveis, cujo excesso de estímulo traumático é inquestionável como, por exemplo, situações de guerra, atentados, acidentes graves etc. É diante de eventos de natureza muito intensa que o sujeito pode desenvolver o quadro da neurose traumática, cujos sintomas seriam de ordem motora, próximos à histeria, mas também da ordem de um mal estar afetivo tão intenso, comparável à melancolia. Na causa da neurose traumática, estaria incluída, além do fator de intensidade do acontecimento, a imprevisibilidade de seu acontecimento. Para originar uma neurose traumática, o acontecimento intenso precisa sobrevir de repente, expondo o sujeito a uma imensa quantidade de excitação, em um estado de completo despreparo. A angústia, nesse sentido, não se encontra presente, pois ela é um sinal diante do perigo, preparando ou antecipando o trauma (FREUD, 1920).
Uma ocorrência traumática corresponde a um excesso de excitações que inunda o aparelho psíquico e para o qual este não está preparado. Isso provoca uma enorme perturbação na economia do aparelho psíquico e todos os meios de defesas disponíveis são colocados em ação para dominar tal excesso de excitações. A tarefa do aparelho psíquico, diante do excesso traumático, é “a de controlar o estímulo, de ligar psicologicamente as quantidades de estímulo que irromperam, para conduzi-las à eliminação” (FREUD, 1920, p.192). O nascimento é considerado como a situação traumática originária, cujo protótipo é o desamparo, que se manifestará diante de novas situações de perigo. Freud (1926[1925]) vincula o desamparo ao medo da perda de amor, pois se entende que as situações de perigo e a necessidade de ser protegido criam o imperativo de ser amado, que nunca mais abandonará o homem. Nesse sentido, as situações traumáticas estão sempre ligadas a perdas, seja da proteção oferecida pelo objeto amoroso, seja de partes idealizadas de si mesmo, de ideais de perfeição, do amor próprio etc.
É baseada nessas premissas que Mendlowicz sustenta que os estados depressivos podem ser provocados por acontecimentos recentes de caráter traumáticos, sem que tenham
necessariamente, do ponto de vista do observador externo, a intensidade de um trauma avassalador. No entanto, da perspectiva da dinâmica psíquica, por se tratarem de perdas narcísicas, eventos do cotidiano como “perda de emprego, extinção de certos ofícios, ruptura de relações longas e significativas, solidão, perda de prestígio social e poder” (MENDLOWICZ, 2006, p.56), podem ter um impacto tão intenso, que exigem do sujeito um trabalho de luto, que nem sempre pode ser realizado de forma bem sucedida. Nesse sentido, os destinos de um luto diante de perdas vão muito além do tradicional binômio de sua resolução ou da queda na melancolia. Embora esta explicação seja paradigmática, os estados depressivos são coloridos por incontáveis elementos presentes na organização psíquica de cada sujeito. São vários os destinos possíveis da atividade psíquica de elaboração de perdas, indo desde o resgate pleno da libido, a soluções de compromissos sintomáticas, até quadros mais graves como a melancolia ou a psicose alucinatória; os múltiplos destinos de uma perda – uma perda narcísica – podem provocar dificuldades psíquicas muito variadas como, por exemplo, uma neurose de angústia ou um quadro de depressão mais brando (MENDLOWICZ, 2006).
No contexto contemporâneo, as subjetividades são geralmente caracterizadas pelas súbitas variações de humor e distimias, o que leva, talvez, à constatação epidemiológica dos estados depressivos. Em função dos ideais do mundo contemporâneo e das condições de imprevisibilidade e insegurança encontrados em nossa “cultura do narcisismo” ou “sociedade do espetáculo”32, o indivíduo nunca pode perder nada, restando a ele se agarrar a tudo que o permita defender-se do vazio. Os objetos que assumem essa função, seja uma pessoa querida ou uma atividade profissional, constituem-se como objetos narcísicos. Frente a isso, o sujeito contemporâneo agarra-se de forma viscosa aos objetos, como forma de se assegurar diante do “abismo do vazio”, pela carência dos polos de sustentação de si próprio. O luto quase impossível do objeto que não pode ser perdido, por tratar-se de um objeto de sustentação narcísico, evidencia uma colagem a este e, assim, uma disseminação de quadros depressivos em que predominam os processos psíquicos característicos da melancolia descritos por Freud (1917[1915]). A impossibilidade de vivenciar a perda, pela colagem ao objeto em busca de segurança, torna impraticável a sua elaboração, condição necessária para que se realize a simbolização. Em função dos impasses em realizar efetivamente o trabalho de luto e a elaboração da perda, os estados depressivos, hoje, assumem uma feição marcadamente melancólica (BIRMAN, 2006). Assim, no mundo contemporâneo, temos de considerar
32
principalmente dois fatores relacionados aos estados depressivos: a baixa do limiar de tolerância ao sofrimento psíquico e a exposição contínua do sujeito a condições de instabilidade, rupturas, violências de todo tipo, solidão e ideais exigentes no campo da ação, do sentir e do corpo. Tais fatores estariam agindo em conjunto e predispondo os indivíduos a injúrias narcísicas, isto é, perdas significativas que afetam o narcisismo do sujeito (BIRMAN, 2006).
Como é possível perceber, essa maneira de se compreender os estados depressivos, considerados como o resultado de uma conjuntura de fatores ligados à vida atual e à capacidade psíquica de elaboração de perdas, vai de encontro com o paradigma psiquiátrico vigente, segundo o qual estes são estados psicopatológicos gerados pela simples disfunção orgânica do indivíduo, a serem corrigidos pela ação de psicofármacos. Vemos com isio que os modos de vida atual podem, em alguma medida, contribuir para a disseminação dos estados depressivos – tanto em função da falta de polos de sustentação do narcisismo, quanto pela insegurança e instabilidade características dos tempos atuais –, ao que se soma a vulnerabilidade diante dos afetos depressivos e a baixa do limiar de sua suportabilidade. Temos, ainda, que considerar, em nossa sociedade, a intolerância ao sofrimento psíquico que se apresenta como luto ou tristeza profunda, os quais constituem espaços de elaboração das perdas e resultam no fortalecimento dos recursos psíquicos. Sem a existência desses espaços e com o abuso dos psicotrópicos, as subjetividades contemporâneas estariam destituídas da possibilidade de constituírem recursos psíquicos para suportar as vivências de perdas, inerentes à vida humana em qualquer época e em qualquer sociedade.
Assim, segundo alguns psicanalistas, observa-se atualmente uma cultura de baixa tolerância à frustração e a alta adesão a categorizações dos sentimentos dentro de psicopatologias, o que contribui para a administração indiscriminada de psicotrópicos. Nesse sentido, encontra-se, em nosso mundo contemporâneo, o esforço para se erigir uma cultura centrada no evitamento da dor e do sofrimento psíquicos, que almeja, por exemplo, a sedação da angústia, a eliminação dos excessos de excitações por meio de ansiolíticos e a eliminação das paixões tristes (depressivas) com os antidepressivos. A finalidade das práticas médicas e psiquiátricas reflete a busca deste ideal de estesia psíquica e de normalização dos humores intempestivos, ao mesmo tempo em que se incita a busca pelos paraísos artificiais e o gozo pelas drogas pesadas (BIRMAN, 2001; KHEL, 2002).
Com o desenvolvimento das neurociências e dos psicofármacos, a partir dos anos 1950, a psiquiatria passou a fundamentar suas práticas no rigoroso discurso da ciência biológica. Com isso, as psicoterapias foram aos poucos sendo deixadas de lado em primazia
dos modos medicamentosos de intervenção, supostamente infalíveis. Ademais, a terapêutica calcada nos psicotrópicos abre a possibilidade do Ocidente relacionar-se com o sofrimento psíquico de uma maneira nova, uma mudança significativa que afetou as relações dos indivíduos com suas paixões, se comparados a outros períodos históricos. Quaisquer transformações negativas do humor ou qualquer forma de desconforto psíquico passam a demandar prontamente sua regulação e eliminação através da química dos psicofármacos. Frente a qualquer angústia, tristeza ou desconforto psíquico de outra natureza, os clínicos prescrevem sem hesitar, “os psicofármacos mágicos, isto é, os ansiolíticos e antidepressivos”, o que acaba descartando progressivamente, e até mesmo silenciando, a escuta da existência e da história do sujeito portador das indomáveis paixões humanas. “Por essa via tecnológica, a população passou a ser ativamente medicalizada, numa escalas sem precedentes” (BIRMAN, 2001, p.242).
Para Birman (2001; 2006), a medicalização indiscriminada é um fato que vai ao encontro do aumento do desamparo na cultura atual, face ao fim das utopias e das expectativas messiânicas alimentadas na modernidade. Ideais de força e controle emocional diante das dificuldades, de segurança e flexibilidade, de eficiência e desenvolvimento sem limites, enfim, ideais que alimentam uma ilusão de onipotência nos indivíduos são veiculados pela mídia e pelos ambientes de trabalho, representando uma sociedade centrada no incremento do narcisismo. Esses fatos, somados ao ideal de exorcização da dor, expõe o sujeito a pressões advindas de todos os lados, colocando-o em uma corrida sem fim, em busca de alcançar e conformar-se de maneira absoluta a todas essas demandas. Por serem demandas ideais – o indivíduo nunca será eficiente o bastante, ou nunca pelo tempo necessário etc. – o sujeito sempre sentirá que está fracassando de alguma maneira, permanecendo em uma condição de permanente fragilidade narcísica e vivência de desamparo.
Assim, um simples luto, um período necessário de elaboração de perda, ou uma