4.5 Fordeler med Lidcombe-programmet
4.5.4 Bevisstgjøring hos foreldrene og barnet
Desde as primeiras páginas do romance, observa-se a abordagem da complexa questão das drogas na trajetória de diversos personagens, passando certamente por problemas de ordem histórica, política e econômica (Anexo III). Através do protagonista e de seu encontro com Vikingo, fica claro que basta um telefonema e a droga é entregue em sistema delivery. Daí em diante, esse tema torna-se cada vez mais recorrente, e Villoro não se furta, em momento algum, a discutir a pequena e a grande política. Segundo Francisco Oliveira em sua obra
Hegemonia às avessas (2010), a pequena política discute temas como: bullying, racismo, feminismo, violência, a agenda ecológica entre outros. Enquanto que no plano da grande se ocupa da revolução, do capitalismo e do Estado. (OLIVEIRA, 2010a, pp. 21-27)
Como narrar à realidade? Com essa pergunta inicia-se o artigo do crítico Rafael Lemus publicado em Letras Libres sob o título: “Balas de salva: notas sobre el narco y la narrativa mexicana” (2005), um texto polêmico, que critica a literatura mexicana nortenha, a qual, nas últimas décadas, tem feito, em suas narrativas, abordagem profunda da narcocultura, e segue afirmando que “rara vez a literatura mexicana responde.” (LEMUS, 2005, p. 1)
Esta pergunta vai ao encontro da temática desse trabalho, no qual, para Lemus (2005), a realidade deveria ser teorizada em vez de romanceada. Em sua opinião, a “narco-narrativa” é mecânica, com uma linguagem coloquial, uma trama populista e um conjunto de repetição. Em outras palavras: segue uma fórmula e, em consequência, “Raramente se funda un estilo, una escuela. Se explora un tema y se hace comercio: [...] Mírese arriba: el norte fabrica un subgénero” (LEMUS, 2005, p. 2).
Em resposta a esse artigo, o escritor e ensaísta mexicano Eduardo Antonio Parra (2005) publica uma réplica na edição seguinte: “Norte, narcotráfico e literatura” (2005), no qual considera que a realidade política e cultural mexicana faz do narcotráfico um contexto, principalmente no norte, devido a sua localização geográfica. Parra (2005) não aceita o discurso centralista proposto por Lemus (2005), para quem "toda escritura sobre el norte es sobre el narcotráfico." (LEMUS, 2005, p. 2) Segundo Parra (2005), isso não é tema, é contexto:
los escritores del norte hemos señalado que ninguno de nosotros ha abordado el narcotráfico como tema. Si éste asoma en algunas
páginas es porque se trata de una situación histórica, es decir, un contexto, no un tema, que envuelve todo el país, aunque se acentúa en ciertas regiones. No se trata, entonces, de una elección, sino de una realidad. (PARRA, 2005, p. 2)
Nesse contexto, é importante salientar que, a partir de 1990, aumentou consideravelmente a quantidade de publicações e escritores dedicados a essa modalidade narrativa. Como produto do neoliberalismo, da globalização e das políticas de repressão contra as drogas, as “narco-narrativas” muitas vezes representam a lógica de oferta e demanda de um mercado capitalista e, ao mesmo tempo, uma crítica ao incremento do consumo. Esses textos apresentam características formais similares, como a temática e a linguagem. No entanto, não constituem um gênero literário em particular, conforme ressalta Alberto Fonseca em sua tese Cuando llovió dinero en Macondo: Literatura y narcotráfico en Colombia y México (2009): “desde el punto de vista formal, las narco-narrativas utilizan una gran variedad de discursos y estrategias que impiden su definición a partir de reglas de géneros”27(FONSECA, 2009, p. 11).
A aproximação com a temática do narcotráfico aparece em diversos discursos e estratégias, como o epistolar, o testemunhal, o policial e o autobiográfico, sem se esquecer, porém, das crônicas. Esses textos estão presentes em escritores geracionalmente distantes, que vão de A. Nacaveva, autor de Diario de un narcotraficante de 1967 (considerada a primeira obra dessa temática), até Carlos Monsiváis, Elmer Mendoza, Luis Humberto Crosthwaite, Juan Villoro e Yuri Herrera, só para citar alguns mexicanos28.
27Entretanto críticos como Rafael Lemus denomina a narco-narrativa como sub-gênero; já Eduardo
Antonio Parra interroga sobre quantas narrativas são necessárias para que surja um gênero.
28 Essa temática alcança autores de diversas nacionalidades e gerações como: os argentinos: Marcos Aguinis (Los iluminados, 2000) e Diego Paszkowski (El otro Gómez, 2001); os colombianos: Hérnan Hoyos (Coca: novela de lamafiacriolla, 1977), Fernando Vallejo (La Vírgen de los sicários, 1994) e José Libardo Porras (Happy Birthday, capo, 2008); os chilenos: Ignacio González Camus (El enviado
O tema das “narco-narrativas” é introduzido no romance através do personagem Constantino Portella, que até a metade da obra ocupa um papel secundário. A partir de então, torna-se central, pois, além de ser um escritor que converte a desordem nacional em best sellers de narcoliteratura, dos quais Paola, a esposa italiana de Valdivieso, é tradutora. É, também, um megalômano, que sabe como participar da lógica do mercado e, para isso, utiliza, como autor dessa vertente da cultura de massas, sua influência para frequentar outros meios culturais entre embaixadores, magnatas e estrelas de televisão.
A figura de Portella motiva a discussão de situações importantes existentes no México contemporâneo, que envolvem o poder do narcotráfico. Ele é um Latim Lover moderno, com articulações entre os meios de comunicação, os narcotraficantes e o Estado. Portella conhece muito bem a grande literatura, discutindo, com inteligência e leveza, clássicos do cânone universal como a Divina Comédia de Dante Alighieri: “El cabrón de Portella se mostraba más culto de lo que sugerían sus libros. Al mismo tiempo conservaba su tono casual.” (VILLORO, 2004a, p. 344)
Esse personagem facilita a discussão da influência da cultura de massa através da “narcocultura”, uma realidade incrustada já há bastante tempo na população, através dos narcocorridos, como destaca Villoro no ensaio premiado “La Alfombra roja, el imperio del narcotráfico” (2008b), onde comenta que:
La narcocultura amplió su radio de influencia a través de los narcocorridos, muchas veces pagados por los propios protagonistas. En la confusión ambiente, los trovadores vinculados al crimen gozan del dudoso prestigio de lo ilegal que reclama un carisma a contrapelo y se somete a la “moral del pueblo. Sus deprimentes acordeones acompañan una saga de la rapiña que, por más que lleve alumbrado y carreteras a las comunidades que cultivan la amapola, no resiste la comparación con Robin Hood.”(VILLORO, 2008b, p. 3)
de Medellín, 1993) Roberto Bolaño (2666, 2004); os espanhóis: Fernando Schwartz (El viajero ocasional, 1989), Nuria Amat (Reina de América, 2002) entre outros. (FONSECA, pp. 277-284)
Nesse pequeno trecho, podem-se destacar dois fatos que aparecem no romance: o primeiro deles é a relação de naturalidade com que a população lida com os narcocorridos, pois não são vistos como ilegais. Afinal, é natural ouvir, cantar e consumir os narcocorridos. Outro fato que chama muito a atenção é a ação assistencialista dos narcotraficantes em seu relacionamento com a população carente. O personagem Vikingo revela essa relação para Valdivieso:
La cosa no es tan fácil. Es jodido aceptarlo, pero los narcos han ayudado a un chingo de gente, gente que no tenía el menor chance de hacer algo. Cuando no son padrinos de una boda es porque son padrinos de una comunión, dan limosnas por todas partes, préstamos, le pagan el hospital a tu madre, el entierro a tu padre, le dan trabajo a tu pinche primo vago que en su puta vida había hecho algo. (VILLORO, 2004a, pp. 223-224)
Deste modo, é possível afirmar com segurança que, substituindo textos de escritores importantes da tradição literária mexicana, a “narcoliteratura” vem ganhando espaço nos meios de comunicação de massa, principalmente no rádio, como se observa nesse trecho de um ensaio no qual Villoro comenta que:
Lo extraño es que han ganado espacio en las estaciones que transmiten música popular y aun en las antologías de literatura. En nombre de un incierto multiculturalismo, hace un par de años un grupo de escritores protestó porque dos narcocorridos fueron suprimidos de un libro de texto. En su queja pasaron por alto que esas letras no se estudiaban en una clase sobre problemas de México, sino sobre literatura, sustituyendo a Amado Nervo o Ramón López Velarde. (VILLORO, 2008b, p. 4)
Por diversas vezes, é narrada à dramática situação de violência no México atual, com assassinatos e torturas, onde as práticas políticas e a vida cotidiana parecem se encontrar determinadas por cartéis de drogas. A participação da mídia acaba por converter a todos em co-espectadores involuntários das atrocidades, como destaca Villoro (2008b), afirmando que o narcotráfico costuma golpear duas vezes: no mundo dos fatos e das notícias:
La televisión acrecienta el horror al difundir en close-up y cámara lenta crímenes con diseño “de autor”. Es posible distinguir las
“firmas” de los cárteles: unos decapitan, otros cortan la lengua, otros dejan a los muertos en el maletero del automóvil, otros los envuelven en mantas. En ciertos casos, los criminales graban sus ejecuciones y envían videos a los medios o los suben a You Tube después de someterlos a una cuidadosa posproducción. La mediósfera es el duty-free del narco, la zona donde el ultraje cometido en la realidad se convierte en un informertial del terror. (VILLORO, 2008b, p. 3)
Com a queda do PRI, os meios de comunicação ampliaram sua margem de liberdade. No entanto, isso significa muito pouco, pois dizer a verdade é progressivamente perigoso, pois o México passou a se apresentar como uma nova Fobópole29, principalmente para os jornalistas:
De acuerdo con Reporteros sin Fronteras, México ha superado a Irak en número de secuestros y asesinatos de periodistas. En este nuevo escenario, los sucesos se confunden con simulacros. Un ambiente de naufragio donde la ausencia de principios se disfraza de pragmatismo o medida de emergencia. (VILLORO, 2008b, p. 2)
Outra questão que aparece no romance com bastante evidência é a relação que o personagem Portella tem com o mercado, através de sua boa articulação nos meios de comunicação, com o Estado e os narcotraficantes, pois é presidente honorário de uma Fundação sem fins lucrativos e de uma creche com serviços gratuitos para uma população mais carente. Ele publica uma literatura de quinta categoria, ou seja, aquela que confirma uma visão estereotipada do México no exterior, extremamente folclórica, violenta e com forte presença do narcotráfico. Paola, sua tradutora para o italiano, reconhece a baixa qualidade de sua obra, porém consciente da lógica do mercado, sabe que esse tipo de produto vende muito. Em El testigo, vários outros personagens estão envolvidos com a questão do narcotráfico: Vlady Vey, que é uma espécie de reina del narco, pois tem ligações com cartéis diferentes, o que pode ter levado à morte de Vikingo; os que ocupam a 29 Toma-se esse termo de Fobópole: o medo generalizado e a militarização da questão urbana (2008) de Marcelo Lopes de Souza; é o resultado da combinação de dois elementos de composição, derivados das palavras gregas phóbos, que significa “medo”, e pólis, que significa “cidade”. Esta obra trata dos motivos da violência urbana nas grandes cidades, principalmente Rio de Janeiro e São Paulo. (SOUZA, 2008, p. 9)
posição de usuários, como Valdivieso, Ramón Centollo e Vikingo; ou a de traficante, como o gringo James Galluzo; culminando com o território de disputa dos narcotraficantes no romance: a fazenda Los Cominos.
A elite jurídica também não é poupada das críticas, uma vez que se destaca o envolvimento de um juiz com o narcotráfico, exatamente quando uma jovem é sequestrada em um vilarejo, e a empregada de Vikingo lhe pede ajuda. O juiz, para manter preso o sequestrador, o qual pertence ao narcotráfico, exige dinheiro da família: “La nieta de Carmelita [...] se la llevaron alguien que trabaja para gente organizada. Por eso el juez pidió dinero; su miedo tenía precio” (VILLORO, 2004a, p. 225).
No romance, fica claro então que qualquer pessoa pode ser envolvida em alguma confusão com os narcotraficantes, pois, nos lugares mais improváveis, eles têm atividades e influência que causam episódios de guerra.
Villoro aborda também o entroncamento do narcotráfico com os Estados Unidos e a China, através de narcotraficantes chineses, personagens de Portella, que atravessam a fronteira do país carregando drogas. A partir de uma discussão na embaixada, com jantar oferecido a Portella, percebe-se claramente no romance a discussão travada por James Petras e Henry Veltmeyer em sua obra La globalización desenmascarada (2003) (anexo III). Com relação à participação dos Estados Unidos na questão das drogas, diz o personagem Portella:
Estados Unidos es el responsable. Tienen a más negros en la cárcel por temas de drogas que en las universidades. Aquí conocemos a los narcos por nombre, apodo y vicios favoritos. Ahí están tan protegidos que operan en la sombra. (VILLORO, 2004a, p. 343)
Por que os Estados Unidos não prendem os grandes traficantes de droga que operam no país? Não se pode acreditar que somente os latino-americanos e os negros americanos sejam os chefes, ou que não haja a participação de americanos
brancos na cadeia de distribuição interna no maior consumidor de drogas do continente. Todas essas questões aparecem levantadas no romance através de diversos personagens, cobrando-se, então, uma maior participação dos intelectuais nessas questões.
Outro fato importante, tratado por José Manuel Torres em seu artigo “Las articulaciones del poder en la literatura mexicana del narcotráfico” (2009), e destacado em El testigo, é a atitude de vigilante que os Estados Unidos têm com relação ao México. Como é notório, o vizinho do norte não acredita que os mexicanos consigam controlar adequadamente o tráfico de drogas no país, originando, consequentemente, um “processo de certificação” (Anexo III). Essa situação complexa pode ser observada no trecho abaixo, onde Torres cita Fernández Menéndez:
El único gran centro del narcotráfico internacional que no es investigado, que no está sujeto a certificación alguna, es un país que consume 50% por ciento de las drogas ilegales que se producen mundialmente, que tiene 20 millones de consumidores habituales, seis millones de adictos, un país al cual el tráfico de " drogas le genera, según las cifras oficiales y más conservadoras, utilidades por 60 mil millones de dólares anuales, que no sabe , oficialmente, quienes son los jefes de esas extensas redes y que considera que dentro de sus fronteras no hay cárteles: se trata de Estados Unidos el certificador descertificado. (FERNÁNDEZ MENÉNDEZ apud TORRES, 2009, p. 3)
Novamente se interroga se é preciso ter visto ou ter vivido o horror para narrar, para ser testemunha. Deste modo, mais uma vez os intelectuais são convocados a testemunhar através de sua literatura, e mais uma vez há aqueles que acreditam que esse engajamento não é necessário, já que não é assim que se faz literatura: “La literatura es artificio, sí.” (PARRA, 2005, p.2) Essa postura, entretanto, é também uma maneira de deixar a confortável cadeira de expectador ou a posição de testemunha, passando para o debate.
Ramón Centollo (“Caranguejo”), personagem que produz uma poesia vanguardista engajada, funciona como um espectro de Valdivieso. Ele é seu colega desde a oficina literária de Orlando Barbosa no início dos anos 70, numa clara homenagem de Villoro a Miguel Donoso Pareja.
“Vaquero del Mediodía”, assim é chamado o Poeta maldito Centollo, um alcoólatra, viciado em drogas, que por falta de interlocutores deixa longas mensagens nas secretárias eletrônicas repletas de palavrões, frases líricas ou irônicas, discursos e conselhos, até acabar toda a fita, não só para os amigos, como se observa:
El Vaquero del Mediodía solía leer su poesía vanguardista o radical o tal vez sólo obscena en diversas grabadoras. El episcopado, la nunciatura vaticana, ProVida, los legionarios de Cristo, varios diputados del Partido Acción Nacional habían sido escogidos para sus recitales. El poeta, ignorado en la comunidad literaria, tenía un amplio auditorio de enemigos telefónicos. (VILLORO, 2004, p. 280)
Abaixo se transcreve um dos poemas recitados por ele na secretária eletrônica de Valdivieso, dirigido a Paola, esposa do protagonista:
«Esto va para Paola la del Ponte Vecchio, de parte de Ramón, el del Paso a Desnivel. Vivo con mis perros en un puente del Viaducto. Tengo las uñas negras y la mente de lumbre. Si no me has leído es que no has cogido. No le pidas un ejemplar a Julio porque a mí nadie me publica, o sólo me publican las grabadoras. No creo que te hable de mí; a nadie le gusta ese pasado. ¡Somos hermanos de leche! Son datos viejos, mi reina, cosas que ya no ofenden, arqueología, memoria de la especie. Un parpadeo del sol y caen diez civilizaciones. Perdóname, divago..., así me dicen a veces, el doctor Divago. No he dormido. Estuve inflando toda la noche. Antes comenzaba más temprano, fui el Vaquero del Mediodía. Te decía que el tiempo es relativo pero no mi gratitud. Tu marido estuvo a la altura del carnal chido, al menos una vez, por eso no lo dejo, mis poemas son su sombra larga, ya le dije que se cuide, pero no me pela, por eso acudo a ti, Beatriz, Laura, Diótima, Fuensanta, Inés del alma mía, luz de donde el sol la toma, culebrita panzona. El único orgullo de Julio es el olvido. No quiere ver ni recordar. Lo pusieron, lo pusieron, lo pusieron...» (VILLORO, 2004a, p. 214)
Nessa performance de Centollo, observa-se a ironia de Villoro com a exclamação “irmãos de leite” em referência a Olga Rojas, um affair de juventude de
ambos. Esse poeta decadente e fracassado, que só escreve oralmente, é consciente de que a poesia hoje deve abrir passo em meio à proliferação de discursos. Para alguém familiarizado com o cinema, a imagem do ator mexicano Miguel Inclán, como personagem de algum melodrama de Ismael Rodríguez, casa bem com a desse personagem de Villoro.
O poeta mexicano e um dos fundadores do Infrarrealismo, Mario Santiago Papasquiaro, grande amigo de Villoro desde 1973, (referência que também aparece no romance), foi fonte de inspiração para esse personagem. O autor de El testigo naquela época frequentava a oficina literária de contos de Donoso Pareja e o outro, a oficina de poesia de Juan Bañuelos. (CARO, 2010, p.68) Papasquiaro também inspirou outro personagem, o Ulisses Lima do célebre romance Los detectives Salvajes (2004) de Roberto Bolaño.
Muitas são as semelhanças entre o poeta e o personagem Centollo, como uma vida nômade, condenada ao silêncio e ao ostracismo, “un flâneur privilegiado en el laberinto del D.F.” (SILVA, 2008, p. 2) e um excelente declamador: “Ante mi incapacidad de escucharlo a las cuatro de la mañana, decidió grabar sus versos en la máquina contestadora hasta agotar el caset” (VILLORO, 1998b, p. 1), declarou Villoro nesse artigo sobre seu amigo.
Centollo surge como um sintoma de crise, um fenômeno urbano, pois, como ressalta Idelber Avelar (2003) “o flâneur é testemunha de um mundo em que as memórias individuais foram arrebatadas à tradição coletiva.” (AVELAR, 2003, p. 219), essa figura busca a realidade por meio da linguagem e explora seu poder testemunhal. Através de uma poesia vertiginosa, irônica, obsessiva, uma mistura de lamento, blasfêmia e prece, irrompe de uma só vez, em um choro mudo a dura realidade mexicana, a qual sobrevive por certo tempo.
Esse personagem complexo, rebelde, beat, um derrotado pela sociedade literária, a qual desprezava, mas que acabou aceitando, assemelha-se à figura do mulçumano mencionada por Agamben (2008) em sua obra: “Era um cadáver ambulante, um feixe de funções físicas em agonia. Devemos, por mais dolorosa que nos pareça a escolha, excluí-lo de nossa consideração”. (J. AMÉRY apud AGAMBEN, 2008, p. 49) E, como se percebe na obra, todos se afastavam dele, todos o ignoravam, mas ele lutou até o fim por um mínimo de espaço, que acabou não encontrando. Valdivieso, numa profunda reflexão sobre essa figura, comenta:
Ramón Centollo no convirtió el rechazo en un programa de trabajo, ni se alimentó de la resistencia que le oponía el entorno para superarla con un incendio que exigía ser visto. Buscaba oídos, elogios, patrocinios (que en su caso ya alcanzaban el rango de limosnas). […] pensaba que el repudio que sufría era injusto, pero no se hizo a un lado ni desapareció hacia una catacumba o al paso a desnivel que tanto mencionaba en sus mensajes. Reconoció, como nadie, la validez del sistema que lo rechazaba; con cada golpe que se daba en la frente, ratificaba la supremacía del muro. Tal vez, a fin de cuentas, no fuera sino un pésimo poeta, un vanguardista por falta de otros méritos, un asesino de la tipografía, un beat sin más gasolina que el rencor social. (VILLORO, 2004a, p. 292)
Nesse contexto, Centollo, que não conseguiu se atualizar no debate estético, vê diminuída sua credibilidade. Formou-se nos anos 70, e é remanescente do