A STB continuou por alguns anos com essa estrutura e funcionamento: um leque avantajado de ofertas de práticas e atividades, divulgações do Daoismo por todas as vias que tinham condições, e num modelo de organização que distribuía funções e permitia o seu líder espiritual fazer viagens frequentes a Taiwan. No entanto, as viagens de Cherng não eram somente à fonte cultural do Daoismo, ele também realizou várias viagens pelo Brasil divulgando e ensinando as práticas e conhecimentos daoistas que sabia. A partir de várias fontes da própria STB buscamos agora traçar a tentativa de expansão realizada por Cherng e a
abertura da filial em São Paulo capital. As fontes são: o site oficial84, notícias, relatos de um membro antigo da STB (D8, 05/02/2015), a pesquisa de Murray (2010), e de artigos do Tao do taoísmo (Tao em expansão, n. 6, 2000; A força do princípio: nasce um templo em São Paulo, n. 11, 200285).
Como já falamos anteriormente, havia um plano por parte de Cherng de propagar o Daoismo no Brasil. Ele tinha uma forte característica de liderança. Sua forma de exercer liderança, como vimos, se deu principalmente pela atribuição de funções entre membros da STB. Assim, segundo D8 (05/02/2015), Cherng tinha ambições maiores, ambições expansionistas, e por isso distribuía tarefas: assim capacitava mais pessoas e ao mesmo tempo tinha tempo para ministrar cursos em outras cidades. Relataram-nos que há um estatuto da STB na sede do Rio, e que esse estatuto era “pesado” - com muitos detalhes e informações. Sendo que essa formatação do estatuto já foi feita pensando na abertura de futuras filiais ao longo do país. Este documento teria sido inspirado em estatutos de Maçonarias.
Conforme a STB foi se desenvolvendo, foi criado um corpo de sacerdotes e professores das artes daoistas, além de colaboradores. Cherng tinha alunos de várias regiões do Brasil, tanto em lugares que visitou como também por pessoas que iam ao Rio buscar seus cursos. As principais cidades onde circulavam estes ensinamentos e discípulos, por motivos histórico-culturais, foi no chamado eixo Rio/São Paulo. Mas, segundo o que me foi relatado, houveram aulas e cursos também em Florianópolis (SC), e em cidades do Pará. Temos conhecimento principalmente de um grupo na cidade de Santos, a partir de fotos e de uma conversa informal com uma pessoa que teve aulas sobre de textos daoistas com Cherng. Mas o único grupo que sabemos que existe até hoje é o grupo de São Paulo Capital, que daremos mais atenção agora.
As visitas de Cherng à São Paulo ocorreram a partir de um encontro dele com Maria Lucia Belloli. Ela era coordenadora da escola de tàijí quán chamada Estrela Felicidade, localizado na Rua Apinagés, 1350, bairro Sumaré. A data mais antiga que tivemos conhecimento da presença de Cherng foi em 1995, quando este já começou a realizar palestras e cursos sobre meditação, Dàodé jīng, filosofia e oráculo Yìjīng, e provavelmente de tàijí quán e qìgōng também. Cherng ensinava Yìjīng lá porque acreditava este conhecimento era uma das principais portas de entrada ao Daoismo (Murray, 2010; Tao do taoísmo, n.16, 2003,
84 Cf. http://sociedadetaoista.com.br/blog/sociedadetaoista/saopaulo/
85 Cf. http://sociedadetaoista.com.br/blog/sociedade-taoista/jornal-tao-do-taoismo/tao-em-expansao/ e
p. 10). Acreditamos que essa mesma lógica cabia para o Dàodé jīng e as práticas de tàijí quán, qìgōng e meditação, já que esses sempre foram a “linha de frente” da divulgação da STB.
Ao longo nos anos, com vindas regulares de Cherng, foram criados pequenos núcleos de pessoas interessadas. Percebendo o interesse, o sacerdote resolveu montar um altar daoista no espaço. Contudo, a dona do lugar disse que não queria um altar lá, pois queria que ali fosse somente uma escola de tàijí, e não um templo. Murray (2010, p. 26) chegou a ouvir sobre uma “mulher católica” que não queria o altar ali, sendo talvez a proprietária. Mas já que tanto Cherng quanto o grupo estava decidido a montar este altar, resolveram se mudar. Foram acolhidos por seis meses pela “Sociedade Evoluir”, enquanto procuravam outro lugar. Até que um casal de iniciados daoistas, Cecília, professora de Ikebana, e Shingo, médico, ofereceram uma parte de seu lugar de trabalho para o grupo.
Nesse novo espaço cedido pelo casal, na Rua Marinho Falcão, n. 38, Vila Madalena, houve um rito de consagração do primeiro altar daoista da STB em São Paulo (ver figura abaixo). O ritual contou com a presença de Cherng e mais três sacerdotes vindos do Rio. Após o ritual houve confraternização com outros alunos de Cherng do Rio e da cidade de Santos. Além disso, aconteceu também o lançamento, em São Paulo, do novo livro de Cherng, Iniciação ao Taoísmo volume 1 (2000). Nessa sede já começou a ter várias das ofertas da STB no Rio, como cursos e consultas de fēngshuǐ, Yìjīng, astrologia, medicina chinesa, filosofia daoista, tàijí quán, qìgōng, e meditação seguido de comentários ao Dàodé jīng. Bem como, ofertavam aulas de Ikebana, talvez por influência da pessoa que cedeu o espaço.
Figura 14: Altar da sede na rua Marinho Falcão. Tàishàng Lǎojūn no centro, e a Tríplice Transparência (Sānqīng) no quadro acima, além de flores e velas.
Entre esses primeiro encontros e mudanças de sedes, muitos conhecimentos práticas daoistas foram transmitidos por Cherng. Entre aulas mais técnicas e “filosóficas”, cantos e mantras daoistas começaram a ser usados. Bem como, noções e imagens de divindades começaram a ser mostradas ao público paulistano. Com o tempo, as pessoas notaram que entre tudo isso existia conexões lógicas, ou pelo menos cultural e simbólica. Isso tudo seria uma preparação a um objetivo mais específico e maior: O Daoismo “enquanto caminho de desenvolvimento espiritual. Este sim, o tronco central da proposta original de nosso Mestre”, conforme o então futuro sacerdote Wagner Canalonga (Tao do taoísmo, n. 11, 2002, p. 14).
Para que pessoas possam seguir o Daoismo como religião, ou, como preferem estes daoistas, como “caminho de desenvolvimento espiritual”, muitas vezes é necessário haver iniciações. Soubemos que houve um ritual de iniciação ao Daoismo guiado por Cherng em São Paulo. Foi uma iniciação grande, contanto com cerca de 40 pessoas, ao ano de 1999. Alguns dos principais nomes que até hoje ministraram aulas daoistas em São Paulo se iniciaram nessa ocasião. Segundo D8 (05/02/2015), ainda nessa época Cherng realizava um procedimento ritual de desvinculação do iniciado com sua tradição anterior: “Naquela época a iniciação que Cherng fazia, ele cortava com a tradição anterior. No processo mágico do ritual, ele cortava a relação. ‘Se você vai se iniciar no Daoismo, você não vai ser católico, não vai ser budista, você vai ser taoista’”.
Posteriormente, segundo a mesma fonte, Cherng notou que talvez esse não fosse um caminho interessante. Possivelmente isso ocorreu ao notar a resistência para começar a iniciação, e devido a um número significativo de pessoas que se afastavam da STB logo após: “Depois ele percebeu que isso daí é muito intenso e muito forte, para o público brasileiro que tem contato com um monte de religião. E gerava uma resistência do pessoal, ‘pô, não vou abandonar a religião anterior, para uma nova que não conheço’” (D8, 05/02/2015). Dessa forma, provavelmente já na virava de século, Cherng mudou sua perspectiva, e agora o vínculo ao Daoismo seria “acrescentado” ao iniciado, sem cortar os vínculos anteriores, conforme uma visão metaempírica de pertencimento às tradições religiosas.
Voltando ao desenvolvimento histórico do grupo de São Paulo, este grupo ficou nessa sede por uns meses. Até que, finalmente, conseguiram uma sede própria onde pudessem crescer em seus objetivos. Oficialmente para a STB, em 2002 foi aberta uma filial da STB em São Paulo, e também foi inaugurado o Templo do Tesouro do Espírito, ambas sob orientação de Wagner Canalonga (futuramente, sacerdote Kǎ nángǔ). Estavam localizados na Rua Ágata, n. 49, bairro Aclimação. Foi nessa época que começou algumas das atividades que existem até hoje quase exatamente no mesmo formato. Por exemplo: meditação aberta e comentários
ao Dàodé jīng nas segundas-feiras à noite; rituais de purificação mensais abertos ao público; a Semana do Tao que ocorre anualmente; e todas as outras atividades já citadas das sedes anteriores. Também houve iniciações nessa nova sede, que inclusive eram divulgadas no Tao do taoísmo, que tinha um espaço reservado às ofertas de atividades da filial de São Paulo (Cf. n. 14, 2002, p. 10; n. 15, 2003, p. 11; n. 16, 2003, p. 14).
Figura 15: Altar da sede na rua Ágata, n. 49, São Paulo. De cima para baixo: tàijí (Fronteira da Extremidade Sublime na tradução de Cherng), quadro da Tríplice Transparência (Sānqīng), Tàishàng Lǎojūn sentado num rinoceronte, Guāndì à esquerda, e Lǚ Dòngbīn à direita de quem está vendo o altar; abaixo e ao lado: instrumentos e oferendas.
Fonte: https://www.flickr.com/photos/sociedadetaoista/1361162427/in/photostream/
Inicialmente houve a vinda constante de sacerdotes e professores da sede central da STB no Rio, ministrando cursos e realizando os rituais, como o sacerdote brasileiro Hamilton Fonseca Filho (Fāng Érhé) e professor de estratégia daoista Newton Rezende. Contudo, já havia pessoas em São Paulo aptas a ensinarem artes daoistas. Conforme propagandas do Tao do taoísmo, destacam-se: Wagner Canalonga ensinando Yìjīng e meditação; Luciana de Carvalho Canalonga (esposa de Wagner) e Eunice Adachi ensinando tàijí quán (escola Wu Chaohiang) e qìgōng, inclusive no Parque da Aclimação; Eliete Ramos que ensinava qìgōng e liàn gōng; e Maria Lúcia Belloli como professora de fēngshuǐ da escola Oito Palácios (esta última era a diretora da escola de tàijí em que Cherng realizou as primeiras atividades em São Paulo). Interessante citar que, junto às artes daoistas, eram oferecidos cursos ligados ao meio
“holístico”, como “dança essencial”, “ginástica holística” e “massagem oriental”. Bem como, havia aulas de origami, o que mostra a influência nipônica fortemente presente em São Paulo. Paralelamente a abertura da filial, a sede central da STB no Rio continuou suas atividades, e realizou um segundo Seminário de Formação de Sacerdotes Taoístas. Assim como o primeiro, o seminário durou cerca de dois anos, começando provavelmente em 2001 e terminando com a consagração da nova turma de sacerdotes em 2003. Alguns dos sacerdotes formados nessa segunda turma eram de São Paulo, como Wagner Canalonga e Eunice Adachi. Sabemos que tiveram outras pessoas que cursaram parte do curso sem concluí-lo, como Luciana de Carvalho Canalonga e Eliete Ramos, segundo a própria a biografia resumida delas no site da STB86.
Figura 16: à esquerda, Wu Jyh Cherng entre sacerdotes na STB, Rio de Janeiro, após a ordenação em 2003; à direita, três sacerdotes formados em 2003 de frente o altar da sede no bairro Aclimação.
Fontes: http://sociedadetaoista.com.br/blog/sociedade-taoista/galeria-de-fotos/ e
https://www.facebook.com/sociedade.taoista.sp/photos/pb.486363871422169.- 2207520000.1430947608./486663371392219/?type=3&theater