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Em relação à crítica especializada desse romance, deve-se considerar que o mesmo já foi exposto a partir de diversas perspectivas. No entanto, serão abordados pontos de vista cuja atenção esteja mais centrada na proposta dessa pesquisa ou que, de alguma maneira, contribuirá para sua análise. Opta-se aqui por reunir os críticos em ordem cronológica, levando em consideração a data de publicação de seus comentários.

Sendo assim, cabe iniciar pelo ensaísta, jornalista e tradutor húngaro Mihály Dés, autor do ensaio intitulado “Juan Villoro: Paisaje del post-apocalipsis” (2005), o qual, em seu comentário, destaca que, após o boom, descontando-se o romance

rosa e o chamado grupo do Crack, quase não se detectam movimentos literários na narrativa hispano-americana atual.

Ele continua destacando que, nesse panorama variado e disperso, surge Juan Villoro, uma já bem sucedida promessa desde os primeiros passos literários, o que acabaria por se cumprir posteriormente. Villoro pertence a uma geração que está longe dos desafios literários dos anos cinquenta e sessenta, o de escrever romances de grandes conflitos sociopolíticos e, como muitos intelectuais de sua idade, prefere a cultura popular: a música rock, histórias em quadrinhos, esportes de massa, etc. Cabe ressaltar que, para Villoro, a cultura popular não é um programa, senão uma paisagem. (DÉS, 2005, p. 1)

Além da paisagem desoladora em processo de decomposição relatada por Dés (2005), nas obras de Villoro, pode-se destacar também a análise dos protagonistas dos romances e dos contos, que para ele são protagonistas- raisonneur com olhares irônicos e atônitos, exatamente como os protagonistas hamletianos. E depois de ressaltar as características dos protagonistas de diversas obras, no que se refere a El testigo, comenta “él es también Julio Valdivieso, el escéptico y nostálgico intelectual mexicano que, después de casi un cuarto de siglo, vuelve a su país en busca del tiempo perdido.” (DÉS, 2005, p. 5)

Stefano Tedeschi em seu artigo “El testigo y las monedas en la obra narrativa de Juan Villoro” (2006) centra sua análise no cenário escolhido por Villoro para todos os seus romances, ou seja, o México. Comenta que, após a década de cinquenta, tanto nas narrativas europeias e norte-americanas, quanto na literatura mexicana, desaparece a linha “rural” predominante até o momento, sendo substituída por uma preocupação com a vida urbana, em seus diferentes aspectos geracionais, políticos e de gênero.

Depois de comentar sobre a influência da crônica nos romances de Villoro, Tedeschi (2006) parte para a análise da estrutura do romance e comenta:

La estructura de El testigo es más compleja, con el personaje de Julio Valdivieso, al centro de toda la narración, que compagina tiempos diferentes con pausas de la narración que corresponden a agujeros de la memoria, oscilante entre espacios distantes. (TEDESCHI, 2006, p.8)

A complexa estrutura de El testigo relatada pelo crítico permite, não só que o passado se misture continuamente com o presente, mas que ocorra também uma difusa intertextualidade. Os espaços oscilantes mencionados por Tedeschi (2006) demonstram múltiplas tensões acumuladas nas páginas do livro, como: a incerteza da infância e da maturidade, as contradições da história e a falta de rumo para o presente, expostos entre o fascinante caos da cidade e o poder sedutor do campo.

Já o artigo “Hacia la lectura ética de El testigo de Juan Villoro” (2008) de José Ramón Ruisánchez trata da relação entre a memória pessoal e a história oficial presente no romance, analisando a memória como uma maneira de iluminar os interstícios da história.

Apoiando-se na leitura de Jacques Derrida e Emmanuel Levinas de “ficção arquívica”, Ruisánchez propõe que Los Cominos, a fazenda na qual Julio Valdivieso passou a infância e parte da adolescência, local onde estão guardados diversos documentos de época, é também o ponto de cruzamento de diferentes cartéis de tráfico de drogas, sendo o espaço de memória da obra, ou seja, o lugar da recordação ou da possibilidade de memória encontrada ali e comenta:

El deseo archívico rompe con la homogeneidad vacía del tiempo y activa encuentros, la acción presente excita virtualidades incumplidas. El sonido proviene de un espacio lleno de cosas que, al haber abandonado sus trabajos, se convierten ellas mismas en archivo. (RUISÁNCHEZ, 2008, p.6)

Nessa perspectiva, o questionamento se faz importante, pois Ruisánchez (2008) apresenta a visão cada vez menos equivocada que Julio Valdivieso tem de

seus amigos, de sua geração, de López Velarde, de si mesmo e desse país, que parece ter mudado para trás, deixando aflorar a notável decepção da experiência democrática.

Jorge A. Rodríguez Castro em seu artigo “La figura de Ramón López Velarde en El testigo”, de Juan Villoro (2009), traça um breve resumo dos gêneros abordados por Villoro e de como a sua narrativa é ácida e irônica ao mesmo tempo. Em seguida, centra-se na problemática de seu artigo, pois, desde uma perspectiva hermenêutica de Roman Ingarden, analisa o poema El retorno maléfico que percorre todo romance El testigo. Para que se possa compreender a importância de López Velarde, Rodríguez Castro (2009) segue um apanhado bastante detalhado de sua obra e da crítica especializado desse poeta nacional. Após análise da obra de Villoro e do poema de López Velarde, posto na integra nesse artigo, Rodríguez Castro encerra mostrando o reencontro de Julio Valdivieso com o presente, “Julio no regresa para reanudar algo, sino solamente para continuar el tránsito de la vida.” (RODRÍGUEZ CASTRO, 2009, p.11). Afinal, na visão de Rodríguez Castro, Valdivieso consegue se desprender do passado e reencontrar-se consigo mesmo.

O artigo intitulado “Un viaje de ida y vuelta a México: El testigo de Juan Villoro” de Alejandro Hermosilla Sánchez (2010) procurou traçar um panorama de El testigo, focando sua análise em como e de que maneira aparece o México nesse e em outros romances de Villoro. Ele leva também em consideração a importância de Ramón López Velarde e o significado da ironia nessa obra. O artigo está dividido em quatro partes, sendo que a primeira aborda o tema e o argumento da narrativa:

Villoro nos plantea un argumento que teje la metáfora kafkiana y la de Homero con la formulada en Pedro Páramo por Rulfo – […] para narrarnos una historia de supervivencia en un país mexicano plagado de panteras dispuestas a cebarse en el festín incoloro que concede una tierra desprovista de Dioses. De hecho, la búsqueda emprendida por Valdivieso en la novela por reencontrarse a sí mismo y sus raíces

originales en México, ocurre justo cuando el PRI, último bastión suplantador de las antiguas divinidades tan heroicas como trágicas de su país –Cuauhtemoc, Hernán Cortés, Benito Juárez, Porfirio Diaz, Emiliano Zapata, Pancho Villa o Venustiano Carranza- ha sido doblegado y vencido por vez primera en las elecciones democráticas celebradas en julio del año 2000. (HERMOSILLA SÁNCHEZ, 2010, p. 3, grifo do autor)

As outras três partes estão centradas respectivamente em como aparece nas obras de Villoro o México, a figura de López Velarde e uma detalhada análise a respeito da ironia nessa obra. Para Hermosilla Sánchez (2010), El testigo é uma trama na qual o protagonista é comparado a um Ulisses perdido entre ilhas, aventuras e sombrios cânticos das sereias de nossa contemporaneidade, em busca de sua Penélope perdida (Nieves) e de sua pátria que, após a derrota do PRI, encontra-se agora cercada por novos rivais, todos lutando pelas sobras dos pastos da jaula feroz na qual o país se converteu.

Certamente esse é um dos temas do romance; não o mais relevante, porém. Em algumas discretas passagens, Hermosilla Sánchez (2010) comenta sobre a testemunha e a figura do intelectual, mas considera que o tema e o argumento do romance estão centradas na complicada relação dos personagens e não na posição que ocupam na sociedade mexicana.

Outro artigo analisa El testigo a partir da perspectiva da volta à pátria como um retorno ominioso. É o caso do colombiano Gabriel Andrés Eljaiek Rodríguez em “Extrañamiento y retorno siniestro en El testigo de Juan Villoro” (2010), o qual assinala que fatores políticos, sociais e econômicos haviam desfamiliarizado o protagonista com aquilo que lhe deveria ser mais familiar: seu país, sua família e seus amigos.

Eljaiek Rodríguez (2010), apoiando-se na acepção freudiana de “ominioso”, termo utilizado para nomear algo que em algum momento foi familiar e deixou de sê- lo, analisa El testigo pela via de uma motivação de forças sinistras, do além-túmulo,

que fazem o protagonista regressar, não como um zumbi, mas como os mortos- vivos, pois sua vontade está condicionada à vontade de quem o controla. Sendo assim, a dimensão fantasmagórica adquirida pelo romance e sua influência nos personagens começam a tomar forma à medida que as razões que mediam o regresso se dissipam ou, pelo menos, se tornam menos claras. Os múltiplos fenômenos nos quais Valdivieso se vê envolvido produzem um estranhamento capaz de levá-lo ao terreno do fantasmagórico, convertendo-o em testemunha de espectros, de sombras e de sombras de sombras.

Isabel Quintana, em “La revolución mexicana y sus fantasmas: ¿cómo narrar la violencia?” (2011), propõe-se a analisar uma série de narrativas mexicanas em torno da representação da história e da identidade nacional a partir da violência. A proposta da autora procura mostrar como determinados temas relacionados a momentos complexos, como a Revolução Mexicana, a Guerra Cristera, a consolidação de uma economia neoliberal, a decadência e a crise do PRI são recorrentes nos romances desde Los de abajo (1916) até El testigo (2004).

A aproximação de Quintana a El testigo ocorre através da seguinte pergunta “por qué algunas narraciones necesitan volver a aquellos acontecimientos históricos percibidos de manera problemática”. (QUINTANA, 2011, p. 5) A autora comenta, desde uma nova perspectiva utilizada por Villoro para se aproximar a esses temas recorrentes, como a relação entre a história e a literatura se apresenta em sua narrativa. Propor essa pergunta é desarticular os modos que regem anacronicamente o universo social, político, religioso e cultural no México.

Após um apanhado de obras de Villoro, Christopher Domínguez Michael no artigo “La vitalidad histórica de los muertos mexicanos: El testigo de Juan Villoro” (2011) comenta que “El testigo es una de esas obras que dan sentido a una vida en

la literatura”. (DOMÍNGUEZ MICHAEL, 2011, p.191) E segue destacando a imagem romanesca do México nessa obra e a maneira decimonônica em forma de mosaico que:

incluye al campo y la ciudad, a los ricos y a los pobres, a los usufructuarios del poder cultural y a sus mecenas, a los escritorzuelos y a los criminales, al conflicto, en fin, de lo antiguo y de lo moderno. (DOMÍNGUEZ MICHAEL, 2011, p. 191)

Desta forma, a vitalidade dos mortos passa necessariamente por López Velarde, e, ao relatar a respeito da parte final do romance, Domínguez Michael (2011) menciona a perspicácia de Villoro ao encerrar com “ese trago amargo de la madre tierra que permite al intelectual encontrar [...] la metáfora redentora de una vieja nación cuya salvaje modernidad le duele y le repugna”. (DOMÍNGUEZ MICHAEL, 2011, p. 194)

Oswaldo Zavala em “La mirada exógena: Villoro, López Velarde y la modernidad periférica en El testigo” (2011) questiona, através de uma sofisticada leitura da nova ordem política e econômica consolidada no México nos últimos vinte anos, os alcances da ideologia neoliberal.

O perfil do protagonista do romance, o qual, como os de muitos intelectuais educados e empregados no estrangeiro, é de um sujeito dissonante com a realidade neoliberal produtora de um novo conservadorismo. Nessa perspectiva, a proposta de Zavala (2011) é abordar o olhar exógeno de Valdivieso como possibilidade de analisar a reconfiguração literária, histórica e econômica do México após a suposta abertura democrática.

Desta forma, logo após apresentar a definição de olhar exógeno, tendo por base a concepção de Jean Starobinski, Zavala (2011) demonstra que os personagens principais do romance são “testigos subyugados que desean, cada uno

por su cuenta, ser también subyugantes.” (ZAVALA, 2011, p. 230) E destaca o jogo do olhar de Julio Valdivieso, o qual, como representante intradiegético de Juan Villoro, ganha maior complexidade com as iniciais do nome J.V.

Observa-se nos artigos apresentados uma diversidade de temas, ressaltando- se que a maioria dos críticos vê nesse romance, não somente uma irônica revisão de mitos ou uma nova viagem de regresso a Ítaca, ou apenas uma condição midiática do mundo contemporâneo, mas um estimulante romance, capaz de propor, entre outros temas relevantes, uma reflexão sobre esse importante período de transição para a democracia e da reconfiguração da testemunha nesse novo-velho cenário.

CAPÍTULO 2: RAMÓN LÓPEZ VELARDE: VANGUARDA COMO NAÇÃO