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CIUS – Centre for Innovative Ultrasound Solutions

A idéia de criar uma ação de combate à mortalidade infantil surgiu em maio de 1982, em uma reunião da ONU, na Suíça, sobre a paz mundial, pobreza e desenvolvimento. O Brasil foi representado, entre outras pessoas, por Dom Paulo Evaristo Arns, que é reconhecido, internacionalmente, por suas atividades na defesa dos Direitos Humanos, especialmente, como liderança no período da ditadura militar no Brasil, de 1964 a 1976, e no período que se seguiu. James Grant, diretor executivo do UNICEF, sugeriu a Dom Paulo a criação de um projeto da Igreja para combater as altas taxas de mortalidade infantil no Brasil, provocadas, principalmente, pela diarréia. Dom Paulo, apresentou a proposta para sua irmã, a Doutora Zilda Arns Neumann, pediatra e médica sanitarista, que aceitou desenvolver o projeto.

Em 1983, foram iniciados os trabalhos, como um projeto piloto implantado em uma paróquia do município de Florestópolis, norte do Estado do Paraná. Nesse município, morriam 127 crianças para cada mil nascidas vivas. Após um ano de atividade, esse índice caiu para 28 mortes para cada mil crianças nascidas vivas.

A implantação contou com a ajuda de Dom Geraldo Majella Agnelo, Arcebispo de Londrina. A cidade de Florestópolis tinha apenas uma paróquia, São João Batista, que estava sob a administração de uma freira italiana, Eugênia Pietta, que foi encarregada de liderar o processo, como coordenadora paroquial. Houve também o apoio técnico das Secretarias de Saúde e Educação do Estado do Paraná (GUIMARÃES, 2002).

Na época, a Doutora Zilda trabalhava como funcionária da Secretaria de Saúde e Educação do Estado do Paraná. Sua vivência como administradora de redes de postos de saúde, de clubes de mães de entidades filantrópicas na periferia de Curitiba e como coordenadora da área de saúde materno-infantil no Estado do Paraná a credenciava como uma interlocutora privilegiada na concepção de um novo modelo de intervenção social, mais colaborativo e não assistencialista (GUIMARÃES, op.cit.).

Logo no início, foi definido que o trabalho seria baseado na fraternidade, na democratização do conhecimento, na formação para o exercício da cidadania e na co-responsabilidade social. Por se tratar de uma ação pastoral, promovida pela Igreja Católica, a missão da Pastoral da Criança foi inspirada em um versículo do Evangelho segundo João: “Eu vim para que todos tenham vida, e vida em abundância” (THOMPSON, 1995, p. 974).

Assim como foi descrito no capítulo sobre as pastorais sociais, os trabalhos da Pastoral da Criança se iniciaram com reuniões com as lideranças locais, para disseminar a metodologia que seria adotada. As lideranças foram identificadas e capacitadas, e, assim, foi proposto o acompanhamento contínuo das famílias, gestantes e crianças a que se tivesse acesso, especialmente, as mais pobres.

Os materiais educativos da Secretaria da Saúde e do Ministério da Saúde foram considerados de difícil compreensão para a maioria das líderes voluntárias, então, a Doutora Zilda preparou apostilas sobre cinco ações básicas de saúde e vigilância nutricional, com uma linguagem simplificada e com indicadores de avaliação de fácil compreensão e acompanhamento.

No primeiro treinamento, 127 pessoas compareceram, de diversas classes sociais e graus de escolaridade. A equipe achou melhor não dispensar ninguém, pois acreditava que a seleção se faria naturalmente, no decorrer do trabalho de campo, o que se confirmou com o tempo (GUIMARÃES, 2002).

Depois do treinamento, os voluntários declararam que a maior mudança acontecera em suas próprias vidas. Ou seja, ao mesmo tempo em que atuavam como agentes de transformação, eles se sentiam beneficiados com as mudanças propostas, pois aplicavam os conhecimentos adquiridos nas suas próprias famílias, sem contar o sentimento de estarem sendo úteis para alguém, o que também os tornava diferentes.

O nome do trabalho foi escolhido em 1984, durante uma reunião da Comissão Episcopal de Pastoral (CEP) da CNBB, em Brasília. Já existia a Pastoral do Menor, que se dedicava aos meninos e meninas de rua e menores infratores. Também havia a Pastoral da Saúde, como uma linha de ação baseada na visita a enfermos e à promoção de ações preventivas de saúde. A sugestão da denominação Pastoral da Criança partiu de Dom Geraldo e da Doutora Zilda.

Nos anos de 1985, 1986 e 1987, o UNICEF foi a principal fonte financiadora da Pastoral da Criança, o que possibilitou a expansão do trabalho por várias dioceses no Brasil, com ênfase nas regiões Norte e Nordeste. O crescimento, porém, demandou a necessidade de mais recursos financeiros. Assim, em 1986, iniciou-se uma discussão interna da Igreja Católica sobre a celebração de um convênio com o então Ministério da Previdência Social, que, posteriormente, teve sua ação na área da saúde desmembrada e alocada no Ministério da Saúde. As opiniões sobre a celebração do convênio divergiam quanto à diminuição da liberdade de atuação da Igreja em relação às possíveis

intervenções do Governo. Mas, mediante acordo entre direitos e deveres das partes envolvidas, após meses de debate intenso, a CEP autorizou a assinatura do convênio, que vigora desde 1987, e prevê apoio financeiro para a realização das capacitações, impressão de materiais educativos e despesas com o acompanhamento dos líderes comunitários (GUIMARÃES, op.cit.).

Ainda em 1987, foi criado um sistema informatizado, que permitiu a sistematização dos dados colhidos no campo e o acompanhamento dos indicadores em nível local, regional e nacional, de forma confiável. O instrumental criado, intitulado de FABS (Folha de Acompanhamento das Ações Básicas de Saúde, Nutrição e Educação) foi adotado por todas as comunidades, e é utilizado até hoje.

Em 1993, criou-se a Associação Nacional de Amigos da Pastoral da Criança (ANAPAC), formada por empresários, profissionais liberais e religiosos que se dedicaram a colaborar com seus conhecimentos a serviço da organização, na busca de fontes alternativas de financiamento, bem como apoiar convênios locais com secretarias municipais e estaduais, empresas e outros. Desde então, a Pastoral da Criança vem firmando novas parcerias com o Estado e com a iniciativa privada, com representatividade nos conselhos da Saúde, dos Direitos da Criança e do Adolescente e da Assistência Social, nas esferas federal, estadual e municipal.