2 Literature Review
2.3 Historical Development of the Corporate Social Responsibility
Reorganizar a vida implica em esmiuçar o cotidiano, em desaprender hábitos antigos e escolher novos. Parece ser o momento de não delegar ao outro ou a situação de viuvez a responsabilidade de ser feliz. Amarylis retraía de forma contundente esse período, do desapego, das trocas, do desfazer.
A morte dele não mudou muita coisa. Vivi sempre muito sozinha. Era independente, mas a hora do almoço era a mais custosa para mim. Todos os dias as 10 hs eu ia para o fogão, aí eu lembrava que não precisava fazer o almoço para as 11 hs, como ele exigia. Ai eu ficava sem saber o que fazer. Os filhos ajudaram, passei a almoçar na casa deles, moramos todos perto. Faço minhas coisas, estou bem (Amarylis).
Sair buscar velhos e novos caminhos é o que fizeram essas mulheres. De forma sofrida ou aliviada, sentindo-se só ou com liberdade. Parece que realizaram uma opção a de reconhecer que elas são responsáveis pela própria felicidade.
Durante um tempo fiquei perdida, chorando, atacando as pessoas, brava. Ai minha cunhada me convidou para ir no Bem Viver e fui, quando cheguei lá e vi aquela velharada, eu não queria ficar lá, nunca tinha visto tanto velho junto daquele jeito. Em casa nos temos gente de todas as idades. Eu estava acostumada a viver assim. Levei três meses para me ambientar, mas fiquei e participo de tudo. Tentei namorar, mas não dá certo, aceitar outro homem na vida. Tenho amigos, passeio e sou feliz (Hortência).
Tanto Hortência quanto as demais trazem as questões do envelhecimento situando-as no universo feminino. São preocupações com o envelhecimento saudável, tanto físico, psíquico como emocional. Conscientes da necessidade de realizarem a sua parte são ativas participantes dos grupos existentes na cidade para atividades físicas.
Elas manifestam preocupação em conseguirem ter autonomia e independência na maior parte da vida futura. Demonstram preocupação com a possibilidade de acontecer mais tarde a dependência. Citam os familiares como atenciosos, amorosos, porém com família, são trabalhadoras e inquietas com os sentimentos ou conflitos que possam existir de ambos os lados frente a essa dependência. Cogitam lançar mão de outros arranjos: morar com familiares da
mesma idade, contratar uma cuidadora ou ficar asilada.
Para ficar amargurada eu fico aqui em casa, arrumo uma pessoa para ficar comigo. O que eu ganho mais a pensão dá para pagar uma pessoa , sem luxo, mas dá. E se não der mesmo, meus irmãos me chamaram para ficar com eles. Mas eu não quero, quero viver minha vida só. [...] Agora que sou livre (Angélica).
Eu tenho meus filhos, mas se eles não puderem cuidar de mim, acho que é melhor ir para o asilo (Violeta).
A condição de ser viúva ainda é um atributo que leva a discriminação, preconceitos. De forma geral as mais ativas socialmente percebem atitudes discriminatórias demandadas por ambos os sexos.
As mulheres sentem-se ameaçadas no campo afetivo e os homens crêem que viúvas estão com a sexualidade "à flor da pele" e outros que desejam ser mantidos pelas parceiras, procurando vincular-se às mulheres com melhores condições econômicas.
Quer por ações sutis ou mais agressivas, também são alvos das mulheres casadas que invejam a liberdade que desfrutam. O que percebemos é a persistência da mentalidade antiga com as possibilidades atuais.
Arrumei um namorado. Moramos uns tempos juntos ele veio para minha casa. Era um companheiro excelente, mas não pagava as contas. Me causou tantos problemas, muito diferente de meu marido. Ele tinha outras namoradas enquanto estava comigo (Angélica).
É terrível ser viúva. Tem-se sempre a impressão de que as mulheres estão de olho em nós, com medo de tomarmos os maridos delas. Me acautelo.
Não quero dar meu direito a ninguém. O preconceito existe. A mulher viúva para uns está sempre a cata de homens. Ê horrível eu acho. Hoje eu não sinto mais, porque tenho meu namorado (Margarida).
Há discriminação sim, se chega lá no clube e tem uma mulher com um homem você cumprimenta logo a gente vê que ela dá um cutucão nele. [...] Outro dia subindo a rua encontrei umas amigas que são casadas. Elas disseram queria ser você que não tem marido. Eu respondi: Ter o nome de viúva é muito triste. É triste em toda parte. Se você olha para seus filhos, você diz meus filhos não tem pai. Se vai numa festa não pode conversar com um casal porque você esta jogando charme no homem, não pode rir porque é viúva regateira. Ser viúva não é brincadeira não (Hortência).
Antes me chamavam para sair, agora que fiquei viúva não chamam mais. Os casais não querem gente sozinha perto deles. Penso que eles não acham graça sem o meu marido estar junto, porque ele era muito alegre. Mas eu tenho postura, não fico me insinuando (Tulipa).
Sinalizam também uma cruel disputa entre as que estão viúvas que costumam frequentar atividades de salão, bailes, pois conforme dizem a partir do momento que uma idosa viúva arranja um namorado ela passa a desenvolver comportamento segregativo para com as demais, com receio de perdê-lo (Tulipa).
São mulheres que participam de diferentes formas da vida familiar. Colaboram com os filhos nos cuidados dos netos eventualmente, por vezes financeiramente ou deles recebendo auxílio quando necessário.
Tanto ir a Aparecida do Norte quanto a Europa são atividades de lazer que se encontram na vida dessas mulheres, que realizam ações voluntárias em algumas obras sociais da cidade. O que constatamos é que a maioria delas ampliou suas formas de participação social.
Resguardadas as dores as entrevistadas com maior ou menor tempo, passou a fazer sua escolha, saindo da condição onde se colocou após a morte do marido, iniciando um movimento de renovação. Refletir sobre a única certeza humana pode gerar nosso encontro com a vida, com os nossos desejos e vontade. Acredito que
seja isso que torne as mulheres coloridas, porque ele vem da decisão de: Começar de Novo e contar comigo...
bre-se a porta da gaiola! Assim sintetiza Rubem Alves (2004) o que, a seus olhos, acontece quando a mulher idosa fica viúva. Acrescento que algumas calçam rodinhas nos pés. Do privado para o público, a vivência de novos papéis, inclusive o de viúva é o que deixa entrever a porta aberta. Resta conseguir passá-la, alçar vôo tal como uma águia8.
Por que a águia? Porque penso que a analogia é adequada ao processo, efetuado pelas protagonistas dessas histórias. Apesar da singularidade de cada relacionamento, todas passaram pelo mesmo dilema de sobrevivência que ocorre com a águia. Explico.
Essa ave, aos quarenta anos, tem que optar por realizar um processo doloroso de renovação, está envelhecida e precisa substituir o bico, unhas e penas, caso deseje manter-se viva. O processo de renovação em isolamento dura cinco meses. Ao término, está pronta para retomar as campinas e voltar a viver por mais trinta anos.
"É um vôo diário de vitória, acontece quando o indivíduo está aberto a mudanças e renovações!! Somente livres do peso do passado, poderemos aproveitar o valioso resultado de uma... RENOVAÇÃO" (autor desconhecido).
Renovar, mudar, elaborar perdas quaisquer que sejam. Significou
8 Texto recebido por meio eletrônico em agosto 2005 de autor anônimo.
desaprender o papel de esposa e passar a construir o de viúva. Despojar-se do passado, para redefinir o presente e futuro. É esse o processo que determinará o seu luto, o quanto de tempo precisará para reorganizar-se, rever rotinas, reaprendendo novos fazeres, elaborando um projeto de vida.
Terá que enfrentar o cotidiano impregnado do fazer antigo, da juntidade, do cuidar, do partilhar, da espera pelo retorno, como caracteriza Agnes Heller (1985) da “entonação” desse ser que partiu.
Nessa tarefa a rede social assinala a sua importância e a fragilidade de quem não a possui. Contaram com o apoio de pessoas próximas do circulo de relacionamento pessoal ou familiar, para retornar a vida social. Há valorização dos laços familiares, aos grupos de pertencimento e a rede social que estruturou. De acordo com o seu ritmo interno as mulheres viúvas desse estudo determinaram para si um tempo de luto, uma vez que essa norma deixou de ser assumida pelos grupos sociais.
As viúvas dessa história mostraram-se permeáveis ás mudanças. Não se percebe radicalizações em suas concepções religiosas, pois a utilizam como fonte de mobilização interna e junto à comunidade na qual se inserem.
Acredito que nossas protagonistas demonstram potencial para realizar mais uma vez o movimento de síntese e participarem da batalha para a sobrevivência da Terceira idade proposta por Schirmacher, uma vez que, por meio do cotidiano, elas estão amealhando bagagem suficiente para colaborar na montagem de estratégias.
Sabem o que é estar envelhecendo, sabem o que ser mulher antes, durante e após os movimentos feministas e a pílula; sabem o que é perder entes queridos,
sabem o que é trabalhar no anonimato das tarefas domésticas, integrar o mercado de trabalho, ter dupla jornada, ser submissa, ser companheira.
E diria que são mulheres coloridas porque parecem estar vencendo a cruel tríade da descriminação: ser mulher, envelhecida e viúva.
São mulheres do agora, preocupadas com uma participação social que traga, além de seu próprio benefício, também um bem à comunidade. Sentem-se livres para praticar suas escolhas, assumindo ou ampliando papéis, independentemente da qualidade da relação conjugal, familiar e social anteriormente existente.
Desejam estabelecer relações que lhes tragam companheirismo, afetividade, alegria, felicidade. Passear, dançar, viajar de avião, conhecer outras cidades, bordar... viver, construir a história, tecendo o futuro.
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