• No results found

1.1 R ATIONALE FOR THE S TUDY

1.1.1 The Need for Quality Education

Ao longo da minha pesquisa, vivenciei diversas situações que evidenciam as questões de gênero na relação com o mundo marcado pelo androcentrismo. Trabalhar em uma empresa de tecnologia da informação significa conviver com um quantitativo masculino muito grande, afinal de contas, essa seria uma área destinada para eles, senhores da razão. Mas, as mulheres existem por lá, em minoria, claro, principalmente se observarmos a pirâmide hierárquica: elas não têm representatividade no topo, nos cargos mais prestigiados como Presidência, Vice- presidência ou Diretoria. Essas mulheres, que inverteram o percurso de suas vidas ao decidirem ingressar e permanecer nessa lógica masculina, podem ser vistas do meio da pirâmide para baixo. Algumas, poucas, atuam em cargos de gerência e outras, como coordenadoras de projetos. Assim, como observadora/participante desta realidade, durante três anos em que atuei na área de Recursos Humanos dentro da empresa pesquisada, relato em dois momentos situações que presenciei e que, do meu ponto de vista, refletem as representações dos trabalhadores no que tange às questões de gênero.

4.1.1 Encontro marcado

Em um dos meus primeiros dias de trabalho na empresa, em uma manhã onde tudo parecia naturalmente certo, encontrei no elevador uma figura importante da empresa, daquelas que a gente só sabe quem é porque alguém já mostrou a foto, e a situação desconfortável de silêncio no elevador foi quebrada pela pergunta dele: “ Você trabalha aqui? Onde? É casada? Tem filhos?”. Chegamos ao nosso destino com todas as respostas e seguimos nossos diferentes percursos dentro da empresa. Julguei a figura importante muito educada e até comentei com as colegas sobre o casual encontro. Curiosamente, todas elas já tinham vivenciado situações semelhantes e passado pelos mesmos questionamentos. Concluímos, inicialmente, que aquele era um repertório “modelo”, daqueles usados para quebrar o gelo. Mas, com o passar dos tempos, sucessivos encontros acabaram acontecendo, alguns comigo e

outros, com diversas colegas do sexo feminino. Para nossa surpresa inicial, todas as vezes em que os encontros aconteceram, sejam eles no elevador, na sala de trabalho ou em reuniões de negócio, as conversas iniciais eram sempre a respeito da família, dos filhos, como se esse fosse realmente um assunto sobre o qual as pessoas ali tivessem um grande interesse. Passamos a compartilhar umas com as outras os comentários realizados e, com o tempo, começamos a contar o número de vezes que ouvíamos frases tais como: “Tá cansada? O filho não dormiu à noite?”, ou então: “Por que ainda não tem filhos? Ah, o trabalho é sempre uma desculpa para adiar os filhos.”, a partir da constatação de que esse era um assunto relembrado em todos os encontros com figuras importantes, passamos a prestar mais atenção aos olhares "pecaminosos", murmúrios e fofocas que contavam os casos e acasos de protagonistas homens, executivos, protetores e sérios, e mulheres, provocantes, protegidas e “sem vergonha”. Esses comentários foram partilhados por muitas mulheres, de todos os níveis hierárquicos, e a sensação era sempre a mesma: “Somos vistas como mulheres, fêmeas, sedutoras, esposas e mães, mas nunca como profissionais!”. Assim, nossos encontros de trabalho eram marcados sempre por uma lembrança: “A mulher precisa, antes de qualquer coisa, ser relembrada de que acima de tudo é esposa e mãe. Depois disso... ah, depois disso, podemos pensar em começar a falar de trabalho.”.

4.1.2 Com que roupa eu vou?

Certa vez, planejamos um curso de gestão de pessoas para os líderes técnicos de determinada área da empresa. Como o assunto nesse meio é tecnologia, seres humanos e como lidar com eles, não parece ser um tema de grande interesse nessa área. Após duas tentativas frustradas por falta de quórum, na terceira tentativa, sob ameaças de punição, lá estavam eles, os líderes, mulheres e homens, coordenadores e gerentes de projetos. Nesse dia, embora elas sejam minoria na empresa, no curso estavam em maior número. Eu era a instrutora do curso e, logo ao iniciar, no primeiro slide da apresentação, fomos interrompidos pelo protesto de uma líder a respeito da figura apresentada no slide. A figura mostrava uma mulher abaixada aos pés de um homem. A líder, indignada, fala da discriminação e preconceito impostos pelo desenho. Vale ressaltar que esta figura é parte do modelo-padrão de apresentações institucionais distribuído pela empresa para que todos os colaboradores utilizem em suas apresentações. Todos ouviram, alguns debocharam, algumas concordaram,

mas, sob a justificativa de ser um padrão institucional, prosseguimos. Durante os dois dias seguintes, o curso foi palco de algumas cenas no mínimo curiosas. Ao abordar sobre aspectos importantes para seleção de candidatos, entramos no assunto ciúmes, e claro, nas relações entre homens e mulheres no ambiente de trabalho. A líder que se posicionava outrora contra a submissão da mulher, agora, falava abertamente sobre os problemas que enfrentava com seus subordinados do sexo masculino. Relatava que várias vezes seus subordinados do sexo masculino se queixavam de que suas esposas estavam com ciúmes da líder, pelo fato de eles, muitas vezes, ficarem até mais tarde no trabalho ou participarem de reuniões com ela. Indignada com tais comportamentos das esposas, justificava-se que sua forma de trabalho para evitar tais desconfortos consiste em procurar ao máximo se parecer com eles, nos assuntos, nos comportamentos e na forma de se vestir. Ela argumentava acreditar que o fato de agir de maneira mais masculinizada poderia ser um artifício a seu favor na liderança, pois esse comportamento, no seu ponto de vista, gerava uma aproximação com os subordinados do sexo masculino. No entanto, ela percebia que, mesmo assim, esse comportamento não continha a fúria de algumas ciumentas esposas. As declarações da líder serviram como um fermento nos participantes do sexo oposto. Ficaram um tanto quanto surpresos e cada um fez questão de comentar que, em geral, eles não possuem este tipo de problema em suas equipes. Complementaram ainda que, as únicas vezes que tiveram problemas com situações de ciúmes, foram devido ao fato de que algumas mulheres não se deram ao respeito. Incitei-os a me exemplificarem o que seria considerado como falta de respeito e ouvi deles o fato de que, muitas vezes os rumores/ciúmes acontecem porque uma mulher está usando um decote, uma roupa mais provocante, sai para almoçar com os colegas ou fica muito íntima deles. De acordo com os líderes homens e também do ponto de vista de algumas líderes mulheres que ali estavam, esses "comportamentos" geram olhares, comentários, "apreciação" e, consequentemente, situações de ciúmes entre os casais naquele ambiente. Dito isso, seguimos os tópicos do curso, e a vida seguiu seu caminho. No entanto, até hoje, todas as vezes que eu tenho um compromisso de trabalho, eu me pergunto: “Com que roupa eu vou? Que roupa devo usar? Como devo me comportar?”, mas, talvez ninguém mais, além de mim, lembre-se deste e de tantos outros episódios, cenas de milhares de mulheres na frente de espelhos todas as manhãs, preocupadas em reproduzir suas identidades "naturais".