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2.1. U NDERLYING T HEORIES OF S CHOOL I NSPECTION /S UPERVISION

2.1.1 Scientific Management Theory

As ciências estão assentadas sob os pilares da objetividade, assim, a lógica que encontramos nas pesquisas científicas aponta para uma ciência construída com base nos valores masculinos, realçando um conjunto de dualismos que reiteram as diferenças de

gênero. Os campos da ciência e da tecnologia foram considerados como áreas para as quais as mulheres demonstravam certo desinteresse. Desinteresse esse relacionado a uma abordagem que sugere a inaptidão e inferioridade das mulheres para as profissões tecnológicas e científicas. Uma visão androcêntrica e sexista das práticas e culturas institucionais, dos nossos pressupostos sociais que mantêm e legitimam até hoje as categorias homens x mulheres, objetividade x subjetividade, racionalidade x irracionalidade/emocionalidade, mente x matéria ou corpo, ciências naturais “hard” x ciências sociais “soft” e, portanto, a oposição desses pólos perpetuam as assimetrias, as diferenças, o androcentrismo. (HARDING, 2003; RAPKIEWICZ, 1998).

Antes mesmo de uma criança nascer, a categoria sexo é inscrita em um corpo, que após o seu nascimento é socializado segundo uma determinada cultura. Assim, a referência bio-social é expressa na cultura sob a forma de gênero, um construto social do masculino e do feminino, do que é ser um homem ou uma mulher, e que, por conseguinte, é um dos fundamentos para a divisão sexual do trabalho. Esse construto social é chamado de estereótipo de gênero e compreende o conjunto de crenças acerca dos atributos pessoais considerados adequados a homens e mulheres. (D'AMORIN, 1997). Desta forma, o estereótipo da inaptidão tecnológica feminina é construído com base nessa determinação de papéis femininos e masculinos que reproduz diferentes momentos da nossa socialização na família, na escola, numa sociedade onde vigora o binarismo de gênero.

Assim, com base nesses estereótipos de gênero, pretendo, nesta parte da pesquisa, abordar o quanto essas mulheres, que atuam na área tecnológica, estão também marcadas por esse binarismo, como elas apreendem e reproduzem essas crenças, e ainda saber se as características ditas "masculinas" fazem parte do repertório de práticas para a gestão de suas equipes. Para isso, abordei, durante as entrevistas, os aspectos considerados por elas como pontos positivos para uma boa liderança, as diferenças e/ou semelhanças do feminino e masculino no estilo de gestão, e a necessidade de elas assumirem ou não algumas características "supostamente" masculinas.

Como analisado anteriormente, grande parte das entrevistadas não percebe as questões de gênero como uma dificuldade na ascenção e manutenção de seus cargos. Tivemos inclusive relatos de algumas líderes que afirmaram nem pensar na questão do binarismo de gênero compreendida como hierarquia. No entanto, de fato, ao longo de nossas conversas foi possível identificar falas que perpetuam um discurso da diferença, de um feminino e masculino marcados pelos seus estereótipos. O primeiro ponto diz respeito ao discurso dominante e mascarado que prega oportunidades iguais para os dois sexos. Segundo Ferrand

(1994), paradoxalmente, embora as meninas sejam consideradas brilhantes ao longo de toda sua trajetória escolar, elas são minoria nos cursos científicos, cursos estes que seriam destinados aos melhores alunos. Esse paradoxo parece se apoiar em um insistente discurso, sem muitos argumentos, que alega e defende as aptidões ou inaptidões de acordo com o sexo, assim, as meninas têm a obrigação de serem boas em literatura, enquanto que o fracasso nas ciências exatas seria algo "natural" propício à categoria mulheres.

Um grande fator que as mulheres caem fora, é o fato da lógica de programação, porque exige muito e a mulher cai fora. Pode ver que, no terceiro ou quarto semestre da faculdade, elas largam porque começa a apertar, risos. (Tereza, 35 anos, Gerente)

Tereza, há 14 anos na área de TI, faz parte de uma minoria de mulheres com destinos improváveis. Ela julga que sempre teve perfil para a área de exatas e, por isso, escolheu este curso. No entanto, no discurso acima é possível perceber que Tereza também ajuda a fortalecer a ideia de incompatibilidade entre feminino e ciências exatas e, ainda, sugere que as mulheres desistem desses cursos quando uma determinada disciplina exige muita dedicação. É fato que muitas moças acabam realmente abandonando estes cursos, mas o argumento da inaptidão precisa ser revisto frente à socialização reproduzida por essas moças. Ferrand (1994) aponta para a própria atitude diferenciada dos professores que muitas vezes incentivam mais os rapazes do que as moças, o que teoricamente pode ser compreensível. Esses professores também estão inseridos e marcados por uma cultura em que predomina o discurso dominante do masculino. Assim, essas alunas, ao abandonarem esses caminhos científicos, eliminam também as dificuldades, não de determinada disciplina, mas sim, os obstáculos que teriam de enfrentar ao optarem por adentrar em um universo pautado pelo masculino. Abandono, nesse caso, pode sugerir retorno ao seu destino provável e o sucesso da estratégia sutil e eficaz do sistema de gênero. Ao finalizar sua resposta, a entrevistada sorri suavemente, um sorriso que parece constatar sua vitória, o término do seu curso, a atuação na área tecnológica, o ultrapassamento de uma série de estereótipos presentes ao longo da sua experiência.

Embora a presença feminina no campo tecnológico seja significativa, nos últimos anos, essas mulheres continuam a refletir nos seus modos de vida, nas relações profissionais, os estereótipos culturais quanto à representação do feminino e do masculino. Abaixo, seguem dois relatos que nos ajudam nessa constatação:

Homem acaba sendo muito seco, muito mais pela razão, a maioria. Agora, a mulher, ela já pensa mais com emocão, não sendo burra, sendo boazinha, senão você vai ser pisada pelos seus liderados e seu serviço vai por água abaixo. Eu vejo o homem mais frio para determinadas questões, sendo que a mulher, antes de tomar uma decisão, ela vai pensar, vai colocar na balança, vai ponderar mais antes de tomar uma decisão, entendeu? (Marta, 45 anos, Coordenadora)

Eu acho que eu sou muito humana, eu me preocupo muito com o bem estar das pessoas, com o contato físico, aperto de mão, abraço, eu trabalho a inteligência emocional, é, eu tento ver o que eles sentem, qual é a consequência do que eles estão sentindo. O homem é menos tato, menos humano, mais razão e a mulher tem essa capacidade de lidar com o humano, de ponderar, de avaliar um pouco mais, claro, com foco em resultado. (Carol, 34 anos, Gerente)

As falas de Marta e Carol são pautadas pelo dualismo razão/homem x emoção/mulher. Ao descreverem os estilos de gestão feminino e masculino, ambas as entrevistadas se conectam à questão da emoção, como se tivessem de reiterar que, embora atuando em um campo considerado masculino (a tecnologia), elas permanecem valorizando sua condição de doçura e feminilidade, condição esta recebida ao longo de sua socialização. Aos homens é conservada a dureza, a frieza da razão na tomada de decisões. Mais uma vez, a reprodução dos estereótipos de gênero determina e aprisiona o modo de ser de homens e mulheres, fazendo com que as líderes procurem ao longo de seus discursos se encaixarem em padrões supostamente esperados. É importante ressaltar que as entrevistadas registraram suas características de serem mais "humanas" enquanto uma condição privilegiada que as ajuda a lidarem com as demais pessoas de suas equipes, no entanto, os relatos são interrompidos pelas próprias pesquisadas, que buscam justificar e complementar suas características. Marta, ao expressar que se utiliza da emoção, reitera o fato de que deve usar a emoção, mas não para ser burra, pisada pelos subordinados. Enquanto Carol, da mesma forma, argumenta que ao lidar com o humano não pode perder o foco em resultados. Assim, embora elas realcem o valor da emoção, parecem associar essas características ao temor do desrespeito e do insucesso em suas equipes. Dessa forma, para confirmarem o sucesso de seu estilo de gestão, elas trazem à tona um alerta de que mesmo sendo mulheres, dóceis, humanas, não são burras e são capazes de dar resultados. Aqui, a ênfase me parece que se dá pelo fato de que emoção e feminino não estão associados automaticamente à inteligência e resultados e, portanto, uma das estratégias utilizadas por elas seria a reiteração, a insistência, uma briga constante, interna e externa, contra esses estereótipos, contra um sistema que crê numa competência masculina superior e

que, portanto, age como uma barreira na construção de suas carreiras. (SCHWARTZ et al, 2006).

Olha, eu acho que a mulher, ela tem um pouco mais a parte de negociação, ela tem um pouco mais, às vezes, de tato, por ter uma natureza mais delicada, até mesmo na forma de conversar, ser mais compreensiva, ouvir muito mais. (Luciana, 29 anos, Coordenadora)

O discurso de Luciana aponta para a questão da "natureza" da mulher. Uma fala que reproduz o discurso dominante do patriarcado, que visa se apropriar e manipular uma natureza inerte. Assim, natureza e mulher enquanto termos metonímicos significam atestar que a mulher está fadada a reproduzir uma inferioridade biológica e, portanto, natural, e aprisionada a um esquema de atribuições sociais, a ela descrito. (LIMA, 2008; SWAIN, 2000).

E ainda:

A mulher, ela é tida como o sexo frágil, apesar de que eu acho que a gente já provou que não é bem assim hoje em dia, mas a mulher já tem dentro dela mesma isso, toda mulher, eu acho, é um pouco machista. Primeiro, pelo fato de ser mulher ela já se põe numa posição inferior ao homem , ela fala: - Ah, mas eu sou mulher. Eu vejo isso mais forte em algumas mulheres e menos em outras, acho que a gente mesmo já tem uma cabeça um pouco machista, então, acho que assim, a força, a maneira de se impor vem do homem, de ser mais dura, mais enérgica pra impor a sua opinião. (Luciana, 29 anos, Coordenadora)

O "sexo frágil" carrega com ele as características tidas como femininas - a subjetividade, cooperação, sentimento e empatia - características essas desvalorizadas no meio científico, ao passo que, o homem possui a força da ordem masculina. Assim, o discurso de Luciana atesta que a divisão sexual do trabalho, das atividades, tarefas e características atribuídas a cada um dos sexos funciona como uma ferramenta que garante os privilégios da visão androcêntrica. Luciana corrobora com a ideia de que a força masculina dispensa qualquer justificação e legitima-se por meio do discurso, assumindo que a mulher possui dentro dela uma lei masculina, machista, androcêntrica. (BOURDIEU, 1999a).

Quando questionadas sobre a necessidade de assumir características ditas masculinas, as entrevistadas, em sua maioria, alegaram ter seu próprio estilo, demonstrando driblar essa realidade sexuada que age enquanto princípios determinantes de comportamentos. No entanto, o discurso acima, de Luciana, aponta para uma suposta força que deriva do masculino e ainda, conclui que:

Eu acho que ela (a mulher) não pode perder a essência feminina, mas em algumas vezes, eu acho que a mulher precisa, e aí que eu acho que entra a força, garra, força no sentido de garra, de não desistir de correr atrás dos objetivos. (Luciana, 29 anos, Coordenadora)

Outro relato mostra que:

A mulher precisa assumir um pouco da postura masculina para impor. Tem horas que a mulher precisa buscar mais esse tino de impor nela. Eu preciso liderar, eu que estou mandando, de uma forma tranquila, mas precisa. O homem, eu acho que por si só, já tem isso. A mulher precisa conquistar o espaço, falar com cautela, mostrar deixa que eu penso assim, entendeu. (Catarina, 37 anos, Coordenadora)

Os relatos enunciam um discurso de gênero enraizado na feminilidade, em como devemos ser e agir nas categorias mulheres e homens, uma possível estratégia dessas mulheres que, ao reiterarem a categoria feminino, acreditam sustentar um modo de ser peculiar. Assim, a relação hierárquica e excludente experimentada por estas mulheres garante “naturalmente” ao homem a força, a conquista do espaço, a imposição e o respeito, enquanto que, as mulheres precisam, ao mesmo tempo em que reproduzem essa visão androcêntrica do mundo, driblar qualquer diferença em nome daquilo que julgam sucesso. Essas mulheres experimentam aquilo que Rita Segato (2003) chamou de sexismo automático, tido como natural, "normal", isto é, está tão impregnado na cultura que não é questionado e, muito frequentemente, reproduzido pelas próprias mulheres. O sexismo automático não encontra resistência e não é percebido como uma forma de violência. Dessa forma, as mulheres participantes deste estudo também convivem com este conjunto de mecanismos e ajudam de certa forma, ao reproduzirem suas representações sociais, a garantir a permanência de uma relação hierarquizada e desigual.

Outra entrevistada aborda a questão da ponderação feminina, um outro dispositivo/estratégia que pode ser utilizado em nome da preservação de outros estereótipos.

Por ser mulher, eu não reagi a provocações de gente até acima de mim. Se eu fosse homem, eu reagiria na base do braço. rsrs. Eu já li até artigos que falam que o homem pode bater na mesa, responder, sair bravo, mas se uma mulher faz isso, ela é

mal amada, estressada, então, você tem que sempre balizar as coisas. (Tereza, 35 anos, Gerente)

A palavra aqui utilizada pela líder foi "balizar", sua definição no dicionário da língua portuguesa é: marcar por meio de balizas; separar; distinguir. Assim, cabe à mulher ser a balizadora das relações. A entrevistada, ao falar de "gente até acima de mim", refere-se a superiores do sexo masculino que em algumas situações desrespeitaram a líder, uma subordinada. Tereza aponta para uma das estratégias femininas nesse convívio com a força, a virilidade, a hierarquia. É preciso separar as coisas, o que é do homem, dominante e, portanto, no "direito" de desrespeitar os subalternos. Distinguir que os homens podem responder a outro homem com violência física e xingamentos e, o que é da mulher, o direito reservado de permanecer calada, ou, caso contrário, terá sua "feminilidade" abalada, não terá mais seu modelo aprovado de doçura, de fragilidade, de submissão. Assim, diarimente, estas mulheres parecem conviver com o desafio de serem "femininas", de preservar o status de uma relação hierarquizada, de balizar territórios e, acima de tudo, de corresponder à sua representação social.