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Innholdet i det samiske kulturstoffet i Nordlys i Nordlys

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5 De innholdsmessige sidene i de samiske sakene i de samiske sakene

5.3 Innholdet i det samiske kulturstoffet i Nordlys i Nordlys

Na tipologia das religiões de Cherng o Budismo também era apontado como uma tradição patriarcal – ainda que no programa da TVE de 1989 fale também que no Budismo mahayana ou da tradição do norte (asiático) é enfatizado o papel da mulher. Sabemos da própria relação pessoal de Cherng com essa religião, e do fato de ambas poderem atrair potencialmente o mesmo público alvo: brasileiros insatisfeitos com a oferta dominante e interessados em tradições asiáticas. Acreditamos que por estes dois motivos o Budismo é citado com alguma frequência nas repostas e textos de Cherng. Isso significa que a antiga competição e colaboração entre Daoismo e Budismo está presente no Brasil também: este líder tenta sempre mostrar o diferencial Daoismo frente à religião dominante, mas também ao

seu principal concorrente histórico, o Budismo. Apesar de concorrentes, normalmente ambas as tradições não apresentam atitudes agressivas entre elas, o que também se reflete em comparações mais dialogais e suaves no caso da STB.

Duas ideias originadas no que chamamos hoje de Índia, e que são conceitos importantes ao Budismo, foram explicadas de forma comparativa por Cherng: carma e reencarnação. No entanto como mostrarei agora, a comparação parece ter sido feita em relação ao Kardecismo e as várias tradições em geral que sofrem dessa influência no Brasil, como Espiritualismo e Umbanda. Sobre carma, no citado Programa Sem Censurade 2001122, ele crítica a noção de inevitabilidade da vida, dizendo que temos escolhas. Mas lembra de que existem também os carmas coletivos e individuais, e sussurra no meio da explicação que termo carma é “desgastado”. Aqui seria a expressão de descontentamento em relação a visão comum de brasileiros/as sobre o tema, indicando que ele pensa diferente, mas não diz como.

Sobre reencarnação, de forma geral Cherng procurava fornecer a visão especificamente Daoista, como está melhor registrado em um capítulo do Iniciação ao Taoísmo, volume 2 (Cherng, 2006, p. 29-32). No livro ele faz a seguinte comparação: “Ao contrário de algumas escolas espiritualistas, que quando falam em reencarnação, batem até palmas e soltam foguetes, os taoistas sustentam que a reencarnação é um caminho involuntário” (idem). Continua dizendo que a reencarnação seria a migração da alma numa viajem cíclica infinita, sendo uma prisão que devemos tentar nos libertar. Aqui, nota-se a aproximação com a visão budista, guardadas as diferenças, e o distanciamento da visão otimista de reencarnação das tradições espíritas. Apesar desse conceito de reencarnação como independente da nossa vontade, no programa da TVE de 1989 ele diz que, nesse tema, “não somos tão fatalistas”123, novamente comparando com a visão nativa de reencarnação.

Assim como alguns budistas fizeram fora da Ásia, preferindo outros termos como renascimento, Cherng preferia utilizar o termo transmigração (da alma), mesmo que continuou usando o termo reencarnação quando necessário. Em nossa pesquisa de campo em 2013 e 2014, observamos várias vezes o sacerdote Wagner Canalonga afirmar que o Daoismo acreditava sim num “retorno” ou “ciclo da vida”, mas sempre evitando o termo reencarnação. Isso significa que este tema continua até hoje a ser relevante no modo processual de comparação da transplantação do Daoismo da STB.

Da MRB já foi falado da relação comparativa com o Catolicismo e o Espiritismo. Porém, as tradições religiosas africanas são um elemento e conditio sine qua non para a

122 Cf. https://www.youtube.com/watch?v=BBE3J2H2k3U 123 Cf. https://www.youtube.com/watch?v=vh1P8e8-1OA

religião brasileira. Percebemos vários momentos em que aparecem comparações com religiões afro-brasileiras e o Daoismo. Lembrando que as tradições de raiz africanas no Brasil são bastante associadas à magia, chamadas êmicamente por brasileiros/as de feitiços ou macumbas, termo usado normalmente por quem a rejeita. No Tao do taoísmo (n. 6, 2000)124 Cherng escreveu uma “Carta Aberta” aos sacerdotes da STB. Entre os assuntos foi realizada uma comparação de tipo discriminatória, quando diz que o sacerdote daoista “não deverá jamais temer qualquer ilusionismo, como as feitiçarias. Não deverá jamais criar dentro de si inquietações ou inseguranças; não deverá temer Espíritos, entidades ou despachos de encruzilhadas”. Certamente, esse puxão de orelha existiu porque houve casos de sacerdotes “temendo entidades e despachos”, termos usados por tradições afro-brasileiras, sobretudo a Umbanda. Aqui uma faceta da postura de Cherng se revela: tal como os sacerdotes da Ortodoxia Unitária agiram historicamente (subitem 1.2.2), a atitude dele é de distinguir o Daoismo dos magos populares.

Seguindo a mesma linha, na STB o tema possessão ou transe125 continuam aparecendo e sendo comparados. Murray (2010, p. 37) relata uma conversa que houve com um sacerdote da STB no Rio. O sacerdote contou que a sua mãe era do Candomblé, e que não conseguia saber quando ocorria uma possessão, afirmando que isso era um problema para muitos médiuns. Nesse sentido o sacerdote afirmou que o Candomblé poderia ser perigoso às pessoas. Contudo, depois que ela começou a praticar o Daoismo ela adquiriu mais controle e agora somente entra em transe quando deseja.

Por outro lado, foram registrados comparações por espelhamento, sem julgamentos de valor mais significativos. Já na trajetória pessoal de Cherng, vimos que ele via correlações com rituais afro-brasileiros no lado “xamânico” do Daoismo (Cherng, 1997, p.76), e que essas religiões o atraíram inicialmente. Em uma conversa por email (C5, em 14/04/2014), um sacerdote da STB chegou a me escrever sobre semelhanças e diferenças entre tradições afro- brasileiras e o Daoismo que vale a pena ser trazida à tona:

Na verdade, a comparação com a Umbanda e o Candomblé [...] é um fato. O daoísmo é uma religião onde, diferente do judaísmo e do cristianismo, a revelação divina não terminou em um ponto do passado. Isto significa que a revelação continua a existir, inclusive nos dias de hoje. Rituais mediúnicos e de transe espiritual continuam sendo a principal maneira por meio da qual novos textos são revelados. Nós temos registros desde o início da religião que indicam que a comunicação com o mundo dos deuses ocorria por meio de práticas mediúnicas. Hoje em dia é possível ver isto acontecendo nos

124 Cf. http://sociedadetaoista.com.br/blog/sociedadetaoista/jornaltaodotaoismo/cartaaberta/

125 Possessão e transe são termos genéricos usados aqui para designar a prática em que atores sociais acreditam

altares de Taiwan e Hong Kong. Como no candomblé, os médiuns se vestem com as roupas de seus deuses e se comunicam com os devotos. Na maioria das vezes, há um tradutor que interpreta aquilo que o deus diz. [...] Uma diferença interessante em relação ao candomblé, no entanto, é que no daoísmo o maior sacrifício não é dos animais, mas sim do corpo do próprio médium, que pratica atos de autoimolação para lavar os pecados alheios [...]. O status do médium, no entanto, é complexo. Eles são considerados inferiores aos sacerdotes daoístas, que são homens letrados. Mas para muitas pessoas, a veracidade da revelação religiosa e de seu status como veículo dos deuses é fora de questão.

Como pode ser notado, um estudo acadêmico comparativo entre o Daoismo e alguma religião afro-brasileira Candomblé, Tambor de Mina, Xangô ou Umbanda seria muito interessante, e é um tema que desde os dados traz elementos diretos para a comparação. No momento, apenas pontuamos essa possibilidade, e nos atemos às comparações realizadas por atores sociais ligados à STB e ST-SP. Um ponto relevante do que já foi dito é que, ao que parece, não houve o interesse pelo diálogo com essas religiões pela STB em suas comunicações oficiais e discursos públicos. Antes o contrário: tentaram se diferenciar mostrando que não estão do mesmo lado.

Comparações de tipo dialogal foram feitas no Brasil, no sentido de hibridações, e em partes alcançam a STB e ST-SP. Em termos corporais, tenho defendido desde uma pesquisa feita na cidade de Montes Claros em Minas Gerais entre 2010 e 2012, que há uma relação entre exercícios de automassagens feitos em aulas de tàijí quán e exorcismo, que também foram observados em atores sociais de outras cidades – Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Basicamente, foi observado que a memória corporal do que brasileiramente se entende como purificação espiritual ou exorcismo é relembrada, e simbolicamente ativada, quando se faz um movimento parecido em práticas de aulas de tàijí quán. Uma das fontes desse modo brasileiro de conceber exorcismos são tradições como a Umbanda (Costa, 2012).

Como já mostrado (subtópico 2.2.1), entre as muitas formas de recepção do Yìjīng no Brasil ocorreu com um caso específico, que, no entanto, pode não ser único. Trata-se de um babalorixá de nação angola em Salvador, Mutá, que chegou inclusive a realizar comparações e hibridismos entre os trigramas do Yìjīng e divindades africanas – Orixás ou Inquices (Moore, 1999b). Um caso também específico, mas não único, de um autodenominado daoista mostrado anteriormente (subtópico 2.2.3) é interessante. Em seu livro Caminhos do Taoismo, Gilberto Antônio Silva (2014, p. 305) dedica um capítulo sobre a relação que vê entre Daoismo e Umbanda, onde compara: “Quase poderíamos dizer que o Taoísmo é uma ‘Umbanda oriental’ ou que a Umbanda é um ‘Taoismo ocidental’”, fazendo menção à

tradições daoistas que incluem a “mediunidade” ou transe. Atribui essa semelhança ao fato de que ambas as religiões tem raízes xamânicas.

Silva (2004, p. 306-308) chegou a listar comparativamente as semelhanças entre Daoismo e Umbanda: 1) nasceram de sincretismos; 2) tiveram fundadores humanos à quem foi revelado mensagem de “entidades espirituais”; 3) natureza como fonte de inspiração; 4) divindades ligadas à natureza mas também universais; 5) variações de ramos/escolas; 6) possuem mediunidade e incorporação; 7) “pontos riscados” (e talismãs); 8) defumação litúrgica e de purificação; 9) “lado obscuro” (menção ao culto à Exus e Pombas giras, e os Fantasmas famintos); 10) uso de guardiões espirituais; 11) musicalidade ritual.

Todos esses pontos comparados ressaltam o que Baumann (1994) chama de impacto da religião transplantada na cultura anfitriã, especificamente dentro do modo de comparações, uma vez que mostra a tentativa dos atores sociais anfitriãos em comparar sua cultura e a nova religião. O sacerdote Wagner Canalonga relatou a Murray (2010, p. 52) que ele percebeu ao longo dos anos mal entendidos em relação ao Daoismo, talvez por influência da matriz cristã católica no Brasil. Listou três deles: 1) algumas pessoas associam práticas daoistas com algo demoníaco; 2) cor vermelha, muito usado nos espaços daoistas, lembraria sangue de cristo; 3) as divindades parecem aterrorizantes para brasileiros. Interessante pontuar que esses mal entendidos ou reações negativas de brasileiros/as com o Daoismo se aproximam da rejeição às tradições religiosas de matriz africana por parte de alguns atores sociais no Brasil.

Em um curso de Yìjīng na ST-SP (27-28 de setembro de 2014), um dos participantes – o único negro da turma – falou que encontrou semelhança com tradições afro-brasileiras e o Daoismo. Citou o altar, que julgava parecido com do Candomblé, e que via semelhanças entre o Jogo de Búzios e o oráculo Yìjīng. O ministrante do curso ouviu pacientemente, mas negou que existiria semelhança, já que essas tradições tem “egrégoras” diferentes. Este termo também foi utilizado em um artigo sobre Guāndì na revista “Sob o Céu” de 2005 (ver subtópico 3.4.2). Uma iniciada por Cherng e consultora de fēngshuǐ foi entrevistada por Friaça (2004, p. 122), e usou o termo egrégora para dizer que cada tradição teria uma, e assim diferenciou o Daoismo da “egrégora” católica.

Interessante perceber que, logicamente, o termo egrégora não é originalmente daoista, sendo de uso próprio de tradições esotéricas europeias, com destaque para a Teosofia. Silva (2014), em sua comparação citada acima, tem a opinião contrária: “Como taoista, sinto-me completamente à vontade em uma sessão de Umbanda. Sem choques de egrégora ou cruzamento de linhas espirituais, que sabemos serem extremamente danosas”.

Ou seja, a ST-SP, bem como a STB, indicam não estar interessadas em serem comparadas à tradições afro-brasileiras. Tampouco às discriminam diretamente, cabendo no máximo uma diferenciação da noção popular de feitiçaria e magia. O intrigante é que, em expressões das duas instituições sob a fase de comando brasileiro, o argumento usado não é de fontes daoistas, mas através de um termo muito caro ao meio esotérico e da Nova Era – egrégora. Esse empréstimo cultural (Burke, 2003) é novo ao Daoismo até onde sabemos, no entanto, tem sido usado somente de maneira instrumental dentro do que foi observado.

Como um caso muito particular do Daoismo no Brasil, e possivelmente um dos primeiros no mundo, realizamos uma entrevista com um descendente de judeus que continua praticando cultural e religiosamente o Judaísmo. Quando perguntei qual era sua religião D1 (11/06/2014) se classificou como um “taoísta-judeu” ou “místico-taoísta-cabalista-judeu”. Nessa perspectiva, ele pratica e realiza pessoalmente comparações entre a Cabala do Judaísmo e o Daoismo. Em nossa conversa ouvi comparações em relação à visão de idolatria da tradição judaica e uso de imagens de divindades no Daoismo, e entre a ideia de estudo e práticas em relação a “essência” espiritual do ponto de vista cabalístico e daoista, que foi visto como tendo semelhanças no aspecto chamado de “místico”.

Além de haver comparações com outras religiões, fizeram e continuam ocorrendo comparações sobre a representação social do Daoismo no Brasil e a autorepresentação do Daoismo pela STB. Matérias jornalísticas de 1994 mostradas anteriormente (subtópico 3.2.1), que foram feitas com a autorização de Cherng, abordam temas como monges podem se casar e comer carne? Perguntas que são repetidas em vídeos já citadas em parágrafos anteriores. Isso revela que havia a curiosidade nativa sobre o que era o Cherng e seus seguidores, e estes, por sua vez, explicavam através de comparações com o que o público conhecia.

Dois artigos no Tao do taoísmo tecem críticas ao modo comum de se entender o Daoismo em livros, assinalando que sempre viam o Daoismo de um jeito simplista e reduzido. No artigo “… mas, e o resto?” (n. 9, 2001) questiona-se a falta de interesse nos “escritos ocidentais” sobre toda ampla cultura Daoista. Percebem também que a maioria dos escritos não-daoistas sobre Daoismo se limitam aos pensadores da antiguidade chinesa: “Há traduções do Tao Te Ching de Lao Tzé e a obra de Chuang Tzu começa a despertar parte da atenção que lhe cabe… mas, e o resto?”.

Em outro texto feito em por uma colaboradora e admiradora da STB, Débora Dines, chamado Revisão Histórica (n. 10, 2001), pela primeira vez no Brasil, até onde sabemos, alguém criticou a visão acadêmica que distingue o Daoismo entre filosófico e religioso. Argumentou-se que essa divisão está cada vez mais fraca – no caso de autores “ocidentais” –

e que está dando espaço a uma visão mais coesa e abrangente de Daoismo, que “mostram a interdependência entre filosofia e prática espiritual”. E conclui que o “Ocidente finalmente se rendeu a uma compreensão mais ampla e coerente” do Daoismo, citando as especialistas Livia Kohn e Isabelle Robinet, que são referências ao nosso trabalho. Uma vez que o próprio Cherng (2000) tinha uma visão parecida, mostrando que o Daoismo deve ser visto como um todo, é visível o esforço da STB por romper com a representação mais comum sobre Daoismo no Brasil, comparando sempre que pode com o que acredita ser a visão mais correta sobre sua tradição. Nesse sentido, corroboramos com a visão de Murray (2010) de que a STB e ST-SP criaram um senso de autenticidade que as legitimam interna e externamente.

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