5 De innholdsmessige sidene i de samiske sakene i de samiske sakene
5.6 Kilder til samiske saker i Nordlys
Mais especificamente em relação a fase atual da STB e ST-SP, veio à tona a apropriação de um vocabulário próprio do Esoterismo europeu. No já citado (subitem 5.3) curso de Yìjīng na ST-SP (27-28 de setembro de 2014) ocorreu uma comparação entre o Jogo de Búzios e o oráculo Yìjīng por um participante. Como vimos, tal comparação foi vista como sem sentido pelo ministrante do curso, que é iniciado e membro ativo da ST-SP. Mas o que nos importa aqui foi o seu argumento: ressalto a distinção entre as “egrégoras” diferentes desses dois tipos de oráculos. Anos antes, em um artigo sobre Guāndì na página 11 da revista “Sob o Céu” de 2005 (cf. subtópico 3.4.2), o termo aparece novamente para designar que existiria uma egrégora daoista e uma egrégora do próprio Guāndì, uma "grande Egrégora da Justiça”, já que essa divindade é um símbolo de justiça e honestidade – não somente aos daoistas, mas na cultura chinesa em geral.
O termo egrégora é próprio de ambientes esotéricos, com destaque para a Teosofia e ordem Rosa Cruz, mas também é utilizado por novaeristas131, e faz menção uma “entidade” ou grupo de “energias” formadas pela força de uma mesma ideia ou prática compartilhada. Aqui é identificada uma relação com a segunda onda daoista no Brasil (subitem 2.2), sendo uma influência da Nova Era e dos grupos esotéricos no Daoismo da STB e ST-SP. Mais do que uma influência, nota-se o uso de um termo que certamente era comum a algum dos membros dessas instituições que começou a utiliza-lo. Portanto, acomodou-se no vocabulário daoista um termo de uma oferta religiosa presente no Brasil que tem ligações históricas com a entrada do Daoismo no país, o Esoterismo europeu.
Uma questão ainda deve ser abordada nesse modo processual: a estratégia de tolerância. Para Baumann (1994), certamente a cultura anfitriã tem características que estão em desacordo com a tradição transplantada. Sabendo dessa situação, a religião pode opinar por tolera-los, até por que a ela seria uma minoria religiosa. Paradoxalmente, a nova religião vai investigar parte da sua divulgação mirando alterar as características nativas conflitantes. Bizerril (2003; 2007; 2011) tem insistido – a partir do seu caso estudado, a tradição formada por Liú – que o Daoismo tem uma corporalidade, um modo de ser corporalmente, que conflita com a versão mais comum da cultura brasileira: um ritmo mais lento e a valorização do cultivo da saúde, em contraste com o ritmo urbano acelerado e o jeito desleixado de lidar com o próprio corpo comum a quem vive nesse ritmo acelerado.
131 Cf. http://www.teosofico.com/artigo/em-sintonia-com-egr%C3%A9goras; e
Diferente do que é observado nessa outra linhagem da terceira onda daoista no Brasil, não vemos essa tendência – ao enaltecimento do contraste cultural do ethos corporificado – na STB e ST-SP. Contudo, alguns traços do modo de viver daoista encontrados nesses últimos grupos se aproximam dessa relação de tolerância e crítica à cultura anfitriã. Na observação participante houve vários momentos que mostraram um esforço destes daoistas por sair do ritmo acelerado das metrópoles que vivem. São alguns exemplos: o modo de alimentar-se baseado na medicina chinesa, a insistência nas práticas físico-energéticas e meditativas como forma de cultivo espiritual e da própria saúde, e o empenho em não se deixar entrar nas turbulências da vida em metrópoles através do uso de ferramentas divinatórias como o Yìjīng ou a astrologia. No entanto, não foi vista ou ouvida na ST-SP medidas mais “agressivas” no sentido de criticar a forma de viver dos paulistanos.
Tende-se, ao contrário, a tolerar a situação macro social, ou até a encara-la como desafio para a “verdadeira” vivência daoista. Lembro-me de uma conversa em uma confraternização de dezembro de 2014, em que um iniciado me disse que o ideal era encontrar o equilíbrio no “olho do furacão”, ou seja, em meio às instabilidades e vicissitudes da vida. Não foram poucas as vezes que notamos o gosto pela tecnologia avançada, pelo futebol, e pela vida cosmopolita em geral, ainda que o ideal do grupo sempre seja colocado como sendo atividades de cultivo espiritual e de encontrar equilíbrio pessoal.
Como foi apontado brevemente (subitem 3.3.2), observamos uma rede Daoista nacional em São Paulo – e que pode ocorrer também no Rio ou em outros grupos. Um dos motivos para ocorrer essa rede é o que identificamos como uma múltipla pertença intra- daoista. Muitos dos membros da ST-SP, tanto os mais como os menos frequentes, têm ligações com outros grupos e linhagens daoistas, em especial com o legado de Liú Bǎilíng, chegando a ter membros que também consideram como mestre o filho de Liú, Liú Zhīmíng (Liu Chih Ming, WG), seja como mestre de acupuntura, de tàijí, e até de mestre espiritual. Em uma conversa com C6 (1/11/2014), iniciada da ST-SP e praticante de Taichi Pailin com Liú Zhīmíng, ela relatou que seu mestre lhe disse que “se não é natural não é taoista”. Na mesma conversa, também apresentou uma visão interessante sobre Daoismo, definindo de duas maneiras o que é ser daoista: 1) ser feliz todo dia, 2) estar de bem com a vida. Completou que “não tem religião melhor que o Taoísmo”.
O caso de C6 mostra como o ethos do Daoismo da família Liú se hibridiza com o ethos daoista da ST-SP, já que ela teria uma opinião mais forte em relação às diferenças do modo de ser daoista e do modo de ser dos outros: o daoista é o que segue o “natural”, e não a vida artificial como a maioria faz. Porém, assim como outros membros da ST-SP, ela se
autoafirma daoista de forma bastante explícita e orgulhosa (mas tranquila), característica que destaca este grupo daoista em relação a outras linhagens, inclusive da linhagem da família Liú, que tem uma autoafirmação identitária ambígua, ou não chegam a se denominar assim, como pode ser vista pela pesquisa de Bizerril (2007).
Em outra ocasião (Costa, 2013) já mostramos que o próprio Cherng apresentava essa postura dupla da estratégia de tolerância: tolera o aspecto divergente da cultura anfitriã, mas ao mesmo tempo tenta divulgar sua oferta justamente como uma solução do suposto problema. Cherng (Lao Tse, 1998, p. 9) escreveu que “a leitura do Tao Te Ching implica um desafio: esvaziar-se e ser natural como a água que flui no vale”. Cherng convida o leitor a vivenciar uma leitura sem julgamentos prévios, e simultaneamente faz menção à carga cultural que o leitor traz consigo que poderia talvez bloquear a leitura dessa obra. Na mesma passagem da introdução da sua tradução do Dàodé jīng Cherng (idem) chega a afirmar que se o texto não parecer claro por quem o lê, deve ser pelo fato de que a sociedade atual excessivamente pensante dificulta a “ampliação da consciência”. Na mesma página escreve: “Nesse contexto, a contemplação já é em si um ato transgressor”. Destarte, trata-se de convidar o leitor ou leitora para entrar na cultura daoista, ainda que isso esteja transgredindo a sua sociedade. Aqui, transgredir uma sociedade dominada pelo excesso de racionalidade aparece numa conotação positiva, e como ele mesmo disse, o Daoismo possui ferramentas para isso (no caso, a contemplação). Num jogo de ambiguidades, num só tempo crítica e tolera uma feição da sociedade de recebimento que considera como negativa.