Esta pesquisa buscou compreender as possíveis influências da trajetória de vida e das emoções dos terapeutas familiares sistêmicos em sua escolha e atuação profissional. Buscamos entender também como estes profissionais são afetados por seu trabalho. Para isto, tivemos a ajuda de colegas, também terapeutas de família, que através de entrevistas e de relatos escritos, contaram-nos como foi a sua história familiar e trajetória de vida. Ao longo deste estudo, buscamos relacionar suas histórias com o seu estilo de atuação, investigar se as participantes reconhecem as emoções suscitadas pelos atendimentos e compreender quais as ressonâncias deste percurso na sua prática clínica hoje. Ao finalizar este trabalho, destacamos alguns pontos que consideramos relevantes.
Primeiramente acreditamos ser um dado significativo e importante a ser levado em consideração o fato de percebemos uma dificuldade grande dos psicoterapeutas convidados a participar da pesquisa, quando ficava claro que a entrevista era para que contassem sobre a influência de sua história de vida e de suas emoções no seu trabalho. Alguns profissionais que já haviam aceitado participar, ao serem informados dos tópicos que guiariam a entrevista, ligaram desistindo, sendo que alguns deles justificaram a desistência dizendo: “pensava que era para falar de meu trabalho e não para falar de minha vida, pois não quero me expor”. Isto, mesmo depois de assegurado sigilo sobre suas identidades e sobre quaisquer dados que pudessem identificá-los.
Isto nos faz inferir que os terapeutas familiares sistêmicos evitam expor-se, por não terem certeza de que estão usando suas emoções a serviço do sistema que estão atendendo, dentro do processo terapêutico. Estes profissionais, ao optarem por uma abordagem que não vê possibilidade de neutralidade e objetividade no processo terapêutico, uma vez que a realidade não pode ser vista como independente do observador (GRANDESSO, 2000), e apesar de se disporem a usar o seu self como um elemento capaz de auxiliá-los no processo terapêutico, nem sempre estão seguros de usarem estas ferramentas de maneira adequada ou de as estarem usando a serviço do sistema em atendimento. Neste sentido, entendemos que, para alguns profissionais, fazer parte de uma pesquisa realizada por um colega também terapeuta, que se propõe a compreender como estas emoções são usadas nos atendimentos, desperta um sentimento de “estar sendo avaliado” na sua competência clínica por outro colega, o que causa desconforto.
Nesta pesquisa, houve uma dificuldade de aprofundamento dos aspectos relacionados ao tipo de emoções que os atendimentos despertam nos terapeutas. Acreditamos que isto aconteceu devido aos instrumentos utilizado e compreendemos que isto poderia ser evitado se tivéssemos usado outro tipo de instrumento além da entrevista semi-estruturada. Em relação ao relato escrito da trajetória de vida, percebemos que, por ser um instrumento que proporciona maior possibilidade de elaboração da linguagem, este foi elaborado pelas participantes com pouco aprofundamento dos aspectos emocionais. Acreditamos que estes elementos seriam explorados de maneira mais adequada, com um grupo focal, por exemplo, já que este proporcionaria buscar informações específicas, no caso, as emoções que são despertadas nos profissionais durante os atendimentos. Por outro lado, o fato de termos escolhido algumas pessoas que possuíam um vínculo anterior com a pesquisadora possibilitou que as entrevistadas se sentissem confiantes para se expressarem livremente, o que facilitou este aspecto da pesquisa.
Na opinião das profissionais entrevistadas, as habilidades pessoais do terapeuta (adquiridas com a experiência de vida e profissional, trabalho de self e supervisão) para utilizar suas emoções e trajetória de vida a serviço do sistema em atendimento, estão diretamente relacionadas com o bom andamento dos casos atendidos, configurando-se numa importante ferramenta a auxiliá-los na construção do processo terapêutico.
Ao nos debruçarmos sobre a análise dos dados obtidos na primeira Zona de Sentido desta pesquisa, percebemos que os achados decorrentes desta corroboram com clareza as ideias dos autores que construíram as teorias sobre o processo de formação identitária, dentro da perspectiva estudada neste trabalho. As ideias de Bowen sobre a transmissão transgeracional (1991) e de Minuchin, (MINUCHIN,1982; MINUCHIN; FISHMAN, 1990, MINUCHIN; LEE; SIMON, 2008) sobre a importância da família de origem e de sua estrutura na construção da identidade dos indivíduos aparecem intensamente nos relatos das participantes.
Os dados obtidos nos revelam que a escolha profissional, por fazer parte do processo de formação de identidade do indivíduo, é influenciada pela dinâmica da família na qual a pessoa está inserida. Nesta dinâmica, estão incluídos não só as características de cada membro, mas também os mitos, as crenças e os legados familiares, transmitidos transgeracionalmente e que se constituem em elementos invisíveis de transmissão da história e da identidade familiar, perpassando várias gerações (FALCKE; WAGNER, 2005). As experiências vividas no contexto familiar, segundo as autoras, ficam gravadas como se fossem
vozes no interior do indivíduo, influenciando suas escolhas profissionais (entre tantas outras), mesmo que o indivíduo não perceba esta influência.
Como a família está inserida num contexto maior, também os processos sociais e culturais são mediadores da construção da identidade do indivíduo. Neste sentido, apesar de alguns fatores da dinâmica familiar dificultarem esta construção, as interações da família no contexto sócio-cultural podem contribuir na modificação destes padrões relacionais, possibilitando ao indivíduo mudar a sua história ao longo desta construção.
Nesta pesquisa, verificamos que apesar de existirem alguns elementos na dinâmica familiar das participantes que dificultam o processo de formação da identidade como, por exemplo, o processo de parentalização sofrido por algumas delas, outros fatores, como a coesão familiar e suas redes sociais pessoais, contribuíram para que desenvolvessem competências e habilidades de superação das adversidades.
Isto significa que os padrões transgeracionais de cada família podem facilitar ou dificultar o desenvolvimento da identidade de seus membros. Porém, os indivíduos não são simples reféns dos padrões de interações de sua família, numa relação linear de causa e efeito. São também sujeitos de sua vida, na medida em que tomam conhecimento de sua história familiar e dos padrões relacionais de suas famílias e na medida em que interagem com outros sistemas, influenciando e sendo influenciado por estes.
Nossas entrevistadas, por exemplo, ao desenvolverem as habilidades de cuidadoras, que mais tarde foram decisivas na sua escolha pela profissão de terapeutas, estavam sob a influência de elementos da dinâmica familiar na qual estavam inseridas, mas também de outros elementos que proporcionaram que desenvolvessem a capacidade de superação de adversidades, fato que possivelmente fez com que estas pessoas encontrassem em uma profissão que demanda cuidado com o outro uma saída positiva para as adversidades que precisaram enfrentar.
Retomando os objetivos propostos nesta pesquisa, podemos concluir que a influência das vivências e dos vínculos estabelecidos nas famílias de origem dos terapeutas é um elemento importante de interferência tanto na escolha profissional destes como também na sua prática clínica. Estes elementos são, muitas vezes, mapas utilizados pelos terapeutas como recursos para auxiliá-los no entendimento e na relação que estabelecem com as famílias no setting terapêutico.
Partindo da premissa básica do enfoque sistêmico, na qual buscamos um entendimento circular da realidade, percebemos que, assim como a história pessoal do terapeuta influencia na qualidade de seu trabalho, este também influencia na qualidade de vida do terapeuta. As
profissionais entrevistadas, uma vez que se consideram seu próprio instrumento de trabalho, acreditam que o componente emocional é muito importante na tarefa terapêutica e que a capacidade de usarem suas emoções no trabalho deve ser almejada, sempre que estiver a serviço do cliente. Sabem também da importância de aprimorar a forma de utilização destes recursos durante sua formação, desenvolvendo, com isto, um estilo pessoal em que possa haver uma integração do self com as teorias e técnicas aprendidas.
Porém, todas as participantes foram unânimes em afirmar que não tiveram, durante a graduação, subsídios para o desenvolvimento do self como instrumento de trabalho, o que só foi desenvolvido e valorizado na especialização. Assim, é por meio da supervisão e de terapia pessoal que o terapeuta encontra recursos e preparação técnica para lidar com as demandas dos sistemas em atendimento, embora nem todos os profissionais tenham condições financeiras para isto.
Por outro lado, algumas demandas de contextos socioeconômicos e culturais distintos, como as famílias que vivem em situações de pobreza extrema, exclusão social e as famílias com dinâmicas abusivas, não dependem exclusivamente da competência do terapeuta para serem bem conduzidas. Algumas destas situações, como as situações de violência e abuso sexual, por exemplo, muitas vezes provocam ressonâncias e exigem do terapeuta um maior comprometimento emocional e pessoal ao mesmo tempo em que este dispõe de poucos recursos, menor preparação técnica e pouca motivação para o trabalho de conhecimento de si (SANTI, 1996). Então, acreditamos que uma alternativa possível seria as instituições que oferecem cursos de graduação proporcionar mais espaços e ferramentas adequadas para o desenvolvimento de self de terapeuta.
Por último, vale salientar que as participantes desta pesquisa, uma amostra de conveniência, não retratam a realidade de todos os terapeutas, uma vez que a maioria dos profissionais entrevistados trabalha em clínicas privadas, ficando muitas vezes longe da realidade social da maioria da população e buscaram (através de supervisões, processo terapêutico pessoal, trabalho de self de terapeuta) um aprimoramento constante de seus recursos pessoais, como uma ferramenta de trabalho. Mesmo assim, acreditamos que este estudo possibilitou-nos entender melhor as questões levantadas no início desta pesquisa, referentes ao modo como as emoções e a trajetória de vida dos terapeutas, que trabalham com a abordagem sistêmica, influenciam em seu trabalho. Neste sentido, esta pesquisa pode contribuir no campo da terapia familiar para que seja feita uma reflexão no âmbito da graduação sobre a formação dos terapeutas.
Fica então o desejo de continuar buscando novas perguntas e novas respostas. Dentre elas, saber de que maneira as universidades estão incluindo na graduação em Psicologia, a questão da formação do self do terapeuta como instrumento de trabalho.
Sabemos que o trabalho terapêutico é apaixonante e, ao mesmo tempo, expõe os profissionais cotidianamente a interações que provocam uma dose significativa de ansiedade e, muitas vezes, desesperança. O que enriquece a vida profissional do terapeuta são suas histórias e experiências de vida, as emoções que estejam em jogo em sua tarefa, além dos marcos teóricos e da rede profissional da qual fazem parte (GALFRÉ; FRASCINO, 2010). No entanto, todos estes suportes de sua profissão chegam ao cliente através da pessoa do terapeuta.
O contato com as histórias de vida das participantes deste estudo, bem como com as ideias dos autores aqui estudados, deixaram para a pesquisadora a convicção da importância da valorização das experiências de vida do terapeuta em sua singularidade como instrumento de trabalho, possibilitando que o contexto terapêutico seja um espaço de co-criação, enriquecido pelos recursos de todos os envolvidos neste processo. Então, cabe ressaltar que o olhar para estas questões pessoais e a necessidade dos profissionais estarem constantemente fazendo uma auto-reflexão, longe de desatender o trabalho clínico, só vem a contribuir para a melhoria de sua qualidade.
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