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Nº %

Gosta de trabalhar com crianças 30 55% Para fazer um trabalho voluntário 14 25%

Tempo livre 11 20%

Religiosidade 9 16%

Foi convidada 8 15%

Já realizava esse tipo de trabalho na sua comunidade 6 11%

Participar de um grupo 3 5%

Transparência 2 4%

Entrevistados 55

(*) Respostas múltiplas

sociais de luta contra a exclusão social e de trabalhos comunitários, além da credibilidade que o discurso religioso denota para as suas ações. A Pastoral da Criança, ao desenvolver ações sociais com transparência e efetividade, conseguiu construir o seu próprio capital social e trouxe ainda mais credibilidade para a Igreja Católica. Esta, por sua vez, quando mantém outros trabalhos sociais, continua imprimindo mais credibilidade, não só para a Pastoral da Criança, mas para as outras organizações que trabalham em seu nome (outras pastorais, ordens religiosas, congregações cristãs entre outras).

O capital social da Pastoral da Criança é uma construção que iniciou nos primeiros trabalhos na cidade de Florestópolis, PR. As ações que se multiplicaram desde então só colaboram para o aumento desse capital. Mas é importante ressaltar que o capital social que a organização propicia aos seus integrantes configura como um investimento inicial. A sua reprodução só é efetiva se as pessoas que dela fazem parte colaborarem na construção de um capital social local.

Essa afirmação pôde ser constatada no treinamento de coordenações, quando o capacitador pediu que os presentes levantassem alguns problemas do cotidiano. Os mais citados foram ‘comunidades mortas’, ‘falta de líderes’, e ‘ausência das mães na pesagem’. Essas constatações estão relacionadas à baixa participação dos atores, que desfavorecem a reprodução do capital social. Isso comprova que a participação é o principal motor da organização.

Ainda sobre a herança do capital social percebeu-se que voluntários da Pastoral da Criança são tidos como pessoas confiáveis, inclusive entre aqueles que não são acompanhados pela organização. Eles têm acesso a áreas de risco como favelas e cortiços, áreas onde o poder local é paralelo e só tem acesso os moradores e pessoas conhecidas.

A produção e o consumo do capital social são feitos pelos voluntários e pelas famílias. Contudo, as famílias são as que mais consomem e as que menos produzem. A família coopera quando aceita a presença do líder comunitário, mas só isso não é o bastante para a reprodução do capital social.

Ela participaria, efetivamente, dessa rede de solidariedade caso se tornasse também uma multiplicadora dos conhecimentos oferecidos pela organização. O fato que comprova isso é o pequeno número de mães que se tornam líderes, pois dentre os entrevistados apenas 16% tiveram filhos acompanhados pela Pastoral da Criança, sendo que destas apenas três foram mães acompanhadas antes de se tornarem líderes. O relato a seguir é de uma líder, uma pessoa simples que veio do interior do Ceará aos 19 anos, com quatro filhos, e que foi acompanhada pela Pastoral da Criança:

"Eu não sabia como cuidar dos filhos, não sabia sobre alimentação, meus filhos viviam muito doentes, anemia, bronquite, rinite, um monte de coisa. Eu não sabia por que tinha aquele monte de problema com as crianças.

Aí a Pastoral veio pra cá começou a fazer reuniões com as mães explicar que tinha a multimistura com a folha da mandioca. Eu achei estranho porque lá no Norte a gente dava farelo pros porcos e aqui dava pras crianças comer. Aí elas disseram que esse farelo salvava muitas vidas de crianças que tinham problemas como os dos meus.

Eu fui fazer os cursos, fui aprender a cozinhar a reaproveitar os alimentos, as cascas, os talos. E isso foi bom pra mim, eu cresci. Meus filhos não ficaram mais doentes, foi parando a bronquite, a anemia, não ia tanto para o hospital. Eu ia na feira e pegava cabeça de peixe, talo de couve, batata, cenoura, chuchu e fazia comida.

[...] Mudei o jeito de criar meus filhos, eu não tinha um exemplo de criação, eu não tive mãe nem pai, então criei meus filhos que nem cria qualquer coisa, eu não sabia criar mesmo, se tava doente, levava no médico se não tava doente eu não queria nem saber. Na Pastoral eu fui reeducada a saber dar educação, a saber lidar com a criança. Porque a coisa minha era bater, xingar, gritar. Na Pastoral eu comecei a entender o problema deles e eles a entender o meu. Eu também tinha muito atrito com o marido. A Pastoral me deu conselhos, me ensinou a como sair daquelas situações.

[...] Do jeito que eu fui criada, era para eu ser uma prostituta ou uma traficante, porque vivia nesse meio. Eu vim do Norte com 19 anos, eu já tinha quatro filhos. Eu não sabia o que fazer com as crianças e a mais velha sofreu muito na minha mão eu tinha 15 anos. Quando eu ganhei a mais velha eu não queria aquela criança perto de mim, eu não queria saber dela. A minha sogra que cuidou dela. Eu queria matar a menina. Não! Não! Não! Eu gostava do filho dos outros, mas os meus, quando nasceu eu entrei em pânico, fiquei louca, com 15 dias dei arroz pra ela, porque pra mim ela tinha que comer comida como eu comia. Ainda bem que eu tinha a minha sogra, porque ela que tomou a frente, porque se não minha

Eu não sabia de nada, porque na época eles não ensinavam nada pras meninas, o negócio da menstruação, por onde sai o neném, como faz neném. Quando eu engravidei, eu não sabia por onde ela ia sair. Quando ela tava nascendo eu entrei em pânico” (23).

De maneiras diferentes, outras líderes disseram que não sabiam como cuidar dos filhos, que passaram por dificuldades e que se tivessem acesso à Pastoral da Criança naquela época seria muito mais fácil. Assim, pôde-se observar a importância de uma mulher mais velha na ajuda na criação dos filhos, e, também, a transformação na vida da família quando a mãe consegue apreender o que a Pastoral da Criança oferece.

A organização continua acompanhando a família, mesmo diante de um comportamento pouco cooperativo. Uma explicação para esse fato é que a Pastoral da Criança possui um estoque grande de capital social, e a presença de pessoas com comportamento não-cooperativo não afeta a sua existência e perenização, pois é esperado que a reprodução do capital social investido seja feita pelos voluntários e não pelas famílias.

Todavia, se na comunidade não houver pessoas interessadas em se tornar voluntárias da Pastoral da Criança, não haverá produção ou reprodução de capital social e a comunidade se tornará ‘morta’. Com isso, entende-se que a reprodução do capital investido pela organização está, sobretudo, no trabalho dos voluntários, que redistribuem o ativo entre as famílias acompanhadas. Entretanto, o trabalho será tanto quanto mais efetivo se as famílias se tornarem, também, multiplicadoras e, portanto, produtoras de capital social.

Os objetivos do trabalho da Pastoral são bem definidos tanto para os voluntários quanto para as famílias. Ambos sabem que a atenção da organização é o acompanhamento do desenvolvimento físico e social da criança desde o ventre materno até os seis anos. Esse entendimento facilita as relações entre eles. A família sabe que o líder está entrando em sua casa, não para trazer doações ou para espionar, mas para cuidar das crianças. E o líder, por sua vez, não se sente impotente por não conseguir resolver todos os problemas da família, porque sabe que sua função é acompanhar as crianças.

Na medida em que as relações se tornam freqüentes, líder e mãe acabam conversando sobre outras coisas, sobre os problemas que a família acompanhada enfrenta (desemprego, fome, violência doméstica etc.). Nesses casos, o líder é instruído a aconselhar a família e indicar possíveis caminhos para solucionar o problema, a indicar quem pode ajudar e qual a melhor forma de se chegar até o serviço. Conforme alguns depoimentos, muitas vezes, o contato é feito com a mulher da casa (mãe, avó, tia), que se sente, às vezes, impotente para resolver seus próprios problemas. É aí que a disposição do líder pode transformar a atitude dessa mulher.

Os vínculos entre os voluntários puderam ser observados durante as pesagens, as reuniões de avaliação e os treinamentos. Além de fazerem parte da Pastoral da Criança, eles se reconhecem como moradores de uma mesma comunidade, que freqüentam a mesma igreja e que compartilham de um mesmo cotidiano.

Perguntou-se ao voluntário se ele realiza ou já realizou outra atividade voluntária na Igreja, em outras pastorais, em escolas, creches, hospitais, postos de saúde, entre outros. Na Tabela 11, verifica-se que apenas 13% se dedicam somente às atividades da Pastoral da Criança e que os 87% restantes realizam outras atividades voluntárias. Notou-se, também, que 96% das atividades mencionadas pelos voluntários estão ligadas ou fazem referência à Igreja Católica: Igreja que freqüenta, Pastoral da Saúde, congregações de Marianos, Vicentinos e Franciscanos.

Dentre as atividades voluntárias citadas desenvolvidas pelos entrevistados na Igreja estão: a participação na organização das missas e outras celebrações religiosas (36%), das festas (31%), das campanhas de arrecadação (11%). Há ainda aqueles que assumem a responsabilidade de ser catequista (36%) ou de coordenar grupos de jovens, de casais ou de orações (36%). 11 voluntários (31%) são, também, ministros de eucaristia.

Com isso, pôde-se verificar que as atividades na Pastoral da Criança influenciam a maior participação do voluntário em outras atividades na

envolva em outras atividades. Assim, percebe-se que o voluntário também faz parte de um grupo maior, que remete as atividades desenvolvidas no contexto das paróquias da Igreja Católica a uma cultura associativista.

TABELA 11 – OUTRAS ATIVIDADES VOLUNTÁRIAS (*)