• No results found

CASA – Centre for Advanced Structural Analysis

As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) eram pequenos grupos organizados em torno da paróquia (urbana) ou da capela (rural), por iniciativa de leigos, padres ou bispos. As primeiras surgiram por volta de 1960, e possuem natureza religiosa e caráter pastoral. Explicando mais detalhadamente a denominação, pode-se dizer que as CEBs

são comunidades, porque reúnem pessoas que têm a mesma fé, pertencem à mesma igreja e moram na mesma região. Motivadas pela fé, essas pessoas vivem uma comum-união em torno de seus problemas de sobrevivência, de moradia, de lutas por melhores condições de vida e de anseios e esperanças libertadoras.

São eclesiais porque são congregadas na Igreja, como núcleos básicos de comunidade de fé.

São de base, porque são integradas por pessoas que trabalham com as próprias mãos (classes populares): donas de casa, operários, subempregados, aposentados, jovens e empregados dos setores de serviços, na periferia urbana; na zona rural, assalariados agrícolas, posseiros, pequenos proprietários, arrendatários, peões e seus familiares (FREI BETTO, 1981, p. 17).

As CEBs se orientam pelo método ver-julgar-agir. Ver: o agente pastoral e os membros ouvem e observam os relatos dos outros membros. Julgar: como Jesus agiria diante desse problema? Como os membros agiriam? Agir: depois de refletir sobre o ‘agir-de-Jesus’ e o ‘nosso-agir’, vem o planejamento da ação para enfrentar o problema (FREI BETTO, op.cit.). Esse não é um método linear, mas dialético, que precisa, muitas vezes, de tempo e amadurecimento para se conseguir fechar um bom planejamento.

Os agentes pastorais recebiam treinamentos e tinham a missão de serem multiplicadores. Tinham a função de criar o espaço propício para que as comunidades pudessem exprimir sua palavra, avaliar sua prática, analisar sua caminhada e planejar sua ação.

Nas celebrações, os símbolos sagrados eram extraídos da vida da comunidade. Nas comunidades rurais, era comum ver celebrações em que os vasos litúrgicos eram simples cuias; a toalha do altar, uma rede ou manta sobre mesa simples de uma casa; o ofertório era feito à base da oferenda de produtos plantados e colhidos pelos participantes; por vezes, a hóstia era um pão ou um cuscuz. Na mesa, viam-se ferramentas, jornais, abaixo-assinados, carteiras de trabalho e outros objetos que simbolizavam a vida concreta da comunidade. Com isso, a celebração do sagrado não corria o risco de se esvaziar num ritualismo mecânico alheio a todo significado objetivo (FREI BETTO, 1981).

Na América Latina, é impossível pensar em alternativa social, sem levar em conta a religiosidade do povo. Assim como acontece entre os povos muçulmanos, a religiosidade é um dado da realidade social latino americana. Assim, as CEBs partiam da premissa de que não basta negar essa tradição cristã: era preciso descobrir como lidar com ela e em que medida a fé poderia ajudar no combate à exclusão social. A necessidade de se aliar discurso religioso ao trabalho social pode ser justificada pela seguinte afirmação de Boff (1993, p. 17):

a ideologia pode mistificar a pobreza como quiser, ela não conseguirá anular a sua dor. Só poderá, anestesiando-a, fazê-la suportável. Mas fome é fome, doença é doença e morte é morte [...]. A ideologia, como sistema de mistificação eficaz, não anula nada. Não atua sobre o estado objetivo das coisas, externo ao espírito. Atua somente sobre o espírito e sobre sua relação com o mundo. Por isso mesmo, a realidade ameaça sempre a ideologia. A realidade pode ser mascarada, mas não destruída [...]. Anestesia nunca foi cura.

O cerceamento dos canais de crítica e oposição ao regime militar, principalmente após o AI-5, fez com que a voz profética da Igreja, comprometida com a pastoral popular, ressoasse hegemônica na defesa dos direitos humanos e na denúncia das arbitrariedades cometidas em nome da segurança nacional. A pastoral popular ganhou uma conotação fortemente política, e a política, enquanto expressão das bases populares, passou a ser exercida junto às comunidades cristãs e à pastoral operária urbana e rural (FREI BETTO, 1981).

Com a ‘abertura política’, a sociedade civil brasileira adquire uma nova configuração. O movimento popular e o movimento operário se emancipam, prescindindo de seus vínculos com a Igreja Católica. Nos anos 1980, ante a nova conjuntura política, social e econômica, a pastoral popular se encontrava num momento que exigia uma redefinição de seu papel e um melhor equacionamento de suas relações com a prática política e social (FREI BETTO, 1981).

O trabalho pastoral da Igreja Católica manteve o caráter comunitário tanto no discurso religioso quanto nas práticas sociais. No trabalho desenvolvido nas CEBs, essa característica era muito forte, e a apreensão do coletivo, a necessidade de participação e o sentimento de comunidade trouxeram, para as ações das pastorais sociais, a percepção de que o problema de um é o problema de todos, e de que, unidos, o peso da luta se torna mais leve, e de que a fé cristã representa um ponto de união na diversidade.

Esse discurso soa utópico se transportado para o contexto urbano, mas se resgatados o senso de comunidade e o trabalho do voluntário, tem-se que, apesar do distanciamento moderno, a compaixão – estar na paixão, no sofrimento, do outro – ainda está viva e presente no contexto atual.

Partindo dessa análise, será apresentado, a seguir, o trabalho realizado pela Pastoral da Criança, que combate a mortalidade infantil, acompanhando gestantes e crianças de 0 a 6 anos, em comunidades pobres, usando o trabalho voluntário, com os chamados líderes comunitários, e muito do que eles desenvolvem hoje – tais como os treinamentos, as reuniões, as formas de inserção nas comunidades entre outros –, o que a igreja convencionou a chamar de pedagogia das CEBs.