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4%

22% 24%

50%

menos de 2 anos 2 a 4 anos 5 a 10 anos 10 anos ou mais

Assim, os voluntários da Pastoral da Criança de Santos formam um grupo, principalmente, de mulheres acima de 40 anos, que têm filhos e situação financeira relativamente estável. Esses voluntários, na sua maioria, concluíram o ensino fundamental ou médio e são aposentados ou donas de casa, e, assim, não estão inseridas no mercado de trabalho, o que permite dispor de tempo para realizar o trabalho voluntário.

4.3 A produção e reprodução de capital social na Pastoral da Criança de Santos/SP

A análise das entrevistas com os voluntários da Pastoral da Criança constatou que a organização aproveita, com êxito, as solicitudes dos seus integrantes e que se trata de um trabalho voluntário que apresenta as seguintes características:

• solidário, quando utiliza a solidariedade presente nas pessoas para o combate à mortalidade infantil e para o desenvolvimento saudável das crianças;

• comunitário, ou de ajuda-mútua, quando mobiliza pessoas de uma mesma comunidade no cuidado consigo mesmos;

• cidadão, quando fornece conhecimentos para os voluntários e os capacita a serem multiplicadores desses conhecimentos, e também quando incentiva o voluntário a conhecer melhor a sua comunidade e a participar da vida comunitária, como um sujeito ativo e agente de transformação.

Como na Configuração Missionária descrita por Mintzberg (1995), a Pastoral da Criança está representada em cada comunidade, como uma célula quase autônoma, mas ligada à organização pela missão e objetivos. As coordenações em cada comunidade são responsáveis por transmitir o que ocorre no seu interior, para a coordenação nacional, que, por sua vez, é responsável por processar e divulgar as informações recebidas para todas as comunidades do país. Esse exercício recursivo proporciona que todos se sintam parte de um todo. Assim, esse movimento vem ao encontro do que diz Bourdieu (1980), pois os diversos agentes dispersos pelo Brasil têm condição de agir como um único ‘homem’, e ultrapassam a finitude que os liga a um lugar e um tempo.

Na cidade de Santos, essa característica pode ser também observada. As comunidades são independentes, cada uma com suas famílias e área de atuação. Algumas vezes, quando perguntado ao entrevistado se ele conhecia o trabalho de outras paróquias, não raro a reposta era negativa, para surpresa do pesquisador. Mas em cada entrevista, tinha-se a impressão de que se estava conversando com pessoas da mesma equipe, que trabalhavam juntas e que se encontravam constantemente. Essa percepção é o resultado da eficiência da rede social que se formou. Cada indivíduo, apesar de estar preso a um espaço e tempo, faz parte de um todo, unido pelo objetivo da Pastoral da

muito maior do que o grupo de voluntários de sua paróquia. Pode até ser que, em outra cidade ou outro estado, onde haja equipe da Pastoral da Criança, a percepção seja a mesma.

Para entender o que move o trabalho, foi perguntado ao voluntário qual era a sua motivação para fazer trabalhos voluntários em geral, não necessariamente o da Pastoral da Criança. Na Tabela 9, pode-se verificar que ajudar foi mencionado por 58% dos entrevistados. Em seguida, ficou a busca ou a importância dos relacionamentos com outros voluntários e com os atendidos. A ajuda aliada aos relacionamentos são características do trabalho voluntário comunitário ou de ajuda-mútua, o qual agrega contato pessoal permanente, proximidade e relações interpessoais.

Quando os voluntários falam dos relacionamentos, dizem que aprendem muito com as famílias e com os outros voluntários, e que quando chegam para ajudar, muitas vezes, se sentem melhor, por isso, o terceiro fator mais citado foi o bem-estar pessoal. Essa afirmação é o principal alvo das críticas ao voluntariado moderno, mas, no caso da Pastoral da Criança, esse bem-estar não é um fator isolado; ele é fruto de uma relação de ajuda-mútua na qual os dois atores saem ganhando e a possibilidade de transformação é muito maior, pois existe constância nos contatos e um inter-reconhecimento entre eles.

“A Pastoral pra mim foi tudo. Eu conheci gente nova. Eu não conhecia ninguém. Eu não gostava de ter muita amizade com ninguém. Eu vivia dentro da minha casa. Agora eu sou comunicativa, converso com todo mundo” (23)6.

Quando os entrevistados dizem que fazem trabalho voluntário, motivados por algum fator religioso, tende-se, imediatamente, a considerar essa afirmação como uma reprodução da caridade cristã. Contudo, o voluntário da Pastoral da Criança tem uma visão diferente, pois aprenderam que, ao fazer um trabalho como esse, está dando vida a sua religiosidade, e não simplesmente cumprindo uma obrigação caritativa.

“Eu sempre confiei em Deus, mas antes de entrar na Pastoral estava sem sentido de religião. A Pastoral me ajudou a buscar a minha fé. Foi uma

transformação de vida. Eu acho que todo mundo que está entrando na Pastoral tinha que ver isso. Para mim, foi a certeza de um porto seguro em Deus. Eu sempre tive adoração por Deus, mas não tinha essa busca”(9).

O resultado do trabalho também se torna fator motivacional na medida em que o voluntário consegue ver que seu trabalho está dando frutos, que ele consegue ver a transformação nas famílias e que ele está sendo útil para alguém e para a sociedade. Na rede formada pelos voluntários e pelas famílias, a utilidade pode ser considerada como um perenizador de relacionamentos, pois à medida que a família percebe que o relacionamento com o líder comunitário está sendo útil, ela vai querer manter o vínculo. E para o voluntário saber que está sendo útil, por meio do crescimento saudável da criança, e que seu trabalho está transformando alguém, é realmente uma grande motivação para que no próximo mês ele volte a visitar aquela família.

“Esta é a minha função: incentivar a mãe para que ela busque melhorar de vida. E ela consegue se for buscar” (8).

Alguns entrevistados (16%) fizeram menção ao reconhecimento que o trabalho traz. Esse fator também considerou quando o voluntário entende o trabalho como gratificante. A retribuição de dádivas foi citada por apenas 11% (6) dos entrevistados, o que leva a entender que, para os voluntários, a ajuda não está ligada a pagamento de dívidas, mas ao fato de ajudar sem esperar nada em troca.

“Deus é tão bom pra mim, me dá tanto, que eu tenho que retribuir de alguma maneira e eu acho que fazer trabalho voluntário, seria assim um agradecimento” (8).

Apesar da maioria dos entrevistados ser aposentados ou donas de casa e do trabalho com as famílias demandar muito tempo e dedicação, o fator tempo livre foi considerado como motivação por apenas 5 entrevistados.

TABELA 9 – MOTIVAÇÕES PARA O TRABALHO VOLUNTÁRIO (*)