• No results found

Midway Evaluation of Centres for Research-based Innovation (SFI-III) Background and Terms of Reference

Fatores simbólicos % Conhecimento 18 41% Orientação 15 34% Vida 10 23% Espiritualidade 9 20% Transformação 9 20% Auto-estima 5 11% Cuidado 5 11% Incentivo 5 11% Amor 2 5% Dedicação 2 5% Gratificação 2 5% Ouvir 2 5% Confiança 1 2% Entrevistados 44 (*) Respostas múltiplas

O relacionamento entre famílias e voluntários favorece o fechamento do círculo da dádiva proposto por Mauss (1950). No contato direto, as dádivas são oferecidas, recebidas e retribuídas no mesmo momento. Por exemplo, o líder chega para visitar a família (dar), logo que chega a criança já corre para cumprimentá-la com um beijo e um abraço e a mãe também o recebe bem (receber). O círculo se fecha quando o líder consegue observar o desenvolvimento da criança devido aos cuidados da mãe (retribuir).

“Você pode ter mais estudo que elas, mas às vezes você vai numa casa, visita e conversa com aquela mãe e quando você sai de lá, você pensa assim: ‘Puxa vida, que lição de vida que ela me deu’, porque ela não tem estudo nenhum, mas tem uma experiência de vida, ela tem uma bagagem que te deixa surpresa, ela te ensina uma porção de coisas” (8).

Acredita-se que o grande diferencial da Pastoral da Criança é o contato direto e constante entre os voluntários e as famílias, o que favorece a circularidade da tripla obrigação da dádiva e também a manutenção da dívida positiva entre eles: o líder leva conhecimentos e atenção à família e recebe das crianças e dos adultos bens que não têm valor material como carinho, um beijo, o ser reconhecido na rua, ou mesmo a transformação da mãe e o crescimento saudável da criança. Conseguir ver os resultados do trabalho é uma forma de retribuição que o líder recebe pela dádiva que ofertou.

“É bom ouvir: ‘que bom que a senhora estava comigo quando eu precisei de uma força’” (1)

O relato de uma líder dizia que na primeira visita a um barraco em uma das favelas da cidade, a casa estava desarrumada, suja e mal cheirosa e as crianças também estavam sujas e desarrumadas. As duas líderes entraram, conversaram com a mãe que aceitou ter suas crianças acompanhadas e foi marcada a visita para o próximo mês. Na segunda visita, a mãe arrumou e limpou a casa, deu banho nas crianças e até colocou uma flor sobre a mesa da cozinha. A líder disse que era um vidro de maionese vazio com água e uma flor dentro, mas tudo isso era para receber as líderes. Ora, isso já foi o início da transformação dessa família. O fato de que as líderes fariam uma visita fez com que a mãe, supostamente acomodada, recebesse um incentivo que a fez querer

família aconteceu, pois essa mãe hoje trabalha, e mesmo as crianças que já tinham passado dos seis anos estão se desenvolvendo melhor.

Na Tabela 20, observam-se os fatores que determinam a satisfação do voluntário com a Pastoral da Criança. 71% se dizem satisfeitos, 18% estão satisfeitos, mas têm algumas coisas que eles acreditam que podem melhorar, e, apenas, 11% estão insatisfeitos. Os principais motivos são a satisfação com os resultados do próprio trabalho e com o trabalho da equipe (45%), os relacionamentos que o voluntário faz no dia-a-dia com as famílias e com a equipe, o reconhecimento pelo seu trabalho e por ser reconhecido na rua pelas famílias e pelas crianças nos espaços públicos. Esses motivos de satisfação acabam sendo muito parecidos com as forças motivacionais que mantêm o voluntário ativo. Acredita-se que estas se auto-reforçam, como num círculo virtuoso, por exemplo, quanto mais o voluntário fica satisfeito com os resultados do seu trabalho mais isso o motiva, e o mesmo vale para os relacionamentos, para o reconhecimento, para as coisas que ele aprende e ensina.

Já dentre os fatores apontados por aqueles que estão insatisfeitos e por aqueles que acreditam que a proposta da Pastoral da Criança pode melhorar, têm-se a falta de pessoas para trabalhar, a falta de comprometimento dos voluntários e a falta de comprometimento das mães. É interessante notar que os principais motivos de insatisfação são fatores simbólicos como participação e comprometimento.

“Tem voluntário que prefere ser apoio porque não tem tanto compromisso” (1). Dentre os insatisfeitos, três acham que a Pastoral da Criança deveria ter um espaço próprio em cada comunidade, para que as mães possam procurar sempre que necessário. Outros dizem que a organização poderia ajudar mais em outras áreas. Em uma das comunidades, uma líder reclamou que não havia a mística (ou espiritualidade) na Celebração da Vida, na sua comunidade. Apenas uma disse que estava insatisfeita porque não há dinheiro para trabalhar. Outra diz que não vê resultado em seu trabalho.

A questão da pouca colaboração levantada por alguns voluntários se deve ao fato de que, ao ingressar, as pessoas acham que o trabalho se baseia apenas nas visitas. Mas na verdade, o trabalho é árduo, e a convivência com as famílias, e a aproximação com as mazelas que elas vivem, muitas vezes, fazem os entrantes desistirem. Com isso, pode-se ver que as pessoas hoje não estão prontas para enfrentar a realidade vivida pelos mais pobres. Estes estão escondidos em guetos, nas franjas das cidades e, muitas vezes, são considerados invisíveis. A partir do momento em que o voluntário se aproxima dessa realidade e da incapacidade de resolver problemas tão complexos, ele começa a desistir.

“Ter humildade é muito importante, se você não chegar no nível da mãe, você não entende ela de maneira nenhuma. Quantas vezes eu já me perguntei ‘Se eu estivesse na situação dela eu não seria pior que ela?’” (8).

TABELA 20 – FATORES DE SATISFAÇÃO E INSATISFAÇÃO DOS VOLUNTÁRIOS COM A