1.1 R ATIONALE FOR THE S TUDY
1.1.2 Combating Problems Facing Developing Countries
Desde o inicio da minha pesquisa neste tema, tenho estudado constantemente diferentes textos e autores que abordam sobre a construção da história das mulheres. Até então, o cenário predominante tem sido uma história construída às margens da história masculina, dita como universal. A história das mulheres contada pelos homens e apresentada ao mundo como neutra, estabeleceu diferenças que se tornaram desigualdades. A partir daí a humanidade foi descrita como “homem”, e dar vida própria ao sujeito mulher tem sido um desafio diário de muitas cidadãs do mundo que convivem em todas as esferas da vida com o resultado de interpretações e representações androcêntricas da humanidade.
O tema gênero e suas problemáticas contemporâneas continua enraizado em uma visão primitiva do macho e da fêmea, que tem sido perpetuada ao passo em que diferentes civilizações e sociedades conferem legitimidade a essa diferença. Segundo Londa Schiebinger (2001), a primatologia está centrada numa abordagem hierárquica, onde a competição por limites territoriais se dá entre machos dominantes e machos menores. Já as fêmeas, foram conjugadas pela disposição sexual aos machos, pela não competitividade, passividade e dependência, sua única função no grupo era ser mãe. Este princípio da hierarquia está ligado às diferenças políticas, sociais e econômicas que ditam papéis diferenciados segundo o sexo. Desde então, essa é uma "verdade" que foi construída, interpretada e que vem sendo cultivada não só pelos homens, mas pelas próprias mulheres que, segundo Bordieu (1999), possuem uma visão colonizada, dominada, que não se vê a si própria. (STREY; CABEDA; PREHN, 2004).
No mundo do trabalho, a subordinação de gênero se perpetua da mesma forma. As relações de trabalho entre homens e mulheres, bem como sua assimetria, são manifestadas não só na divisão das tarefas, mas nos critérios que definem a qualificação delas, os salários e a disciplina do trabalho. Assim, a divisão sexual do trabalho implica muito mais do que a distribuição por setores de atividades, ela funciona também como um princípio organizador da desigualdade no trabalho. (LOBO, 1991).
[...] a divisão sexual do trabalho não cria a subordinação e a desigualdade das mulheres no mercado de trabalho, mas recria uma subordinação que existe também nas outras esferas do social. Portanto, a divisão sexual do trabalho está inserida na divisão sexual da sociedade com uma evidente articulação entre trabalho de produção e reprodução. E a explicação pelo biológico legitima esta articulação. O mundo da casa, o mundo privado é seu lugar por excelência na sociedade e a entrada na esfera pública, seja através do trabalho ou de outro tipo de prática social e política, será marcada por este conjunto de representações do feminino. (BRITO; OLIVEIRA, 1998, p.252).
Brito e Oliveira (1998) reforçam o fato de que a base do sistema sexo-gênero é mantida pelas ideologias e representações de gênero que por sua vez reiteram as práticas cotidianas de segregaçao das mulheres, tanto nas esferas reprodutivas quanto produtivas. Assim, o fato dessa herança perpetuar ao longo de muitas gerações e conviver diariamente com essas assimetrias despertou, inicialmente, o interesse em estudar este tema. Ao me deparar com mulheres, líderes capazes de sobreporem as desigualdades e assumirem cargos de chefia na área de TI, julguei ser de extrema importância conhecer e entender acerca das dificuldades enfrentadas por elas e, principalmente, conhecer as diferentes formas de superação. Para minha surpresa, ao iniciar minha conversa com as entrevistadas, fui me deparando com um cenário aparentemente diferente dos livros, dos textos e de modo geral da própria vida feminina. A maioria das entrevistadas relatou não ter nenhum obstáculo a ser superado pelo fato de ser mulher. Por esta razão, considerei para esta primeira parte da análise o título "paraíso feminino", referindo-se a um suposto paraíso, construído por estas mulheres, talvez como uma das estratégias de sobrevivência utilizada por elas.
Eu não tive muita dificuldade não. Foi meio que natural. Aliás, eu me tornei líder aqui não foi nem porque eu quis, foi porque me escolheram. (Neusa, 32 anos, Coordenadora)
Esta fala inicialmente retratou para mim uma discrepância entre as dificuldades do ser mulher, do estar no feminino e, portanto, conviver com a assimetria imposta pela construção do binário feminino e masculino, com a qual muitas vezes me deparei nas diversas teorias estudadas. Ao contrário, a fala de Neusa aponta para a naturalidade com que a ascensão veio para essa mulher. Parecia, nesse momento, que as teorias sobre as diferenças de gênero estavam muito distantes desta realidade. Ao declarar a naturalidade do sucesso na carreira, a
entrevistada se coloca como se este sistema de valores que enfatiza o masculino não fizesse parte da sua realidade, e para mim, naquele momento, era uma incongruência entre os discursos e o curso "natural" da vida das mulheres. No entanto, ao longo da minha pesquisa, para entender a posição destas mulheres, procurei analisar as entrevistas em seu conjunto, e ao fazer isso, deparei-me com contradições que me ajudaram a desvendar os mecanismos e estratégias utilizadas por estas mulheres para conviver com esta realidade.
As reflexões de Rita Segato (2003) me ajudaram a entender que esse posicionamento não está necessariamente desvinculado da realidade de segregação das mulheres, mas ao contrário, essa posição de recusa é que sustenta e apoia estas mulheres para se sobressaírem em um meio de opressão. Segundo a autora, esta recusa em se colocar no lugar de dor é chamada de "drible da culpa", onde as mulheres, para se manterem no feminino constroem e criam mecanismos que as ajudem a não se identificarem com a posição de sofrimento. Durante as entrevistas, foi possível observar, como uma das estratégias utilizadas por elas, a negação da posição de sofrimento tanto nas falas quanto na própria postura das líderes que muitas vezes se mostravam surpresas com o tema do estudo, reiterando uma posição de escusa quanto aos caminhos trilhados pelo feminino.
Ser mulher não teve nenhum problema. Hummmm, sabe que eu nunca pensei por esse fato de ser mulher. Eu sempre achei que foi a mesma coisa, entendeu. Tanto faria se fosse mulher ou homem. (Raquel, 32 anos, Coordenadora)
No discurso de Raquel, percebemos claramente que a entrevistada faz questão de reforçar sua crença em condições de igualdade, como se a dominação de um sexo sobre o outro fosse apenas um mito que jamais a atingiu nas diferentes esferas da vida. Ela ainda enfatiza o fato de nunca ter pensado sobre isso e argumenta:
Se pra eles fez diferença o fato de ser mulher eu não sei, porque pra mim não importa. Eu não me deixo abater, ai eu sou mulher e vou mandar num monte de homem. Até porque são 15 homens. (Raquel, 32 anos, Coordenadora)
Vale ressaltar que cada coordenador é responsável pela contratação e formação de sua equipe. Nesse caso, curiosamente, a líder Raquel, cujo discurso afirma não ter se preocupado com o fato de liderar uma equipe quase toda composta de homens, possui apenas 5 mulheres na sua equipe, num total de 20. No entanto, afirma que nunca parou para pensar nisso.
Outro aspecto que chama a atenção neste discurso diz respeito a uma suposta voz masculina expressa na fala: "ai eu sou mulher e vou mandar num monte de homem". Nesse caso, a líder reduz os 15 homens sob seu comando à condição de subalternos, o que nos remete à típica reprodução das relações de poder, onde, segundo Bourdieu (1998), essas relações podem ser consideradas como um campo de lutas entre detentores de poderes diferentes; um espaço de jogo, cujos agentes, por possuírem determinado capital cultural, ocupam posições dominantes e afrontam-se em estratégias destinadas a conservar ou a transformar essa relação de forças. No que tange às desigualdades de gênero vivenciadas nas organizações, é possível sugerir que a distribuição dos cargos nas organizações do trabalho pode representar uma aliança entre a dominação e a exploração das mulheres trabalhadoras, onde, mesmo à margem da dominação masculina, elas agem para alcançar possíveis benefícios advindos dos jogos de poder. (BOURDIEU, 1999a). Desta forma, ao assumir uma posição de comando, a líder se vê na posição de dominação e reforça o fato de não se abater por isso, procurando demonstrar segurança ao assumir a posição inversa, a de dominação.
Ainda, quando questionada a respeito das diferenças na forma de gerir homens e mulheres é possível perceber que, agora sim, as diferenças são colocadas à prova.
As vezes a mulher fica mais resistente, não sei se por desejar estar naquele lugar, mas acho que quando uma mulher pede, o homem atende com mais facilidade do que quando você pede para outra mulher. O homem é mais obediente. (Raquel, 32 anos, Coordenadora)
Esta fala expõe aquilo que até então tinha sido ignorado, a diferença no tratamento entre o masculino e o feminino. Ao mesmo tempo em que a pesquisada diz não se preocupar com o fato de ser mulher, ela aponta para determinadas "facilidades" do ser mulher e põe em evidência a questão da resistência das mulheres a outras mulheres. Assim, sob esse ponto de vista, é possível inferir que mesmo vivenciando uma posição que nega a existência de diferenças, elas estão presentes. O fato das mulheres terem se colocado nessa posição pode
estar também relacionado ao próprio desejo de que as representações sociais sobre as relações de gênero não atuem de maneira decisiva no percurso de suas carreiras. Essa é uma manobra que, além de driblar o preconceito, pode ser impulsionadora para conquistar uma posição de destaque dentro de um mercado e uma área que prioriza o masculino. Segundo os autores Guimarães e Georges (2009), o sentido dado a algumas representações nas carreiras consideradas femininas e masculinas pode representar uma grande diferença no alcance dos resultados. Assim, estas mulheres, visto que atingiram um cargo de chefia na organização, estão munidas de diferentes manobras que fizeram com que suas vidas, em alguma instância, fossem diferentes.
[...] não tive nenhum problema, pois foi indicação de outra mulher (risos). Nenhuma dificuldade porque para a empresa era conveniente que eu assumisse, eles estavam perdendo o coordenador e eu precisava de outro lugar. (Carol, 34 anos, Gerente)
A fala de Carol denuncia uma das incoerências desse discurso acerca da encantadora vida das mulheres na organização. Ao mesmo tempo em que relata não ter enfrentado dificuldade alguma para conquistar o cargo que ocupa atualmente e que, até o momento, é o mais alto cargo ocupado por uma mulher, ela zomba do fato de ter sido indicada por outra mulher, e ainda complementa apontando a posição de conveniência da empresa. Sua indicação não é associada em nenhum momento ao fato de merecer esta função, conquistada pela sua dedicação ou habilidades. Esse discurso traz uma reflexão acerca da condição subjugada destinada às mulheres, onde seu sucesso é atribuído à solidariedade da colega ou à necessidade da empresa, mas se mostra titubeante ao assumir seu mérito. O próprio riso que segue a fala da entrevistada parece reforçar o fato de que este não é um acontecimento natural, denunciando contradições entre o discurso e o ambiente permeado também pelas desigualdades de gênero.
O domínio do patriarcado aparece em todos os ambientes sociais, não necessariamente como discriminação aberta. Ele está entranhado na organização sexual hierárquica que assegura os privilégios masculinos e mantém as desigualdades entre mulheres e homens. Essa visão é encarada como “natural” na nossa sociedade, e a crença da inferioridade feminina ocorre muitas vezes de maneira silenciosa e discreta, mas nem por isso, menos grave. (SEGATO, 2003). Nós, mulheres, fomos construídas pelo discurso da feminilidade e a assimetria de gênero está impregnada em nossas ações, no mundo que nos cerca. Assim, a
entrevistada, embora não tenha verbalizado a questão da diferença, demonstra conhecer essa realidade e, portanto, atribui de certa forma a facilidade na ascensão, pela ajuda recebida de outra mulher, um ser do mesmo sexo, que convive na mesma posição de opressão. (FISCHER; MARQUES, 2001).
Segundo Pereira e Bensusan (1998), a solidariedade entre os oprimidos é uma virtude que pode motivar a ação. Assim, os oprimidos desenvolvem uma capacidade de ver além das regras, virtude que o opressor não consegue desempenhar, pois precisa se manter na estrutura opressora para garantir que as coisas continuem como elas são. Sob esse ponto de vista, a ênfase no exercício da solidariedade pode também fazer parte das manobras utilizadas por essas mulheres para se manterem nesse ambiente masculino e não sofrerem com a assimetria de gênero presente nas diferentes esferas do trabalho e da vida.
No entanto, embora quase todas as entrevistadas tenham apresentado discursos semelhantes quanto à falta de obstáculos na ascensão, o discurso de uma delas chama a atenção para uma realidade bastante corriqueira no mundo das organizações:
Foi muito tranquilo, tive o apoio de todos, tanto dos meus chefes quanto dos meus subordinados, agora para assumir os cargos acima do meu, acredito que o sexo feminino seja um fator impeditivo na minha área. A empresa ainda é muito machista. (Sofia, 35 anos, Gerente)
Sofia aborda um tema pouco comentado entre as mulheres da organização: embora haja líderes mulheres, essas jamais alcançaram o topo da organização. Esse discurso me fez pensar nas barreiras invisíveis, encontradas diariamente no ambiente organizacional como forma de segregação ao feminino, e que se manifestam de maneira sutil, como o fenômeno do “teto de vidro”. Essas barreiras transparentes, concretas, mas quase invisíveis dificultam e bloqueiam a ascensão das mulheres a níveis hierárquicos mais altos. (STEIL, 1997). Essa é uma realidade que atinge o mercado global e a própria organização pesquisada, cujo quantitativo de mulheres da área de TI que assumiu cargos acima do posto de gerente é igual a zero. Portanto, parece que, de modo geral, as líderes estão verdadeiramente crentes de que a disputa pelos cargos de chefia são realizadas em posição de igualdade, pois reconhecer uma barreira pode significar contato com esse sofrimento, com a assimetria denunciada apenas por uma das entrevistadas. Negar uma posição inferior, nesse caso, significa negar
qualquer diferença e considerar que há uma disputa igual, com chances iguais, o que pode produzir nestas mulheres uma força para o sucesso. Vale a pena ressaltar que o fato da mulher tentar se colocar numa posição de igualdade, por si só, já mostra que há uma posição de subordinação, pois somente aquele que está numa posição inferior é que precisa se esforçar para a igualdade. (SEGATO, 2003). Ainda, de acordo com a distribuição dos cargos de chefia na organização, é importante destacar um fenômeno abordado por Fonseca (2000), onde a perpetuação do poder masculino pode ser observada no mundo do trabalho quando os chefes do sexo feminino respondem, na maioria das vezes, a superiores do sexo masculino e, portanto, estariam numa posição de ressonância do poder. No caso da organização pesquisada, essa ressonância do poder está presente em todos os cargos de chefia na área de TI.
Ao investigar ainda sobre as dificuldades na carreira, questionei se o "ser mulher" era considerado um obstáculo ou um trampolim para sua ascensão, e, para minha nova surpresa, elas foram consideradas por muitas como um trampolim.
Trampolim porque eu percebo que as mulheres têm mais facilidade pra lidar com pessoas, e pelo menos o meu perfil assim mais calmo, aí eu consigo lidar bem com essas situações, entendeu? Eu acho que isso facilitou demais. (Neusa, 32 anos, Coordenadora)
As entrevistadas se colocam, agora, numa posição privilegiada, onde o perfil feminino seria um aliado para galgar cargos de chefia, no entanto, o discurso seguinte apresenta uma contradição:
É, acho que foi mais um trampolim sabe, porque é difícil ter coordenador de projetos, as pessoas não querem muito a área de coordenação, então quando você mostra a vontade de ser coordenadora eles investem bastante aqui na empresa, sabe. (Catarina, 37 anos, Coordenadora)
Seria o perfil feminino um aliado das mulheres ou este é um cargo que não desperta o interesse dos homens? E, portanto, a concorrência não seria desleal na questão feminino e masculino, afinal, nesse caso não haveria verdadeiramente uma disputa de gênero. Ou ainda, segundo Kon (2002), o mercado de trabalho vem se tornando um pouco mais flexível com a
entrada das mulheres, onde muitas empresas optam pela substituição do trabalho masculino pelo feminino (quando possível), com o objetivo de diminuir os custos da organização, pois as mulheres, embora no mesmo cargo, recebem salários menores. Um outro motivo é que, frequentemente, as empresas têm usado diferentes modelos de contratação, em tempo parcial ou temporário, e as mulheres, na maioria das vezes, adaptam-se a esses modelos de contrato, uma vez que, para conciliarem a profissão e o cuidado dos filhos, submetem-se a essas condições para voltar ou permanecer no mercado de trabalho. Sob esse ponto de vista, os estereótipos femininos serviriam de suporte para as decisões estratégicas de organizações que reproduzem esse sistema de subordinação de gênero.