Maria tem 32 anos, é casada, é a filha mais velha de duas irmãs, não tem filhos e nasceu na Região Sudeste do Brasil. Sua infância foi marcada por uma mudança muito significativa para ela. Toda a sua família era de São Paulo. Havia um contato muito próximo com os avós e os tios. Porém, a família mudou-se para a Região Sul do país quando ela completou três anos de idade. Segundo ela, esta mudança, que coincidiu com o nascimento de sua irmã, determinou o fato de sua família nuclear ser muito “fechada”. Sua mãe, que trabalhava em São Paulo, com a mudança de cidade e o nascimento das filhas não retomou seu trabalho, dedicando-se a cuidar das crianças e da casa.
Maria percebeu uma grande diferença cultural com a mudança de estado. Ao brincar na pracinha, logo que chegou, não entendia o que as outras crianças falavam. Foi matriculada numa escola judaica, embora a família fosse católica. Há 30 anos atrás, segundo ela, a cidade onde reside era muito “formal”, com pessoas muito fechadas e isto fez com que sua família também se fechasse muito, vivendo os quatro uma relação muito intensa. Além disso, sempre sentiu-se muito “convocada” pela família (embora não explicitamente), para ser a companheira da mãe. Aquela que segurava firme e precisava se virar e dar conta de fazer as coisas sozinha, já que sua mãe estava ocupada com o bebê. Acredita que isto gerou um conflito entre ela e sua mãe, já que sente personificada nela esta exigência de resolver os seus problemas sozinha. Além disto, observa que passou por situações de angústia ou dificuldades
na adolescência por não se permitir dividir seus conflitos ou problemas com os pais, pois sentia que era este o comportamento esperado por eles. Percebe que esta postura não era explícita no discurso. Ao contrário, diziam estar sempre abertos a ouvi-la. Porém, isto não era percebido por ela desta maneira, que não os sentia disponíveis para ouvi-la ou entendê-la.
Segundo ela, muitas características pessoais derivam das situações vividas, da diversidade cultural que marcou sua infância e da relação familiar.
Maria diz ter tido muitos “probleminhas” físicos na infância. Teve que usar óculos logo depois da mudança de cidade e nascimento da irmã, era gordinha e tinha o pé chato. Nunca foi a esportista da família. Sua irmã era magrinha, então acabou sendo o “cabeção” da família. Dedicou-se aos estudos, era esforçada, estudava muito e sempre tirava ótimas notas. Era rodeada de amigos, mas nenhum muito próximo. Pensa que o fato de sua irmã ser mais parecida com os pais e ter um comportamento mais condizente com o deles, proporcionava mais facilidades para ela. Sempre achou-se um “ET” dentro de casa, no seu jeito de ser, nas suas prioridades e no fato de ter muitos amigos. Na verdade, não tinha amigos íntimos, mas tinha vida social intensa. Nunca foi de compartilhar coisas íntimas com as pessoas. Era retraída e só depois, na adolescência, é que aprendeu a compartilhar suas ideias e sentimentos com os amigos. Lembra de, apesar de sentir-se muito cobrada em termos de comportamento e cumprir com as exigências, não sentir a confiança dos pais. Achava injusto ter sempre um bom comportamento, ser ótima aluna, cumprir com as expectativas dos pais e isto não lhe proporcionar regalias, como ficar até mais tarde numa festa, por exemplo. Sentia isto como uma desconfiança e isto a fazia se retrair e a estimulava a buscar sua independência. Ser adulta para ela era ser independente financeiramente, ter as suas coisas, ganhar o mundo e viver a sua vida sem ter que dar satisfações. Para seus pais, não havia problema em Maria fazer uma poupança com o dinheiro que ganhava trabalhando, ao invés de gastá-lo com seu sustento. Para ela, pagar suas próprias despesas era fundamental.
Fez graduação em Psicologia visando ser terapeuta. Diz que não teve crise para escolher sua profissão. Gostava de gente, procurava entender o comportamento humano, buscava compreender as diferenças no modo de cada um agir e sempre foi muito curiosa. Outra característica que considera fundamental para a escolha da profissão de terapeuta é que sempre procurou colocar-se no lugar do outro. Acredita que daí a escolher ser psicóloga foi um passo. Na época de sua escolha profissional, o entendimento que possuía sobre a profissão era de que ser psicóloga significava ser terapeuta, então nunca teve dúvidas do que queria ser. Relata que teve um fato marcante na época de sua escolha profissional. Lembra-se de sua mãe e de sua tia um pouco frustradas com sua escolha, fazendo o seguinte comentário:
“Mariazinha, você vai passar o resto da vida dizendo: sim, doutor. Não doutor!”, numa referência ao fato de considerarem esta profissão subordinada à medicina.
Na universidade que escolheu para fazer o curso de Psicologia, antes do vestibular era preciso fazer uma seleção que incluía entrevistas, dinâmicas de grupo, testes psicométricos e de personalidade, popularmente conhecida como “psicotécnico”. Sua mãe então decidiu que já no primeiro semestre do terceiro ano do ensino médio, ela faria a seleção. Foi reprovada, pois a psicóloga que a avaliou, considerou-a ainda imatura para a profissão. Isto lhe causou uma grande frustração, pois ser terapeuta era seu maior sonho. A própria equipe que fez a avaliação na universidade, sugeriu que fizesse terapia e indicou uma terapeuta da linha psicanalítica. Maria diz que esta experiência foi um caos, um sofrimento para ela, pois não sabia o que falar nas sessões e, além disso, este processo coincidiu com seu primeiro namoro, novas vivências e descobertas, então percebia que a terapia estava totalmente dissociada de outras coisas de sua vida. Interrompeu a terapia e só retomou quando já estava fazendo Psicologia. Percebe que esta foi sua primeira experiência terapêutica “de verdade”, pois foi uma escolha sua, sendo muito enriquecedora para sua vida. Maria diz não acreditar num terapeuta que não tenha passado pelo processo terapêutico. Acha fundamental que o profissional desta área tenha interesse em olhar para si e entender de que maneira as coisas o afetam e qual o impacto “das coisas da vida, do mundo, no seu trabalho” .
Durante o curso, trabalhou com pesquisa e também, “apaixonou-se pela loucura”, pois toda a sua formação foi em doença mental. Acredita que toda a sua experiência clínica, durante a faculdade foi muito diferente do que é a prática clínica “aqui fora”; que sua formação clínica na faculdade foi muito pobre, “quadrada” e tradicional. Conheceu a abordagem Sistêmica na faculdade, através de um professor psicanalista que “achava um absurdo um atendimento com espelho, porque aquilo quebrava por completo os paradigmas da psicanálise”, então só se interessou realmente por esta abordagem depois que se formou. Ao terminar a faculdade, foi morar fora do país durante um ano para estudar espanhol. Ao voltar fez a prova de residência em Saúde Mental, sendo esta sua primeira experiência de trabalho depois de formada. Quando terminou a residência, trabalhou como AT (acompanhamento terapêutico). Logo a seguir, começou a trabalhar no departamento de assistência de uma instituição bancária que estava criando uma equipe de saúde da família, para atender aos funcionários. Estes trabalhos, juntamente com a residência em saúde mental, despertaram seu interesse em estudar as famílias, pois nos atendimentos percebia que existiam regras e maneiras de funcionar típicas de cada grupo familiar e acreditava que não possuía as ferramentas necessárias para um bom entendimento das dinâmicas familiares. Maria relata
que sempre investiu em sua formação. No início de sua atuação como terapeuta, buscou supervisão, continuou a fazer sua terapia pessoal e um tempo depois, iniciou sua formação em Terapia Familiar Sistêmica. Permaneceu quatro anos trabalhando nesta empresa de previdência privada. Ao sair desta instituição, casou-se e depois iniciou o trabalho em sua clínica particular, onde até hoje faz atendimentos individuais , de casal e de famílias.
Sua formação na abordagem Sistêmica, segundo ela, foi uma forma se reconhecimento de sua identidade de terapeuta. Identifica-se mais com a abordagem transgeracional e dos teóricos da Itália. Percebe que seu jeito de ser aparece no processo terapêutico e que suas emoções e sua história de vida são sua melhor ferramenta no trabalho terapêutico. Pensa que estar consciente deste material no momento dos atendimentos é a melhor forma de usá-lo adequadamente, a serviço da família ou da pessoa que está atendendo. Sabe por exemplo que determinadas situações que ocorrem nos atendimentos a mobilizam, pois provavelmente têm ressonância com dinâmicas da sua família de origem. Nestes casos, acredita ser fundamental ter consciência disso, para que as emoções suscitadas não sejam algo que provoque uma intervenção inadequada, como por exemplo, tentar transformar uma discussão de um casal em atendimento, em um processo mais tranquilo.
Acredita que a sua graduação (mesmo nas disciplinas da área clínica), não ofereceu suporte para que aprendesse a usar sua história e suas emoções como ferramentas de trabalho. Segundo Maria, quem lhe proporcionou isto foi o seu “percurso de vida”. Isto sim, segundo ela, influenciou no seu olhar sobre o mundo e na sua pessoa como terapeuta.
Sente-se afetada por seu trabalho de maneira muito positiva. Acredita ser uma grata surpresa estar hoje trabalhando somente com a clínica e tem a sensação de que isto foi um presente em sua vida, pois sente-se muito gratificada e preenchida pelo seu trabalho.