3 BARNETS BESTE
3.2 Momenter i barnets beste-vurdering
3.2.7 Rett til utdanning
A relação entre negro e universidade é marcada por uma tensão evidenciada pelo
déficit de inserção e participação negra, sobretudo, nas universidades públicas. Essa
consideração reverbera no modo como os estudantes apreendem a relação entre negro e ensino superior e, consequentemente, nas representações sociais que são elaboradas a este respeito.
Verifiquei três formas de representar essa relação: as barreiras que se instauram entre o negro e a universidade, a proporção de negros no ensino superior e a universidade como possibilidade para o negro.
Na primeira delas, a universidade é tomada como um alvo ainda a ser alcançado pelo negro. São explicitadas as barreiras que se interpõem dificultando o acesso do
147 negro, tais como as lacunas educacionais; a necessidade de trabalhar, que faz com que muitos negros optem pela inserção no mercado de trabalho ao invés de prosseguir no ensino superior; e as dificuldades encontradas, no contexto da própria universidade, por aqueles que chegam no ensino superior.
A presença dos negros na Universidade é representada, numa relação de proporção, enquanto minoritária, apesar de se notar o acréscimo de estudantes negros, sobretudo, depois da implantação do PAA. Esta questão torna-se evidente por meio da descrição de grupos de negros na Universidade.
Eu sinto que o negro na Universidade, ele... eu vejo muitos grupos... na Universidade. Eu acho que eles ganham força na universidade. Eu vejo no colégio público uma coisa normal, assim... todo mundo conversando com todo mundo. Mas quando entra na universidade, eu vejo grupos de negros juntos assim. E me dá a impressão de que eles estão ali para... não sei... por força... eles se destacam mais assim...eu vejo... coisas que eu não via num colégio público. Grupos mesmo... de muitos negros juntos. (Estudante de Química)
É interessante perceber que essa estudante relata notar na universidade um fenômeno que não via em seu colégio público, a aglomeração de negros. Essa entrevistada relata que durante o ensino fundamental estudou numa excelente escola e que era particular. Lá não convivia com negros. No ensino médio, contudo, estudou num colégio público, onde havia muitos negros. Logo, podemos ponderar que como estudou num colégio público, a probabilidade de ver e conviver com negros era de fato, maior. Lá, os negros não eram os diferentes, de modo que ficava mais difícil perceber grupos específicos de negros. Já na universidade, o quadro é diferente. A incidência de
148 negros não é tão grande quanto era no ensino médio. Ao mesmo tempo em que a estudante afirma ter notado o aumento de negros na universidade, relata também perceber grupos de negros. Negros juntos, talvez buscando força. Diante de um quadro de receptividade distinta, distintas também tendem a ser as estratégias lançadas para lidar e, possivelmente, se adaptar às situações. Nos grupos sociais, conforme aponta Bernardino (2002), os integrantes do grupo identificam-se uns com os outros, partilhando crenças, hábitos, costumes e representações, o que se traduz no senso de pertencimento ao grupo social em questão. De modo que, o grupo funciona como referência e fortalecimento para aqueles que o integram.
Para os estudantes universitários negros, é explicitado que diante de um contexto adverso, as trocas com seus iguais, a identificação de situações e dificuldades comuns são elementos-chave e, portanto, existentes num contexto, como o que ora se descreve dentro desta universidade.
Outra forma de representar a posição do negro na universidade é a colocação da universidade como possibilidade para indivíduos negros, baseada no aumento do número de negros e das discussões acerca da necessidade da inserção dessa população no ensino superior. A própria entrada do negro na universidade contribui para a ressignificação da universidade como um espaço que também cabe ao negro e, onde o negro também cabe.
Os grupos de negros apontados nos discursos dos estudantes são representados como fruto da participação minoritária nos campi, de modo que o pertencimento racial e as similaridades de vivências os colocam como grupo social distinto dentro do contexto universitário.
(...) eu vejo grupinhos, assim, sabe? Tem um que tem negro, outro que tem brancos... outro em que os dois andam juntos. Ah... não sei. Eu
149 acho que é a identificação. Sei lá. Os mesmo gostos... talvez passem as mesmas dificuldades. (Estudante de Matemática)
A despeito da realidade desses jovens como estudantes universitários negros, um dado que se fez bastante presente foi a fala em terceira pessoa, trazendo experiências e relatos de outros e, muitas vezes, falando do negro com a ressalva do afastamento, da não-assunção de si como sujeito das relações relatadas e problematizadas. Fala-se do negro, mas na realidade fala-se do outro, do negro que é minoria, do negro que é discriminado, mas não de si próprio. O não-implicar-se na problematização beira, por vezes, o discurso da democracia racial. O sujeito tece para si próprio a crença na inexistência das disparidades raciais, sob a perspectiva de uma ilusória democracia entre brancos e negros. Emerge, então, o anseio pela invisibilidade racial, privilégio do sujeito branco, pois sendo a norma não partilha da necessidade de pensar sobre a existência de marcadores raciais, os quais foram criados, justamente, para marcar aquilo que difere dele próprio. Portanto, a defesa da inexistência dos marcadores raciais, bem como a negação de si como parte deste contexto específico de negros e negras, denunciam os efeitos da assimilação de discursos que barram a capacidade de apreensão e retorno crítico à realidade que se coloca à população negra, tais como a crença na democracia racial e o branqueamento como ideal civilizatório.
Ah... é engraçado, porque normalmente quando a gente entra na universidade ou até mesmo no colegial, tem muita gente falando sobre... sobre ser negro... Acho que não penso muito nisso. Já pensei no que as pessoas pensam... assim... no modo como elas pensam... eu nunca pensei como sendo eu mesma... (Estudante de Química).
150 No meu bairro tem maioria negra e de ensino médio público, ensino fundamental e médio público... tive grandes amigos negros, tenho grandes amigos negros, meus pais, né? Meu pai, meu avô... e eu nunca vi essa diferença em relação a mercado de trabalho. (Estudante de Ciências Biológicas)
É engraçado passar em frente a uma fábrica e ver que os uniformizados lá são os pretos. O de terno não é preto. Assim, eu olho pros meus amigos... e penso... é isso que ele quer pra vida dele? Estar num uniforme pra vida toda? É o destino dele... e da maioria dos negros. (Estudante de Ciências Biológicas).
Para aqueles que trazem a convicção do pertencimento racial negro, nota-se a autoimplicação como parte do quadro de desvantagem do negro no ensino superior. Para estes, verifica-se uma relação entre a percepção das desvantagens do negro, da assunção da própria afetação e a perspectiva de cursar o ensino superior como um projeto de contribuição a comunidades que partilhem realidades próximas às suas, como se pode verificar pelos seguintes discursos:
(...) eu estou aqui para tentar passar alguma coisa...estou errando muito e aprendendo bastante. E, eu já tentei fazer alguma coisa aqui e já estão querendo cortar as minhas asinhas: ―o que você está fazendo?‖ ―Não faz isso não, hein?‖. ―Você vai ser professor e para dar aula na universidade‖. Aí eu paro e penso que eu estou sendo treinado para dar aula aqui, não para dar aula na periferia, ou coisa do tipo. Parece que eu estou sendo treinado para dar aula, tipo... para particular. E, também estou sendo treinado para dar aula para alunos que tenham o perfil
151 bonito e não para alunos difíceis, que passam por toda aquela coisa... que chegam em casa e vêem que a mãe não tem nada para dar para eles comerem. Eu não sei lidar com alunos desse tipo ainda, porque aqui não me traz esse conhecimento. Mas eu sei... eu sei que um dia eu já estive ali sentado no lugar deles e, que o pior aluno é o melhor aluno. Porque é aquele que sempre evidencia a contradição, que sempre pergunta ―por quê?‖. Eu sei disso e eu sei também que eu tenho que tentar achar um melhor meio de mostrar isso para ele. A educação para mim, seria um dos fatores que me ajudaria a mudar um pouco esse contexto. (Estudante de Ciências Biológicas)
Como engenheiro Físico... Ah! Espero ser bem sucedido, gerar riquezas para o meu país e para a minha família. Poder auxiliar minha família, principalmente minha mãe, irmãos, avó e tios. Espero dar um futuro melhor para os meus filhos. E, eu quero ter uma instituição... acho que uma ONG que possa auxiliar crianças e adolescentes como eu. (Estudante de Engenharia Física)