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Historical  Development  of  the  Field  of  Access  to  Energy

2   Literature  Review

2.1   Historical  Development  of  the  Field  of  Access  to  Energy

A casa, o lar é o espaço privado circunscrito fisicamente configurando-se como local onde ocorrem parte significativa das vivências individuais, que compõe parte representativa da história de vida pessoal.

Representa o espaço do privado, de conforto, intimidade, discrição, isolamento. Nele e com as pessoas que ali estão, são ou foram construídos sonhos, projetos, vínculos afetivos. É também um local onde se fazem ou compartilham o "céu" das alegrias e o "inferno" das tristezas, desilusões e aflições humanas.

O casamento consiste em uma das formas para se estabelecer um lar. Na sociedade tem uma função específica, é normatizado e com ele outros papéis serão adquiridos. Insere cada um dos cônjuges em outro grupo social, implicando no confronto de valores, normas e atitudes. As 8 (100%) viúvas, sujeitos dessa pesquisa, casaram-se dentro do contrato civil de casamento vigente à época - comunhão de bens - e da religião católica.

A vida cotidiana acontece caracterizada pelo que se passa diariamente na vida das pessoas, marcada pela rotina, conflitos, esperanças, com o conhecimento que detemos para lidar com as situações. O cotidiano é, também, o lugar do diferente do novo e das rupturas que acompanham os ciclos de vida do ser humano.

O casamento é um desses eventos. Demarca novos papéis, um novo ciclo, responsabilidades, vínculos, compromissos e diferentes maneiras de inserção social.

Ato de relevância social, o casamento agrega uma série de interesses pessoais, familiares, norteado por critérios e valores morais de cada grupo social; a família decorrente não é mera reprodução, mas uma aliança de grupos e pessoas. É

um grupo social concreto permeado pelas relações de parentesco que espelha as escolhas realizadas pelo homem no tocante a forma de nascer, procriar e morrer.

Margarida e Hortência em seus depoimentos revelam as diferentes necessidades que o casamento e a família representam para cada pessoa/grupo: afeto, sexualidade, segurança, companheirismo, a transmissão de valores, enquanto Amarylis refere ao seu despreparo para o relacionamento conjugal ilustrando uma condição comum, à época em que era considerada virtude o desconhecimento das questões sexuais por parte das mulheres.

Complementa sua fala acrescentando informação sobre os conflitos com familiares do marido resultantes de valores de vida divergentes entre eles. Três idosas falaram sobre os problemas vivenciados durante a vida conjugal, que geraram sofrimento, desilusão e conflitos.

Traduzem condutas masculinas "admissíveis" decorrentes da visão do homem em relação a subalternidade feminina. É interesse notar que duas delas mencionam "ter sido sempre sozinhas", resolvendo "as questões cotidianas referentes aos filhos, a casa, bem como não contando com a companhia dos maridos para atividades sociais".

Considero que a vida conjugal dessas mulheres, antes da morte de seus maridos conferiu-lhes a condição de "viúvas de maridos vivos", o que lhes proporcionou sentimentos e vivências que percebemos serem mais doloridas do que as causadas pela viuvez.

Depreende-se também a importância atribuída a indissociabilidade do casamento, concepção enraizada nos valores religiosos professados, no complexo

de virgindade-virilidade, segundo Prado (1985), onde ao homem tudo é permitido e à mulher somente recato e pudor.

A esse respeito, Rubem Alves (2004) diz que a casa é domínio da mulher e o mundo é do homem, considerando que esse pode ser um dos motivos da diferença de longevidade entre os sexos. Para ele o homem quando se aposenta fica sem lugar, sem espaço.

Ballone (2003) esclarece "Em relação ao casamento, todos acreditam que não dão certo os casamentos dos outros. Dessa forma, quem se casa continua achando que seu casamento, só o seu, será para sempre".

E, na década de 50 a vida conjugal e familiar era vendida em tons de rosa, o amerícan way of life encontrava-se no auge e as mulheres casavam-se para sempre.

O que essas mulheres desejavam de fato do casamento é uma questão a ser explorada. O psiquiatra Ballone, refletindo sobre expectativas matrimoniais e resultados de satisfação pontua:

Sinal dos tempos ou não, a motivação e os requisitos para que o casamento dê certo mudou muito. Houve épocas onde as juras de amor eterno era a motivação quase exclusiva para nutrir as expectativas de sucesso matrimonial, hoje fala-se em afinidades de personalidade. O antigo quesito mulher obediente, caricaturizado na figura da mulher Amélia, passou para sexo satisfatório para ambos. Até os provimentos do lar sofreram profunda modificação e o outrora marido provedor, orgulhoso e cumpridor de sua missão, dá lugar à divisão das despesas (2003).

Expectativas e mudanças deveriam andar juntas, mas nem sempre conseguimos trocar valores. Sobre essa questão recordo uma máxima oriental de autor desconhecido que diz: "Nós só mudamos quando a dor de mudar for menor do que a dor de ficar", e uma parcela de mulheres ao longo da história ficou pelas implicações socioeconômicas, culturais e emocionais que envolvem a mudança. Mas

retornando as falas dos motivos de casamento ...

[...] Casamos com a intenção de fazer um pé de meia [...] (Margarida).

Casei com amor, afeto, carinho e tudo o mais que se pode imaginar. Eu sempre fui mãe dedicada, filha e esposa exemplar, eduquei meus filhos muito bem, na religião. Fui criada muito certinha, minha mãe me criou muito correia [...] (Hortência).

Casei-me muito boba, inocente, nova, com 17 anos..Minha mãe falou pra ele que eu não sabia cozinhar. Meu marido era mais maduro, disse que me ensinava. Tive dificuldades de relacionamento [...]. Eu sofri muito com a família dele, porque eles eram muito revoltados [...] (Amarylis).

Nas falas de Hortência e Amarylis está oculto o grande tabu do início do século XX: a sexualidade humana, que gradativamente foi substituído pelo da morte inexistente nessa época.

Maranhão (1985) discorre, em seu livro, sobre esse processo de substituição e Ariès (1990) analisa o que denominou de morte invertida, a atitude do homem de expulsar a morte de seu convívio, escondê-la nos hospitais, asilos e entre outros locais que lhe permita ao homem ignorar a sua existência.

Observou-se que as viúvas não apresentaram dificuldades para falar das questões referentes a morte e tampouco recorreram ao uso de eufemismos, porém em referência a virgindade, ao desejo existente entre o casal, a educação recebida com relação ao sexo e os problemas de entrosamento sexual eles foram utilizados, acompanhados de um encabulamento. Ao marido cabia iniciar sexualmente a mulher. Ela por sua vez deveria contar com a sorte.

Tulipa, Hortência, Angélica, Rosa e Líria mencionaram a satisfação afetivo- sexual que obtiveram no relacionamento conjugal.

[...] a afetividade que tive com meu marido me preencheu Fazíamos todas as coisas juntos, eu colaborava nas atividades dele e ele com os meninos na casa [...] (Tulipa).

[...] aceitar outro homem na vida não dá certo. Nós tivemos uma vida muito boa, com carinho, amor, fazia alguma coisa, na mesma hora pedia desculpas, não nos deixávamos abalar pelo acontecido. Ele era muito forte, muito dedicado [...] não tenho coragem de me expor para outro homem (Hortência).

[...] meu marido não era bruto, era educado [..J não saia de casa [...], mas me deixava sair durante o dia em companhia da filha, não dava palpite em roupas, era muito bom (Angélica).

[...] meu marido só faltava adivinhar o que eu queria [...J viajávamos, freqüentávamos festas até o amanhecer na rua. O meu marido foi muito bom para mim [...] (Rosa).

[...] meu marido era carinhoso, nunca gritou comigo, nos sempre entendíamos um ao outro. A gente tinha muita atenção um com outro, fomos grudados até ele morrer. Foi uma vida maravilhosa no geral [...] (Liria).

É relevante apontar que há uma valorização dos homens por não recorrerem à violência - verbal, psicológica ou física - no relacionamento estabelecido. É sabido que a violência, em suas diferentes formas, era comum nos relacionamentos conjugais das gerações passadas, como nas presentes. Prática decorrente dos padrões autoritários que delimitavam/delimitam as posições diferentes de homens e mulheres na organização familiar, como relembram Violeta e Líria.

[...] meu marido era bravo, tinha um génio ruim [...] era muito sistemático, brigava comigo e com os meninos não unha muita paciência, mandava tinha que fazer l..] (Violeta).

[...] o almoço dele tinha que estar pronto às 11 horas. Todos os dias, se não estivesse ele brigava [...] (Liria).

Os antropólogos nos ensinaram que o fato de ocorrer mudança em um dos elementos da composição familiar não representa que todos os demais também mudaram.

A importância de considerar essa perspectiva reside no fato de que a família, hoje, tem sofrido trans formações como, por exemplo, nas relações entre pais e filhos, mas não significa que não possam manter o caráter tradicional (SARTI, 1991).

Tal consideração contém um alerta, o de atentarmos às implicações de generalizar mudanças observadas nas relações fa miliares. As mulheres que prestaram depoimentos, nascidas no primeiro quarto do século XX (1914 a 1945), vivenciaram transformações em todas as esferas de suas vidas, como também se encontravam em fases de vida diversas quando essas mudanças chegaram.

Os relatos da convivência desses casais demonstram que os relacionamentos foram permeados por comportamentos por vezes até contraditórios. Cada um foi absorvendo as mudanças que aconteciam fora do lar de acordo com suas próprias possibilidades de experenciar o público.

O depoimento de Angélica sobre o comportamento de seu marido enquanto provedor exemplifica as considerações acima.

[...] tudo era ele que comprava. Eu ia de vez em quando com ele no armazém [...] Ele comprou um carro e me deixava dirigira vontade. Eu ia no posto abastecia o carro e não via o quanto ficou, ele pagava.. Único controle que eu tinha era esse, ele comprava o que queria para a casa [...]. Era modeminho até demais, lia muito. Era pra frente com a filha, ele não achava que tinha que casar. Tanto que a filha não casou. Vive junto há oito anos [...] Eu é que no começo achei ruim [...] agora não importo mais [...]

Trabalhar, pensar nos filhos e cuidar da casa tornaram-se rotinas na vida das mulheres que necessitaram realizar arranjos domésticos para dar conta do montante de atividades, Amarylis é uma das entrevistadas que conta sobre como organizou a vida doméstica principalmente quando os filhos eram pequenos.

Aos 18 anos tinha o meu primeiro filho. Tenho 4 homens, o mais velho ajudava a cuidar dos menores, um ia cuidando do outro. Meu marido não ajudava por causa do trabalho. Eu criei eles sozinha. Resolvia tudo em relação às crianças.

Destaco que, das entrevistadas, somente uma permaneceu em casa cuidando das tarefas domésticas e tendo o marido como provedor e responsável por suprir todas as necessidades da família, exercendo os papéis ditos como tradicionais para o casal.

Meu mando era quem comprava tudo, saia do trabalho e trazia o que nós precisávamos. Eu cuidava dos meninos, da casa, costurava para a família [...] não tinha as coisa de agora [...] Depois é que foi chegando [...] (Liria).

A identidade social da mulher se elaborava a partir da esfera doméstica e não da esfera profissional. O trabalho fora do lar era considerado como uma situação excepcional, mal-vista não só no interior do grupo familiar, como também peta comunidade circunvizinha.

O trabalho era aceito no período anterior ao casamento ou dentro do ambiente doméstico, assemelhados aos que realizava no lar – costureiras, bordadeiras, lavadeiras, outros tantos eiras. Era motivo de orgulho, status e prestígio masculino a mulher permanecer dentro do lar, condição igualmente percebida pela mesma.

acima. Das sete trabalhadoras quatro realizavam atividades de costura dentro do lar, o que lhes facultava exercer seus demais papéis, organizando-se para o cumprimento do mesmo nos horários livres.

As interações sociais proporcionadas por meio dessa atividade permitiam receber informações, discutir as inovações e proceder a assimilação do que chegava até elas.

Três desenvolveram trabalho fora do lar. Duas em profissões na área da educação, fazendo uma carreira profissional, o que as insere nos primeiros grupos de mulheres a ingressar e permanecer no mercado de trabalho após o casamento, mesmo que tenham passado para outros cargos quando seus filhos já estavam maiores.

No entanto, devemos recordar que as atividades vinculadas a educação eram aceitas principalmente por se restringirem a quatro horas de trabalho diários. A outra entrevistada trabalhou na área de prestação de serviços. Das mulheres que ficaram em casa, duas exerciam atividade laborativa em empresas deixando-as antes do casamento, ratificando os padrões tradicionais da época.

Na realidade, também nos contam sobre a realidade econômica da família que foi sendo alterada ao longo dos tempos. O primordial é que por meio de seu trabalho no interior das paredes do lar, resguardavam o status masculino de provedor, a si próprias das tentações mundanas, mantendo o respeito, auxiliavam na manutenção da família.

Mas deixam entrever o que acredito ser um fator determinante para a postura de reformulação de vida após a viuvez e conseguirem "levantar sacudir a poeira,

dando a volta por cima" desde que começaram a trabalhar sentiram-se independentes, livres, detinham como continuam a deter uma quantia em dinheiro que lhes permitiu praticar suas escolhas, escolhas para si próprias.

Elas obtiveram no cotidiano o aprendizado necessário, possuíam o conteúdo do conhecimento cotidiano.

[...] eu tinha o meu dinheiro. Os homens são meio rudes. Costurava só em casa porque gostava de cuidar das crianças [...] (Amarylis).

[...] trabalhava porque o que o marido ganhava não dava, cuidava dos filhos e fazia meus trabalhos [...](Violeta).

[...] antes de casar eu combinei com ele só uma coisa, que eu queria trabalhar. Nunca precisei pedir dinheiro para minhas coisas [...] eu trabalhava/trabalho até hoje [...](Angélica).

Para essas gerações, havia uma pauta sugerida de vida: ter filhos, cuidar do marido, dos idosos e ser dona de casa. Esse grupo cumpriu a sugestão e, em sua maioria, acrescentou outras. Não contaram com o estímulo social ou o reconhecimento dos familiares e posteriormente de si próprias para adquirir instrução formal.

O grau de instrução predominante é o ensino fundamental básico. Angélica traduz essa realidade. Percebe as discrepâncias de atitudes entre a postura de seus pais para consigo, as de sua filha para consigo própria e dela e da filha frente ao neto.

Relaciona o valor da instrução para a obtenção de ganhos financeiros, na educação da filha frente a suas limitações, retirou-se de cena delegou ao marido, que possuía maior grau de instrução, a tarefa de orientá-la, excluindo-se de

participar nesse aspecto da vida da filha.

No momento, incentiva e auxilia a filha para que termine o nível superior e estimula o neto a estudar. Embora manifeste desejo de voltar a educar-se, desacredita de suas potencialidades, crença que trouxe para o casamento.

[...] Iludi com a cozinha, fiquei em casa mesmo [...] sinto não ter um estudo, para conseguir uma vida melhor [...] Os pais antigos não se preocupavam muito com a vida dos filhos [...] Hoje acho que minha cabeça não dá conta não. Único curso que fiz foi de cabeleireira [...] Meu marido era formado ele orientava os estudos da filha. Eu nem chegava perto. Tudo era ele que participava. Eu era desligada. No começo do casamento ele arrumou pra eu estudar. Eu não quis. Minha filha deixou os estudos, agora voltou, eu vou ajudá-la com a mensalidade. Vou fazer de tudo para meu neto estudar (Angélica).

Os laços de parentesco são valorizados até mesmo porque foi por meio deles que algumas conseguiram se reestruturar, ultrapassando as dificuldades pessoais. Há uma expectativa que o contrato entre gerações possa se cumprir: "Eu cuidei de você quando pequeno, agora você cuida de mim que estou velha (o)".

[...] ele era um bom filho e pai. Tanto é que não passei apertada quando ele ficou doente porque a mãe dele nos ajudou. Eu não vou desentender com a minha filha. Eu não sei o dia de amanhã. Com ela, se eu tiver 80 anos, ela é a mesma comigo (Angélica).

/.../ quando meu marido ficou doente, meus filhos me ajudaram [...] tanto que agora moro com um deles [...] (Liria).

[...] meu grupo é muito bom. Temos uma convivência alegre, eles me ajudaram muito (Rosa).

[...] o grupo de vizinhas me ajudou quando meu marido morreu. Nós moramos muito tempo perto, agente se ajuda sempre (Violeta).

das contradições, mudanças que foram possibilitadas pelo século XX. Massi diz que o trabalho.

[...] que a mulher/mãe faz de unir os filhos, de juntar a família maior, de contar a história familiar é um trabalho de memória viva. Através de inúmeros e pequenos gestos cotidianos, ela tenta manter, sua família coesa.[...] mesmo a mulher moderna, que sai para trabalhar, carrega dentro de si essa idéia de lar, tem gestos e atos que visam a garantir a existência do mesmo. (1992, p. 77)

Acredito que essas mulheres praticaram esse conceito de lar, pois por mais que algumas tenham encontrado ou vivenciado problemas de relacionamento, buscaram manter seu grupo familiar coeso.