3 Saker med samisk hoved- hoved-fokus i Nordlys og Dags- hoved-fokus i Nordlys og Dags-
3.4 Innholdsanalyse av perioden 1970–78
3.4.7. Det eksotiserende bildet
Em termos macro, meso e micro social, metrópoles brasileiras são conhecidas pelo hibridismo cultural, além do clássico sincretismo brasileiro. Assim, sendo este o ambiente cultural do nosso estudo, se faz necessário elucidar o sentido de hibridação em nosso trabalho, servindo de ponte à teoria da transplantação e da religião brasileira.
Para o antropólogo Néstor Canclini (2006, p. XIX), podemos entender hibridação como “processos socioculturais nos quais estruturas ou práticas discretas, que existiam de forma separada, se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas”. Os encontros culturais influenciam todos que neles participam. Destarte, surgem múltiplos resultados desses contatos entre povos. Assim como este autor, optamos por hibridismo no lugar de outros termos, como sincretismo, mestiçagem, bricolagem, etc. Acreditamos que hibridação alude a grande parte destes termos, e tem a vantagem de não carregar certa conotação negativa, como, por exemplo, o termo sincretismo carrega. Importante ter em mente que hibridações acontecem tanto de forma inconsciente por encontros culturais, quanto por escolhas – muitas vezes individuais – durante uma trajetória de vida.
Uma questão interessante da teoria da hibridação em Canclini (2006) é que, em seu ponto de vista, não podemos falar de pureza cultural no sentido de unicidade e bloqueio de outras influências. As culturas sempre foram híbridas – e, entendendo religiões como expressões culturais, as religiões sempre foram hibridas também. No entanto, com a recente expansão da velocidade e eficiência de meios de transporte e comunicação, “hoje todas as culturas são de fronteira” (Canclini, 2006, p. 348). Ou seja, toda produção cultural atual, em sentido amplo, acaba por encontrar em suas fronteiras observadores provenientes de outras
100 Agradeço ao colega de mestrado Welder Marchini, que me disponibilizou gentilmente sua qualificação, sendo
culturas, e produções de outras culturas. O próprio significado simbólico dado originalmente é transformado e ressignificado com grande velocidade.
Isso se dá, sobretudo, devido aos processos de globalização/mundialização, acrescido da ênfase no poder de escolha individual. Sobre tais processos, pensando na sua forma mais recente e intensificada, pontuaremos brevemente que concordamos com a caracterização dada por Stuart Hall (2004, p. 67): “processos, atuantes numa escala global, que atravessam fronteiras nacionais, integrando e conectando comunidades e organizações em novas combinações de espaço-tempo” de forma que as experiências por todo o mundo se tornam mais interconectadas e rápidas.
Sobre a proposta de Canclini (2006), uma crítica que pode ser feita é que seu argumento entra em certo ciclo vicioso: todas as culturas se formaram de formas hibridas, são hibridas, e continuaram a se hibridar ainda mais em nossos tempos. Então para que estudar o hibridismo de alguma cultura se já sabemos a resposta? A questão é realmente problemática, entretanto, apresentamos dois argumentos que justificam uma análise baseada na noção de hibridismo cultural.
Primeiramente, a visão de que todas as formações culturais são híbridas rompe com noções essencialistas e puristas. Isso contribui para minar perspectivas normativas e preconceituosas sobre os estudos científicos sobre religiões, como a busca por religiões mais “puras” que outras, ou até noções teológicas de “revelação” que neguem influências de outras tradições. Em segundo lugar, tomando por certo que realmente a hibridação se constitui como uma constante na história das religiões, a questão não é saber se “x” religião é hibrida ou não, mas de que forma ocorreu essa hibridação, quais elementos foram combinados, descrever o processo da hibridação específica, entre outras possibilidades.
Burke (2003) contribui bastante para a visão das múltiplas possibilidades de hibridismo cultural. É importante salientar que este autor trabalha com uma noção de cultura em sentido amplo e dinâmico. O encontro entre diferentes culturas sempre acaba gerando algum tipo de impacto ou interação entre elas, sintetizadas no termo hibridação. Desta forma, quando há um contato entre diferentes povos ou grupos sociais, suas simbolizações, valores e atitudes se mesclam, gerando um movimento de hibridação recíproca em ambas – a ênfase na ação visa explicitar o caráter dinâmico e fluido das misturas culturais. Assim, se trata mais de processos e menos de resultados.
Encontros culturais ocorrem das mais diversas formas, podendo haver situações de dominação política até um casamento intercultural. Ou seja, a troca de elementos de uma cultura com outra nem sempre acontece amigavelmente, em termos equitativos, havendo
assimetrias na relação entre os povos diante dos contatos existentes. Por outro lado, também é frequente situações de trocas de modo que todos os lados ganhem de alguma forma, e até que cedem em alguns aspectos, implicando em transformações. Num esforço de sintetizar as possibilidades de interações culturais e os seus hibridismos resultantes, Burke (2003) afirma existir uma variedade de objetos, variedade de situações nas quais são realizadas, variadas reações aos encontros, e multiplicidade de resultados ou consequências das hibridações (ver o quadro abaixo).
Pensando no caso de encontros culturais derivados de uma transplantação religiosa, alguns pontos podem ser trazidos à tona. A recepção de elementos estrangeiros vai variar de acordo com a tendência de cada cultura de apropriar-se de novos costumes. Estas tendências de apropriação ou a rejeição variam também dentro de uma mesma cultura. Faz-se necessário atentar para como ocorrem as misturas através de todo tipo de intercâmbio, sobretudo os religiosos. Burke (2003, 54, 115) fala de “forças centrífugas” e “forças centrípetas”, chegando a dizer que “a história da cultura em geral pode ser vista como uma luta entre estas duas forças”.
Inspirados nos elementos descritos no parágrafo acima, propomos pensar em hibridações de tipo centrípeto e de tipo centrífuga. Um movimento centrípeto pode ser descrito como um movimento em que há forças que impulsionam para um centro. Já o centrífugo, o impulso é para fora do centro, sendo que em ambos os movimentos as forças também são circulares, aludindo a um espiral em rotação. Uma hibridação centrípeta tende a
HIBRIDISMOS CULTURAIS (Burke, 2003) Variedades de... Descrição
Objetos: artefatos como imagens ou mobílias, textos, arquiteturas, práticas corporais, música, línguas, festas, ideias, povos e sociedades inteiras, profissões;
Terminologias: a) imitação, apropriação, empréstimo (novo elemento); b) aculturação, assimilação, transculturação, transferência (imersão em nova cultura); c) acomodação, negociação, diálogo, localização (acréscimos a uma estrutura); d) mistura, sincretismo, hibridação, fusão, caldeirão cultural, mestiçagem, ecótipo (denotando intercâmbios); e) apropriação, tradução (ato de volição);
Situações: iguais/desiguais, tendências a apropriações, mercado cosmopolita, zonas de fronteiras, lutas de classes;
Reações: moda estrangeira, aceitação, rejeição, segregação ou seleção, adaptação ou ressignificação, circularidade, casos individuais como de tradutores; Resultados: resistência, diglossia cultural ou localização, homogeneização, novas
incorporar, apropriar e acomodar novos elementos em uma estrutura já existente, ressignificando a nova peça conforme a leitura referencial – do centro. Ainda que a parte neófita possa acabar influenciando a estrutura integralmente, a tendência prevalecente é de o todo englobe a parte, tendo como referencia o centro. Conforme o que foi descrito no capítulo 1, acreditamos que a tradição daoista seria um exemplo em que ocorre frequentemente esse tipo de processo, já que, segundo Robinet (1997) e outros autores, o Daoismo seria um todo coerente que tende a incorporar novos elementos à sua estrutura.
Por outro lado, uma hibridação centrífuga apresenta tendência a aceitação de novos elementos, ainda que sobre uma seleção baseada em certa afinidade eletiva, empréstimos frequentes, ainda que contraditórios, e apropriações de potenciais atrativos. Quando ocorre esse tipo de processo, novas partes são somadas continuamente a um esquema flexível, esquema que é muito mais norteador do que estruturante. Pode haver também hierarquizações, de forma que o excesso de informação deste sistema seja organizado culturalmente. Apesar de ter um centro referencial, o que importa aqui é justamente a periferia, sendo que, quanto mais para a borda, mais tangível e mais possível de ser equalizado com elementos futuramente incluídos no esquema. Esse tipo de hibridação favorece o crescimento da complexidade, mas se distancia de homogeneizações.
Observamos tal movimento na Umbanda. Essa tradição – que já se formou admitidamente hibrida de Catolicismo, religiosidade africana e indígena, Kardecismo, e esoterismo europeu (Carvalho, 1994) – parece estar sempre apto a aderir a possíveis novas práticas ou visões de mundo. Mas é na observação de altares umbandisticos em vários terreiros e centros no Brasil que nota-se materialmente essa força centrífuga: mesmo havendo um centro, normalmente com Jesus, a grande quantidade de elementos que compõe o não- centro tende a ser significativa, podendo somar todo tipo de objeto e imagem de entidades. Esse tipo de hibridação favorece o crescimento da complexidade, mas se distancia de homogeneizações, como pode ser vista pela dificuldade de tentativas de unificação das várias Umbandas, mesmo que apenas politicamente. Da mesma forma, vemos essa tendência nos movimentos Nova Era.
Pensar essas duas possibilidades nos é interessante para buscar compreender os modos específicos de como tradições brasileiras e daoistas tem interagido entre si. Ao falar de hibridações centrífugas e centrípetas não é para simplificar o debate, mas justamente para somar mais instrumentos de análises às pesquisas sobre religiões. Acreditamos, como Burke (2003) que possa haver variações entre essas forças, mas também, que elas possam ser mais ou menos marcantes em cada caso cultural.