No decorrer da minha pesquisa, embora grande parte das entrevistadas não tenha relatado o "ser mulher" como uma dificuldade na ascensão da carreira, uma outra questão foi trazida por elas como obstáculo a ser superado: o fato de terem sido consideradas muito jovens para assumir um cargo de liderança.
Tanto faria se fosse mulher ou homem. Eu senti mais pela idade do que o fato de ser mulher. Pelo menos o que mais me afetou. (Raquel, 32 anos, Coordenadora). Eu percebia que os clientes quando me viam olhavam assim - Novinha demais, é, eu percebia assim que eles não tinham muita confiança em mim, depois que eles me conheciam, conheciam o meu trabalho, aí sim, eu não tive problema algum. Mas, no começo sim, tinha. (Carol, 34 anos, Gerente)
Eu aceito bem críticas construtivas, mas eu não me deixo influenciar por pessoas que querem me destruir pelo fato de eu ser mulher, ou de eu ser mais nova, porque eu acredito muito em mim, na minha competência, naquilo que eu estudei. (Luciana, 29 anos, Coordenadora)
Quando eu assumi essa coordenação, eu não conhecia as pessoas, eu sou mais nova do que as pessoas da equipe, então, é difícil cobrar certas coisas da equipe. Dentro de mim, eu sabia que isso poderia ser um problema, mas nunca me deixei abater por isso e dei conta. Mas dava pra ver as pessoas me olhando diferente, essa pessoa mais nova vai mandar em mim. (Raquel, 32 anos, Coordenadora)
Os relatos acima enfocam a questão da juventude como fonte de discriminação no ambiente de trabalho. Essas líderes, de uma forma ou de outra vivenciaram com seus
subordinados, clientes ou colegas de trabalho situações de desconforto, desconfiança e preconceito por serem jovens. Após algumas leituras e discussões, o tema gênero e faixa etária me direcionou para alguns apontamentos acerca de um aspecto muito valorizado na juventude, e também no feminino, o corpo.
A feminilidade está associada à juventude corporal, principalmente se pensarmos nos binômios culturalmente institucionalizados: beleza/juventude, velhice/enfeiamento. Perrot (2005) observa que a ideia de beleza está para o feminino, assim como a força está para o masculino. Assim, a beleza é um valor feminino que está, em nossa sociedade, associada à juventude, enquanto que a tolerância, a benevolência e a inteligência são qualidades reservadas para aqueles cuja beleza da juventude já não mais os privilegia. (GOLDENBERG, 2008).
Portanto, parece-me que o obstáculo aqui encontrado é um velho conhecido das desigualdades de gênero. O corpo e seus atributos se apresentam como algo incompatível com o intelecto, e, portanto, estas mulheres, por iniciarem sua ascensão na carreira ainda muito jovens, foram consideradas como desprovidas de intelecto, um corpo jovem que tem o dever de, a todo momento, mostrar que pode pensar.
O corpo está no centro de toda relação de poder. Mas o corpo das mulheres é o centro, de maneira imediata e específica. Sua aparência, sua beleza, suas formas, suas roupas, seus gestos, sua maneira de andar, de olhar, de falar e de rir (provocante, o riso não cai bem às mulheres, prefere-se que elas fiquem com as lágrimas) são objeto de uma perpétua suspeita. Suspeita que visa o seu sexo, vulcão da terra. (PERROT, 2005, p. 447).
As reflexões de Perrot nos ajudam a vislumbrar talvez uma justificativa para o fato de essas mulheres passarem por situações de desconfiança. Esses corpos jovens, cheios de vitalidade, parecem também ser um alvo, um perigo de sedução constante. Corpos que podem despertar nos homens o desejo, e nas mulheres, principalmente naquelas cuja vitalidade já não é mais seu maior atributo, a desconfiança.
O relato de Raquel denuncia as dificuldades com as outras mulheres mais velhas da equipe, reforçando ter sido um desafio conquistar sua confiança, e com certeza, até então, provar diariamente que não se trata apenas de um corpo desprovido de inteligência.
Por exemplo: eu vim pra essa equipe e tinham outras mulheres mais velhas. Foi difícil delas confiarem em mim, não sei se por eu ser mulher ou mais nova, mas foi mais fácil ter a confiança dos homens do que delas. Porque a facilidade da comunicação do dia acaba sendo diferente. Talvez pelo fato de ser mandada por outra mulher, demandada por outra mulher, acho que o fato é esse. (Raquel, 32 anos, Coordenadora)
A entrevistada relata que obter a confiança dos homens foi mais fácil e atribui isso ao fato de uma suposta diferença na relação entre uma líder mulher e suas subordinadas, outras mulheres. A entrevistada parece aqui denunciar uma relação talvez mais difícil com as mulheres, o que realça a relação de poder vivenciada no interior do grupo de mulheres. A líder enfatiza que as demais serão mandadas por ela, expressando uma condição hierárquica de dominação versus dominado. É possível pensar que as mulheres lideradas, neste caso, numa condição subalterna a outra mulher, utilizem como estratégia o controle e observação da líder como forma de disciplina. Assim, o efeito dos poderes sobre os corpos pode se tornar visível na vigilância exercida pelas colegas, que de certa forma rebatem nas mais jovens o que, provavelmente, sofreram no passado, quando mais novas. Assim, ao longo dos anos as diferentes gerações reproduzem a diferença entre os sexos por meio do sentido dado aos corpos e reforçam a representação das mulheres enquanto um corpo/sexo. (SWAIN, 2000). Essa vigilância seria então, a disciplina dos corpos, pois, segundo Foucault (1987, p. 28) o corpo só se torna útil se é ao mesmo tempo corpo produtivo e corpo submisso. Sob esse ponto de vista, o corpo, atualmente, tornou-se um modelo sexual regido pela mesma política e economia que rege o valor de mercadoria. O corpo e a sexualidade estão, nesse caso, a serviço do capitalismo, sedutores do consumo e, portanto, um estereótipo, o mais belo objeto para a sedução no projeto de manipulação e sedução do sujeito tomado pelo consumo. (BAUDRILLARD, 1976). Assim, o corpo feminino esculpido e marcado pela "natureza", corpo, sexo e desejo, marca a reprodução do binário, o sistema sexo/gênero, o desvendar de um mundo desenhado no masculino, onde as tarefas são distribuídas segundo a modelagem e a utilidade dos corpos. Nesse sentido, nós mulheres fazemos parte de uma categoria que está aprisionada em um corpo sexuado, construído enquanto natureza e expresso em condutas mais ou menos ordenadas. Segundo Swain (2000), este corpo sexuado foi criado enquanto uma estratégia de um sistema de saber e poderes múltiplos e legitimado por um caráter natural, cuja objetivação cria campos assimétricos de normas e delimita o ser. Ou seja, dessas líderes há uma expectativa que os corpos não sejam corpos sedutores, mas que, ao contrário, elas sejam capazes, ao final, para obterem a confiança de suas lideradas, de esquecerem que são
corpos e adotarem uma condição masculina de um pensamento abstrato. Afinal, os parâmetros legítimos da ciência apontam para um saber descorporificado, onde corpo e mente encontram- se em lados opostos e seguindo o mesmo padrão hierárquico da categoria feminino e masculino, assim, corpo é um atributo que deve ser descartado, enquanto que mente e, por conseguinte, objetividade e masculinidade são considerados como sinônimo do saber. (HARAWAY, 1995).
Assim, essa cisão entre corpo e intelecto reduz as mulheres enquanto atributos eróticos de beleza e juventude e mantém sua subalternização. O discurso sexista, que inviabiliza a possibilidade de corpo e inteligência andarem juntos, faz parte da magia do poder simbólico masculino exercido sobre as mulheres. O poder da construção social do corpo, a ordem masculina inscrita nos corpos nas rotinas e divisão do trabalho. (BOURDIEU, 1999a). Assim, a relação das líderes com os homens da equipe parece manter a tônica de que a mente, algo atribuído ao masculino, seja superior ao corpo, atibuto feminino, assim os homens não teriam do que temer. Os homens, enquanto seres descorporificados, desfrutam dessa construção simbólica e legitimam a detenção do pensamento abstrato, do poder e da dominação sobre corpos condenados à sexualidade. Del Priore (2000) aborda o aspecto do corpo feminino como algo marcado pela exclusão e inferioridade e reitera que o corpo feminino era considerado por médicos, menor, com carnes moles e esponjosas e caráter considerado débil. No entanto, esse corpo inferior está marcado também pelo poder da beleza e da sensualidade e, portanto, um perigo real. Assim, o corpo tem sido considerado o inimigo número um da objetividade, esta última atributo masculino, e por mais que haja tentativas de atribuir sinônimos de intelecto ao feminino, estamos conectadas ao corpo, ao desejo e a sedução, esse corpo se mostra antes mesmo de qualquer pronunciamento. (BORDO, 1997). Desta forma, essas mulheres demonstram, em seus gestos, posturas e comportamentos, as marcas da submissão.
Enquanto um elemento de organização das relações da vida social, a categoria idade também atua no sentido de determinar "limites" a cada um na vida social. Sob a forma de direitos e deveres, às diferentes idades são atribuídos sentidos culturais, políticos e econômicos e expressam o jogo de poder entre as diferentes gerações. (SILVA, 2008). Curiosamente, grande parte das entrevistadas, nesta pesquisa, possui idade entre 29 e 37 anos e 90% delas assumiram cargos de liderança antes dos 30 anos, o que significa dizer que se tornaram líderes ainda muito jovens. Sob esse ponto de vista, considero importante apontar para uma outra perspectiva dos corpos, o privilégio de alguns. Não posso e não quero aqui apontar a ascensão na carreira dessas mulheres como resultado de um corpo jovem, mas, sim,
constatar que, em nossa cultura, a idade também é um fator determinante de desigualdades. Assim, idade, juventude, beleza e mulheres parece ser uma fórmula que tem despertado o olhar desconfiado de outros.
O sistema sexo/gênero foi construído com base no sistema de corpos sexuados e modelado ao longo dos tempos em corpos de homens e mulheres que expressam uma identidade incompleta, de seres esculpidos pela imposição de poder de um sexo sobre o outro. Desta forma, para muitas dessas mulheres que foram entrevistadas, o discurso do patriarcado está muito presente e, embora todas estejam em posições de comando, denota-se que há certa desconfiança nos "caminhos" utilizados para conquistar essa posição.
Olha, como eu tenho uma determinada posição profissional, eu não dependo desses vamos assim dizer “atalhos”. (Marta, 45 anos, Coordenadora)
O relato de Marta sugere que, ocorre em seu meio, a ascensão rápida de mulheres por meio de "atalhos". Ela enfatiza ainda que possui uma posição profissional, explicando na entrevista sobre suas competências profissionais, enquanto que a algumas colegas de profissão esses não foram os atributos fundamentais para a ascensão. Dentre as líderes pesquisadas, Marta é a líder com mais idade, 45 anos, e ao sugerir sua desconfiança na ascensão de colegas, ela usa o discurso da maturidade, da tolerância e da experiência, reforçando que juventude e inteligência parecem não poderem andar de mãos dadas. Vale lembrar que, Marta assumiu seu primeiro cargo de gestão nesta organização ainda muito jovem e relatou que as pessoas questionaram sua indicação, no entanto, ela afirma que todos a conhecem pela sua dedicação e trabalho ao longo da carreira, apresentando aqui uma incoerência no próprio discurso, pois, segundo ela, no seu caso foi possível conciliar juventude e inteligência.